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Crítica

Ouvimos: Ryuichi Sakamoto, “Opus”

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Ouvimos: Ryuichi Sakamoto, “Opus”

Não dá para escutar Opus, álbum duplo de despedida do músico japonês Ryuichi Sakamoto (1952-2023) – e trilha sonora do filme de mesmo nome, que mostra seu último concerto, dado em 2022 – sem se sentir tocado/tocada por um sentimento muito diferente e estranho. O mesmo sentimento que provavelmente todos os fãs de David Bowie tiveram ao escutar Blackstar, a despedida do cantor, programada de fato para ser seu último lançamento.

Assim como o álbum de Bowie, Opus lida, mais do que com o fim da vida, com a observação do passado. E com a passagem para uma outra etapa, seja lá qual ela for, e seja lá o que estiver implicado nisso. No caso de Ryuichi, as gravações de Opus mostram, além da sua excelência como compositor e instrumentista, o esforço que ele fez para encerrar um ciclo. Para, mesmo diante das várias limitações provocadas pelo câncer do qual ele vinha sofrendo, recriar sua obra solitariamente e lentamente ao piano – e fazer um songbook que fica como legado para fãs, novos músicos e novos autores de trilhas sonoras.

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Em Opus, os esforços de Ryuichi ficam evidentes quando se ouve o disco de fones – a respiração do pianista é ouvida em faixas como Andata e Solitude, enquanto ele toca. Não se ouve apenas o piano durante o disco: além da respiração, seus movimentos ao mudar de posição no banquinho e o próprio silêncio do ambiente entram como “convidados”, compondo um design musical que, mesmo sendo clássico, é ambient por natureza.

Ryuichi escolheu para o repertório músicas que queria tocar pela última vez, e nessa lista entram trihas sonoras, músicas de seus discos solo, um tema de sua ex-banda Yellow Magic Orchestra (Tong poo) e músicas de trabalhos colaborativos. Como Trioon (do disco Vrioon, de 2002, gravado ao lado do músico alemão Carsten Nicolai, ou Alva Noto, seu codinome), ou Happy end, gravada em 1981 com o músico britânico Robin Scott. Das inéditas, duas são homenagens a amigos: o cineasta Bernardo Bertolucci ganhou o aéreo tema BB (no qual Ryuichi dá a impressão de que uma orquestra vai entrar a qualquer momento) e o compositor Jóhann Jóhannsson é lembrado na soturna e lenta For Jóhann, uma música que se assemelha a um tema para o “depois” de uma guerra, ou de uma tempestade.

De temas de filmes, surgem lembranças de produções como Um chá no deserto (Bernardo Bertolucci, 1990), O último imperador (também de Bernardo, 1987) e Furyo, em nome da honra (Nagisa Oshima, 1985, no qual David Bowie contracenava com o próprio Ryuichi). Ao piano, em andamento lento, esse último tema (cujo título, claro, é o do nome original do filme, Merry Christmas Mr Lawrence) fica quase irreconhecível – e deixa entrever uma certa referência de Pela luz dos olhos teus, de Tom Jobim, uma de suas paixões e influências. Já o Opus – Ending que Ryuichi escolheu para encerrar o disco é mais um tema belo do que um tema triste. Mesmo sendo a despedida.

Nota: 10
Gravadora: Milan.

Crítica

Ouvimos: Yard Act – “You’re gonna need a little music”

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Resenha: Yard Act – “You’re gonna need a little music”

RESENHA: Yard Act troca a frieza eletrônica por um som mais orgânico e irônico, unindo pós-punk, pop e crítica social em seu disco mais maduro, You’re gonna need a little music.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Island / Universal
Lançamento: 17 de julho de 2026

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Sim, dá pra perceber quase de cara o que é que o Yard Act quer dizer quando fala que You’re gonna need a little music, terceiro disco, é o oposto da “laptop music” que eles faziam nos discos anteriores. Não que os álbuns anteriores sejam ruins, mas o novo álbum tem uma respiração bem mais evidente. Aqui, a dance-punk sacana do grupo não parece feita em laboratório.

É a primeira vez que os quatro integrantes trabalharam juntos no mesmo ambiente durante uma gravação (importante: isso de todo mundo gravar separado é mais comum do que se imagina e tem banda “orgânica” que, se bobear, nunca gravou um disco com o calor do “ao vivo”). E dá pra entender o novo clima assim que começa a selvagem Empty pledges, primeira faixa do álbum – uma longa arenga do cantor James Smith que passa por temas como síndrome do impostor e falta de assunto (!), e que vai crescendo a ponto de…

  • Ouvimos: Suki Waterhouse – Loveland

Não, a música, teatralmente falando, nem explode – explodir seria entregar o jogo. Do começo ao fim, o que reina é o tom irônico do Yard Act, uma banda acostumada a fazer música para zoar, e observar a “sociedade” de longe. No caso de You’re gonna need a little music, o grande tema é como parece que todo mundo vê a realidade por um ponto de vista muito particular, bem individualista. E parece que todo mundo vive em seu próprio mundinho.

Os arranjos e composições do novo álbum parecem servir aos tema das letras, como no gospel maldito de New beginnings, música que fala basicamente sobre aceitar que a gente não controla boa parte da vida. Ou a loucura lúcida da elegante Tall tales, uma espécie de melô do cascateiro “com objetivo” – do manipulador safado ao sujeito com síndrome de Dunning-Kruger, passando pela pessoa que sai gastando por conta de um dinheiro que ela nem tem. O soul davidbowieófilo Fiction, por sua vez, mete a “voz interior na parada”: vá em frente, finja até conseguir, nem olhe pra trás.

