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Cultura Pop

Lembra do “Manual Eu Odeio Madonna”?

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Lembra do "Manual Eu Odeio Madonna"?

Em um determinado momento dos anos 1990, parece que odiar artistas virou moda (uma moda, por sinal, inspirada pela onda de paparazzi e pelos tabloides de fofocas, popularíssimos na época). Recentemente um artigo na Paste Magazine deu conta de um ódio que muita gente hoje nem deve sequer se lembrar se já teve: aversão completa a Shannen Doherty, atriz que interpretava a Brenda Walsh na série Barrados no baile.

Essa aversão que misturava realidade e fantasia aconteceu entre 1992 e 1994, no auge da série. Isso porque, ao mesmo tempo em que a personagem fazia de tudo para se encaixar no universo excludente de Beverly Hills, a atriz ganhava fama de “garota má”, arrumando brigas nos bastidores e tratando mal diretores e colegas. Um zine punk de Los Angeles chamado Ben Is Dead resolveu se aproveitar da situação na época lançando uma newsletter chamada I hate Brenda (“eu odeio Brenda”) e até mesmo uma linha de telefone tipo 0800 para as pessoas ligarem e contarem fofocas da personagem e da atriz.

O tal artigo da Paste foi escrito pela jornalista e roteirista Amy Amatangelo, que teceu argumentos bem interessantes sobre o tal ódio a Brenda e a Shannen. “Quanto de nossa antipatia coletiva por Brenda Walsh estava impregnada de sexismo? As estrelas masculinas do show foram submetidas a tal escrutínio? Ou o mau comportamento deles foi considerado ‘meninos serão meninos’?”, questionou. Mas nos anos 1990 o clima de “cultura do ódio” chegou a outros artistas. E um deles foi ninguém menos que Madonna, que ganhou o controverso The I Hate Madonna handbook (“o manual Eu Odeio Madonna”).

Lançado em formato de quadrinhos pela “divisão de humor” da Virgin Books em 1994, o livro não era fruto de algum zine ou coisa parecida. Foi escrito pela jornalista americana Ilene Rosenzweig, editora da revista Allure e integrante do aquário do New York Times. Ilene ainda por cima é uma das autoras do conceito de “elevator pitching”.

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A ideia do livro era mais zoar do que acusar, mas a régua era a dos anos 1990. Ou seja: Madonna era vista como uma víbora que se aproveitou de várias pessoas para subir na vida, atropelou diversas carreiras em nome do próprio sucesso, humilhou pessoas (inclusive ex-namorados). etc. O livro ainda tinha trading cards (!!) dos seus vários ex-relacionamentos (incluía até Mick Jagger, que depois foi visto falando mal da cantora pelas costas).

O primeiro capítulo, intitulado Buscando o sucesso desesperadamente, resumia toda essa história usando cotações com botas brancas (pessoas pisadas), chicote (usadas sexualmente), cifrão (usadas para ganhar dinheiro), lágrimas (arrasadas sentimentalmente) e marcas de pneu (colisão com Madonna deixou carreira em frangalhos).

Casos como os processos que uma rapaziada ligada ao filme Na cama com Madonna meteu nela também foram explorados por Ilene no livro, que foi considerado um “excelente trabalho de pesquisa” na época e, aparentemente, não chegou a irritar mais Madonna do que a disputa entre Playboy e Penthouse, nos anos 1980, pela publicação de fotos antigas dela. A Entertainment Weekly quase decretou a morte artística da cantora ao resenhar o livro, asseverando que “agora que a carreira de Madonna parece uma sombra do que era antes, ainda é divertido importuná-la? Absolutamente”.]

O livro não chegou a ser lançado no Brasil mas era possível de ser encontrado em algumas livrarias, em versão importada. Ilene, com o tempo, engordou sua obra com livros como Swell: A girl’s guide to the good life e Home Swell Home: Designing your dream pad, indo mais na linha de “manuais de estilo” (também ficaram bastante comuns depois dos anos 1990) do que no dia a dia das celebridades. Mas seu manual anti-Madonna marcou época como uma publicação típica de um período em que ainda não havia cancelamento, mas já se “cancelava” e muito.

