Jorge Fernando, ator e diretor, morreu. Gostava das novelas dele, mas a maior lembrança que tenho é que ele fez parte de um dos projetos mais corajosos da televisão brasileira. Essa série aí.

Ciranda Cirandinha foi uma das primeiras séries brasileiras feitas pela Rede Globo, em 1978. A ideia do programa era falar dos problemas que a juventude brasileira tinha na época. Não era brincadeira: o sonho hippie tinha passado e uma renca de jovens já tinha percebido que muita coisa da utopia bicho-grilo não tinha a menor conexão com a realidade. Lembro de ter lido uma entrevista do Daniel Filho, que foi diretor e um dos mentores da série, dizendo que o mote era “o sonho acabou, mas papai não tem razão”.

Pelo “muita coisa da utopia bicho-grilo” acima, entenda-se: os muitos exageros do hippismo, como a utopia de que era possível todo mundo viver em comunidade, e de que havia uma nação Woodstock (no mesmo estado de calamidade pública do festival) para cada jovem. E de que isso tudo era bom.

Jorge Fernando, que ainda não era diretor, fazia um dos garotos que passavam a dividir um apartamento no Leblon – os outros eram interpretados por Fabio Jr, Lucélia Santos e Denise Bandeira. Essa série fez sucesso de crítica. Artur da Távola, que por aqueles tempos era colunista de TV do jornal O Globo, escrevia crônicas e mais crônicas sobre o programa.

O personagem mais interessante da série era uma ovelha negra do grupo, interpretada por Eduardo Tornaghi. Uma espécie de Jim Morrison tupiniquim que, para se tornar mais palatável, ganhou um ar de Charles Bukowski, sempre com uma garrafa na mão. Evidente que o problema do personagem não era bebida: era ácido demais e excesso de messianismo. Não dava pra explicar que o maluco era quase um dublê de Charles Manson numa série exibida na Globo em 1978. A censura poderia até deixar. Mas ninguém entenderia direito (nem a censura).

A série era um bom retrato do que era ser jovem no Brasil de 1978. Vá lá: jovem que frequentava a zona sul carioca e vivia seus white people problems, mas a série era extremamente cativante e os temas eram bem “gente como a gente”. E vale citar que nos anos 1970, ser “xóvem” no Brasil era bem diferente de ser jovem lá fora. Ser fã e consumidor de cultura pop, mais ainda.

Em 1978 o jovem brasileiro ainda curtia rock progressivo. E Led Zeppelin. E os mais avançadinhos estavam curtindo disco music e o rock que se relacionava com ela (Rita Lee, Stones, Fleetwood Mac, um pouco Rolling Stones). E MPB, já que justiça seja feita: Caetano Veloso e Gilberto Gil praticamente criaram o modelo de MPB jovem que vigora até hoje. Punk e new wave, naquela época, no mainstream brasuca, nem pensar. Discos de bandas como Sex Pistols, Stranglers e Blondie eram lançados aqui e iam para as mãos de quem tinha que ir. Ok, Heart of glass esteve na trilha de Pai herói, novelão da Globo em 1979. Com Jorge Fernando como ator, diga-se.

Tinha uma molecada que ouvia reggae no Brasil em 1978. Mas você teria que penar para achar alguém com camisa do Bob Marley circulando pelo Rio – falei disso numa reportagem que escrevi para a Rolling Stone há anos. Era um culto parecido (como diz meu amigo Wagner Fester, DJ) com o daquela galera que curtia música cubana entre os anos 1990 e a década passada. O punk, que ja chamava atenção lá fora, foi uma revolta contra o mainstream do rock e seu distanciamento dos fãs. Só que no Brasil os maiores revoltados contra uma coisa BEM MAIS ESCROTA (a ditadura militar) eram os chefões da MPB. Que tinham mais o que fazer do que pensar no, er, jovem brasileiro.

E voltando a Ciranda Cirandinha, o subtexto da série era bem verdadeiro e corajoso: mostrar que o jovem dos anos 1970, que ia pra universidade e estava tentando começar uma carreira, era um ser humano muito triste.

Era um jovem que tinha perdido várias referências, já que o bonde da cultura pop passara mal por aqui e os ídolos deles ainda eram os de vários anos atrás. Não por acaso, o primeiro episódio termina com todo mundo cantando Bob Dylan. Um ídolo de gerações anteriores. Se eu estivesse na equipe de roteiristas, insistiria para colocar a seguinte fala na boca de um dos garotos do apartamento do Leblon: “Galera, um amigo meu me deu esse LP importado aqui, Sally can’t dance, do Lou Reed. Bora ouvir Kill your sons?”. Primeiro íamos rir muito juntos, depois me expulsariam da equipe de roteiristas.

A tristeza não era só cultural: em 1978 a ditadura militar fazia 14 anos. Quem tinha 16 anos em 1970 (como a personagem da Lucélia Santos) se acostumara a ver a repressão como parte do dia a dia. Era quase como escovar os dentes e tomar banho.

Um outro detalhe curioso no primeiro episódio da série: quando o personagem do Jorge Fernando resolve sair de casa e se juntar aos amigos no Leblon, os pais dele quase se matam. Hoje pode parecer ingênuo tudo isso. Mas ainda havia um outro detalhe: as pessoas nos anos 1970, hum, ficavam velhas mais cedo.

Ok, não fui claro, vamos lá: até os anos 1980, era comum que pessoas com mais de 40 já fossem consideradas “senhores (as)”, pessoas respeitáveis. Fazer 40 já era sinal de velhice ou de estar perto dela. Da mesma forma, longe iam os tempos da juventude de quem já era mais velho. Conflito de geração era mato e, quanto mais conservadora fosse a pessoa, menos ainda ela entenderia as experiencias e os voos que um jovem (de idade ou de espírito) quer ter.

Daí tudo a ver que a série comece justamente pelos dilemas de quatro garotos de 20 e poucos em busca de um lugar pra morar (enfim: um mocó pra fumar um, ouvir um som, ficar na moral). O mais comum é que os mais velhos não entendessem. E tinha muito garoto que, depois dos 18, se ainda estivesse meio perdido na vida, ou era endireitado pelos pais ou posto pra fora de casa. Tem isso até hoje, imagina ha 40 anos.

Por sinal, o primeiro episódio termina com uma cena que, enfim, eu acho bastante tocante e significativa: os personagens começam a arrumar a bagunça feita pelo Joel (Tornaghi) na casa. Ele tem um ataque e começa a destruir o jardim caseiro que a personagem de Lucélia Santos havia montado. A câmera, como se estivesse na janela, mostra cada um deles olhando fixamente por alguns segundos. Como se estivessem sendo vigiados, ou num cartaz de ‘procurado’. Isso resume tão bem o que era ter pouco mais de 20 anos na época, que você pode pular TODO O VÍDEO e ver só isso se estiver sem tempo.

No mais, R.I.P. Jorge Fernando, que – felizmente – não se tornou “aquele ator daquela série dos anos 1970, como é que o nome mesmo?” e revolucionou a teledramaturgia. Mas já merecia ser lembrado só por ter mostrado o jovem dos anos 70 para ele mesmo na TV. Por algum motivo, é essa música que vem na minha cabeça agora. E isso daria um BELO episódio de série brasileira jovem dos anos 1970. Vai aí como homenagem ao Jorge.

Ah, sim, Ciranda cirandinha foi lançada em DVD tem uns anos. E tem outro episódio no YouTube, justamente o último. Pega aí.