Cultura Pop
Várias coisas que você já sabia sobre L. A. Woman, dos Doors

Jerry Hopkins e Danny Sugerman, biógrafos de Jim Morrison, afirmam no livro Daqui ninguém sai vivo que a capa de L.A. woman (1971), último disco dos Doors com o vocalista, era uma vingança pessoal. Morrison teria detestado a maneira como a gravadora da banda, Elektra, o retratara nas capas dos dois lançamentos mais recentes dos Doors, a coletânea 13 e o duplo ao vivo Absolutely live (ambos de 1970). Ficou irritado ao se ver belíssimo nas fotos e percebeu que a gravadora preferia explorar a imagem do Jim padrãozinho dos primeiros anos. Ainda que o cantor cultivasse uma cerrada barba desde 1969. E que, após as várias encrencas com a polícia que havia tido nos últimos dois anos, tivesse resolvido dar adeus à imagem de “sonho americano” do começo da carreira.

A foto de capa de L.A. woman trazia Jim mais gordo, barbudo e irreconhecível para quem não fosse fã de verdade da banda. Na imagem, o cantor destacava-se até bem menos que o baterista John Densmore, o tecladista Ray Manzarek e o guitarrista Robbie Krieger. Isso expunha bem o tipo de fantasma que rondava a mente do cantor naquele período. Desde o incidente em março de 1969 no Dinner Key Auditorium, em Miami – quando subiu embriagado ao palco e foi acusado de “exposição indecente, blasfêmia e embriaguez em público” – Morrison estava cansado da vida de estrela pop.
Os Doors passaram a ter shows desmarcados, a gravadora começou a pressionar a banda (que passou a trabalhar num disco até bem pop para os padrões do quarteto, The soft parade, de 1969). E enfim Morrison, que nunca tinha sido exatamente uma presença estável nos palcos da vida, começou a dar sinais evidentes de que o abuso de drogas e álcool começava a lhe causar muitos problemas.
DE VOLTA PRA CASA
L.A. woman chegou às lojas em 19 de abril de 1971 como o “verdadeiro retorno dos Doors às raízes blues-rock”. Aliás, teve tais características bem mais exaltadas do que o anterior disco de estúdio do grupo, Morrison Hotel (1970), que já era bem blueseiro. Mas apesar do clima meio bizarro em torno da banda, foi um disco de elaboração tranquila e a banda curtiu bastante o trabalho em estúdio.
O disco novo dos Doors era cheio de influências da psicodelia, mas já apontava para uma sonoridade bastante herdada do soul, em vários momentos. John Densmore definiu L.A Woman como uma “volta pra casa” e a “essência de tudo o que formou os Doors”. Robbie Krieger disse que a magia do álbum vem do fato de “parecer que estávamos tocando só por prazer”. Na verdade, nem parecia que, logo que terminassem as gravações, Morrison se mandaria para Paris e tudo mudaria na história do trio restante dos Doors – que ainda gravaria mais dois LPs sem o vocalista e sem a magia inicial.
E tá aí nosso relatório sobre L.A. woman, que completa 50 anos em 2021. Leia ouvindo, ou ouça lendo.
1969
O ANO QUE os Stooges classificavam como “mais um ano sem nada pra fazer” (no clássico 1969) foi um ano cheio de trabalho e problemas para Jim Morrison e os Doors. A começar porque o julgamento do “caso Miami” foi sendo adiado. Consequentemente, as oportunidades de trabalho foram escasseando para a banda. Um pool de casas de shows nos EUA se reuniu e baniu os Doors de seus palcos. The soft parade, mesmo assim, foi lançado com uma turnê que varou os EUA e foi parar na Cidade do México.
A POSSIBILIDADE DE tocar num país ainda pouco desbravado por astros do rock (e vá lá, as oportunidades perdidas nos EUA) acabou animando os Doors a tocar quatro datas na capital mexicana, entre 28 de junho e 1º de julho de 1969. Os shows foram inicialmente marcados para a Plaza de Toros, onde cabiam 40 mil pessoas. Mas acabaram transferidos para um clube chique com lotação de mil cabeças, o The Forum. Tudo por ordem do ditatorial presidente Gustavo Díaz Ordaz. O grupo foi avisado da mudança em cima da hora e exigiu fazer um show no prestigioso Auditório Nacional (e não foram atendidos). Os ingressos do The Forum custavam a fortuna de 700 pesos e incluíam um jantar. A banda foi assistida por um público formado em sua maior parte pelos frequentadores abonados do local, não por hippies e roqueiros mexicanos.