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Cultura Pop

Quando o Buzz Bin da MTV decidia o que era legal ver

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Quando o Buzz Bin da MTV decidia o que era legal ver

A informatização das paradas de sucesso nos anos 1990 inventou outras coisas que serviram como sombras para as novidades tecnológicas: bugs, novos jabás, novas formas de fazer o público engolir a mesma música todos os dias, dia após dia. Essa informatização deu numa maior rapidez para verificar quem eram os primeiros lugares das paradas, em vendagens cada vez mais astronômicas, num rolê maior de artistas iniciantes que de uma hora para outras viravam popstars e, cada vez mais, em novas paradas de sucesso, mostrando a todo mundo o que era cool, bacana e descolado na música. E aí surgiu o Buzz Bin, a parada de vídeos da MTV, que fez todo mundo prestar atenção em novos clipes e novos hits da estação.

O Buzz Bin era mais antigo que os estouros dos anos 1990. Surgiu em 1987 e servia para divulgar todo tipo de artista das paradas pop que tivesse algum destaque e começasse a fazer sucesso.  Só que depois dos anos 1990, quando uma série de artistas “alternativos” começaram a vender muitos discos, ele virou a menina dos olhos da emissora e o sonho de qualquer artista novo. Under the bridge, dos Red Hot Chili Peppers, foi clipe Buzz Bin. Give it away, também. Everything is zen, do Bush, idem. Músicas de Nirvana, Stone Temple Pilots, Green Day, Gin Blossoms (lembra?), Arrested Development (lembra?)  e Cracker, idem. Até mesmo Creep, do Radiohead e (pode acreditar) Mother, do Danzig foram Buzz Bin.

A transformação de um clipe em Buzz Bin podia mudar a carreira de uma banda. O The New York Times jurava que o disco dos Red Hot Chili Peppers BloodSugarSexMagic teve sua trajetória mudada após o clipe de Give it away ganhar a honraria. Andy Schuon, vice-presidente sênior de música e programação do canal, costumava se encontrar semanalmente com um comitê de 20 funcionários da emissora para decidir que clipes entrariam nesse esquema de estrelato instantâneo. Nomes de estilos como pop-punk e nu metal começaram a despontar para o sucesso ali.

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As estratégias eram discutidas com as gravadoras, que sempre tiveram relação tensa com a MTV. Aliás, desde o começo, quando a emissora queria obrigar os selos a fazerem lançamentos exclusivos lá (por muito pouco, a estação podia deixar um medalhão como Billy Joel ou os Rolling Stones falando com as paredes) e ganhava nariz torcido por não querer investir dinheiro na produção de clipes. Numa matéria, a Entertainment Weekly chamava o Buzz Bin de “melhor amigo do rock alternativo” e Peter Baron, chefe de promoção de vídeo da Geffen Records, dizia que era mais importante ter um clipe Buzz Bin do que ter muita audiência. Andy Schuon dizia na mesma matéria que a parada da estação era “nossa maneira de dizer: ‘De todas as coisas na MTV, aqui está o que você deve prestar atenção’”.

>>> Ei, falando nisso, nosso podcast POP FANTASMA DOCUMENTO tem um episódio com as histórias do comecinho da MTV

Havia problemas (er) conceituais no Buzz Bin, vale dizer. Brad Osborn, Emily Rossin e Kevin Weingarten, três pesquisadores, publicaram um artigo no jornal Music and Science sobre o que tornava um clipe passível de buzz na emissora. Os três assistiram a todos os 288 clipes da série e foram anotando detalhes numa planilha. Para seu conhecimento, lá vai: a primeira camisa de flanela vista num clipe Buzz Bin surge no vídeo de Man in the box, do Alice In Chains. Mulheres só são mostradas tocando instrumentos em cerca de um em cada nove vídeos. Homens negros são mostrados como vocalistas principais com mais frequência do que mulheres negras – uma amostra pequena, de 88 vídeos, por sinal, já que nos restantes, homens brancos lideram os vocais. Se você quiser ler o artigo todo, tá aí.

O Buzz Bin gerou dois CDs – lançados pelo selo Mammoth, que passaria a fazer parte do conglomerado Disney – e durou até bastante tempo. Foi até 2004 e terminou seus dias dividido entre paradas diferentes da MTV e do VH1 (Discover and download e You oughta know, respectivamente). Ficou como retrato de uma época em que, vá lá, uma pessoa poderia surgir do nada, conseguir um contrato e ainda liderar as paradas, sem largar de vez a aparência de “alternativo”.

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Cinema

Um documentário silencioso sobre o Talk Talk (confira dois vídeos)

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Mark Hollis, líder da banda britânica Talk Talk, detestava dar entrevistas. De modo geral, preferia o silêncio a ficar soltando a primeira coisa que viesse à mente. Quando fez o clipe do hit It’s my life, recusou-se a aparecer dublando a música – mas acabou fazendo outro clipe em que aparecia parodiando a dublagem de canções em clipes (!). Já falamos desses dois vídeos aqui.

