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Cultura Pop

Quando o New Order virou banda de hair metal num clipe

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Na finaleira dos anos 1980, o evangelismo televisivo ocupava espaços na TV norte-americana com uma competência invejável. Já havia reflexos disso no Brasil desde os anos 1970, claro, mas nos Estados Unidos, naquele período o assunto chegava à música (o Anthrax cantava “fé por dinheiro, faz-me rir” em Make me laugh) e ao cinema independente, com o novaiorquino Salvation!, dirigido pela cineasta no wave Beth B.

O filme unia atores a uma turminha ligada à música no elenco, apresentando Stephen McHattie, Viggo Mortensen (em seu primeiro papel no cinema), Exene Cervenka (vocalista e letrista da banda punk X) e Dominique Davalos (da banda Dominatrix). Não está inteiro no YouTube, mas várias cenas podem ser encontradas no site de vídeos.

Salvation! era uma comédia de humor ácido envolvendo tele-evangelismo, falta de grana e perspectivas, sexo, traição e (vá lá) heavy metal. Foi lançado no dia 31 de maio de 1987, não chegou a ser um enorme sucesso e nem ganhou edição em DVD com o passar dos anos. Teve um orçamento até que interessante em se tratando de um filme underground – 800 mil dólares foram investidos. E acabou sendo um dos projetos para o cinema com os quais o New Order se envolveu durante a época de muito sucesso do grupo, já que a banda britânica foi bastante ativa na composição da trilha do filme.

Lançamento da gravadora Factory, a trilha de Salvation! teve outras participações além do NO: Dominique Davalos, Cabaret Voltaire e até o produtor Arthur Baker faziam contribuições. O New Order fez um trabalho suado: Beth B procurou a banda pessoalmente e pediu músicas para o filme. O grupo compôs uma série de temas instrumentais que achou que poderiam servir para a produção, feitos no prazo rápido de uma semana. Parecia que iria dar certo.

Faltando um dia para completar o deadline, Beth pediu “uma canção” para o filme. Que acabou sendo feita pela banda durante uma noite, em meio a idas do vocalista Bernard Sumner ao clube Haçienda, em Manchester. O cantor teria esbarrado com Bez, dos Happy Mondays, por lá, e voltado para casa cheio de (segundo o baterista Stephen Morris) “inspirações” – enfim, provavelmente voltou repleto de alguns dos petiscos ilícitos que o tocador de maracas vendia por lá. A música partiu de uma linha de synth bass de Peter Hook, ganhou melodia de sintetizador de Gillian Gilbert, samplers de Stephen e “todo o resto” foi feito por Sumner.

Touched by the hand of god, o resultado dessa sessão rápida, virou single em 7 de dezembro de 1987, e representaria uma passagem da banda para o som cada vez mais dançante e tecnológico – que eles fariam em Technique, disco gravado ao longo de 1988 e lançado em 30 de janeiro de 1989.

Também abriria espaço para uma gracinha que muita gente viu na MTV Brasil nos anos 1990: o clipe da faixa, dirigido por Kathryn Bigelow, que trazia o New Order virado em grupo de heavy metal farofa. Com direito a luzes que caberiam num clipe do Mötley Crüe (o vídeo de Girls, girls, girls costuma ser apontado como a fonte de inspiração), perucas, um keytar para Gillian Gilbert e um cuecão de couro para Peter Hook. Bill Paxton, ator de filmes como Alien – o oitavo passageiro, fazia uma participação.

Consta que a ideia de recriar um clipe de hair metal foi do empresário do New Order, Rob Gretton. O clipe teve produção de Michael Shamberg, que em 1986 havia produzido a comédia Clube Paraíso, com Robin Williams, o que já dava uma ideia do ar de paródia envolvido na situação. Se o New Order ousava desrespeitar uma regra máxima dos clipes da MTV e detestava dublar canções, lá estavam eles se esforçando no lip sync, em situações que eram bem anti-New Order. Bom, nem tanto: Peter Hook costumava bancar o “deus do rock” quando tocava baixo e tinha uma atitude bem mais rocker do que a dos colegas.

