Crítica
Ouvimos: T. Greguol, “Bum”

- Bum é o quarto disco solo do músico paulista T. Greguol, que contou com participações de vários amigos músicos (guitarristas como Alexandre Duayer e Eric Hirsch, tecladistas/pianistas como Gastão Guedes e Roberta Chamlet, bateristas como Lauro Lellis, além de outros instrumentos) num experimento musical feito a partir de um teorema matemático.
- No total, foram 26 músicos. “O disco foi criado de forma conjunta com os artistas à medida que eu enviava as partes que criava para determinar os espaços de tempo em que os instrumentos deveriam ou não entrar na música”, diz Greguol. O teorema que gerou o disco foi transcrito pelo matemático especialista em ciências de dados David Cecchini (e está no encarte digital do disco).
Bum é mais uma experiência do que um álbum. A faixa-título é a única música completa do álbum, com 16 minutos, trazendo uma peça de jazz influenciada por artistas como John Cage, Ornette Coleman e H. J. Koellreutter. No restante (Tum, Bdu, Bléin, Plim e Ffó), cada faixa traz a aparição solo – ou em duplas – dos instrumentos restantes, e de quando eles foram se adequando ao teorema matemático do qual partiu o disco. O tal “teorema bum” pode ser aplicado a qualquer projeto musical.
A duração inteira do disco é de quase uma hora e meia. Quem ouvir tudo do começo ao fim, vai embarcar numa experiência que transforma cada parte da faixa numa faixa à parte, com seus próprios começo, meio e fim. Como numa música que, na aparência, é bastante livre – mas que, no caso, obedece uma lógica tramada anteriormente, em que tudo foi inserido em dados.
Para quem quiser ouvir decifrando como cada detalhe foi criado, o encarte digital do disco traz a fórmula matemática, as partituras e a maneira como cada instrumento, ou grupo de instrumentos, foi alocado na composição. Música em detalhes, para ouvir com tempo disponível.
Nota: 8
Gravadora: Independente
Crítica
Ouvimos: The Spells – “The night has eyes”

RESENHA: Banda cult dos anos 90, The Spells lança enfim em vinil o inédito The night has eyes: garage rock psicodélico, gótico e minimalista, gravado em 1997.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Garganta Press
Lançamento: 31 de outubro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
The Spells é a melhor banda que você nunca ouviu na vida, o maior clássico do rock do anos 1990 que ninguém (a não ser uma turma de sortudos que viu a banda tocando ao vivo) conhece. Nicole Barrick (guitarra e vocais), Marisa Pool (baixo e vocais) e Leni Zumas (drums) uniram-se em 1995 em Austin, Texas, e encerraram atividades em 1998 em Nova York, deixando para trás um disco gravado e nunca lançado, The night has eyes. Que só agora ganha edição em vinil – e no Bandcamp.
- Ouvimos: Wire – Nine sevens (box set)
The night has eyes foi gravado em novembro de 1997 em Nova York, sob a produção de um cara chamado Gale Talenfield. O som de Marisa, Leni e Nicole era basicamente garage rock com cara sessentista, ambiência quase “perdida” no espaço (som minimalista, com muitos ecos), subtexto gótico e bruxuleante. Lilith abre com beat lembrando os clássicos de Bo Diddley, mas logo ganha aspecto de marcha indianista e psicodélica. Vanishing act tem muito de Kinks, mas os vocais são quase falados – e a guitarra, estlingada, tem muito de Dick Dale e surf music sessentista. A marcial Strange tem baixo à frente e junta universos ligados ao pós-punk e ao pré-punk, simultaneamente.
Por aí já dá para ter uma ideia do que essas três aprontavam, musicalmente falando. Só que ainda tem mais: a valsa garage rock ritualística de Snow White’s coffin (“o caixão de Branca de Neve”), o cruzamento de Breeders e Coven de The night has eyes, a vibe Patti Smith + PJ Harvey da sussurrada e assustadora Isadora e as vibes herdadas de Velvet Underground das quilométricas If the world should end tonight e Yumiko – essa, com letra falada e cantada, na onda de The gift, do Velvet. Apesar do minimalismo sonoro, cordas e teclados dão as caras em momentos especiais e escolhidos do álbum.
The night has eyes ficou para trás após o fim da banda (num papo com a It’s Psychedelic Baby Mag, a banda conta que a separação se deu por causa de “maus hábitos que pioraram”) e nunca saiu. Recentemente, uma cópia da fita original foi encontrada pelo grupo (as três ainda são amigas) numa caixa de sapatos – Greg, o produtor, foi procurado pelo trio e disse ter o master original. The night has eyes sai numa edição completíssima, em que se destaca um livreto de 16 páginas com fotos inéditas do grupo, tiradas nos anos 1990 por Nick Zinner, guitarrista do Yeah Yeah Yeahs. Antes tarde do que nunca, chega a público a cara mutante e garageira do rock novaiorquino noventista.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Jade – “That’s showbiz baby!”

