Crítica
Ouvimos: Salmos, “Salmos” (EP)

- Salmos é o EP de estreia da banda de mesmo nome, formada por Sergio Wong (voz, guitarra e baixo) e Carlos Ernesto (bateria). O disco foi produzido por Lisciel Franco, que também fez a mixagem e a masterização.
- O disco foi gravado em mídia analógica no estúdio ForestLab, no Rio de Janeiro.
- A banda foi formada em 2018 e inicialmente era só um projetinho criado em cadernos de escola, que foi se tornando uma banda de verdade gradualmente. “Carga emocional, inevitáveis movimentos da vida, isso é o que Salmos é pra mim”, explica Wong.
Salmos, o EP epônimo do projeto de Sergio Wong e Carlos Ernesto é a prova de que o rock, em 2025, vai acabar apontando para uma mistura sonora filtrada pelos anos 1990. Cala boca, a faixa de abertura, abre em clima de Nirvana, e a poética crua da letra lembra bastante o estilo de Kurt Cobain – posteriormente, a faixa ganha um aspecto mais tranquilo e rock + MPB.
Persiana, regravação do primeiro single do projeto (2019), tem uma cara meio soul, mas lembra o estilo de produção de Steve Albini, com foco em pratos, baixo e eco, e tom misterioso. A boa Água de piscina tem riff distorcido e batidão meio punk, meio samba. Vale, de qualquer jeito, apontar que a letra da faixa traz um desencanto com todas as faces da política brasileira que soa meio desatualizado numa época em que já se conhece o pior de todos os lados. Ela abre apontando para o emo, e ganha uma inusitada batida de bossa nova.
Infância, a melhor do disco, surge como um rock tranquilo, com som entre o emo e o grunge, prossegue com uma letra repleta de boas frases (“a não ser a infãncia/não sinto falta de nada”) e vira algo próximo da crueza do Sonic Youth. Ouro Preto, música de sete minutos que talvez pudesse ter tido pelo menos uns dois minutos cortados, começa com uma batida circular na guitarra, ganha um andamento próximo do blues, e depois chega perto do som de bandas como Cloud Nothings.
Nota: 7,5
Gravadora: Cavaca Records
Lançamento: 14 de novembro de 2024.
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Crítica
Ouvimos: Nekra – “Is it really living?” (EP)

RESENHA: No novo EP, Is it really living?, o quarteto londrino Nekra cruza hardcore, noise rock e punk em cinco faixas sobre machismo, capitalismo, submissão e resistência, com riffs pesados e vocais gritados.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Você realmente vive ou apenas sobrevive? É isso que o quarteto punk feminino Nekra quer que você pense com seu novo EP, Is it really living? Vindo de Londres, o grupo encaixa misturas de hardcore e noise rock nas cinco faixas do disco, e capricha na porradaria, tanto em músicas quanto em letras. Os vocais são sempre gritados, e as / os fãs de bandas como Ratos de Porão e Exploited vão curtir bastante o som.
“Viver”, no caso, é não se adaptar às regras de submissão de uma sociedade machista – como elas cantam em Bad bitch stomp, música em que avisam: “nós nunca nos encaixamos no molde / nunca conseguimos passar / seus ideais de virtude / nunca foram para nós”. Venas é porradaria séria cantada em espanhol, enquanto All we got is us abre com ruído de transmissão (como numa rádio que avisa a hora da guerra), ganha riffs metálicos e enfileira palavras de ordem: “nunca confie em mentiras vindas de mãos ensanguentadas / o império precisa cair / a hora é agora / precisamos atender ao chamado”.
No final do EP, Risk factor considera a vida sob o manto do capitalismo uma farsa, e põe uma pergunta na mente: “é viver se estivermos vivendo por empréstimo?”, cantam / gritam / protestam. Pancadaria punk de valor.
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Crítica
Ouvimos: Paper Hats – “Once was enough” (EP)

