Cultura Pop
Tira-teima: Surfer Rosa x Doolittle

Como muita gente, conheci os Pixies através da rádio Fluminense FM, que começou a tocar Where is my mind? pelos idos de 1988. Como muita gente, estranhei aquela porra. A voz esquisita, as guitarras altíssimas, a letra impenetrável?—?gostei de cara. Adquiri meu Surfer Rosa por acaso, no ano seguinte: eu tinha emprestado este disco aqui prum amigo e o pai desse amigo o quebrou (é uma longa história, talvez eu conte um dia aqui.) Para compensar, o cara se ofereceu para pagar outro LP, e eu escolhi o SR.
Doolittle (que completou 30 anos nesta semana, com direito a relançamento em vinil) veio, estranhamente, antes. Nos anos 80, era comum que os discos lançados no exterior demorassem meses, até anos, antes de terem lançamento nacional. Surfer Rosa chegou com tipo um ano de atraso. Até eu conseguir minha cópia do dèbut, a Fluminense (via o programa Novas Tendências) já tinha tocado o segundo disco na íntegra. Atento, gravei tudo (quase tudo?—?num lado de uma fita de 60 minutos, não couberam as duas últimas músicas, então para mim, por um bom tempo, o Doolittle acabava com Hey, e não com Gouge away). A fitinha rodou o mundo, emprestada, devolvida e copiada por aí, até que afinal botei as mãos no vinilzão nacional, creio que em fins de 1990.
Por muito tempo, o segundo disco dos Pixies foi meu favorito inconteste na obra dos caras. Mas o Surfer Rosa veio crescendo com os anos. Vários amigos preferiam SR, especialmente depois da edição em CD, que vinha com o EP Come on pilgrim de bônus. Em 2010, enquanto contava os dias para o segundo show da banda no Brasil, o primeiro que eu conseguiria assistir, matutei sobre qual dos dois, afinal, seria o melhor. Em vez de apelar para achismos e tergiversações, resolvi tirar a questão a limpo usando métodos (mais ou menos) científicos, seguindo 12 critérios (mais ou menos) objetivos. Senão, vejamos:
VENDAS: Doolittle foi o primeiro álbum dos Pixies a ganhar um Disco de Ouro nos EUA (por vendas de mais de 1 milhão de cópias). A marca foi atingida em 1995. Surfer Rosa só chegou ao milhão 10 anos depois.
PLACAR: Surfer Rosa 0 X 1 Doolittle.
ACLAMAÇÃO CRÍTICA: Tenho a impressão, meio empírica, que a crítica, ao menos a mais esnobe, sempre preferiu o Surfer Rosa ao Doolittle. Afinal, o primeiro tinha produção do Steve Albini, era mais “sujo”, “anguloso”, “agressivo”, “estranho” e “underground”, fez menos sucesso (ver VENDAS, acima) e não tinha qualquer música fofinha como Here comes your man. Consultando o site www.rocklist.net, que compila listas de melhores do ano/década de diversas publicações americanas e inglesas, vê-se que SR é mencionado 29 vezes, eDoolittle, 23. Ainda que na lista do Pitchfork de melhores discos dos anos 80, o segundo álbum dos Pixies tenha se classificado na frente do primeiro. E que o Allmusic aponte Doolittle, e não SR, como o melhor da banda. Acho que nesta deu empate.
PLACAR: Surfer Rosa 1 X 2 Doolittle.
PRIMAZIA: Surfer Rosa marca um ponto extra por ter sido o disco de estreia da banda. Isso conta, e muito, ao se considerar impacto e inovação. A primeira impressão é a que fica (que o diga o Jesus and Mary Chain).
PLACAR: Surfer Rosa 2 X 2 Doolittle.
FAIXA DE ABERTURA: Escolher a faixa de abertura de um álbum é uma arte, uma ciência, uma habilidade quase desaparecida nesses etéreos tempos de MP3. Quando a primeira música de seu disco é também a (provável) melhor faixa de abertura da história do rock, aí fica difícil competir.
PLACAR: Surfer Rosa 2 X 3 Doolittle.
FAIXA DE ENCERRAMENTO: Por mais que eu goste de Gouge away, neste quesito SR é quem marca. Brick is red encerra o disco de modo seco e marcante. Para mim, é uma das músicas mais características da fase inicial da banda.
PLACAR: Surfer Rosa 3 X 3 Doolittle.
MOMENTO KIM DEAL: Outro ponto para o début, que traz Gigantic, o ponto alto de Kim no grupo. Silver, do Doolittle, é massa, mas não chega nem perto.
PLACAR: Surfer Rosa 4 X 3 Doolittle.
ARTE: Já caminhando para um terreno bem mais subjetivo, prefiro a capa/encarte do Surfer Rosa ao macaquinho de Doolittle. Mas, ao meu ver, a arte do disco de estreia é uma peça importante no conjunto de estranhezas que acompanhavam o grupo. A foto da capa é uma imagem luxuriante, meio barroca até, que conjuga bem algumas das obsessões de Black Francis?—?sexo (óbvio), religião (há um crucifixo na parede), cultura hispânica. Ao mesmo tempo, o tom sépia conferia uma atmosfera sinistra, ameaçadora ao pacote. Marcante, muito marcante.

