Cultura Pop
Nico Rezende: “Sempre tive essa veia pop, mas com um pé na MPB”

É só começar a introdução de Esquece e vem, maior hit do produtor, arranjador e músico Nico Rezende como cantor, que os anos 1980 retornam: as guitarras apitando, a cama de teclados, o som da bateria eletrônica (“que eu conseguia programar de modo que não parecesse eletrônica”, lembra Nico).
E agora o som dessa época está de volta mesmo: os três álbuns de Nico Rezende pela Warner foram reeditados nas plataformas digitais. Além disso, Nico relançou Esquece e vem em versão acústica (com participação da cantora Ive) e está preparando um disco novo para o fim do ano. Hoje tem sai single novo, Pra que serve uma canção. “Acho que estou na fase talvez mais criativa da vida, estou compondo como nunca compus antes”, diz Nico Rezende ao POP FANTASMA.
POP FANTASMA: Como tá sendo revisitar o sucesso de Esquece e vem alguns anos depois de lançado?
NICO REZENDE: Foi uma ideia que surgiu, muitas pessoas comentando sobre a música, e eu decidi fazer uma coisa meio luau, com uns violões. Dar uma repaginada na música, trazer para os dias de hoje. Ela tinha uma atmosfera pop anos 1980 e fiz a regravação, que é praticamente uma releitura de violões. E chamei a Ive, uma cantora amiga que mora em Portugal para a gente fazer juntos. A coisa foi acontecendo, foi bem aceito, tá tocando bastante em rádio, o clipe tá indo bem. Tá sendo um bom resgate.
Como essa música foi feita?
Essa música surgiu numa manhã de gravação em 1986. Eu estava no estúdio com o Lulu Santos, numa sessão de gravação para o disco dele. Eu cheguei muito cedo no estúdio e, tocando piano, pintou essa melodia. Lembro que pedi pro assistente de estúdio gravar para eu não esquecer. Gravei a melodia de piano e depois apresentei para o Paulinho Lima, meu parceiro. Na verdade ele nem era meu parceiro ainda, só apresentei a melodia e fomos juntos fazendo a letra.
Nessa época você já estava com ideia de fazer carreira solo? Você já era um arranjador bem requisitado.
Eu já tinha gravado dois compactos cantando, mas não tinha essa coisa… Eu ainda morava em São Paulo, e não tinha essa coisa do mainstream. Queria gravar mas não tinha na cabeça a ideia do popstar. Isso nunca esteve muito latente na minha cabeça. Gostava de compor, de tocar e de estúdio. Eu cresci em estúdio. A coisa foi andando mais quando eu gravei o primeiro álbum, com Esquece e vem.
Eu já tocava com Lulu na época e ele me deu um superespaço nos shows dele. Sempre cantava três músicas, e os shows eram superlotados. Senti que dava pé e comecei a tomar gosto pela coisa. Ainda mais com aquela escola, de estar vendo o Lulu em todos os shows. Eu fazia backing vocal e tocava teclado. Via o Lulu fazendo aquela performance maravilhosa que ele sempre fazia.
Antes disso já tinha visto um outro grande showman que era o Ritchie, sempre no palco performando, cantando. Aquilo tudo foi me acendendo essa chama e esse conhecimento a partir desse contato com eles.
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Como você começou na música? Antes do Lulu teve o Ritchie, o Kiko Zambianchi… Você fez os arranjos do primeiro disco do Kiko, não?
Isso, fiz o arranjo, a gente produziu juntos na EMI, aqui no Rio. Comecei na música muito cedo, tocava em conjunto de baile. Eu fui muito curioso, tocava um pouco de tudo. Desde os 8 anos de idade já fazia violão clássico. Mas eu era curioso por teclados e tal. Eu fui crooner de baile de Carnaval, tinha um conjunto de Beatles que eu tocava contrabaixo, era o Paul McCartney do grupo, só tocava músicas do Paul.
Isso em São Paulo, certo? Você é paulista?
Sim, paulistano.
Mas você tem o maior sotaque carioca!