ALIÁS E A PROPÓSITO, a Elektra chegou a pensar em lançar um disco ao vivo dessa turnê, mas a banda preferiu soltar Morrison Hotel (1970) antes.
MAS O QUE FOI O TAL CASO MIAMI?
ANTES DE entender aquela noite, é preciso entender que Morrison havia nascido ali pertinho de Miami, em Melbourne, também na Flórida. Isso já diz muito sobre o que se passava na cabeça do cantor naquele dia. Embora ele, como filho de militar (o futuro contra-almirante da marinha americana George Stephen Morrison) tenha mudado de cidade bastante na infância.
MORRISON tivera contato com as experimentações da companhia Living Theatre, de Julian Beck e Judith Molina. E ficara com a ideia de aplicar as mesmas técnicas de “envolvimento com a plateia”, exortando o público e até mesmo ofendendo os pagantes. Aliás, já havia feito isso num show em Los Angeles e pessoas reagiram soltando fogos de artifício perto dele, com a finalidade de atingi-lo.
NAQUELA NOITE DE 1º de março de 1969, quando se apresentava no Dinner Key Auditorium, em Miami, avisou à plateia que “não sei se vocês sabem, eu nasci aqui perto, em Melbourne, em 1943”. Até que “fiquei esperto e me mudei para Los Angeles”. Foi a deixa para Morrison brindar o público com frases como “vocês são um bando de idiotas que deixam que que lhes digam o que fazer” e encerrar com um “e se eu mostrar meu pau? É o que vocês querem?”. O cantor também incentivou fãs a tirarem suas roupas (o que de fato aconteceu). Foi preso na hora.
MOSTROU OU NÃO? Todos os integrantes dos Doors negam que Jim tenha mostrado o pênis para a plateia. Manzarek sempre considerou a história um “delírio coletivo”. No julgamento, Jim foi condenado a seis meses de prisão. Morrison permaneceu em liberdade, aguardando um recurso de sua condenação, mas morreu antes que o assunto fosse legalmente resolvido. Muitos anos depois disso, em 8 de dezembro de 2010 (quando Jim completaria 67 anos), o Conselho de Clemência da Flórida e o governador do estado na época, o republicano Charlie Crist, assinaram o perdão do cantor dos Doors, a pedido de um grupo de fãs que fizera um abaixo-assinado.
POESIA, CASAMENTO, ETC
EM MEIO ÀS TURNÊS dos Doors naquela época, Jim Morrison passou a se dedicar a escrever livros de poesia (An american prayer saiu em edição limitada em 1970). Aliás, ele até iniciou um roteiro de filme (que quase foi parar nas mãos da MGM) baseado no livro The adept, do poeta beat Michael McClure. A vida foi atropelando os planos e não só o roteiro nunca foi concluído como o livro de McClure igualmente nunca foi lançado.
NOS TEMPOS DE FAMA, o galinha Jim teve dois relacionamentos mais duradouros e conhecidos. Um deles foi com Pamela Courson, com quem ele mantinha um affair vai-e-volta desde antes da fama dos Doors – era com ela que ele estava, você deve saber, quando morreu em Paris. O outro foi com a jornalista de música Patricia Kennealy, editora da revista Jazz & pop, com quem se relacionava desde 1968 e com quem resolvera se casar em 24 de junho de 1970. Interessadíssimo em rituais e em xamanismo, Jim topou unir-se a Pamela numa cerimônia pagã, ligada a uma religião celta que ela seguia.
CIUMEEEENTO. Apesar de não ser exatamente o protótipo do homem fiel e do casamento ter durado apenas um ano e alguns meses, Jim dava trabalho a Patricia com suas demonstrações de ciúme, como ela chegou a contar no livro Rock wives, de Victoria Balfour. O cantor chegava a abrir os armários da jornalista em busca de roupas do “outro”. Patricia garante em seu livro de memórias Light our fire: My wedding to Jim Morrison que Jim considerava seu relacionamento com Pamela algo “meio vergonhoso, meio viciante”. E que a viagem a Paris que ele fez para encontrar a garota (e durante a qual, morreria) tinha o objetivo de colocar um fim no relacionamento.
