Cultura Pop
Keith Moon solo: drogas e festas animais no estúdio

Em 1975, quem tentou fazer sua parte para mostrar que bateristas podem ir além dos pratos, caixas e bumbos foi ninguém menos que Keith Moon, do The Who (que, você sabe, estará sábado no Rock In Rio). O músico morto em 1978 decidiu lançar seu primeiro e único disco solo naquele ano. Two sides of the moon tem fama de ser um dos discos mais malucos e autoindulgentes do rock. Não é bem assim e o Keith Moon solo tem coisas bem interessantes: uma versão quase pré-punk de The kids are alright (do Who), uma parceria entre Moon, Ringo Starr e Harry Nilsson (o reggae Together), um presente de John Lennon (Move over Ms. L) e até uma versão tristinha e desafinada de In my life, dos Beatles. Se você nunca ouviu o disco – que saiu no Brasil em LP – tá aí a chance.
A MCA e a Polydor, que soltaram Two sides of the moon respectivamente nos EUA e Inglaterra, deram uma ajudinha para divulgar o disco com anúncios em revistas.

Se você achava que em termos de perdeção de linha, nada poderia bater as gravações de Black Sabbath vol.4, de 1972 (cujo encarte incluía um agradecimento “à grande indústria da coca de Los Angeles”), é porque você não conhecia nada a respeito de Two sides. Pra começar, o disco de Moon é filho de dois dos álbuns mais drogados já feitos no mundo: Pussy cats, de Harry Nilsson (1974), e Rock’n roll, de John Lennon (1975).
O primeiro foi produzido por Lennon e teve a participação de Moon tocando bateria e percussão. Essa turma, complementada por Ringo Starr e May Pang (então namorada de John Lennon, que estava separado de Yoko Ono) passava os dias bebendo e tomando drogas em quantidades monumentais, em meio às gravações. Pouco antes das sessões de Pussy cats começarem, tinha acontecido aquele famoso incidente em que Lennon e Nilsson foram expulsos de um clube por atrapalharem um show dos comediantes dos Smothers Brothers.
Já Rock’n roll, produzido por Lennon e pelo produtor-encrenca Phil Spector, foi feito por Lennon na mesma época, tendo Moon por testemunha em alguns momentos, e não economizou em cenas dramáticas ligadas a drogas e álcool. Os casos mais conhecidos foram o dia em que a equipe derramou uma garrafa de bebida na mesa de som do estúdio, e a ocasião em que Spector, vestido de médico, disparou uma arma de fogo na sala de gravação, deixando Lennon surdo por alguns dias.
Two sides surgiu entre um disco e outro, quando Moon bateu um papo com o ex-gerente de turnê dos Beatles, Mal Evans, e sugeriu que ele produzisse um disco seu. A MCA topou fazer o LP, mesmo temendo o resultado e sabendo que o estilo de vida drogado e extravagante de Moon poderia botar tudo a perder. Dito e feito: quem estava no estúdio lembra-se que cada meia hora de gravação era seguida por várias horas de festa. Keith Moon, que quase não tocou e ficou só cantando, gravou vários vocais totalmente bêbado e precisou refazer tudo. John Stronach, um dos vários produtores do disco, recorda de Moon chegando ao estúdio com cocaína e pílulas caindo dos bolsos.
Olha aí Moon gravando os vocais de Do me good, de Steve Cropper, guitarrista e compositor americano conhecido por seus trabalhos para a gravadora de soul Stax. Essa música só seria incluída como bônus na primeira reedição do disco, em 1997.
Quando acabaram as sessões de Two sides of the moon, a MCA fez as contas e viu que tinha gasto mais de US$ 200 mil (!) com um disco que mal teria show de lançamento. A gastança não era pra menos. Os músicos que participaram das gravações de Two sides foram mais de quarenta. Entre eles, Ringo Starr, John Lennon, a dupla de rock-comédia Flo & Eddie, o guitarrista dos Eagles, Joe Walsh e até um não-creditado David Bowie. Esse pessoal, que tomava drogas como se fossem Mentos, era arregimentado na base do “pinta lá no estúdio”. Ao chegarem, encontravam um clima que mais parecia o de um clube de roqueiros drogados. Para complementar, Moon queria que a MCA aprovasse um lay-out que havia comido boa parte do orçamento do disco e que trazia, ninguém pode negar, dois lados do artista. Na capa, um clima romântico, com Moon e sua namorada Annette Walter-Lax.

E na arte interna, a bunda do cantor. Para conseguir a liberação disso, Moon fez uma visita de cortesia ao presidente da MCA, Mike Maitland. No papo, ameaçou quebrar toda a sua caríssima mesa de trabalho, feita em mogno, com um machado de incêndio. “E aí, o que vai ser, querido? Minha capa ou uma mesa nova?”, disse.
A novidade para quem nunca tinha conhecido esse disco é que Two sides of the moon ganhou uma segunda reedição no ano passado. E dessa vez bem mais turbinada do que o relançamento que saiu nos anos 1990. São mais de quarenta faixas-bônus, incluindo diálogos entre Keith e Ringo no estúdio e até um single de Natal. Você decide se o Keith Moon solo vale o gasto – e eu acho que vale.
Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
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Cultura Pop
No nosso podcast, Alanis Morissette da pré-história a “Jagged little pill”

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No segundo e penúltimo episódio desse ano, o papo é um dos maiores sucessos dos anos 1990. Sucesso, aliás, é pouco: há uns 30 anos, pra onde quer que você fosse, jamais escaparia de Alanis Morissette e do seu extremamente popular terceiro disco, Jagged little pill (1995).
Peraí, “terceiro” disco? Sim, porque Jagged era só o segundo ato da carreira de Alanis Morissette. E ainda havia uma pré-história dela, em seu país de origem, o Canadá – em que ela fazia um som beeeem diferente do que a consagrou. Bora conferir essa história?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Capa de Jagged little pill). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
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