Musicalmente, You’re gonna need é filhote de Iggy Pop, de Station to station, de David Bowie, dos momentos mais luminosos do Pulp e do Blur, e de uma noção de que o pop adulto “chique” precisa ser zoado. Os vocais de James Smith zoam a nonchalance de Mick Jagger, o clima pastoril de Bono, a pose de Casanova decadente de Bryan Ferry, e nada sai impune. Curiosamente, como letrista, ele consegue soar sério até quando mete cinismo na história, o que torna You’re gonna need bem próximo do que muita gente precisa ouvir, dependendo da fase de vida em que você se encontra.

A faixa-título, um synth-pop meio lúgubre, lembra que a música salva, e que é pra isso que as pessoas continuam fazendo música (de certa forma, é pra isso que muita gente anda estudando assuntos como “arquétipos” antes mesmo de aprender a tocar violão direito, mas pula essa parte). O punk dosado Cherophobe rock, que musicalmente tem a cara do Blur de álbuns como Blur (1997) e 13 (1999), vai o mais fundo possível no papo da cherofobia, que talvez seja a nova noia dos anos 2020 (“o medo de ser feliz ou a resistência a experimentar felicidade por acreditar que ela será passageira ou trará consequências negativas”, diz o ChatGPT).

Muita coisa liga You’re gonna need a little music aos papos sobre trabalho e capitalismo de Where’s my utopia? (disco anterior, 2024). Tipo no big beat de Thrill of the chase, uma música sobre validação, conquistas, carreirismo – aquela maluquice que leva triliardários a irem para o espaço. “Salvadores” altamente tóxicos e pilantras dão as caras no pós-punk soturno de Redeemer. Talky talky people, musica na qual o Yard Act encarna algo entre LCD Soundsystem e Talking Heads, descobre a pólvora: o problema é que tem gente demais disposta a falar e pouca gente disposta a ouvir. Tudo muito bom, e muito bem fechado com o britpop legítimo Over the barrel.

Sabe deus o que vai acontecer com You’re gonna need a little music ao longo do ano, mas o Yard Act que emerge dele é uma grande banda.

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Crítica

Ouvimos: Sssiv – “Sssiv 2” (EP)

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Resenha: Sssiv – “Sssiv 2” (EP)

RESENHA: O Sssiv faz do pós-punk ao dream pop com espírito DIY, silêncios criativos e produção refinada em um EP enxuto e envolvente.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de maio de 2026

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Trio de Copenhague, o Sssiv sempre foi “do it yourself” até a medula, mas dessa vez resolveu variar. Seu segundo EP, Sssiv 2, foi gravado em seu próprio estúdio, mas Sara (bateria, voz), Stephen (baixo, voz) e Sasha (guitarra e voz) convidaram a baterista Benedicte Pierleoni para produzir tudo. A própria banda diz que, dessa vez, o material soa bem desenvolvido mas também parece fresco, como algo que acabou de ser feito.

Um “som de demo” que soa profissional, como qualquer banda indie curtiria ter, enfim – porque é mais ou menos isso aí que aparece em Sssiv 2. O trio deixa silêncios nas músicas, que são preenchidos com vocais harmonizados, baixo, bateria ou com a imaginação do / da ouvinte – quase como uma “música de cinema”, só que as imagens ainda precisam ser preenchidas por quem ouve. É o que rola, por exemplo, no clima maldito da selvagem Ask for better, e no dream pop Summer vibe 2026.

All the time, na abertura, trilha o Sssiv no pós-punk, e faixas como Stopped me e a vinheta Tell me what I want to hear, misturam o clima do disco com a onda krautrock. O final tem um híbrido de pós-punk e dub, I can never fall asleep without you. Bem bacana.

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Crítica

Ouvimos: Kamikaze – “The end”

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Resenha: Kamikaze – “The end”

RESENHA: O Kamikaze mistura pós-punk, jangle pop e dream pop em The end, disco melancólico, ruidoso e fiel ao espírito DIY dos anos 1980.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Cat Salem Records
Lançamento: 19 de junho de 2026

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Duo alemão com origens em Düsseldorf, terra do Kraftwerk, e Colônia, o Kamikaze atende por kmikzemusic nas plataformas, e faz uma música que, nas palavras deles, “transita entre jangle pop, post-punk, dream pop e a energia riot grrrl”. Outra frase boa: é um som “para corações partidos e amplificadores quebrados”. Tá tudo escrito em bom alemão (well, usamos o Google Translator) no Instagram deles.

O material do álbum The end é cantado em inglês e, de modo geral, tem uma cara mais próxima do pós-punk, na simplicidade dos riffs – mas até a qualidade de produção deve muito à turma mais jangle da fitinha C86, do New Musical Express, com vocais “de longe”, cheios de eco. Uma trilha que, se você seguir até o fim, chega em bandas como Ride e House Of Love, bastante citadas (musicalmente falando) em faixas como Revenge dress, You see problems, I see nothing e Hell.

A ruidosa e atmosférica X me out tem muito do começo do Joy Division, enquanto faixas como Stop the sky e Camp funtime lembram um Sonic Youth com guitarras limpas e dedilhadas – a tal energia riot grrrl, inclusive, surge um pouco nesses momentos, mas sem as distorções que marcam as bandas do estilo (se bem que Camp vai crescendo até explodir em distorções, caso raro num disco que privilegia o som limpo). Dreamland tem uma cara próxima do dreampop, só que dreampop num clima mais punk e repetitivo.

Quem curte desolação pós-punk, na cola de The Cure, Smiths e do começo do Echo and The Bunnymen, pode ir direto para Drown e para a quase country Fallout – esta, uma faixa adornada com sintetizadores bem contemplativos, no refrão. Nada de reinvenção da roda, mas uma ótima mistura de referências em vibe “faça você mesmo”.

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