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Ouvimos: Lô Borges, “Tobogã”

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Ouvimos: Lô Borges, "Tobogã"
  • Tobogã é o 16º álbum de composições inéditas de Lô Borges. Na capa, uma foto tirada por Cafi (autor da capa do disco Clube da esquina, de Lô e Milton Nascimento) trazendo o cantor nos anos 1970.
  • O disco tem duas músicas divididas com Fernanda Takai (Pato Fu), e duas parcerias com a médica e poeta Manuela Costa, Pouso da manhã e a faixa-título. O nome do disco é o mesmo do livro de memórias que Salomão Borges, pai de Lô, escreveu em 1987.
  • Lô aparece acompanhado pelo trio Henrique Matheus (guitarras, gravações e mixagens), Thiago Correa (baixo, teclados e percussões) e Robinson Matos (bateria).

Raríssimo caso de veterano da música brasileira a estar em pleníssima atividade (seis discos de estúdio desde 2019), Lô Borges sempre teve os dois pés na obra dos Beatles ao criar as canções de seus álbuns. Em Tobogã, parece ter seguido uma receita que emparelha vários elementos do rock britânico, além da natureza criativa do R.E.M. na época de discos como Out of time e Automatic for the people, e até um pouco de power pop na linha de bandas como Big Star.

O disco novo tem uma certa delicadeza sonora que lembra bastante o pós-brit-pop (Starsailor, Travis) em faixas como Minas e Marte e Vou ventando pra você, além da abertura com cara de The Who do rockão Teia, e de um clima meio Manchester anos 1980 na pós-psicodélica e dançante Até a Terra balança. Já músicas como Na curva de um rio, Poema secreto e Esqueça tudo invadem simultaneamente a área beatle e a magia do folk herdado de Neil Young – com direito a riffs distorcidos de guitarra na segunda.

Já o lado mais associável a discos como Nuvem cigana (1981) surge em músicas como a faixa-título, Amor real (ambas com participação vocal de Fernanda Takai, do Pato Fu), Colar de cobre e Pouso da manhã (uma das faixas com letra da poeta Manuela Costa). São 44 minutos de música atemporal, mas extremamente contemporânea.

Nota: 10
Gravadora: Deck

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Crítica

Ouvimos: John Densmore + Chuck D – “Do + PE: No country for old men”

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Resenha: John Densmore + Chuck D – “Do + PE: No country for old men”

RESENHA: John Densmore e Chuck D unem rock, rap, funk e spoken word em álbum criativo que reflete sobre envelhecer sem perder a liberdade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Org Music
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Você sabia que John Densmore, baterista do Doors, e Chuck D, do Public Enemy, tinham uma ligação? Se não sabia, relaxe: muita gente não sabia, e Do + PE: No country for old men, é uma surpresa daquelas. Mais do que um disco que mistura rock e rap, é um disco que exibe o lado funky de Densmore, largamente explorado na época dos Doors – o último álbum da banda, L.A. woman (1971), não teria sido feito sem isso.

  • Ouvimos: Public Enemy – Black sky over the projects: Apartment 2025 / Chuck D – Chuck D presents Enemy Radio: Radio Armageddon

Every tick tick tick tem até guitarras num clima bem 70’s (da pra lembrar de bandas como Traffic), e No country for old men, vai para uma onda reggae-rock brincalhona – emoldurando uma letra, rappeada pela dupla, que fala sobre envelhecer sem submissão (“a estrada longa tem uma vista maior / já tive a sua idade / procure as pegadas”), mas reconhece que as mudanças não são as mesmas para todos (“todo mundo envelhece / mas nem todo mundo amadurece”). Doomsay é rap com blues-rock à J.J, Cale, enquanto The bones of my father relembra o texto do poeta afro-americano Etheridge Knight, narrado e percutido por Densmore (com Alan Bruggeman completando a percussão).

O material de Do + PE também transforma Chuck D num artista de spoken word, mais até do que um sujeito do hip hop, graças à narração minuciosa e poética de faixas como o jazz soul autoafirmativo Love that I don’t love e a psicodélica People are strangers – nessa de referências aos Doors, o álbum tem ainda o samba-rap sinistro Breakthru, em que John reproduz a bateria do hit Break on through, mas com outra melodia. Vibes mais próximas do Public Enemy, por sua vez, surgem em faixas como Ops3ssion, enquanto Everybody dies fala sobre envelhecer, viver e morrer na estrada, com trechos de The end, dos Doors, narrados por Densmore. Um disco muito, mas muito especial.

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Crítica

Ouvimos: Clau Aniz – “Mácula”

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RESENHA: Em Mácula, Clau Aniz mistura MPB experimental, krautrock, ambient e post rock em um disco visual, intenso e repleto de invenções sonoras.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Mercúrio Música
Lançamento: 1 de junho de 2026

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Classificar o segundo álbum da cearense Clau Aniz como “MPB” é deixar de lado boa parte da diversão. Mácula é um disco de música experimental brasileira e nordestina, na maior parte do tempo. Só que ele vai chegando perto de estilos como krautrock e post rock, e de viagens sonoras que parecem mais coisa do Faust e do Neu!.