1970, 1971
OS DOIS PRIMEIROS ANOS da década de 1970 (no POP FANTASMA a gente encerra as décadas no ano terminado com “9” e ponto final) não eram uma das épocas mais tranquilas dos últimos tempos. Tinha Guerra do Vietnã, conflitos raciais, repressão por todos os lados, manifestações de estudantes reprimidas a bala, artistas morrendo de overdose. Ex-integrantes dos Doors comentam que o caos da época se refletiu bastante na música do grupo, com Jim falando em “nesta casa nós nascemos/neste mundo fomos jogados” (em Riders on the storm). O cantor também apostava no “ligue-se, sintonize, caia fora” em boa parte de seu novo material, mesmo numa época em que a esperança hippie havia sido substituída pelo cinismo.
AS PARADAS DE SUCESSO EM 1971 eram dominadas por uma mescla de pop, rock, country e soul, com vários artistas novos e carreiras dos anos 1960 reposicionadas. Quem quisesse ficar ligado nas novidades do rock, tinha que ficar de olho no rock pesado (Led Zeppelin, Black Sabbath), no glam rock (Electric warrior, do T. Rex, era uma sensação na Inglaterra) ou, numa escala menor, no hard rock meio tosco de bandas como Stooges e MC5 (que depois passou a ser chamado de pré-punk). Qualquer artista corria o risco de soar nostálgico e ultrapassado o mais rápido possível, numa década em que tudo mudava rapidamente e vertiginosamente.
APERTA O PLAY
COMEÇOU! L.A. woman começou a ser gravado em dezembro de 1970 num momento de relativa calma na vida de Jim, quando a situação legal do cantor em relação ao “caso Miami” foi definida. Morrison havia sido condenado a seis meses de prisão, mas teve a fiança paga e foi liberado. O grupo entrou no estúdio Sunset Sound, na Califórnia, para fazer as primeiras versões de Riders on the storm, L.A. woman e Love her madly., inicialmente ao lado do produtor Paul A. Rothchild, que cuidara dos discos anteriores.
DEU MERDA. Paul já vinha se estressando com as mudanças sonoras dos Doors havia anos, mas começou a ficar particularmente puto da vida com a banda na época de L. A. woman – especialmente quando ouviu os teclados de Riders on the storm, classificada por ele como “música de elevador”. Acabou se afastando e deixou o trabalho todo nas mãos da banda e do técnico de som, Bruce Botnick.
ROTHCHILD se recorda de que Jim parecia entediado e desanimado durante os primeiros ensaios do disco, o que acabou fazendo com que ele próprio se cansasse do trabalho. Testemunhas dizem que não só ele, mas várias pessoas acharam o material de L.A. woman ruim. Até porque numa reunião no Sunset Sound, a banda mostrou as músicas ainda rascunhadas e tocou mal (o próprio Manzarek admite a mancada). O som que todo mundo ouve no disco foi tomando forma bem depois.
EM CASA
BRUCE BOTNICK sugeriu que a banda aproveitasse seu próprio local de ensaios para gravar. O Doors’ Workshop, como era chamado, ocupava um prédio de dois andares no endereço 8512 Santa Monica Boulevard. Jim Morrison gravou boa parte dos vocais num microfone armado na porta do banheiro. O grupo arrumou novos equipamentos e a Elektra instalou lá uma mesa de mixagem. The changeling, declaração de princípios de Morrison – e a faixa mais dançante do álbum – foi a primeira a ser gravada e acabou sendo escolhida para abrir o disco.
ALIÁS E A PROPÓSITO, versos de The changeling como “eu tive dinheiro/e não tive nenhum/mas nunca fui tão duro que não pude deixar a cidade” são interpretados por amigos de Jim como um aviso de que o cantor deixaria a banda e migraria, para Paris ou qualquer outro lugar.
RAY MANZAREK comenta que, apesar de L.A. woman falar bastante da vida em Los Angeles, a banda não tivera a ideia de fazer um disco conceitual. “Mas depois que começamos a trabalhar nas músicas, percebemos que elas estão falando sobre Los Angeles. Elas são sobre homens, mulheres, meninos, meninas, amor, perda, amantes perdidos e amantes encontrados por lá”, comentou.
