Crítica
Ouvimos: Van Morrison – “Somebody tried to sell me a bridge”

RESENHA: Entre o Van Morrison genial e o problemático, Somebody tried to sell me a bridge, seu novo álbum, é um projeto de blues longo demais, mas com ótimos momentos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Exlie Productions
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Complicado falar isso, e serve para cavar tretas, mas existem dois Van Morrisson: o de verdade e o da imaginação. O da imaginação é o cara que compôs verdadeiras enciclopédias musicais, como Astral weeks (o segundo disco, de 1968) e Moondance (1970). O artista que não para quieto e está sempre lançando coisas novas. O sujeito que mostrou que existe um “folk alternativo” – e que existe um cruzamento entre folk, blues, pop de câmara e música irlandesa, além de sons que parecem vir de um lugar muito distante e interiorizado.
“Mas espera aí, esse aí não é o Van Morrison de verdade?”, você há de perguntar. Pode ser, mas o Van Morrison verdadeiro, no duro, é o ser humano que fala besteira, tem uma discografia pra lá de imperfeita e vem testando a paciência dos fãs com songbooks de duração extensa (em que se entrega a estilos como soul, country, jazz, etc). No geral, nada tão diferente assim de encarar o lado médico-e-monstro de outros artistas – ou de perdoar as inúmeras mancadas de nomes bons de música que volta e meia são flagrados pagando comédia.
Vai daí que a chance que valeu a pena dar a Remembering now, disco de Van do ano passado, até vale dar a este Somebody tried to sell me a bridge, álbum focado em covers de blues, com quatro inéditas autorais, e majoritariamente voltado para a música do Texas, de Chicago e Memphis – com convidados especiais de primeira e climatização sonora de época. Mas prepare-se para entrar no universo de Van e encare um disco de 20 faixas e 80 minutos, em que é preciso amar loucamente a estileira do álbum, que tem mais cara de “projeto especial”.
A rigor, essa longa duração é o que mais prejudica o disco, mesmo com a beleza de vários momentos. Van se movimenta entre ragtime, jazz, blues de Chicago, r&b e coisas que lembram Sam Cooke, ou a primeiríssima fase da carreira dos Rolling Stones, com convidados de peso como Taj Mahal (na gaita e nos vocais), Buddy Guy e John Allair (este, no órgão Hammond e B3).
Clássicos como Ain’t that a shame (Fats Domino, em versão “devagar”), Madame Butterfly Blues (Dave Lewis) e Delia’s gone (do blueseiro original Blind Blake, e cuja letra fala sobre feminicídio em 1900) surgem ao lado de canções próprias como o doo wop Social climbing scene e o blues Monte Carlo blues. Outro doo wop do álbum veio das mãos de John Allair e é uma das melhores do disco, (Go to the) High place on your mind.
Não dá pra não notar que a faixa-título do disco, um doo wop cantado em primeira pessoa, fala sobre aquela vez em que Van caiu num conto do vigário, os dados rolaram e ele quase se fodeu sério (a frase “alguém tentou me vender uma ponte” é referência a um clássico da malandragem norte-americana do fim do século 19, época em que o golpista George C. Parker tentava vender a ponte do Brooklyn para manés de plantão). Já sabemos qual foi a última otarice pública de Van e talvez Somebody tried to sell me a bridge, o disco, seja um pedido de desculpas de 80 minutos. Sei lá.
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Crítica
Ouvimos: Barking Poets – “The red EP” (EP)

RESENHA: Power pop punk com alma de Motown, Beatles e Ramones. Barking Poets misturam energia, crítica e ótimas melodias em The red EP.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Engineer Records
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Essa banda de Londres define seu som como “power pop punk que soa como um encontro entre Motown, Beatles e Ramones”. Em The red EP, os Barking Poets unem essa onda sonora a muitas referências do lado mais suingado do punk setentista, como The Clash e The Jam – bandas que, de fato, faziam esse tipo de som herdando características do soul sessentista, numa onda “heroica” que, necessariamente, passava pelas referências do The Who.
- Ouvimos: Niis – Niis world
Nas letras, por sua vez, os Barking Poets abraçam distopias dos novos tempos, falando de guerras de propaganda onde nenhuma bomba é detonada (Modern war), ruínas pessoais (The mess I made, punk-reggae na cola do Clash, e os excessos de Pure blood) e a resistência da arte apesar de tudo (o punk estradeiro Change our ways, dos versos “quatro anos inteiros ligando equipamentos e fazendo barulho / ninguém se importa, ninguém se importa / os sonhos são frágeis quando não há mais para onde ir ou fugir”).
Tem ainda as duas melhores faixas do disco: a lindíssima Arizona, punk com cara power pop, cuja letra é o retrato da paralisia diante de vida – e Losing contact, som intenso de quase seis minutos, com ótimas guitarras, e que deve render muito bem ao vivo. Em Losing, contatos vão se perdendo, aos poucos, numa relação perdida em que uma das pessoas está totalmente fora da realidade e parece ter sido abduzida. Acontece nas melhores famílias.
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Crítica
Ouvimos: Brockhoff – “Easy peeler”