Autora de trilhas para o cinema, Clau Aniz criou basicamente um cinema musicado em Mácula, já que se trata de uma música bastante visual, com letras em que a insegurança e a toxicidade são arrancadas à força. Como em Ressaca, som voador, eletrônico e experimental em que Clau avisa que “a aspereza da tua presença não me comove mas / eu matei minhas crenças pra ser teu cais (…) / afoguei cada pedaço meu que te amava”. Palavra une flautas e beats, Minha casa ardendo em mim é post rock abrasileirado, e Rubra, pedra e cal é uma valsa nativa e pesada, com guitarras, percussões, bateria circular e imagens fortes na letra.

Mácula tem pelo menos uma faixa, Harsh, em que o ritmo parece dançar em torno da música, como algo criado no momento. E olhar de longe as brasas que dançam na superfícies é ambient brasileiro, com guitarras com saturação, synths, ruídos de fita, percussões, sopros e várias lembranças envolvidas. A faixa-título migra para o synth-não-pop, enquanto Iuá uru une efeitos especiais orgânicos e eletrônicos, com Clau falando sobre uma solidão criativa, da qual ninguém precisa ser salva. Uru iuá, a continuação, tem drone apitando e clima de kraut blues.

No geral, Mácula traz uma música que dá mostras de ter sido vivida antes de ser composta. E que precisa ser sentida enquanto é ouvida.

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Crítica

Ouvimos: Swallow – “Blow” (relançamento)

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Resenha: Swallow – “Blow” (relançamento)

RESENHA: Swallow: estreia cult marcada por conflitos com a 4AD ganha reedição e revela um som entre shoegaze, psicodelia e melodia refinada.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de junho de 2026

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Poucos discos excelentes foram marcados por mais insatisfação do que Blow (1992), estreia do duo Swallow, formado por Mike Mason e pela angelical vocalista Louise Trehy. Um papo recente dos dois com a newsletter First Revival mostra que nem sempre a união de artistas novos com selos indies resulta em felicidade: a dupla foi contratada pela 4AD assim que já tinha uma demo pronta, gravou Blow pensando numa estética próxima do que seria chamado de shoegaze (climas etéreos, guitarras ruidosas, clima sonhador) mas acabaram se chateando com a direção dada pelo produtor John Fryer (Depeche Mode, Cocteau Twins, Nine Inch Nails) e com as ideias de Ivo Watts-Russell (chefão da 4AD).

Para começar, Mike e Louise trabalhavam juntos há apenas quatro meses (!) antes de gravar o álbum – a experiência de estúdio dos dois “enquanto banda” era gravar tudo em máquinas caseiras e olhe lá. A direção dada pela 4AD aumentou músicas, mudou andamentos, tirou boa parte da vibe lo-fi das demos e pôs baixos no que antes era só guitarra e bateria eletrônica. Houve quem achasse o Swallow uma mistura de Cocteau Twins e My Bloody Valentine e nada mais do que isso – mas tem uma turma enorme que cultua a beleza atmosférica de músicas como Lovesleep, Tastes like honey, Mensurral e Oceans and blue skies até hoje. Na época, a revista Select fez piada com a suposta conotação sexual do nome da banda e do disco.

Era cedo demais para o Swallow gravar, mas talvez fosse complexo demais para a 4AD aceitar que ali havia informação nova demais até para o selo que tinha lançado Throwing Muses, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Pixies. Tem muita banda hoje em dia que faz exatamente o que o Swallow fazia em 1992, e que se bobear nunca nem escutou o som deles – assim como muita gente tenta fazer, mas não tem o domínio melódico que eles sempre tiveram. Seja como for, a insatisfação foi tamanha que, poucos meses após a estreia, a 4AD deixou que eles remixassem algumas músicas do álbum, que saíram num disco chamado Blowback.

A história do Swallow inclui ainda um EP pela Rough Trade em 1994, além de uma promessa de álbum pelo selo, que não foi concretizada porque a gravadora estava sem grana. Blow, assim como o disco de remixes Blowback, acabaram de ser reeditados com novas mixagens e alguns acréscimos (além de um pacote em vinil com os dois discos, Blown). E mostram que muita coisa que a banda tinha feito nos álbuns era até mais herdeira do Jesus and Mary Chain do que do Cocteau Twins – a própria Louise, por sinal, diz que não cantava igual ao clima “voz de anjo” que agradava à 4AD, e possivelmente a gravadora se deixou levar por um viés de percepção. A misteriosa Cherry stars collide, por exemplo, tem mais a ver com os vocais sofridos de Bjork.

Muita coisa no Swallow, por sinal, era bem mais psicodélica do que propriamente dream pop, como dá para perceber em faixas como Follow me down e Head in a cave, mais próximas da lascação pré-shoegaze do Ride. Complementando, Blow ganhou uma faixa-título, que tinha sido começada em 1992 e foi finalizada só agora, com um estranho clima progressivo na melodia, além de inclinações para o dub. Tudo muito lindo e pronto para ser descoberto, ou redescoberto.

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