COVER
DO REPERTÓRIO DE L.A. woman constava Crawling king snake, blues de John Lee Hooker que já vinha sendo tocado informalmente pela banda havia anos. Como L.A. woman era basicamente um disco voltado ao blues, a banda resolveu gravá-la. Naquela época, Hooker, um artista de blues que tinha gravado seus primeiros discos nos anos 1940, tinha sido redescoberto e voltara às paradas com discos como Hooker’n heat (gravado ao lado da banda Canned Heat) e Endless boogie, ambos de 1971.
COMO JIM já era conhecido como “Rei Lagarto” (por causa do improviso Celebration of the lizard, incluído em shows da banda e no disco Absolutely live, de 1970), o nome “king snake” caía como uma luva na mitologia associada a ele e aos Doors. O próprio Hooker voltaria a revisitar a faixa em shows e discos.
JUNTOS MAS SEPARADOS
BOA PARTE do material dos Doors era creditado aos quatro integrantes, mas nem sempre as músicas eram compostas em grupo. Quase sempre as músicas eram iniciadas por Krieger e Morrison e terminadas em quarteto. Love her madly, o primeiro single de L.A. woman, era uma canção de Robbie inspirada pelo jazzista Duke Ellington (que falava “amo vocês loucamente!” para a plateia) e que foi terminada pelos outros três. Manzarek também compunha, mas era na maior parte do tempo responsável por criar riffs e comandar arranjos. O discreto Densmore dava pegada jazzística ao repertório.
JAC HOLZMAN, chefe do selo Elektra, escolheu essa canção para primeiro single do disco assim que a escutou. Um integrante dos Doors não ficou nem um pouco contente com isso: o próprio Krieger, que considerava sua própria música apelativa e comercial demais.
CONVIDADOS. Com a ideia de fazer um som que pudesse ser reproduzido ao vivo sem traumas, Botnick chamou um guitarrista de estúdio (Marc Benno, que trabalhara com nomes como Leon Russel) e um baixista (Jerry Scheff, integrante da TCB Band de Elvis Presley). Jim era visto andando pelo estúdio feliz da vida, já que iria tocar com o baixista do rei do rock. É o instrumento dele que pode ser ouvido em Riders on the storm e L.A. woman.
COMO RESULTADO da volta às raízes, pela primeira vez em bastante tempo um disco dos Doors chegava às mãos da crítica e não era destroçado. Na Rolling Stone, Robert Meltzer chegou a classificá-lo como “disco do ano”. Até hoje, muita gente considera esse disco o melhor dos Doors.
A FAIXA-TÍTULO
A LETRA DE L.A. woman é definida por testemunhas como “um filme noir sobre Los Angeles” – enfim, uma música sombria composta para uma cidade ensolarada. O “city of night” da letra faz referência ao romance LGBT City of night, de John Rechy. Manzarek acredita que a letra tem muito de autores como Raymond Chandler, Nathanael West e romancistas dos anos 1930 e 1940.
BOA PARTE da letra é pura sacanagem, com Jim despedindo-se das garotas de Los Angeles (para, talvez, começar nova vida em Paris) e gritando “Mr. Mojo Risin” (um anagrama com seu próprio nome) como referência ao “mojo” do universo do blues. O lado digamos, literário de Jim aparecia em outra faixa, The WASP (Texas Radio and the Big Beat), um longo poema musicado pela banda. Been down so long teve seu nome tirado de um livro do cantor folk (e cunhado de Joan Baez) Richard Fariña, Been down so long it looks like up to me. Em 1971, o livro de Fariña viru filme, dirigido por Jeffrey Young.
RAY MANZAREK confessou que roubou parte dos riffs de teclado de House in the country, música do Blood, Sweat and Tears, para incluir em L.A. woman. Por outro lado, a melodia de Riders on the storm surgiu de Ghost riders in the sky, tema country gravado por uma multidão de gente (incluindo Johnny Cash e Elvis Presley). Krieger mexeu no riff e Manzarek tratou de tornar a música mais sombria.
