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Crítica

Ouvimos: Charli XCX – “Music, fashion, film”

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Resenha: Charli XCX – “Music, fashion, film”

RESENHA: Charli XCX reinventa seu pop em Music, fashion, film: eletrorock experimental, letras afiadas e um dos discos mais fortes de sua carreira.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 24 de julho de 2026

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Direto ao assunto: Music, fashion, film é bom demais. Charli XCX aprendeu muita coisa nos últimos tempos: não sair da mídia, ter sempre novidades para os fãs, adiantar os temas de suas músicas discretamente em entrevistas, tentar pelo menos parecer que está criando uma nova maneira de lançar música (como o não-lançamento dos B-sides de seus singles, que depois serão capitalizados com algum box ou edições deluxe), etc.

O principal: usar o confusionismo como arma. Por exemplo: lançar o single Rock music, dizer que “nunca disse que estava fazendo um disco de rock” e voltar ajudando a recriar o uso da guitarra na música eletrônica em Music, fashion, film – basicamente um disco fortíssimo de eletrorock moderno. Os exageros e explosões sonoras do hyperpop ganham uma cara bem diferente, o que torna o novo disco mais um “outro lado da moeda” de Brat do que um anti-Brat.

Music, fashion, film é um disco feito sem humildade, e é o tipo de disco que só poderia ser feito por alguém que já organiza o movimento do pop atual – ou que reúne características estratégicas para conseguir fazer com que todo mundo queira saber o que você está fazendo. E Charli basicamente já sabe que, mais do que uma cantora pop, ela virou uma pessoa a ser acompanhada.

Letras como Rock music, SS26 (cuja letra, niilista e cheia de maldade, parece recado para alguém, ou alguéns: “acho que minhas posições políticas poderiam funcionar como estratégia de imprensa / e minha herança cultural poderia me dar uma grande vantagem competitiva”) e Camera (na qual ela comenta sua disposição para a atuação e canta: “não me sinto envergonhada mesmo quando sou péssima / estou sempre ansiando por uma experiência que pareça perigosa”) só poderiam surgir num contexto desses.

Isso ainda que a nostalgia seja parte importante de Music, fashion, film, já que ela compara seu começo de carreira com as possibilidades dos influencers atuais em 2007 (um eletrorock com guitarra e baixo extremamente rítmicos) e confesse em I’m afraid que seu maior medo é, depois das glórias alcançadas, botar tudo a perder. Essa, por acaso, é a única música do álbum que e relaciona com a trilha de Wuthering heights, sombria e orquestrada. Magic metal montana, por sua vez, é uma homenagem ao amigo, parceiro e produtor de longa data AG Cook, em que ela diz que a comunicação dos dois se dá pela música.

O eletrorock de Music, fashion, film é melhor definido como pop experimental construído com linguagem do rock – com letras que comentam o presente de olho na linha do tempo. Card declines, com vocal blasé na linha do Sonic Youth e algo de Wire na melodia, é um filme robótico em que uma pessoa faz mil compras (para esquecer um amor perdido, ficamos sabendo no final) mas tem que encarar o coito interrompido do cartão recusado. Camera é dance-rock com guitarra tratada eletronicamente e transformada quase num beat. Yeah é bem robótica, com detalhes de guitarra que lembram Nirvana, e vai se tornando próxima de um lo-fi arrumadinho.

Wink wink, com uma piscadela de mau comportamento na letra, é o mais próximo no álbum de um “indie rock” propriamente dito – ou de um som associado ao velhusco rótulo new wave. E o final traz duas surpresas: a distorcida e poderosa Persona parece uma conversa de Charli consigo própria, como se dois lados dela (um mais inseguro, e o outro bem auto-confiante) pudessem dialogar. No one lasts forever, encerrada com um diálogo com o diretor David Cronenberg (e um sulco infinito no vinil), mistura histórias pessoais e profecias com relação ao que vai e ao que fica depois que um artista morre. Uma música que começa leve e vai ganhando contornos mais sinistros.

