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Crítica

Ouvimos: Les Rallizes Dénudés – “Disque 4 -’76 studio et live”

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Mistério, ruído e lenda: arquivo do Les Rallizes Dénudés traz o Disque 4 -'76 studio et live e resgata o caos existencial do guitarrista Takashi Mizutani.

RESENHA: Mistério, ruído e lenda: arquivo do Les Rallizes Dénudés traz o Disque 4 -’76 studio et live e resgata o caos existencial do guitarrista Takashi Mizutani.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Temporal Drift
Lançamento: 8 de maio de 2026

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Li uma vez uma história em quadrinhos, talvez do Angeli, em que o personagem era um pintor tão antissistema que suas pinturas… não existem. ou melhor, só existem na mente dele, porque ele nem sequer pintava nenhuma delas (!). Uma zoeira com os famosos criadores que nunca criavam nada e ainda reclamavam da falta de oportunidades, claro. Mas bem que dá pra brincar um pouco com a história do Les Rallizes Dénudés, uma banda japonesa de noise rock que existiu / não existiu entre 1967 e 1996 (provavelmente). E cujo radicalismo a levava a nem sequer gostar de fazer gravações em estúdio. Apresentações vistas por um bando de sortudos são lembradas, ou imaginadas, até os dias de hoje (é possível ver algumas coisas no YouTube, mas com som e imagem ruins).

O criador do grupo era o guitarrista Takashi Mizutani, que para muita gente é bem mais do que um heroi da guitarra – ganhou status quase religioso, de culto musical e existencial, por causa da música ruidosa e perturbadora da banda. Nem sempre esse culto funcionou a favor de Takashi, que se afastou voluntariamente da mídia e morreu em 2019. Textos com muitas informações truncadas, além de fantasias triunfais sobre sua vida e obra, já saíram publicados. Sabe-se que a mente de Takashi deu um enorme giro após um fato que mudaria a história da banda: o baixista do grupo, Moriaki Wakabayashi, que pertencia ao Exército Vermelho Japonês, participou em 1970 do sequestro de um Boeing da Japan Airlines, forçado a pousar na Coreia do Norte. Moriaki e os outros sequestradores viraram heróis na Coreia do Norte e passaram a morar lá – e a banda ficou desfalcada.

Pra você ter uma ideia de como o nome de Mizutani passou a significar nada mais do que mistério, o jornalista Grayson Haver Currin decidiu em 2014 achar o músico e entrevistá-lo – mas em vez disso, achou um monte de pistas falsas e pessoas relatando supostos hábitos bem estranhos de Takashi, como o de só responder jornalistas via fax e de madrugada. A crônica-reportagem escrita por Grayson saiu publicada no site da The Red Bull Academy e traz declarações de John Whitson, criador do selo norte-americano Holy Mountain, que dão a medida do sumiço não apenas de Takashi, como de sua história enquanto músico.

“Não é como se fôssemos encontrar um disco perfeito do Les Rallizes Dénudés. Não existe um disco perfeito. É como quando um arqueólogo encontra um prato quebrado”, contou ele, que também se mostrou acostumado com fãs do grupo fantasiando em torno de meia dúzia de informações. “Se você simplesmente diz: ‘Bem, o baixista sequestrou um avião para a Coreia do Norte e esses caras são demais’, sua mente consegue preencher as lacunas de maneiras muito interessantes. É o que todo mundo faz”, afirmou. Ainda assim, lá pelos anos 1990, o músico passou por um reaparecimento – deu até um show numa galeria de arte no Japão, que está no YouTube.

 

E aí que, com o passar dos anos, finalmente, foram aparecendo lançamentos do Les Rallizes Dénudés, banda bastante influenciada pelo existencialismo francês (daí o nome, que já foi entendido como uma variação da frase sem sentido “les valises dénudés”, as malas nuas) e, ao que dizem, por bandas como Velvet Underground e Blue Cheer.

Na real, o Japão sempre foi um país cheio de experimentação musical – não foi à toa que Yoko Ono veio de lá. E o fato de Mizutani talvez nem precisar de referências dos EUA-Inglaterra para produzir sua música só aumenta a mística. Mas Disque 4 -’76 studio et live, disco de arquivo que sai agora, põe mais umas pecinhas nesse quebra-cabeças.

Ele traz gravações feitas em estúdio no ano de 1976, que haviam sido catalogadas num raríssimo surto midiático de Mizutani – foi em 1991, quando decidiu resgatar material do Les Rallizes Dénudés e lançou três CDs. Disque 4 seria um quarto CD que ele estava planejando, mas que acabou voltando para a gaveta do músico. O material tem a mesma onda associável ao ruído japonês, que algumas pessoas associam também às tais influências de Velvet Underground, mas dá para imaginar mais referências ainda.