O Talk Talk parou de fazer shows em 1986 e em 1992, quando encerrou atividades, o músico passou a levar uma vida reclusa. Mark ficou um bom tempo escrevendo seu primeiro disco solo, que saiu saiu em 1998, Mark Hollis (falamos dele aqui). Quando foi dar suas primeiras entrevistas sobre o álbum, recusou-se a posar para novas fotos e disse que não faria shows.

Bom, esse introito todo é só para avisar que existe um documentário sobre o Talk Talk, só que (como não podia deixar de ser) o filme não é dos mais ortodoxos. Talk Talk: in a silent way foi dirigido por um sujeito que parece ser o maior fã vivo da banda, o cineasta belga Gwenaël Breës. Ele, no começo do filme (diz o site Reprobate Press) afirma que, assim que escutou a música do Talk Talk no rádio, “meus horizontes sônicos mudaram”.

O processo de filmagem não foi dos mais fáceis: os integrantes da banda se recusaram a dar depoimentos e a família de Hollis sequer permitiu que sua música aparecesse no filme. Nem mesmo o produtor Tim Friese-Greene quis falar. É um documentário não-autorizado, pois.

Breës falou com fãs, ex-colegas, engenheiros de gravação, pessoas que de alguma forma gravitavam em torno de Hollis e da banda. E como não podia usar a música do grupo, convocou um grupo de músicos franceses e belgas para tocar. In a silent way está ao seu alcance no torrent mais próximo, já passou por alguns festivais e estará em breve na edição deste ano do Doc’n Roll Film Festival.

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Seguem aí dois clipes do filme.

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Cultura Pop

Punk, evangelho e política: Johnny Thunders apoiando Jesse Jackson

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Punk, evangelho e política: Johnny Thunders apoiando Jesse Jackson

Em outubro de 1989, Johnny Thunders, ex-integrante dos New York Dolls, estava querendo mudar. O músico, viciadaço em heroína durante vários anos, dizia estar livre das drogas, e voltando a buscar um lugar ao sol, ao lado da banda Oddballs, que o acompanhava.

“Apagar memórias pode ser ainda mais difícil do que mantê-las. No caso de Thunders, a memória coletiva de seu público está repleta de imagens de um artista errático conhecido quase tanto por seus ataques ao vício em drogas quanto pelas realizações musicais de uma carreira que começou no início dos anos 1970”, escrevia Mike Boehm no dia 14 de outubro de 1989 no Los Angeles Times.

“Eu achava que precisava usar drogas para ser feliz e tocar. Eu estava tão errado. Quero convidar a indústria da música para os shows. Eu realmente gostaria de chamá-los. Venha a um show, e eu mostrarei o que posso fazer”, dizia Thunders na reportagem. O cantor vinha dando uma geral até mesmo nas letras que cantava, já que seu repertório mais recente incluía uma canção sobre abuso infantil (Children are people too) e até louvores ao pastor Jesse Jackson.

O pastor protestante havia sido candidato a candidato à presidência dos Estados Unidos em 1988, pelo Partido Democrata. E tinha uma plataforma bem interessante. Ele iria reverter a política econômica de Ronald Reagan, fazer um redesenho na guerra às drogas (repleta de políticas que ele considerava racistas), dar indenização a descendentes de escravos negros, entre outros itens. Jackson concorria com nomes como Joe Biden (olha!), Al Gore e o governador de Massachusetts, Michael Dukakis.

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Com uma campanha bem montada e o trabalho de governador para ajudar, Dukakis ganhou as preliminares (e, enfim, perdeu a guerra presidencial para George W. Bush). Mas até lá muita gente deu apoio a Jackson, inclusive… Johnny Thunders. Olha ele aí dizendo que “a única pessoa que eu acho que é digna de ser um presidente dos EUA é Jesse”, e iniciando uma espécie de punk gospel em homenagem ao candidato.

Johnny gravara um disco em 1988, Copy cats, ao lado de Patti Paladin, repleto de covers de rock dos anos 1950 e 1960. Continuaria se apresentando, com e sem os Oddballs, já que faria até uma turnê acústica. Mas sua história seria interrompida em 23 de abril de 1991: Johnny morreu, aparentemente de overdose de cocaína, embora haja depoimentos conflitantes a respeito disso. Pessoas muito próximas dizem que o punk veterano estava com leucemia e vinha tendo a saúde degradada. Uma perda enorme para a música.

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