Aliás, só para citar, a Warner, que distribuía a banda nos EUA, não quis nem saber do single e do clipe. Shamberg suspeita de que a gravadora não curtiu justamente ver a banda desempenhando papeis que não eram comuns a eles, e que poderiam confundir quem não conhecia o grupo. O NO havia conseguido sucesso com o single de True faith pouco antes de Touched, e  a gravadora apostava mais no remix 1988 do hit Blue monday, produzido pela banda ao lado de Quincy Jones. E essa é outra história, que se bobear a gente conta depois.

Cultura Pop

Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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Cultura Pop

No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Samuel Rosa, “Rosa”

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Ouvimos: Samuel Rosa, "Rosa"
  • Rosa é o primeiro disco solo de Samuel Rosa, ex-cantor e principal compositor do Skank. O disco foi produzido por ele e Renato Cipriano. Na capa, há uma pintura de Stephan Doitschinoff, que faz referência a várias músicas do disco. 
  • A banda solo de Samuel é formada por Doca Rolim (violão e guitarra), Alexandre Mourão (contrabaixo), Pedro Kremer (teclados) e Marcelo Dai (bateria e percussão). Alexandre é amigo de infância de Samuel e tocou com ele no Pouso Alto, grupo que ele teve com outro ex-Skank, Henrique Portugal, nos anos 1980.
  • No material de divulgação, Samuel diz não ter procurado se diferenciar do legado que o Skank deixou. “Eu não queria agora buscar compulsivamente fazer algo que eu nunca fiz. Quero exercer o que eu sou”, afirma Samuel Rosa. “Minha marca é meu patrimônio”.
  • Boa parte do material foi feita entre janeiro e fevereiro, em sessões matinais que duravam de três a quatro horas (e que Samuel chama de “composição induzida”). “Era disciplina mesmo, eu me comprometi a chegar todos os dias com uma música nova de tarde e mostrar para banda, ainda que fosse ruim, boa, média, sem julgamentos”, conta ele.

Eu (eu, Ricardo Schott, autor desse texto), esperava que a estreia de Samuel Rosa como solista corresse para dois lados distintos. A partir da capa, que lembra a de discos de Jorge Ben como A tábua de esmeralda e Solta o pavão, cheguei a pensar que o ex-Skank fosse cair dentro da experimentação rítmica que marcou discos do grupo, como O samba Poconé, ainda que sob um viés 2024. O outro lado: Samuel voltaria com cara beatle, unindo as mesmas influências e referências de Paul McCartney e Wings que marcaram sucessos de sua ex-banda, como Mandrake e os cubanos, Amores imperfeitos, Vou deixar e Mil acasos (e eu esperava mais ainda por isso).

Pois bem: Samuel voltou com um disco de MPB-pop. Ou de pop adulto contemporâneo com uma ou outra influência de rock dos anos 1960 e MPB das antigas. É o que – analisando bem – era mais provável que fosse acontecer, e era o que já dava para vislumbrar pelo single Segue o jogo.

Se tinha um lado do Skank que seria lembrado num eventual disco solo dele, seria o mais tranquilo: o de músicas como Balada do amor inabalável e Resposta. Por outro lado, falta uma pérola MPBística-rock-pop como Dois rios no disco. Os achados do álbum são bossas pop como Não tenha dó (essa, lembrando BASTANTE a Balada), Bela amiga (a faixa mais bonita do disco) e Segue o jogo, além do britpop anos 2020 Rio dentro do mar, e da disco music discreta de Flores da rua. Uma pista: segundo matéria do O Globo, uma playlist com bandas como Shins e Wilco rolou na época da elaboração do álbum.

Curiosamente, Rosa abre com duas canções que soam familiares para fãs antigos do Skank: o reggae folk Me dê você e o reggae brasileiríssimo Ciranda seca (Dinorah). A já citada Não tenha dó, por sua vez, ganha uma continuação na valsa-pop Aquela hora – parceria com Rodrigo Leão, e a música do disco que mais transparece influências de Lô Borges. Marcada por um pianinho suingado e de poucas notas na abertura, Tudo agora, por sua vez, parece uma sobra de discos mais recentes do Skank, como Velocia (2014).

No fim das contas, é um disco que reúne várias caras diferentes de sua ex-banda, e nem poderia ser diferente no caso de um grupo no qual o próprio Samuel era o maior arquiteto sonoro. Faz falta uma certa esquisitice (no bom sentido) que o Skank tinha, até mesmo quando estourava músicas em trilhas de novela ou levantava multidões.

Nota: 7
Gravadora: Sony

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