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Ouvimos: Tricky – “Different when it’s silent”

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Resenha: Tricky – “Different when it’s silent”

RESENHA: Em Different when it’s silent, Tricky troca o trip hop por um indie rock sombrio e minimalista, explorando luto, ausência e vulnerabilidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: False Idols
Lançamento: 17 de julho de 2026

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Tricky não criou apenas um estilo – criou uma maneira de entender e de ouvir música. O que parecia sexy e esfumaçado em bandas como Massive Attack e Portishead ganhava contornos sombrios em sua estreia Maxinquaye, de 1995. O trip-hop que ele fazia estava mais para uma descida aos porões internos do que uma música para dançar ou fazer strip-tease. Ainda que na prática, o estilo nunca tenha representado nada tão alegre assim (só ver as músicas de protesto do Massive Attack), ali o buraco era bem mais embaixo.

E continua sendo, mesmo que Different when it’s silent, seu novo álbum, ponha algumas diferenças na roda. Tricky nunca foi separável do universo do rock, mas dessa vez ele fez um disco que está bem mais próximo dos universos do Joy Division e de bandas como Throbling Gristle – chegou a dizer à Brooklyn Vegan que fez, pela primeira vez na vida, um disco de indie rock.

É verdade, mas é bem mais que isso: Different when it’s silent é um disco que se alimenta dos contrastes. Entre eletrônico e acústico, entre canto e sussurro, entre artista solo e convidados. Tricky sussurra e murmura, e passa a bola para de nomes como Mitch Sanders, Marta, Run Red Rambo e Radana.

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Contrastes também entre presença e ausência. I still see me there, a faixa de abertura, é sombria e desértica, levada adiante pelo baixo e por acompanhamento quase orquestral – e é aberta com a frase “me faça querer morrer”, seguida por uma letra de pura fantasmagoria, em que Tricky ainda vê a si próprio com alguém que se foi. I’m yours soa como a mistura exata entre Nirvana e Joy Division, barulho e silêncio, baixo à frente e guitarras atmosféricas no refrão.

O eletroraprock de Be still in the pain é elegante e até sexy, mas mexe com um tema difícil: aceitar a dor sem fugir, sem cair nas drogas, estar no controle do que pode ser controlado. É seguida por I tried, dois passos entre Nine Inch Nails e o próprio trip hop – um som feito para cinema, imagético e asfixiante como aquelas cenas com dupla-tela de Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky. So cold, um lamento frio, parece falar de luto por alguém que está vivo, um relacionamento que acabou na frieza e num afastamento jamais explicado.

Tem muita coisa em Different when it’s silent que lembra bandas como Suede e Placebo – só que no mais puro minimalismo, como se o “vazio” de alguns arranjos fosse mais um instrumento. A voz chorosa de Tricky, o baixo guiando as músicas, a guitarra soando como um fantasma de peso: é como se outra pessoa não estivesse mais aqui, mas como se algo na personalidade de quem está cantando, também não estivesse. O soft rock deprê Maybe Paris e o dub cardíaco Cannon fodder deixam mais ou menos claro que se trata de um som feito com os olhos focando o chão, os joelhos ou as palmas das mãos.

Rola também no eco-voz-e-baixo de Marinade, cover do australiano Dope Lemon, uma música sobre vulnerabilidade, complementada por cordas e por um beat de Miami bass (!) que revira a faixa do avesso. E no clima quase sacro de Piano, faixa de voz, piano, baixo e cordas – encerrada com vocais operísticos. Hengrove blues, outra canção na qual os instrumentos são contados (voz e guitarra), traz Mitch soltando um falsete triste, enquanto Tricky soa como uma voz-violoncelo, com versos interrompidos, cantando com fragilidade.

Tricky faz rap em estado quase bruto, embora misturado com soul e jazz, nas lembranças de fronteira de Radana – e solta a voz sozinho no soul-indie-rock de faroeste Frontier town, música otimista, mas sem esquecer os tropeços da vida. No fim, mais contrastes: o indie-rock voraz Out of place não é necessariamente uma música melancólica, mas na letra Tricky assume o luto e canta declaradamente para sua filha, avisando que ela estará sempre com ele.

Out of place parece mais um jorro do que uma canção. Soa como uma colagem de partes diferentes, rápida demais para que você consiga formular algum juízo sobre ela, mas com tamanho suficiente para você entender que ela é um desabafo, uma tristeza condensada e editada da maneira que deu. Different when it’s silent é inteirinho um preparo pra esse desabafo final.

