Lembra de quando um lado B do The Cure abria a entrevista semanal do Roda Viva? Vamos por partes.

Em primeiro lugar, apesar de Robert Smith, cantor do The Cure, e Morrissey, líder dos Smiths, nunca terem se entendido, as duas bandas têm uma semelhança meio bizarra. Isso porque ambas têm na discografia coletâneas que, para muitos fãs, valem como álbuns normais.

No caso dos Smiths, Hatful of hollow (1984) e The world won’t listen (1987) cumprem esse papel. E no caso do grupo de Boys don’t cry, a compilação de singles Standing on a beach (1986) é tão boa que foi recebida pelos fãs, pelo menos aqui no Brasil, como álbum de carreira. Afinal, unia compactos bacanas como Charlotte sometimes e A forest, e ainda disponibilizava certas músicas pela primeira vez no país.

A versão K7 de Standing on a beach, com quase um dezena de bônus no lado B (incluindo vários singles raros) era mais poderosa ainda. Na edição brasileira, trazia na capa a inscrição “grátis: faixas inéditas no lado B” para indicar isso. Aliás, grátis o cacete: algumas lojas vendiam a fita por um preço bem alto, alegando que “tinha músicas a mais” e valia como K7 duplo. Por sinal, quando o disco foi lançado em CD, até mesmo no Brasil, ganhou o nome de Staring at the sea.

Aliás, Standing on a beach influenciou tanta gente que uma das faixas do tal lado B, a tribal Splintered in her head, foi parar na trilha do programa Roda viva, da TV Cultura.  Não apenas isso: ficou lá por um bom tempo, de 1985 a 1994.

Olha ela inteira aí.

Splintered in her head, um quase instrumental (a letra é mínima e só aparece depois da metade da faixa), era uma canção beeem sinistra, e um clássico obscuro da fase menos alegrinha e mais gótica do Cure. Apareceu no lado B do single Charlotte sometimes, de 1981, e lembra não muito discretamente Joy Division.

Tanto ela quando Charlotte sometimes tiveram letras inspiradas justamente pelo livro infantil Charlotte sometimes, escrito pela britânica Penelope Farmer. Aliás, Splintered… teve seu nome tirado de um capítulo do livro.

O jornalista Valdir Zwetsch, então diretor de programas jornalísticos da TV Cultura, lembra que era praxe da estação ir fuçar nos lados do rock para escolher temas de programas.

“Do tema do Metropolis, que lançamos praticamente junto com o Roda Viva, lembro bem. É um instrumental do Art of Noise, Opus for four, em clima meio classicoso, bem legal. A vinheta durava um minuto. Fizemos imagens aéreas de São Paulo à noite… Ficou lindo, diferente. Mas teve gente que não entendeu”, conta ele, lembrando que a ideia de usar a música do Art Of Noise na abertura veio do então diretor de programação, Giba Colzani.

(o título e a ideia desse texto foram roubados de Alex Antunes e da comunidade Death Disco Machine)

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