RESENHA: Brockhoff une alt-rock noventista e indie confessional em Easy peeler, estreia sobre amadurecimento, memória e vulnerabilidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: PIAS
Lançamento: 5 de junho de 2026
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O ruído noventista é o combustível do primeiro álbum da alemã Lina Brockhoff, Easy peeler – e o desconforto pessoal e existencial, tanto da época quanto o de hoje, também. Lembrando um mescla de Mazzy Star, Pixies, Soccer Mommy e Kate Bush, a faixa-título abre o álbum falando de relacionamentos difíceis e momentos em que sangue e pele trocam de lugar. The carpet song, na sequência, alude tanto a Weezer e à própria Soccer Mommy quanto a Avril Lavigne (citada em material promocional do disco). A ligeiramente sixties Cruel lembra um Hole mais sensível.
Easy peeler traz uma mistura bem feita de guitarras e melodias do alt-rock dos anos 1990, com a vulnerabilidade confessional do indie atual – e sai numa época em que vulnerabilidades pessoais rendem mais discos do que os momentos em que uma pessoa constantemente atacada precisa se fazer de durona. Willows, balada alt-rock de guitarras circulares e clima soft, fala de aceitação numa cidade pequena (“fiquei entediada enquanto me ocupava pulando poças em uma cidade tão orgulhosa / você acha que eu mereço algo melhor? / você acha que me perdi correndo atrás da multidão?”).
- Ouvimos: Olivia Rodrigo – You seem pretty sad for a girl so in love
Muito de Easy peeler, tanto em músicas quanto em letras, mistura emoções solares e lembranças doloridas – como no sing-along de Sunny day (Deadline), ou no clima imagético do punk-pop triste Blue star. Há momentos em que a coisa ganha ares de “ferrou tudo!”, como em Nothing can be fixed in this place, canção triste de arranjo criativo e produção esmerada, e nas baladas Dirty dream e It never happened, que lembram uma Phoebe Bridgers em tom mais alt-rock e distorcido. Japanese garden, por sua vez, é uma balada distorcida, pesada e quase shoegaze – uma das mais ruidosas do disco.
A atenção a detalhes do dia a dia (jardins, árvores, cantos da casa dos pais, carrinhos Hot Wheels) transformam Easy peeler num disco basicamente sobre crônicas do crescimento. Mas que acaba fazendo sentido em várias fases da vida, como rola no power pop pandêmico I’ve stopped getting chills for a while now (“é o verão de 2020, agosto passou voando / faz um tempo que não fecho os olhos / porque tenho medo de todos os pesadelos que apontam para a mudança que me atingiu”).
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Crítica
Ouvimos: Optic Sink – “Relentless metamorphosis”

RESENHA: No álbum Relentless metamorphosis, Optic Sink transforma filmes de Maya Deren em pós-punk experimental, unindo krautrock, eletrônica vintage e atmosfera fantasmagórica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: DIG! Records
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Banda de pós-punk de Memphis, o Optic Sink surgiu no Pop Fantasma no ano passado com a resenha de seu álbum Lucky number. Conquistou de cara: Natalie Hoffmann, Ben Bauermeister e Keith Cooper se parecem com aquelas bandas que você descobre em coletâneas antigas da Factory – grupos para os quais o Joy Division chegou a abrir shows mas que ficaram no passado, ou que chegaram a ser considerados mais promissores que o New Order por alguns minutos.
Já Relentless metamorphosis, o quarto disco, é quase um álbum que paira acima da discografia do grupo. O disco surgiu de um projeto afetivo da banda, em que eles fizeram trilhas para os curtas-metragens da cineasta vanguardista norte-americana Maya Deren (1917-1961) – eram filmes que cruzavam imagem, dança e vários diálogos artísticos. Havia uma exibição dos filmes de Maya, e o trio foi convidado pelo local da mostra para fazer as músicas e tocar ao vivo enquanto os filmes rolavam.
- Ouvimos: Sri Lanka – Leviathan
“Após a exibição, as pessoas da plateia discutiram com entusiasmo o quão incrível era seu trabalho e questionaram por que nunca tinham ouvido falar dela, mesmo sendo uma influência tão clara para tantos cineastas notáveis”, escreveu Natalie no texto de divulgação do álbum. Relentless metamorphosis contribui para o não-apagamento de Maya investindo em um som cerebral herdado do krautrock e da fase Berlim de David Bowie (The very eve of right, de 15 minutos), e depois em recordações da eletrônica oitentista, mas como se viesse de uma fita bem antiga (A study for choreography).
Meshes of the afternoon chega a lembrar o clima espacial de Radio activity, do Kraftwerk – o som leva o ouvinte lá pra longe e ainda dá certos sustos. Meditation on violence tem clima cerimonial e fantasmagórico, e vai ganhando contornos progressivos inimagináveis, chegando a lembrar artistas como David Sylvian.
Todas as faixas pedem a audição enquanto os filmes rolam na tela, mas o filme Meditation on violence, de 1948, com sua coreografia bela e crua, explorando o ritual Wu-Tang, vira outra coisa quando se ouve com a música ao fundo. Sincronize como você já fez com The dark side of the moon e O Mágico de Oz.
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