Na real, essa leveza sinistra é o combustível de Charli desde que ela começou – mas parece que só agora, em Music, fashion, film, a visão dela combinou com a visão do mundo. Às vezes acontece dessa forma. E se você ainda não entendeu, o novo disco de Charli XCX é algo a não ser perdido. E lembrando que hoje às 17h15 sai a versão “filme” do disco no YouTube (veja aqui).

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Ouvimos: Tony Iommi – “From the dark”

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Resenha: Tony Iommi – “From the dark”

RESENHA: Em From the dark, Tony Iommi e o cantor Jørn Lande resgatam o metal sombrio e épico do Black Sabbath, com riffs pesados e ecos da fase Ronnie James Dio.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: BMG
Lançamento: 23 de outubro de 2026

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Primeira coisa a ser dita sobre From the dark, o novo disco de Tony Iommi: o guitarrista do Black Sabbath, símbolo máximo da atitude “o show tem que continuar” no rock, precisa de bons letristas. O vocalista norueguês Jørn Lande, seu parceiro na nova empreitada, é um letrista decente, mas tá bem longe da construção épica, cheia de comentários sobre vida, guerra e morte, de Geezer Butler, baixista e principal letrista do Sabbath. Segunda: From the dark é um disco de metal. Por metal, entenda-se exatamente isso: som pesado, viajante, sombrio, a quintessência do estilo antes de qualquer caricatura ou mistura que possa ser imaginada.

E por metal, entenda-se também: elegância nos solos, bases e riffs, mesmo quando a ideia é fazer tudo soar como músicas para emocionar um ogro. Tony inventou o estilo, e põe toda a memória do som pesado em sua música, muito embora o som de From the dark seja o do Black Sabbath com Ronnie James Dio nos vocais – e o do Heaven and Hell, continuação renomeada da formação Dio-Iommi-Butler. Lande canta como Dio e também como um Rob Halford rouco.

Jørn e Iommi investem no peso cromado em Over the violent sun e Return of the arbalist, em climas sombrios e quase góticos em Black times, Death wake (com rufar de tambores e riff sinistraço à moda do hino Black Sabbath) e Beyond the dead, e em sons estradeiros e heroicos em World alone. A energia do hit Heaven and hell, do Sabbath, paira sobre Stormwatcher – mas sem o ritmo demarcado do original, e investindo em metal-marcha fúnebre, algo que pode mesmo prever tempestades.

Acompanhados pela baixista Becky Baldwin (ex-Mercyful Fate) e pelo baterista Karl Brazil (James Blunt, Robbie Williams etc.), Jørn e Iommi encerram From the dark observando o legado do metal e do Black Sabbath como uma chama que não se apaga – em Legacy, música extensa (sete minutos) e repleta de uma carga existencial que as letras do Sabbath sempre tiveram. Versos como “olhando para o futuro, tentando em vez de se esconder / heróis e jogos, estou gravando meu nome muito além do brilho do céu / alguém cantará a música que eu trago amanhã” não são apenas música. São missões.

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Ouvimos: The Linda Lindas – “Gotta get out”

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Resenha: The Linda Lindas – “Gotta get out”

RESENHA: Em Gotta get out, as Linda Lindas ampliam seu punk com new wave, nu-metal e eletrônica, além de parceria com Hayley Williams. Mais peso e maturidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Reprise
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Lucia de la Garza (guitarra, vocal), sua irmã Mila (bateria, vocal), Eloise Wong (baixo, vocal) e Bela Salazar (guitarra, vocal) são as The Linda Lindas, banda que começou fazendo punk adolescente e agora chega ao terceiro álbum, Gotta get out, em tom de evolução. A entrada na grandalhona Reprise não fez o grupo abandonar o punk, mas abriu espaço para beats eletrônicos, guitarras mais pesadas e outras referências. O resultado é um disco que soa como uma nova fase, sem apagar a anterior, de álbuns com No obligation (2025, resenhado aqui).

