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Ouvimos: The Black Keys, “Ohio players”

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Ouvimos: The Black Keys, "Ohio players"
  • Ohio players é o décimo-segundo álbum de estúdio da banda norte-americana The Black Keys – na verdade uma dupla formada pelos músicos e compositores Dan Auerbach e Patrick Carney. A produção é dos dois, ao lado de Dan The Automator.
  • O nome do álbum faz referência ao grupo de funk norte-americano Ohio Players, uma das mais sólidas formações de soul e funk dos Estados Unidos – e que existe até hoje. Foram os caras do hit Love rollercoaster, gravado pelos Red Hot Chili Peppers (e de Here today, gone tomorrow, cantada por David Bowie em shows).
  • Beck compôs praticamente tudo com a dupla e participa de sete faixas, tocando vários instrumentos e fazendo backing vocals. Noel Gallagher (o próprio) colabora na composição de três faixas, e toca guitarra em On the game.

Paulocoelhalmente falando, a lenda pessoal dos Black Keys parece ser unir soul, funk, blues e indie rock por um viés que lembra o das bandas bubblegum dos anos 1960/1970. Muita coisa que rola em Ohio players é associada não apenas ao próprio Ohio Players, como também às formações brancas lançadas por selos como Buddah, e que se inspiravam em artistas de soul e r&b, e do começo do rock. Ou nas viagens menos pop de grupos como Osmonds. É o que rola em faixas como Only love matters, You’ll pay e This is nowhere, entre várias outras.

Não só isso: Beautiful people (Stay high), uma das melhores do disco, tem um ar musical que lembra, simultaneamente, Primal Scream, da fase Screamadelica, e Tony Joe White, compositor de Elvis Presley (entre outros artistas) que gravou solo nos anos 1970. Live till I die põe psicodelia e clima dançante num heavy-soul herdado de N.I.B. do Black Sabbath. Read em and weep une riffs de surf music, e vocais e batidas tirados de algum girl group esquecido no tempo. I forgot to be your lover é um clássico do soulman norte-americano William Bell relido pelo grupo, e dá a cara de trilha internacional de novela que os Black Keys precisavam – como um dia o Faith No More precisou de Easy, dos Commodores, enfim.

Candy and her friends, unindo rock-soul dançante e uma segunda parte de hip hop (com Lil Noid) soa como os Red Hot Chili Peppers deveriam ter soado em vários de seus discos mais recentes – simultaneamente uma união de pop-rock melancólico e batidas dançantes como a dos próprios Ohio Players. Paper crown vai fundo nas influências de funk do grupo, que constrói uma de suas melhores faixas, com linhas de baixo bacanas e junção, na segunda parte, de hip hop (via Juicy J) e vocais e batidas soul-psicodélicas. Every time you leave, pesada e dançante, com ritmo dado por palmas, evoca Queen, e evoca Phil Collins. Please me (Till I’m satisfied) é quase a Sympathy for the devil deles, mais suja, mais dura e (se é que é possível) mais tribal, com ritmo dado por guitarras slide e batidas.

O novo capítulo da história dos Black Keys tem um comparsa importante: Beck (sim, o de Loser, e outros hits) compôs quase tudo com a banda, soltou a voz em cinco faixas e ainda tocou muita coisa. Se você não olhar a ficha técnica, e conhecer razoavelmente a obra de Beck, vai achar tudo parecido demais com seu disco Midnite vultures (1999) e não é à toa. O que significa que este Ohio players não é apenas um disco dos Black Keys, mas um trabalho quase colaborativo (compare a lista de músicos participantes, enorme, com as listas relativamente pequenas de álbuns anteriores). E que possivelmente vai fazer a diferença para Dan Auerbach e Patrick Carney hoje e daqui a dez anos.

Nota: 9.
Gravadora: Easy Eye Sound/Nonesuch

Crítica

Ouvimos: Osees – “Cara maluco” (EP)

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Osees surpreende com o EP Cara maluco, lançado sem aviso. Quatro faixas que vão do stoner espacial ao country punk sombrio, fechando com delírios curtos e experimentais.

RESENHA: Osees surpreende com o EP Cara maluco, lançado sem aviso. Quatro faixas que vão do stoner espacial ao country punk sombrio, fechando com delírios curtos e experimentais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: DEATHGOD CORP
Lançamento: 6 de março de 2026

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Se existe uma banda que ama bugar seus fãs, é o Osees / Thee Oh Sees. Além dos vários discos lançados, dos projetos malucos (como o lançamento de uma caixa retrospectiva em cartucho) e da vocação para se dividir em vários, John Dwyer, o cara por trás do nome, curte fazer umas surpresas de vez em quando. Como esse Cara maluco, um EP de quatro músicas que saiu de supetão, sem explicação nenhuma – quem fala português e curtiu o título, que espera por alguma entrevista de Dwyer em que ele comente o assunto.