PLACAR: Surfer Rosa 5 X 3 Doolittle.
MELHOR MÚSICA: Prosseguindo com as subjetividades, aqui Doolittle ganha de SR, mais uma vez por conta de Debaser?—?que é, a meu ver, melhor que River Euphrates, minha favorita no Surfer. Ou seria Break my body? Sei lá.
PLACAR: Surfer Rosa 5 X 4 Doolittle.
PIOR MÚSICA: Doolittle perde neste quesito. SR é mais coeso em sua insanidade: não há muitos altos e baixos, todo o repertório mantém um nível de inspiração. Já o outro álbum investe em curiosidades (La la love you) e em outras passagens, apela para a encheção de linguiça (There goes my gun, ?13 baby).
PLACAR: Surfer Rosa 6 X 4 Doolittle.
MELHOR GRITO: Sempre um debate difícil, tratando-se dos Pixies. Por mais que River Euphrates, Break my body e Something against you contenham berros impressionantes, meu voto definitivo fica com Tame, do segundo disco.
PLACAR: Surfer Rosa 6 X 5 Doolittle.
NÚMERO DE MÚSICAS NO MEU MP3 PLAYER: Bem antes de sequer pensar em escrever este post, fiz uma megacompilação de músicas soltas, extraídas da minha CDteca, e passei-a para meu iPobre®. Na comparação entre as faixas extraídas dos dois discos, deu Doolittle com oito (Debaser, Tame, Wave of mutilation, Dead, Monkey gione to heaven, Mr. Grieves, Silver e Hey) e SR com cinco (Break my body, Something against you, River Euphrates, Cactus e Brick is red).
PLACAR: Surfer Rosa 6 X 6 Doolittle.
PLACAR FINAL: Surfer Rosa 6 X 6 Doolittle. Conclusão: inconclusiva. Com Doolittle eu aprendi a amar os Pixies, mas as qualidades óbvias e exclusivas de SR foram saltando mais e mais aos ouvidos com o passar dos anos. Depois de uma estreia tão original e impactante, os Pixies poderiam ter sucumbido à Síndrome do Segundo Disco®, que vitimou bandas como Television, Sugarcubes, o supracitado (acertei agora?) Jesus and Mary Chain e os Stone Roses (e o Ultraje a Rigor, para citar um caso local). Sem repetir ou diluir o que fizeram no début, Black Francis & Cia. afinaram o repertório, aprenderam a soar “acessíveis” e ampliaram ainda mais seu apelo. O primeiro definiu-os para o mundo; o segundo mostrou do que eles poderiam ser capazes. Fique com ambos.

Texto publicado originalmente no Telhado de Vidro, blog de Marco Antonio Barbosa no Medium.
(mais Pixies no POP FANTASMA aqui)
Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
Cultura Pop
Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
Ver essa foto no Instagram
Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