Eu já tô há trinta e tantos anos no Rio! Mas eu falo “paulista” perfeito também, se eu forçar eu consigo fazer. Mas a coisa foi andando assim, trabalhei em vários estúdios, fui assistente de estúdio, o cara que plugava os cabos. Isso foi me dando uma noção de estilos, sempre gostei muito de balada. Essa coisa da MPB pop, sempre tive essa veia pop, mas com um pé na MPB, sempre pronunciado, porque cresci ouvindo bossa nova. Adorava bossa nova, jazz, mas cresci ouvindo rock progressivo também.
Então minha formação tem essa mistura de coisas. Minha bagagem musical é essa, são coisas que eu escutava com meu pai, o que ele escutava e o que meus irmãos mais velhos escutavam. Ele não gostava muito de Roberto Carlos e eu adorava, tinha compactos dele, que eu ganhava. Lembro que o carrinho ia passando na rua e ia distribuindo compactos do Roberto Carlos…
Sério? Lá em São Paulo?
Acontecia isso, era uma kombi que distribuía os compactos de plástico. Era um patrocínio da Colgate! Era um disquinho colorido, promocional, lançamento da música. E foi assim que eu conheci a obra do Roberto, as primeiras músicas. Sempre gostei muito das baladas, gostava muito do Elton John, do Paul McCartney, do Stevie Wonder. Enfim, foram coisas que me influenciaram bastante. Acho que minha música tem um pouco de tudo isso. Consigo enxergar um pouco de Beatles na minha música, um pouco da harmonização mais Motown… Acho que a gente é produto do meio, a gente é o que a gente ouve.
E depois vieram Ritchie, Lulu. Você veio pro Rio imediatamente? Como foi isso?
Vim para fazer um teste na banda do Ritchie, para fazer a excursão Menina veneno. Éramos eu, Torcuato Mariano, Nilo Romero, todo mundo começando ali, né? Torcuato hoje é diretorzão da Globo, The Voice, guitarrista superconceituado. Eu tinha um tecladinho só, nem tinha nada. As coisas foram acontecendo, com Ritchie eu comprei mais um teclado, mais dois, mais três. E aí a coisa foi andando, comecei a ser chamado para fazer muito arranjo no Rio, Marina Lima me chamou… Gravei com todo mundo que você puder imaginar daquela época.
O Ritchie eu imagino que dava ter sido um susto porque foi aquela chegada brava no mainstream. Os shows dele eram muito lotados, né?
Foi realmente um susto, porque aquilo parecia Beatles. Em todos os lugares nos quais a gente ia – principalmente no Nordeste – os quarteirões das ruas dos hotéis tinham filas que davam voltas, formavam anéis. Era gente que queria pegar autógrafo dele. Nunca vi uma coisa assim. As pessoas passavam desmaiadas na frente do palco, era muita loucura.
O Ritchie comentou uma vez que as meninas desmaiavam de propósito porque achavam que seriam levadas para o camarim…
Era isso mesmo! Fingiam que desmaiavam para serem levadas para um lugar mais tranquilo. Acontecia. Aliás acontecia de tudo, até eu ir dormir e achar fã dentro do armário.
Como apareceu a Warner na sua vida?
Eu já tinha umas músicas estouradas nas vozes de outros artistas, Perigo com Zizi Possi, Transas na voz do Ritchie. Eu comecei a fazer meu primeiro disco e as gravadoras abriram o olho. O Liminha era diretor artístico da Warner, ouviu meu trabalho, gostou. Ele estava fazendo a trilha de uma novela, colocou o Esquece e vem na novela (O Outro, de 1986). Assim apareceu a Warner. Liminha tinha – ainda tem – um estúdio junto com o Gilberto Gil, que é o Nas Nuvens, e gravei dois desses três discos lá. A Warner me contratou e no primeiro disco já fui uma grande revelação. Eu era o que mais vendia na época (rindo).
Você ia muito no Chacrinha, lembro disso.
Ia lá, no Globo de Ouro, Fantástico eu fiz duas vezes. Aconteceu bastante coisa legal.
Você acredita que imprimiu uma marca no trabalho como arranjador e produtor? Tinha uma coisa bem característica do seu som que eram aqueles teclados na introdução… Como em Rolam as pedras, do Kiko Zambianchi…
Sim, esse arranjo é meu. Não sei, acho que tudo aconteceu meio por acaso. Eu tinha um teclado da Roland que todo mundo quando me via tocando nele, queria comprar. Eu fazia tudo com ele, era um teclado que tinha um sequenciador, eu programava tudo muito bem nele. Fui uma das primeiras pessoas a conseguir programar bateria eletrônica direito, que não parecesse eletrônica. Eu tinha essa coisa de estúdio, tirava até linhas de baixo. Tirei a linha de baixo de Casa, do Lulu Santos.