ISSO É O FIM
APÓS GRAVAR TODOS OS VOCAIS, Jim reuniu os amigos e avisou que iria para Paris encontrar Pamela. “O quê? Mas a gente nem mixou o disco, falta fazer um monte de coisas”, teriam respondido todos. Em vão: Jim considerou sua parte terminada e começpu a se preparar para a viagem antes que as sessões de L.A. woman encerrassem. Os outros Doors lhe desejaram boa sorte. Mas qualquer pessoa próxima sabia que a banda não poderia mais contar com ele. “Não achei que algum dia ele voltaria”, disse Jac Holzman.
POLIAMOR PIRADÃO. Nos últimos dias em Los Angeles, Jim – apesar de ainda casado com Patricia e prestes a retomar o relacionamento com Pamela – caiu na farra em todos os clubes da cidade e procurou várias ex-namoradas. A esposa chegou a flagrar Jim com uma de suas amantes e Patricia conta em Daqui ninguém sai vivo que nessa ocasião, o cantor procurou todo tipo de material cortante em casa e propôs às duas que o cortassem. “Uma de vocês fica com meu p (*) e a outra com meu corpo. A alma, eu mesmo fico com ela, se não se importam”, disse. “Quando ele pegou no sono, já achei que estava morto e que nunca mais o veria outra vez”, contou Patricia.
PARIS
PIRAÇÃO. Em 11 de março de 1971, Jim chegou em Paris e reencontrou Pamela. As poucas testemunhas do relacionamento na capital francesa dizem que se tratava de um relacionamento bastante aberto e excêntrico. Jim e Pamela ficaram na casa de um casal de amigos da garota por algum tempo antes de partirem para uma residência alugada. O cantor nunca tinha sido dos mais fieis, mas Pamela não ficava atrás. Traía o cantor com vários amigos e pedia que inventassem uma desculpa qualquer para ele.
(veja também: Paris, 1971: As últimas fotos conhecidas de Jim Morrison)
JIM havia dito a amigos que se endireitaria e que começaria uma carreira de escritor – produzindo uma autobiografia ou quem sabe, um livro sobre o julgamento de Miami. Mas foi em vão: o cantor continuou bebendo bastante e (dizem) seu relacionamento com Pamela era marcado pelo uso de heroína.
POUCO reconhecido nas ruas, numa cidade em que havia bem menos circulação de fãs de rock do que na Inglaterra ou EUA, o cantor chegou a puxar assunto com uma banda formada por garotos americanos radicados na França, que viu andando nas ruas com instrumentos. Inicialmente não foi reconhecido – os moleques ficaram até constrangidos depois, quando viram de quem se tratava. Jim acabou descobrindo que se tratava do Clinic, grupo liderado pelo canadense Phil Trainer, e que iniciara carreira na França.
MORREU OU NÃO?
POUCAS PESSOAS viram Jim Morrison morto. O corpo do cantor foi encontrado sem vida na banheira do apartamento do casal, por um bombeiro, Alain Raisson, que anos depois deu até depoimento para o Fantástico. Na entrevista para o Show da Vida, Alain disse que não havia evidências de overdose ou de que Morrison havia sido assassinado (afinal, o que mais tem é gente dizendo que o FBI havia encomendado sua morte). Só disse que a água da banheira estava um pouco rosada. O laudo médico fala apenas em “parada cardíaca”.
MARIANNE FAITHFULL disse certa vez à Mojo que, sim, houve um culpado pela morte de Jim Morrison: um ex-namorado dela, o traficante de heroína Jean de Breteuil. Ela conta que estava com Jean em Paris passando férias, quando o namorado decidiu ir à casa do casal Pamela-Jim. Segundo ela, a dose que matou Jim foi fornecida por Jean. Ela diz que se tratou de um “acidente” e que todo mundo era muito ignorante na época sobre os efeitos da heroína. “De qualquer forma, todo mundo ligado à morte desse pobre coitado está morto agora. Exceto eu”, contou. Outra versão jura que Jim morreu de overdose de heroína no banheiro do clube parisiense Rock And Roll Circus e seu corpo foi levado direto para o apartamento onde ele morava, para evitar escândalos.