RESENHA: No EP de estreia Once was enough, o londrino Paper Hats cruza noise rock, punk, garage, metal e drum’n’bass em músicas barulhentas sobre morte, desespero, inadequação e relações frustradas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 26 de maio de 2026
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Vindo do circuito under de Londres, o Paper Hats (que acabou tendo que colocar um UK em seu nome por causa de algum xará) é daquelas bandas que gostam de fazer barulho. Olha só esse causo contado pelo baixista Gabe Khitarishvili-Awde a respeito de Tether, uma das melhores faixas desse EP de estreia, Once was enough.
“O som estridente do amplificador de guitarra sozinho levou o medidor de decibéis do estúdio ao limite”, disse. “Nosso guitarrista, Sam, girava a guitarra para longe do amplificador para que todas as frequências ressoassem – era possível ouvi-las mesmo com todo o isolamento acústico da sala de controle. Há uma sensação de que um zíper está sendo puxado bruscamente nos seus ouvidos cada vez que os acordes rítmicos tentam abrir um buraco em meio à microfonia”.
É por aí, já que Tether, do alto de seus quase sete minutos, abre esparsa e levinha, mas já dá a entender que vem por aí algo bem ameaçador, por causa dos ruídos de guitarra – tem algo de Television no som, mas é como se o Television se apaixonasse por Black Sabbath, e Tom Verlaine tivesse Tony Iommi como ídolo. Na letra, os recados de alguém que vive contando os próprios dias, como se viver doesse: “Tema sua morte a vida toda / serei o primeiro a pular, esperando sua presença atrás de mim”.
O EP começa no desespero e no grito, com o curioso garage-noise-rock romântico (pode acreditar!) de Sharp. Completando, o Paper Hats ainda apresenta o punk hendrixiano de Dedux, o aviso de perigo de D’Artagnan (que letra é essa? “a morte significa complicações / não só não sei o que vem a seguir / como também estou sofrendo com o que ficou para trás”) e o rock + drum’n bass sujo de Grin rho, sobre um cara que em definitivo não foi feito para relações casuais (“eu te disse oi tantas vezes / mas claramente não era o que você merecia / me desculpe por ser eu mesmo quando eu deveria ter sido outra pessoa”). Que deprê pesada.
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Crítica
Ouvimos: Look Into The Abyss – “Dissociate”

RESENHA: Em Dissociate, a curitibana Look Into The Abyss cruza emo, pós-hardcore, screamo, gótico e metal em músicas sobre depressão, abusos, ansiedade, autodestruição e mudança.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de abril de 2026
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“Nosso disco é um solene lembrete de entendimento, estagnação, persistência e mudança de hábitos”, avisa a banda curitibana Look Into The Abyss. Dissociate, novo álbum do grupo, é também um tratado forte sobre pressão, depressão, abusos e o que fazemos conosco depois de passar por tudo isso. No caso, dissociar também é criar novas maneiras de enfrentar tudo isso – mais ou menos como o Nirvana buscou falar em In utero (1993), ou como o Hole fez em Live through this (1994).
Dissociate tem climas que oscilam entre emo, pós-hardcore e gótico, chegando perto do screamo em Cycles, uma música sobre raiva reprimida, e na onda quase death metal de Abyss (“quanta verdade você consegue suportar? / sacuda sua gaiola / nos tornamos a soma de tudo que tocamos”), ou na valsa emo + nu metal de Eyes on me, ansiedade social em verso e porrada.
As melodias acompanham a amargura de faixas como Stagnant by the time (único verso: “estagnado quando tive que aprender a andar novamente”), Breath it out (que recomenda: “fique longe do abismo / você não sabe o que existe lá / você não sabe / ninguém sabe”). Why, um emo sombrio e violento, e Distant voices, com algo de System Of A Down na composição (embora passe um bom tempo só com voz e baixo), ensinam que a autodestruição é um vício e um perigo.
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