Sem medo de errar, dá pra dizer que a vez em que o brasileiro médio foi devidamente apresentado à música eletrônica rolou numa noite de 1986, quando o grupo Dimensão 5 subiu no palco do “Programa Flávio Cavalcanti”, que o Flávio mantinha no SBT em seu fim de vida (ele morreu em maio daquele ano). Quem não era alfabetizado no estilo a ponto de conhecer bandas como Kraftwerk – que já havia passado de sapato alto pela trilha incidental da novela “Brilhante”, da Rede Globo – via em TV aberta músicos experientes fazendo uma boa demonstração de sintetizadores.

Bom, na verdade, tô exagerando um pouco. O Dimensão 5 existia desde 1967, já aparecia na TV faz um tempo (é possível achar outros vídeos deles no YouTube, em programas como o “Perdidos na noite”, de Fausto Silva), tinha até gravado um single que entrou na trilha internacional da novela “O bem amado” (“I’ve been around”, em inglês, creditado a Nathan Jones Group) mas não daria para não prestar atenção nisso: Flavio simplesmente pirou nos teclados do grupo, numa época em que o rock de guitarra-baixo-e-bateria deixava de ser o padrão no Brasil e a tecladaria do RPM virava assunto de mesa de bar.

O vocalista Wilson Medeiros, que hoje cuida das trilhas sonoras do SBT, apresenta aquilo que talvez seja o primeiro uso do teclado sampler (ou coisa parecida) a ser mostrado em rede nacional de TV, com “voz humana gravada em chips de memória de computador que a gente usa nos nossos sintetizadores”. Quem faz a demonstração é Djalma Wolff Monteiro, que é até hoje maestro do programa de Raul Gil.

Já tinha bateria eletrônica na TV desde a época em que a Rede Globo teimou em reviver os festivais da canção nos anos 1980 (“MPB Shell”, “Festival dos Festivais”, etc), mas o baterista do Dimensão 5 liquida a fatura: senta-se no instrumento, faz uma demonstração e mostra que poderia apenas usar uma batida pré-gravada. Depois Djalma, a pedido de Flávio, usa o teclado para fazer sons de clarinete, de cordas, violão. Djalma ainda põe o próprio apresentador para tirar sons de harpa do teclado. Flávio fica mais feliz que pinto no lixo: “Olha aí, século do computador, hein?”

O paredão de televisores atrás de Flávio também era modernão na época, e vendeu muito televisor Philips (eu mesmo tive um desses).

E se você ficou interessado em saber mais sobre o Dimensão 5, o namoro deles com o universo digital continua: o grupo tem até página no Facebook.

(link surrupiado de Leandro Saueia)