Boa parte das sete longas faixas do disco são baladas de tom sessentista, mas devidamente apodrecidas pelos ruídos da guitarra de Mizutani, com distorções, microfonias e golpes violentos nas cordas. Fallin’ love with / Romance of the Black Pain otherwise fallin’ love with, na abertura, tem algo de Suicide, por causa do eco nos vocais. Reapers of the night já vai para um lado pré-punk, com distorções, bateria feroz e socada e um som que pode ser associado bandas como Neu!. The night wind, the candle flame at dawn traz sete minutos de cadência invariável – é uma balada em clima ruidoso, com baixo à frente, e guitarra fazendo ruídos por trás.

Se Takashi estava mesmo escutando pré-punk, Suicide e krautrock, sabe deus. Dá pra perceber algo de canção francesa em Bird calls in the dusk, música contemplativa demais para os padrões do grupo, com reveberação psicodélica nos vocais. Assim como há um ar definitivamente bubblegum em The night, assassin’s night. Já White awakening soa como Raveonettes no espaço sideral – e vai ganhando barulho e peso na sequência.

Disque 4 -’76 studio et live tem ainda uma faixa bônus do CD (disponível para compra no Bandcamp) que anima qualquer fã de barulho obscuro. The last one, de 14 minutos, abre lembrando a psicodelia californiana, e quase confirmando as tais histórias de que Mizutani não apenas era fã de Blue Cheer como tocou numa banda cover deles. O que parecia uma música quase “normal” vai virando aos poucos uma torrente perturbadora de barulho. Um detalhe bem louco é que há versões de quarenta minutos (!) dessa música ao vivo (olha aí embaixo do texto).

Disque 4 é, de verdade, mais uma peça sumida do quebra-cabeças de Takashi Mizutani e do Les Rallizes Dénudés, Mas ainda faltam muitas peças, e provavelmente várias delas nunca nem existiram – vieram da mente de alguém.

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Ouvimos: Veps – “ChurchyardStreet8B”

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Resenha: Veps – “ChurchyardStreet8B”

RESENHA: Veps mistura indie pop, pós-punk e clima lynchiano em ChurchyardStreet 8B, disco curto, sombrio e cheio de melodias elegantes.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: PNKSLM Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026

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Veps é um quinteto feminino norueguês, cujo som pode ser definido tranquilamente como indie pop – talvez até por falta de uma definição mais exata, já que o som delas é um rock chique, com influências quase cinematográficas. Tanto que você consegue imaginar muita coisa do universo de David Lynch ouvindo ChurchyardStreet 8B, terceiro álbum do grupo.

ChurchyardStreet 8B já entrega sua união de vibes confessionais e clima experimental logo na vinheta de abertura – What we mean when we say ‘hello’?, 51 segundos abertos por uma guitarra totalmente minimalista (o “riff” é uma só nota) e um belo diálogo entre piano e baixo. Depois disso, as Veps oscilam entre country, punk e Phil Spector em Walking (My black dog), carregam na mistura de distorção e melodia em Didgeridoo, e se aproximam do começo do R.E.M., só que com uma cara mais sombria e pós-punk, em Payday – esta tem melodia e arranjos com surpresas, e vocais ótimos.

Álbum curtinho e direto (nove faixas, 27 minutos), o terceiro da Veps soa completo, coisa rara em discos com poucas faixas. Músicas como My champagne socialist e o pós-punk misterioso Nice guy trazem de volta os anos 1960 lidos pelos anos 1980, enquanto At the point é um soft rock sombrio, com clima fantasmagórico dado por um riff de teremin.

Completando, tem a vibe velvetiana-lynchiana de Week 18. Além do beat seco, quase krautrock, e da melodia bonita de If I was a mother, uma música em que a perspectiva da maternidade faz surgir sentimentos misturados. “Se eu fosse mãe, espalhada por aí / eu construiria um ninho para você / esperaria por você, eu sei que ficaria tão orgulhosa / se você fosse uma criança, sem penas e barulhenta (oi?) / eu cantaria para você dormir”, diz a letra.

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Crítica

Ouvimos: Vários – “CarioCaos: Poder popular” (EP)

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Resenha: “CarioCaos: Poder popular” (EP)

RESENHA: Punk, rap, eletrossamba e caos carioca: o coletivo CarioCaos discute poder popular num EP chamado… Poder popular.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Bonde Music
Lançamento: 30 de maio de 2026

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Democracia se constrói apenas com voto? Talvez seja isso que muita gente quer que você acredite: afinal, para certo tipo de “pessoa pública”, nada mais legal que um eleitor corno-manso que fica no canto dele e só se manifesta (e mal) nas eleições, certo? Enquanto você pensa sobre o assunto, o coletivo CarioCaos, que une bandas e artistas que vão do punk ao rap em poucos minutos, reúne suas cabeças para discutir sobre isso (e sobre várias outras coisas) no EP CarioCaos: Poder popular.