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Ouvimos: Ty Segall – “Chrome” / “Love fuzzz” (EP)

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Resenha: Ty Segall – “Chrome” / “Love fuzzz” (EP)

RESENHA: Em Chrome, Ty Segall troca o pop psicodélico por garage rock, grunge, stoner e hard rock setentista. Gravado quase todo ao vivo, o álbum ganha ainda um EP de improvisações e guitarras ruidosas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Drag City
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Ty Segall costuma fazer discos que parecem pertencer a artistas diferentes. O sujeito já passou pelo garage rock, pelo folk, pelo glam, pelo hard rock e por experimentações que nem sempre cabem nessas classificações. Em Possession (2025, resenhado aqui), por exemplo, resolveu dar uma caprichada nos arranjos, investindo num rock clássico e psicodélico mais elaborado. Já Chrome, seu novo álbum, é praticamente o contrário: guitarras distorcidas, riffs pesados, barulho e uma banda tocando como se estivesse num ensaio particularmente inspirado.

A banda, aliás, é uma das novidades. Ty reuniu velhos conhecidos como Mikal Cronin (baixo), Emmett Kelly (guitarra), Ben Boye (teclados) e Evan Burrows (bateria), músicos que já haviam participado de outros trabalhos seus, mas nunca tinham feito um disco inteiro juntos nessa formação. O grupo ensaiou durante um mês e gravou quase tudo ao vivo, em seis dias. O resultado tem uma cara mais coletiva, com as guitarras dividindo espaço com baixo e bateria em vez de simplesmente comandarem a barulheira.

Chrome começa com os ruídos de Hospital, que vão chegando de longe até se transformarem numa mistura de grunge, garage rock e rock progressivo – só que, em vez de dedilhados e solos virtuosos, há guitarras quase maquínicas e batidas nas cordas. Running to nowhere e Black paint investem num stoner bastante garageiro, com vocais distantes, blues-rock e até uma beleza glam surgindo no meio da distorção.

Há algo de punk-hard rock em Glass, música de riffs irresistíveis e várias mudanças de clima. Já Play cowboys parece um Lynyrd Skynyrd em negativo, com solos que poderiam ter saído de algum disco do T. Rex. Everything you’ve been lembra o Nirvana de Tourette’s, só que com uma onda mais setentista. E Let go traz guitarras que parecem sinais de transmissão, antes de virar uma mistura de Sonic Youth e grunge, com um ritmo até meio sexy.

O country-rock também entra na história em Separation, mas aparece todo coberto de ruídos. A faixa-título, por sua vez, é hard rock dos anos 1970, lembrando Nazareth e Grand Funk Railroad, com solos que parecem feitos por alguém que passou a adolescência ouvindo punk e garage rock.

E ainda tem um EP de brinde, Love fuzzz, com duas músicas que ficaram fora do álbum por seguirem uma onda mais improvisada. A faixa-título, releitura de uma canção do álbum Twins (2012), tem quase 12 minutos de microfonias, gritos e stoner, ficando mais blues conforme avança. My pet guru, com 14 minutos, é um improviso de guitarras ruidosas, clima noturno e até um piano psicodélico.

Ty separou as canções mais diretas para Chrome e deixou as viagens mais longas para o EP. É uma boa maneira de organizar um trabalho que, se viesse inteiro num só pacote, talvez ficasse excessivo. E também de mostrar que, quando resolve voltar ao rock pesado, ele ainda tem bastante coisa para inventar.

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Ouvimos: Pabllo Vittar – “Lost in lust”

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Resenha: Pabllo Vittar – “Lost in lust”

RESENHA: Em Lost in lust, Pabllo Vittar mistura dance music, funk, piseiro e reggaeton numa tentativa de conquistar o mercado internacional. O resultado é dançante, mas deixa de lado parte da irreverência da cantora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7
Gravadora: MTDRS
Lançamento: 1 de outubro de 2026

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Primeira pergunta: será que com Lost in lust, Pabllo Vittar vai mesmo conseguir firmar uma carreira internacional? A resposta está nas doze faixas do álbum, que fazem uma união adequada de dance music anos 1990, brega (com aqueles rototons eletrônicos), piseiro, batidões funk, ondas electro mais alternativas e outros detalhes. É adequado mas… Bom, “adequado” não é exatamente a melhor expressão para definir um disco foda, excelente, imperdível.

