Criado em 1969 e fabricado em larga escala nos anos 1970 e 1980, o sintetizador Oberheim pode ser ouvido no Brasil em discos de MPB que traziam Lincoln Olivetti (1954-2015) como arranjador – a última vez que li o termo num encarte de disco foi em “Várias variáveis”, um álbum dos Engenheiros do Hawaii lançado em 1991. E ele é o instrumento-base de um lançamento, digamos, bem sui generis do ano passado. Americano de Los Angeles, e descendente de portorriquenhos, o músico Gabriel Reyes-Whittaker adotou o codinome Frankie Reyes e soltou “Boleros, valses y mas” (Stones Throw), um disco de releituras de baladas hispânicas e valsas lançadas originalmente entre os anos 1930 e 1960.

Ficou curioso? Bom, muitas músicas que rodavam na vitrola (eu escrevi isso?) do seu avô ou bisavô reaparecem lá. “Noche de ronda”, gravada por um dos reis do bolero, o mexicano Agustín Lara (1900-1970), está na lista de músicas. “La flor de la canela”, bolero que já esteve nos repertórios de Placido Domingo e Caetano Veloso, também. Já a releitura de Reyes para “La comparsa”, canção do compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963), hipsterizou: foi descoberta pelo podcast Reverberation Radio, que seleciona raridades e obscuridades semanalmente, e é feito pela turma da banda californiana Allah-Las.

Criador do selo-produtora-de-um-homem-só Gifted And Blessed, Reyes lança vários projetos com codinomes como GB, Julian Abelar, The Abstract Eye, The Reflektor, Poly, Somos. O jornal LA Weekly definiu “Boleros, valsas y mas” como “paisagens de nuvens minimalistas, que existem em algum lugar entre os níveis submarinos do Super-Mario e música de caminhão de vender sorvete”. O disco nem foi feito originalmente para ser publicado. O DJ Peanut Butter Wolf, chefe do selo Stones Throw, é que se apaixonou pelo álbum assim que o ouviu e fez questão de lançá-lo. Durante as gravações, Reyes ainda emendou o trabalho com shows num festival em Cuba.

“Realmente curto ver que muito da cultura cubana ainda está intacto e isolado. O lugar é muito isolado do mundo, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Eles não têm muito acesso ao mundo ou à cultura global, ou a coisas do tipo. E de maneira similar, o mundo não tem muito acesso ao que acontece por lá”, afirmou ao “LA Weekly”.