Cara maluco vai sair também em vinil, num EP de doze polegadas com “um lado B gravado” (com músicas extras?). Osees usou de vez a skin “stoner espacial” na faixa título, um rock pesado e voador de sete minutos, encerrado com samples do nome da faixa sendo pronunciado com sotaque. Joro, na sequência, é country punk sombrio, com vocais bem graves e vibe tão stoner quanto a da música-título. O final é com duas músicas bem curtas, Synaptic static, que parecem a mistura exata de Gong, Pixies e a trilha de algum videogame alucinado, e Joy in oblivion, estranho mix de Public Image Ltd e rock progressivo (que guarda algumas lembranças de Nite expo, faixa do Orc, de 2017).

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Crítica

Ouvimos: Backengrillen – “Backengrillen”

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Black metal, hardcore e jazz viram “destruição total do ruído” no Backengrillen: sax como guitarra, clima sombrio e caos antifascista.

RESENHA: Black metal, hardcore e jazz viram “destruição total do ruído” no Backengrillen: sax como guitarra, clima sombrio e caos antifascista.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: independente
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

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Um fã dessa banda sueca definiu no Bandcamp o som deles como “destruição total do ruído”. Na verdade, o Backengrillen é a destruição total de muita coisa, não apenas do ruído. Afinal, trata-se de uma banda que une black metal, hardcore, jazz underground e porradas sonoras climáticas – o tipo de música que impõe respeito pelo que vem chegando, e não pela pancadaria de cara.

Os dez minutos de A hate inferior, que abre o álbum, são exatamente isso: você até enxerga algo de Iron man, do Black Sabbath, naquela fanfarra ao contrário da abertura (com bateria, baixo e sax). Mas só se dá conta de que está diante de algo violento de verdade quando os berros, o peso e os efeitos de som tomam conta dos falantes. O saxofone quase sempre soa como uma guitarra no-wave, ou como um esmeril transformado em instrumento musical. Dör för långsamt, na sequência, abre com um pesadelo anti-psicodélico de flauta, baixo distorcido, bateria marcial e vozes selvagens. Até completar doze minutos, segue com poucas notas , gritos e um clima de marcha pra belzebu (e não para Jesus).

  • Ouvimos: M(h)aol – Something soft

Como se não bastasse, mesmo sendo uma banda com foco no instrumental, o Backengrillen é uma banda anti-fascista, do tipo que se imagina criando um cenário sonoro assustador para algum porco capitalista – algo que atrapalhe o sono de alguém. Os integrantes Dennis Lyxzén (vocal), Magnus Flagge (baixo) e David Sandström (bateria) vêm do Refused (por aí, são chamados de “a banda jazz-punk que se originou do Refused”), e o saxofonista/flautista Mats Gustafsson é bem veterano.

O disco do Backengrillen completa-se com mais três faixas. A no-wave maníaca de Repeater II, que é a menor do álbum (pouco mais de seis minutos), faz lembrar os Stooges do disco Funhouse (1970), maior modelo existente para quem pretende unir punk e jazz – e é marcada pelo sax distorcido percorrendo toda a faixa. Backengrillen, que dá nome ao disco e à banda, tem intro com baixo melódico e clima mais misterioso do que propriamente ameaçador. Depois vai ganhando vibe de pós-punk + post rock, com baixo, bateria e flauta + sax.

O final, com Socialism or barbarism, é impressionante: distorções surgem como barulho de incêndio ao longe, e que se transformam num vento que varre e lambe tudo – até que uma onda sonora ganha batida de drum’ n bass e vai se transformando num meio de caminho entre Iggy Pop e a Yoko Ono de Why? (faixa de abertura de Yoko Ono / Plastic Ono Band, de 1970). Ousado e barulhento.

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Ouvimos: Calopsita – “O revoar”

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RESENHA: Calopsita mistura glam, pop e clima teatral em O revoar. Entre Bowie, Tori Amos e grunge 90s, cria canções delicadas e dramáticas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 21 de novembro de 2025

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Cantora e compositora do Rio, Calopsita cita nomes como David Bowie, Letrux, Tori Amos e Fiona Apple como influências de seu disco O revoar – cujo som é bem próximo também da força e da delicadeza do Radiohead, em faixas como a teatral Au revoir e em boa parte de On the beaten track. Essa última tem uma cara bem anos 1990, chegando perto igualmente do grunge, enquanto Trouble boy, aberta com bateria reloginho e piano, vai do pop oitentista ao David Bowie do disco Aladdin sane (1973) em poucos minutos.

  • Ouvimos: Pina Palau – You better get used to it

Essa vibe teatral e glam é o que dá mais cara própria ao som de Calopsita – dá para sentir as referências, mas ao mesmo tempo tudo é filtrado de forma particular, como se fosse a construção da trilha de uma peça. O glam-pop-rock de Sem mais disfarces aproxima o disco de bandas como Heart, enquanto Chameleon eats catterpillar usa tom sombrio para contar a história da letra, lembrando Tori Amos, o Bowie de The man who sold the world (1970) e o comecinho do Ultravox.

O final é com o tom infantil de O revoar (cantada em francês) e Sunlit morning, sons que às vezes ficam próximos de Beach Boys, às vezes do folk triste. Tudo muito bonito e delicado.

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