Mas Pabllo sabe se armar bem: ela convidou uma turma elegante de produtores (Rodrigo Gorky, S4tan, PZZS, Chernobruno, Jeska, Ezmehfw, Votú, Eva de LC, Gorfo de Panda, Martinz Beats, LOFIBBGIRL e Carlos do Complexo) para ajudar a dar vida a um disco mais focado na eletrônica do que em qualquer coisa. Bad good faz um bom passeio por todos os estilos do álbum. Na sequência, Rockstar tem peso, humor e vibe trap construída ao lado da rapper porto-riquenha Villano Antillano, enquanto Attention vai na dance music e no tamborzão.

Tem algo em Lost in lust que dá a entender que Pabllo anda se espelhando um pouco em exemplos como Slayyyter – Body type, com Urias, tem muito disso, e Friends with… também. Better than a feeling e Polizia vão da dance music anos 1990 aos batidões atuais em pouco tempo. Big bang, a melhor do disco, é a que melhor traduz o “tem de tudo” do álbum, em que sons de reggaeton unem-se até a evocações do axé.

O lance é que tem uma segunda pergunta: será que Lost in lust não pode soar simultaneamente descolado tanto do universo gringo quanto do pop brasileiro? O problema todo é esse: o disco não tem tanto a Pabllo zoeira e tropical dos discos anteriores, substituída por um conceito “internacional” que não soa tão legal. Músicas como Body type são ruins? Não são, mas dão uma impressão imensa de “já ouvi isso antes”, especialmente por causa das letras.

Com menos de trinta minutos de duração, Lost in lust lembra curiosamente um daqueles discos de “tentativa” de estouro de artistas nacionais – tipo quando Wilson Simonal gravava suas próprias músicas em espanhol. A convicção de Pabllo como cantora, compositora e produtora AINDA não entrou no esquema da sua carreira gringa. Talvez falte pouco para isso rolar – inclusive Pabllo faz questão de olhar no olhos de seus fãs da antiga e cantar a ótima Alone, uma espécie de Rock’n roll suicide de sua lavra (“deixe-me ver o anjo nos seus olhos / mostre-me como afastar seus medos / o paraíso é um lugar para onde escapamos”).

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Ouvimos: Ellie Goulding – “I know too much”

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Resenha: Ellie Goulding – “I know too much”

RESENHA: Em I know to much, Ellie Goulding mistura dance-pop, R&B e baladas para falar de divórcio, autoestima e memórias. O álbum funciona bem, mas suas versões ampliadas, com até 22 faixas, confundem tudo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Polydor
Lançamento: 4 de setembro de 2026

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Há um certo charme nas coisas que vêm com outras de brinde: um filme dentro de um filme, um livro dentro de outro, um disco que esconde outro disco. Mas esse tipo de coisa também causa altas perdeções de mão. Ellie Goulding lançou seu sexto disco I know too much com dez faixas e, em apenas uma semana, transformou o álbum em três lançamentos. Vieram We know too much, com 16 músicas, e You know too much, com 22. O mercado pop adora essas operações, que rendem novas notícias e audições. Para o fã, fica a dúvida: afinal, qual é o disco?

(saiu também EG.0, um curioso EP de dez faixas – ! – que deve merecer texto à parte)

Bom, o original é bom. Ellie fez um álbum marcado pelo fim de seu casamento com Caspar Jopling e pelas inseguranças que vieram à tona nesse período. Não é exatamente um disco de divórcio: há também muita coisa sobre autoestima, memórias e a mania de procurar defeitos em si mesma.

Black Prada dress abre com um batidão dance, clima sonhador, coro gospel e um vocal mais ríspido. Parece uma briga com alguém, mas Ellie explicou que está discutindo com sua própria voz interior (musicalmente, é uma faixa que promete bastante atitude no dico, vale dizer). Já Misremember you, uma baladinha triste de violão, fala de como a memória pode reescrever um relacionamento depois que ele termina. For your entertainment começa com acordes e cravo, dando a impressão de que vai começar a Ave Maria – antes de virar um dance-pop bacana, meio ABBA. A letra trata de alguém que se anula para agradar o outro.

Três músicas para ouvir e reouvir: Nobody dances moderniza o dance-pop de ABBA e Madonna, 4 seasons começa no violão e ganha guitarras, e Always think of you parece um pop alternativo dos anos 1990 guardado em barris de carvalho. Loser tem melodia simpática, mas é mais banal. A faixa-título traz pop triste e R&B leve, enquanto Ravers encerra tudo numa pista de dança noventista.

I know too much funciona bem sem precisar de outras 12 faixas. E é aí que a estratégia comercial complica a cosa toda: é um disco bom, com começo, meio e fim, mas que acaba escondido debaixo das próprias versões.

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