RESENHA: Na estreia solo That’s showbiz baby!, Jade troca traumas do Little Mix por pop dançante e empoderado, com bons momentos e letras às vezes ingênuas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Sony Music
Lançamento: 12 de setembro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
O Little Mix, banda da qual Jade Thirlwall fez parte, deu a ela uma boa dose de alegrias – mas também altas doses de aporrinhações, traumas e coisas do tipo. Girl groups sob a tutela de gravadoras e empresários costumam ser verdadeiros moedores de carne, e ela vem falando em entrevistas que as situações de bullying que costumavam acontecer com ela desde a adolescência, por causa de sua ascendência árabe, só fizeram aumentar com o trabalho. Se That’s showbiz baby!, a estreia solo de Jade, tem uma vantagem extra-musical, é a de que agora ela se sente verdadeiramente empoderada e faz questão de colocar isso nas músicas.
That’s showbiz baby!, apesar do título, está bem longe de ser um inventário de mágoas – até porque Jade costuma falar de suas dores fazendo dançar. Por outro lado, é estranho ver que às vezes Jade soa meio fora da realidade até no universo pop que ela conhece bem – como na ingenuidade de letras como FUFN (Fuck you for now), que diz “te amo mas você me decepcionou / não tenho mais palavras” e Plastic box (nessa, ela reclama que achou cartas antigas do namorado para uma ex, todas escritas antes de ele e Jade se envolverem, e fica com ciúmes retroativos).
Isolando esse lado, que torna o disco de Jade uma experiência bem menos imaginativa do que, por exemplo, os álbuns de Lana Del Rey, That’s showbiz baby! entra na tendência do pop para fazer dançar, sem margem de culpa. Rola no r&b + eletrorock Angel of my dreams, no clima sacana de Lip service, na ostentação do rap It girl, na dance music noturna e sexy de Midnight cowboy e no clima Bruno Mars + Prince de Fantasy – esta, uma das melhores do álbum. Unconditional passou por sessões de queimação de mufa que valeram a pena: Jade fez uma música em homenagem à sua mãe, diagnosticada com lúpus – só que é uma dance music com clima oitentista, chegando a lembrar o dance-pop de artistas como Tiffany.
Glitch, dance music baseada em erros de gravação – que dominam letra e música – é uma das mais criativas do álbum. Agora, os tempos de Little Mix surgem devidamente comentados na balada blues Natural at disaster, desomenagem a uma amiga tóxica (provavelmente a ex-colega de banda Jesy Nelson, com quem está brigada após uma série de lavações de roupa suja). Versos como “é difícil te amar quando você se odeia / não consigo estar presente para você sem afetar negativamente minha saúde mental” soam meio estranhos, como se tivessem sido escritos de forma a tornar a letra mais “intelectual” do que propriamente pop – mas ninguém duvida que Jade se esforçou para tornar That’s showbiz baby! uma experiência com a qual muita gente pode se identificar.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Africa Express – “Bahidorá”

RESENHA: Africa Express cruza sons afro-latinos em Bahidorá, gravado no México, misturando hip hop, reggaeton, jazz e pop colaborativo sem diluir identidades.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: World Circuit
Lançamento: 11 de julho de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Correndo atrás de lançamentos importantes de 2025 que escaparam do nosso radar, confessamos que demoramos para ouvir o novo disco do Africa Express – coletivo que faz discos colaborativos fundindo ritmos e estéticas africanas de uma forma que o som consegue ser pop sem ser diluído e sem soar como apropriação pura e simples. O extenso Bahidorá foca no som afro-latino: foi gravado no festival de mesmo nome, no México, e une nomes como o fundador Damon Albarn, Moonchild Sanelly e Alan Vega, do Suicide, além de vários nomes da música africana e dos sons mexicanos.
- Ouvimos: Bad Bunny – Debí tirar más fotos
O resultado dos vários encontros ao longo do disco gera igualmente vários encontros musicais, como o hip hop + jazz de Otim pop, o trap + reggaeton de Mi lado, as steeldrums e a eletrônica de Seya, o dance-punk latino de Chucha, e uma espécie de dream pop latino em Douhan ouhllin. Frenemies é um sim afro-cubano e, simultaneamente, meio beatle, com cuidado na melodia, enquanto Adios amigos, no final, pode passar por blues psicodélico e indianista. Uma curiosidade daquelas em Bahidorá é a presença de Panico (Cuelga el DJ), reggae cigano baseado em Panic, do Smiths.
Ao lado de Albarn e dos outros criadores do projeto, uma turma que inclui as cantoras Luisa Almaguer e La Bruja de Texcoco, o produtor e compositor Alansito Vega, o projeto Joan As Police Woman, o grupo britânico de art rock Django Django e o Mexican Institute Of Sound. Ouça com disposição e vontade de aprender.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Cultura Pop5 anos agoLendas urbanas históricas 8: Setealém
Cultura Pop5 anos agoLendas urbanas históricas 2: Teletubbies
Notícias8 anos agoSaiba como foi a Feira da Foda, em Portugal
Cinema8 anos agoWill Reeve: o filho de Christopher Reeve é o super-herói de muita gente
Videos8 anos agoUm médico tá ensinando como rejuvenescer dez anos
Cultura Pop7 anos agoAquela vez em que Wagner Montes sofreu um acidente de triciclo e ganhou homenagem
Cultura Pop9 anos agoBarra pesada: treze fatos sobre Sid Vicious
Cultura Pop8 anos agoFórum da Ele Ela: afinal aquilo era verdade ou mentira?






