Eu achei uma sonoridade logo no primeiro disco, que era a seguinte: eu gostava muito de baixo fretless (sem traste, como o usado em Everytime you go away, de Paul Young) e umas guitarras bem espaciais, bem cinematográficas. O Torcuato era um cara perfeito para isso, ele tem uma timbragem de guitarra incrível. Eu procurava manter essas pessoas em tudo o que eu fazia. Chamava o Torcuato, o Arthur Maia no baixo, Leo Gandelman no sax – a gente fazia os solos de sax com uma pegada nada jazzística e muito pop, eram melodias, não solos. Aí é o famoso “diga-me com quem andas”.
Isso que tá acontecendo hoje com a música, de ela se tornar mais modal, com poucas variações na harmonia – você começar a caminhar harmonicamente sem mexer em muitas notas – acho que eu já fazia desde aquele tempo. Enxergo minha música assim, dessa coisa que enxerguei, da surpresa que o pop empreende no arranjo. Enxerguei isso naquela época e isso criou uma marca na minha música.
Você falou isso do baixo fretless, das guitarras espaciais, e lembrei direto do arranjo de Transas…
Isso, isso, tinha o Torcuato… Uma coisa meio cinema, de criar texturas sonoras, não tentar tocar a música, criar texturas. Imagens sonoras, sabe? Isso fica claro, quando entra o Esquece e vem, e vem a guitarra (imita o som) e as cordas vêm entrando devagarzinho. Aquilo já cria uma atmosfera. Eu me lembro do Liminha escutando isso e falando: “Pô, cara, isso parece cinema”. Falei que a ideia era essa mesmo, criar uma atmosfera cinematográfica para a música. Apostei nesse idioma e criei essa marca, acho que consegui.
E depois da Warner?
Estou no décimo disco. Em 1991 gravei o Tudo ficou para trás, foi numa gravadora chamada Esfinge, que logo quebrou. Até teve música em novela, Além da sedução (de Lua cheia de amor). Em 1995 gravei o Tapete azul, que também teve música em novela, Sempre a mesma história, da novela Quem é você? Em 2002 gravei o Curta a vida, foi um disco que eu gravei pela Som Livre. Tem várias inéditas e umas regravações.
Em 2007 eu fiz aquele que talvez seja meu melhor trabalho, o Paraíso invisível. É um disco que eu me preparei três anos para fazer, totalmente acústico, não tem teclados, todas as partes de camas de teclados são feitas por naipes de sopros. Mas um naipe nada usual. Eu fazia as camas com flugelhorn, flauta em sol e trombone. Em 2012 foi o Piano e voz, releitura de piano e voz das minhas cações mais relevantes. Dei uma pausa e comecei a tocar jazz em outro projeto. Gravei um DVD e CD tocando Chet Baker.
E agora venho lançando singles e no final do ano vou lançar meu décimo disco, que é o Vida que segue. Vai ter a releitura do Esquece e vem, um single que a gente vai fazer agora que é o Pra que serve uma canção. E outras inéditas, tem um feat com a Roberta Campos que tá pronto também. Fiz algumas pausas (rindo), até longas demais pro meu gosto. Mas a vida é isso mesmo. Mas acho que estou na fase talvez mais criativa da vida, estou compondo como nunca compus antes. Eu ligo o rádio e fico tão desanimado que me deu vontade de voltar (rindo). Brincadeira, tem coisas legais, mas a gente ouve umas coisas e “opa”.
E como tem sido o isolamento?
Dedicado ao estúdio: tenho trabalhado, composto, feito lives. Dei um tempinho, mas ano passado fiz 28 lives. Tenho composto bastante, produzido outras pessoas. Meu estúdio é perto da minha casa. Agora mesmo já estou trabalhando numa canção nova. Fiquei revendo HDs antigos também, coisas que estavam meio esquecidas e repaginei. Dei uma limpada no guarda-roupa.
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Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































