O cantor e compositor carioca Rafael Balla, que lidera a banda Balla E Os Cristais, avisa que tudo no disco de estreia do grupo, Jogo do bicho, é uma provocação. A banda une samba e rock a ponto de incluir releituras de Leci Brandão (Zé do Caroço) e Gonzaguinha (Comportamento geral) no álbum. Canta, última música do disco, traz referência a um clássico perdido de Zé Rodrix, Circuito universitário.

Por sinal, o álbum (produzido pela própria banda) abre com o balanço ácido de Vocês são todos idiotas. Que é a abertura da maioria dos shows do grupo, divido por Balla (voz e violão) com Brunno Martins (guitarra), Rick Ferreira (baixo) e Gustavo Almeida (bateria). A frase, repetida na letra, não ofendeu ninguém das plateias da banda até o momento.

“Não que tenha chegado até a gente. As pessoas sabem o que é uma ironia, e se sentem energizadas com isso, com a coragem ou a possibilidade de gritarem alto coisas como isso, pro chefe, pro babaca que te fechou ali na esquina, pra quem votou errado”, conta o vocalista. “A contrapartida vem quando eu digo que também sou idiota, que fazemos parte todos de um mesmo ciclo compartilhado, de erros e acertos, nobrezas e egoísmos diários, tendo que lidar com outros dogmas e origens e enquanto isso, nos moldando enquanto sociedade. Se um babaca resolve falar o que quiser do alto de sua varanda de frente pra praia e fala merda, com gente pra ouvir, é culpa toda minha, toda sua, que esse cara esteja por aí. É culpa nossa eleger os governantes que elegemos, por isso somos todos idiotas”.

“VOCÊS SÃO TODOS IDIOTAS”

E o fato de ser um rock com batida de samba causa algum estranhamento?

“A batida do violão lembra mais uma caixa de maracatu, um gonguê, algo assim, mas a progressão é de samba, e algumas chamadas entre os breques – uma característica puramente brasileira – lembram a chamada do surdo no samba. Tudo isso faz com que quem gosta de rock reconheça rock na nossa sonoridade, quem gosta de música brasileira reconheça música brasileira na nossa sonoridade, e tudo isso é maravilhoso, é essa linguagem híbrida tropicalista que buscamos, sempre abordando a estética do choque, do impacto”, diz.

Andam dizendo é bem direta ao falar sobre um certo lado segregador do underground do Rio e sobre um certo “subproduto de pop ralé”. Mas não é recado para ninguém.

“É um recado para mim mesmo, pra não me deixar nunca me tornar um cara isolado na minha arte, blindado, tanto nas minhas convicções quanto nos meus ambientes e trocas artísticas. Acho que fala sobre a fundamentação de guetos dentro da cena carioca em específico, guetos que não dialogam entre si, que se discriminam e, principalmente, esquecem que a cidade não é feita apenas de Zona Sul e Lapa”, diz Balla.

“O artista da Zona Sul, que só toca na Zona Sul pra outros jovens da Zona Sul, não tem qualquer vontade de sair da bolha. Se tem, raramente sai. São os mesmos parceiros, os mesmos públicos, aquele mesmo tipo de música. Aí a turma não só não chega na quebrada, como também passa a não ter qualquer importância para ela. Que é onde existe o mundo de verdade”, continua.

“ANDAM DIZENDO”

Já Leci e Gonzaguinha surgiram no repertório dos shows e foram ficando. A de Leci apareceu por ter “uma pegada rock, de linguagem e de explosão na estrutura melódica que me impressionava” e surgiu na época de montar o primeiro show. “Comportamento geral foi mais porque nosso arranjo virou um ponto alto nos shows. Foi nossa música mais executada no Spotify em sua versão ao vivo. Então faz parte da história desse primeiro álbum. Fora a similaridade estética com a lírica que a gente pesquisa, ácida”, conta o vocalista.

Você escuta Jogo do bicho, estreia de Balla e Os Cristais, abaixo.

Foto lá de cima: Gabriela Perez (Divulgação)