A faixa-título abre o álbum com batidas eletrônicas e riffs texturizados- é uma new wave de quem ouve nu-metal. A letra fala da sensação de viver num disco riscado, repetindo hábitos dos quais não se consegue escapar. Burning out segue por um caminho próximo, com batidas dançantes, guitarras igualmente cheias de texturas e uma mistura de pós-punk, Pixies e rock alternativo dos anos 1990. Tudo isso para falar de esgotamento.

O lado selvagem aparece em Helado de limón, punk cantado em espanhol, com algo do L7 e uma letra que dispensa aplausos e validação alheia. Blood on our hands é som e riot grrrl, com vocais raivosos e ataques ao fascismo e aos privilégios. Já Break vai ganhando velocidade até lembrar o hardcore do Suicidal Tendencies.

A relação com o Paramore aparece não só na participação de Hayley Williams em Closer, um bubblegrunge dramático e cheio de guitarras. A influência da banda está também no punk-pop de I could be wrong e no pós-punk nublado de Everybody told me. Hayley acompanha o crescimento das Linda Lindas há anos, e a colaboração acabou sendo mais do que uma participação especial.

Nothing left junta new wave, B-52’s e riffs pesados. High horse tem algo de Siouxsie and the Banshees, vocais quase rappeados e uma bronca contra gente arrogante que adora intimidar os outros. Já Okay recupera Ramones, Clash e Green Day, enquanto See you next time fecha tudo com violão, dream pop à Cocteau Twins e despedidas tristes (na letra).

A mudança da Epitaph para a Reprise não mudou as Linda Lindas – as músicas já estavam sendo trabalhadas antes da assinatura do contrato, até. Gotta get out é mais produzido, mais variado e até mais adulto do que os dois discos anteriores. E, curiosamente, as Linda Lindas parecem ainda mais à vontade no barulho.

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Ouvimos: Guandu – “Turvo”

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Resenha: Guandu – “Turvo”

RESENHA: Gravado em fita K7, Turvo, segundo álbum do Guandu, amplia o slowcore e o emo da banda com blues, psicodelia, math rock e até power pop. Um disco de guitarras experimentais, com participação de Marina Mole.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 17 de setembro de 2026

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Originalmente uma banda de emo e slowcore, o Guandu começa a apresentar uma cara diferente em Turvo, o segundo álbum. Gravado em fita K7 assim como No-fi, o primeiro (2025, resenhado aqui), ele traz a banda com uma curiosa cara meio blues – o estilo se insinua em meio a músicas lentas e derretidas, com diversas evocações. Há algo da viola elétrica de John Cale no Velvet Underground na instigante Séculos, por exemplo. E um experimentalismo slow toma conta de músicas como A (cujo título é uma vogal-cântico que surge na faixa) e a vinheta Véspera da véspera, com guitarra em tom macio e quase progressivo.

Essa vinheta abre o single Véspera, que vem num clima mais romântico e ensolarado que o comum deles – é definida como “uma canção despretensiosa e aconchegante”, em que o verso “não sei do que ela gosta / mas sei que eu gosto dela” caminha entre Mutantes, Jorge Ben e Charlie Brown Jr. Já 5 tem ritmo sendo criado em torno dos dedilhados, enquanto 6 vai na onda de uma espécie de blues emo, assim com acontece com Mais um dia, gravada com Marina Mole. Faixas com títulos obscuros como + e Turva, por sua vez, caminham na direção de um emo + math rock sombrio e maldito.

Além disso tudo aí, Turvo flerta mais fortemente com a psicodelia nos ruídos guitarrísticos de J e em Sombra, e solta uma espécie de power pop deprê em Cowboy. Um teste do segundo disco muito bem aproveitado.

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