808 Punks, Disstantes, Miçanga e Partido da Classe Perigosa, os integrantes da turma, abrem o papo ao som do cyber rap em Cypher do CarioCaos 2.0: Poder popular, e cantam-rappeiam sobre milionários que vão para o chão, lideranças falsas, massas organizadas que viram revolução. E lembram que “a rua é nossa urna / eles te querem só votando, esperando sentado” (olha aí, ó). Bets, arte e música saindo por todos os cantos do Rio, por sua vez, são os combustíveis do krautrap GGG, dos Disstantes (leia-se Gilber T e Homobono, gênios do som carioca e da distopia musical).

Falando em distopia, tem o eletrossamba selvagem de Miçanga e sua Bárbara dos Prazeres – além da reunião de bacanas para bolar campanhas eleitorais canalhas com dinheiro cagado, que surge em Chuva de milhões (XTREME 26KRMX), faixa dos 808 Punks – grupo que une programações, baile funk e baile punk, e soa meio Ministry nessa faixa.

O final é porradaria pura, com o Partido da Classe Perigosa pregando e rimando em Chega de esculacho. Leonel Brizola aparece num sample exortando os jovens a tomarem seus destinos nas mãos – e o grupo avisa que o futuro é do trabalhador cheio de ódio na venta (“vai ser bala, e não no voto / vê se não perde mais tempo e vê se aprende a atirar”).

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Ouvimos: Genesis Owusu – “Redstar Wu & The worldwide scourge”

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Resenha: Genesis Owusu – “Redstar Wu & The worldwide scourge”

RESENHA: Genesis Owusu mistura rap, pós-punk e soul em Redstar Wu & The worldwide scourge, disco político, caótico e inventivo sobre racismo, bilionários e esperança.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Ourness Pty Ltd.
Lançamento: 15 de maio de 2026

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Genesis Owusu (Kofi Owusu-Ansah, na certidão de nascimento) é um rapper bastante criativo de 28 anos, nascido em Gana, mas radicado em Canberra, na Austrália. Compará-lo com Tyler The Creator chega a ser sacanagem, mas os dois têm algo em comum: ambos dispensam batalhões de produtores e aparatos que transformam discos em filmes, com equipes de criação e vários profissionais. Redstar Wu & The worldwide scourge, seu terceiro disco, nasceu da parceria dele com o neozelandês Dann Hume, e o próprio Owusu compôs várias faixas do álbum sozinho.

O som de Redstar Wu é uma caldeirada de rap, britpop, indie dance, reggae, música eletrônica e, dependendo do caso, até trap, com Genesis fazendo algo mais do que apenas misturar estilos – até porque o storytelling de seu disco deve tanto à contação de histórias de Public Enemy e De La Soul, quanto ao clima variado dos Beatles pós-1966. Deve também ao punk rock mais cabeludo: Owusu cita fatos e nomes, e no eletrorap Pirate radio, canta: “Elon é um completo esquisito / quem deu dinheiro para esses incels?”.

  • Ouvimos: Earl Sweatshirt, MIKE, Surf Gang – POMPEII / UTILITY

Temas como racismo, Gaza, direitistas, bilionários, fãs de bilionários e fãs de Kanye West são quase uma obsessão no universo de Redstar Wu, que passam nada voando por músicas como Stampede (dance-punk com versos como “procuro empatia / o amor foi deixado sozinho”), o reggae + kraut rap Hellstar (com o rapper norte-americano Duckwrth) e a new wave sombria de Falling both ways. Rola também na onda rap + pós punk de Most normal american voter e Death cult zombie, dois hinos das fake news de direita e dos ídolos da renca mais escrota de eleitores – com direito à citação dos nomes de Sean Hannity (comentarista político conservador) e Andrew Tate (influencer macho-alfa).

The worldwide scourge, por sua vez, pode chegar fácil nos ouvidos de quem curte o rap + fluxo de consciência de Earl Sweatshirt – e tem, curiosamente, uma poesia ácida que lembra Mano Brown (“todo mundo continua sorrindo na minha cara como se fosse uma brincadeira / como se o mar não tivesse virado pedra e o ácido, chuva / como se um cifrão pudesse limpar a ética, a moral e a vergonha / eleja um simpatizante nazista no topo da maldita moldura”).

Blessed are the weak une a felicidade do soul setentista a uma letra que sugere um uso mais feliz da violência: “Atirador, atirador, por que você não abaixa sua arma? (…) / direcione sua raiva para a corporação bilionária de alimentos tóxicos / aquela que fez o fígado da sua tia gelificar e coagular”.

A viagem sonora e existencial de Genesis chega na vibe robótica de 4life e até na onda meio The Cure, meio rap de Runnin’ outta time – encerrando com a beleza oitentista de One 4 all, pop adulto com coral fantástico e letra sobre amizade, fraternidade e vitória apesar das pequenas derrotas do dia a dia. No final, tudo é protesto – e tudo é luta e esperança.

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