NOTÍCIAS VOANDO
OS AMIGOS de Jim começaram a ouvir boatos da morte do cantor logo no dia do óbito (3 de julho de 1971). O empresário dos Doors, Bill Siddons, soube da história, informou os colegas de Jim e pegou o primeiro voo para Paris. Chegou lá e viu Jim já morto, no caixão selado, e uma certidão de óbito pronta. Pamela e Siddons mal se lembravam dos médicos que assinaram a certidão e havia suspeitas de falsificação de assinaturas. Pamela apenas disse que estava dormindo ao lado de Jim e que ele se levantou para tomar banho.
TUDO O QUE SE SABE da ocasião foi dito por Pamela a Siddons, já que os poucos enlutados presentes ao enterro (foram seis pessoas) nunca falaram sobre o assunto. Pamela morreu de overdose em 25 de abril de 1974. Colegas de Jim nos Doors sempre afirmam que se existe alguém capaz de enterrar um saco de areia como se fosse um defunto e fugir sem deixar pistas, este alguém seria Jim. Mas não existe nenhuma evidência de que ele esteja vivo. Por outro lado, há quem negue que Jim Morrison tenha sido usuário de heroína, alegando que ele “detestava agulhas”, mas muita gente diz que o viu usando a droga.
PARA QUEM (evidentemente depois da pandemia) quiser ir a Paris levar “um dia de Jim Morrison”, um site chamado Bonjour Paris refez passo a passo os dias do cantor por lá, mostrando os lugares pelos quais ele passava e onde ele e Pamela haviam se hospedado. Mas o site fala também dos inferninhos que Jim frequentava (como o Rock And Roll Circus) e explica que a capital tinha se tornado um inferno de heroína nos anos 1970.
A CAPA
SE VOCÊ não percebeu, o lay out de L.A. woman era uma imitação de slide fotográfico. Na primeira prensagem, a foto dos quatro Doors vinha com uma cobertura de papel celofane, e, para enfatizar a ideia do “slide”, a capa tinha cantos arredondados. O autor da capa era Carl Cossick e a foto foi feita por Wendell Hamick, mas Jac Holzman, chefão da Elektra, diz que a ideia partiu de uma encomenda dele. “Não sabia mais se a banda voltaria, então pedi uma capa de colecionador”, contou.
OS LANÇAMENTOS do disco ao redor do mundo modificaram levemente o trabalho gráfico, que acabou transformado em um capa de LP comum. No México, o disco ganhou um Amala locamente na capa. A foto, de colorida, virou preto e branco, e foi invertida para Jim ficar à esquerda, e não por último. No Líbano, a capa também ficou com foto preta e branca, mas em compensação o selo da representação local da Elektra é um achado, com a borboleta-símbolo da gravadora em tons de prateado. Em Israel, saiu uma variação com capa azul e contracapa amarela.
ALIÁS E A PROPÓSITO, na França, não houve muitas mudanças e a capa saiu até com os cantos arredondados. Já na Coreia do Sul, saiu uma edição pirata, em que a foto ganhou um aspecto sombreado e confundiu-se com a moldura do slide. No Brasil, a Philips pôs L.A. woman nas lojas em 1971, sem encartes e sem cantos arredondados.
E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI…
VEJA AÍ o pai e a irmã de Jim Morrison, com quem ele parou de ter contato constante ainda nos anos 1960, falando sobre o cantor dos Doors. O pai conta que sempre achou que o filho fosse ter sucesso. “Ele era criativo, esperto, gostava de escrever”, conta. Admite que mandou o filho arrumar um emprego de verdade quando Jim lhe disse que estava cantando numa banda, mas fica visivelmente emocionado quando lembra da vez em que viu Jim na TV. A irmã diz carinhosamente que achava que Jim ia “virar beatnik e ser pobre a vida inteira” e se entristece bastante quando lembra da morte do cantor.
E confira também o documentário Mr. Mojo Risin’ – The story of L.A. woman, legendado, antes que tirem do YouTube.
VEJA TAMBÉM NO POP FANTASMA:
– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Substance (New Order), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience), a Pleased to meet me (Replacements), a Dirty mind (Prince), a Paranoid (Black Sabbath), a Tango in the night (Fleetwood Mac) e a Mellon Collie and the infinite sadness (Smashing Pumpkins). E a The man who sold the world (David Bowie).
– Além disso, demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais The Doors no POP FANTASMA aqui.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































