Crítica
Ouvimos: Supervão, “Amores e vícios da geração nostalgia”

- Amores e vícios da geração nostalgia é o segundo álbum da banda gaúcha Supervão. O release do disco explica que ele “explora as nuances entre amor, vício e nostalgia, refletindo as experiências e dilemas de uma geração marcada pelo frequente sentimento de saudade – sensação que remete muitas vezes a situações que essa geração nem viveu, mas apenas conheceu por meio da arte e de outros artefatos midiáticos”.
- O grupo foi formado em 2016 em São Leopoldo (RS), por Mario Arruda e Leonardo Serafini, e ampliou a formação em 2024 acrescentando Olimpio Machado no baixo e Rafaela Both na bateria.
- Bandas como The Strokes, The Smiths, El Mató a un Policía Motorizado, Men I Trust e Happy Mondays são citadas como influências do grupo.
O segundo álbum da banda gaúcha Supervão soa como manifesto de geração – só que é uma geração beeeem esticada, que vai dos 20 e poucos aos 50 e poucos, passando pela indefinição dos 30. A “geração nostalgia” e seus vícios inclui o apego a estéticas antigas, claro. Mas em muitos casos, a estética criada há 20 e tantos anos ainda funciona muito bem e é tão moderna que nem dá muita vontade de mexer. Daí a sonoridade entre o power pop e o tecno, entre o indie rock anos 2000 e o lo-fi, que domina o álbum.
É esse o som das duas primeiras faixas do álbum, Love e vício em sunshine e Nostalgia. Ou de faixas como Androids – esta, familiar para quem acompanhava o guitar rock dos anos 1990, e acabou partindo disso para a adoração a bandas como Strokes e Franz Ferdinand (e The Drums, um fantasma que paira discretamente sobre algumas faixas do álbum, mesmo talvez nem sendo uma das influências primordias do grupo).
Amores e vícios da geração nostalgia vai pro dream pop anos 1980, na cola de bandas como The Sundays, em Querendo um tempo (com a voz doce de Papisa), une guitarras emparedadas ao clima pop de uma canção do Skank em Cabelo, experimenta uma levada próxima a de bandas como The Jam em Tudo certo para dar errado parte 2, e retorna ao indie anos 2000 em Noia York, que encerra com trompete psicodélico e vozes de fundo. Mas o que mais gruda na mente é a noção de que “o passado não volta e quando volta, é diferente”, como eles mesmos dizem na letra de Androids. Rock e conceito de mãos dadas.
Nota: 8,5
Gravadora: Frase Records
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Crítica
Ouvimos: Waterboarding School – “Steer clear” (EP)

RESENHA: EP Steer clear, do Waterboarding School, mistura pop sessentista, psicodelia e sujeira punk para falar de ansiedades estranhas do dia a dia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: BlackValley Records
Lançamento: 6 de março de 2026
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O Waterboarding School, essa banda sueca de nome sarcástico (“escola do afogamento simulado” – sendo que afogamento simulado é uma espécie de tortura) já teve seu terceiro álbum, The little sports mirror, comentado aqui. O EP Steer clear é uma continuação do disco anterior em clima meio sessentista e, às vezes, quase psicodélico. Recordações de bandas como XTC permeiam o “lado A”, com as faixas Funcionalty e Living a lie.
- Ouvimos: O Grande Ogro – O Grande Ogro (EP)
Na segunda metade de Steer clear, Nonsense chega a lembrar o Pink Floyd do começo, mas ganha clima quase beatle depois, enquanto Complaints tem uma cara de pop sofisticado sessentista, com partes diferentes, mas tudo acrescido de alguma sujeira punk. Nas letras, por sua vez, o Waterboarding School fala de um dia-a-dia bem estranho em que pessoas preferem fazer tudo para mudar, menos fazer terapia, e em que todo mundo é assaltado por problemas bem estranhos no meio da noite. Se identificou?
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Crítica
Ouvimos: Liquid Mike – “Hell is an airport”

RESENHA: Hell is an airport, do Liquid Mike, mistura emo, power pop e punk-pop em faixas curtas e urgentes — boas ideias que às vezes acabam rápido demais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7
Gravadora: AWAL
Lançamento: 12 de setembro de 2025
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Hell is an airport, sexto álbum do Liquid Mike, é um disco curto – as duas primeiras nem têm dois minutos e surgem emendadas, caindo logo na terceira faixa. Essa noção de continuidade marca o comecinho do álbum, que surge repleto de hinos emo, canções próximas do power pop, e alguns temas mais sombrios – como AT&T, que tem uma onda hip hop (rola até um scratch) e lembra um Red Hot Chili Peppers depressivo. Selling swords tem a mesma pegada emo, mas é uma balada folk com violões e percussões.
- Ouvimos: Charm School – Schadenfreude ploy (EP)
Esse clima punk-pop, de guitarras pesadas, letras emocionadas e clima acessível, é o melhor de Hell is an airport, passando também pelas emanações de Weezer e Teenage Fanclub de Meteor hammer, pela mordacidade de Groucho Marx (de versos como “você realmente não quer saber o que pergunta no espelho / você vai se encolher e morrer? / ok, eu também” e “nunca acaba bem / mas ninguém prometeu que acabaria”) e pelas heranças de bandas como Goo Goo Dolls e Soul Asylum em músicas como Claws e Double dutch.
Problema: o Liquid Mike funciona quase sempre na base do “vai ser bom, não foi?”, com músicas que acabam rápido demais – Grand am, power pop bacana, acaba sendo interrompida (cortada!) bem rapidamente. Essa urgência excessiva tira um pouco a graça da audição e dá um certo ar de mixtape a Hell is an airport, como se o espírito dos EPs que a banda lançou ainda estivesse um pouco lá. De certa forma está.
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Crítica
Ouvimos: Raging Lines – “Smile blank”

RESENHA: Smile blank, estreia do norueguês Raging Lines, mistura new wave, pós-punk e synthrock em clima sombrio que lembra New Order, Smiths e Duran Duran.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de fevereiro de 2026
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Sondre Thomassen Thorvik é um jovem músico norueguês (nasceu em 2002) que já teve sua voz comparada a de ninguém menos que Michael Gira, criador dos Swans. O Raging Lines é um projeto individual que ele criou para dar vazão à sua preferência por estilos como new wave e dark rock, e para ter todo o controle musical, já que ele compõe, canta e toca guitarra, baixo e bateria.
Smile blank, o disco de estreia, já espalha brasa para o lado do New Order em Walk with me, bastante associável a discos do grupo como Republic, de 1993 – muito embora a voz de Sondre seja bem grave. Seu vocal ganha mais força (e agudos dosados) no synthrock caseiro de Yamaha 237, que tem lembranças de The Killers e Duran Duran. E soa como algo das profundezas na dance music leve de Don’t bring me down, e em You stay away, que faz lembrar algo entre Smiths e Talk Talk.
- Ouvimos: Feira Popular – Feira Popular (EP)
Musicalmente, Smile blank tem também coisas mais próximas do indie rock anos 2000, como a suingada Let me know. Já Heartbreak all over again e Things to make it true unem power pop e rock sessentista com muitas bandas dos anos 1970/1980 fizeram (Pretenders, The Cars etc), enquanto a faixa-título explora a vibe melódica do pós-punk gótico, com vocais que curiosamente lembram uma mescla de Morrissey e Jim Morrison, se é que é possível. O mesmo clima rola em Too dramatic, too paralyzed, pós-punk que encerra o disco lembrando até mais a carreira solo do ex-cantor dos Smiths.
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