Crítica
Ouvimos: I Ya Toyah, “Drama”

- Drama é o novo álbum de I Ya Toyah, cantora polonesa radicada em Chicago, nos Estados Unidos (e cujo nome verdadeiro é Ania Tarnowska). Seu som costumeiramente é definido como darkwave.
- O disco foi composto por Toyah, e produzido/mixado por Walter Flakus (da banda de rock industrial Stabbing Westward). Saiu pelo selo que Toyah montou, Femme Fatale Records.
- Várias letras de Toyah falam sobre temas como bem estar mental e prevenção ao suicídio.
Considerada como uma potência do som gótico e do darkwave, I Ya Toyah na verdade chega mais próxima de um metal eletronificado, ou de um nu-metal sem os vícios do estilo musical – já que seu som tem também muito de synth pop, detalhes de industrial na linha do Front Line Assembly, etc.
O nome do disco, Drama, e as letras do álbum, põem o dedo na ferida: falam abertamente de situações de pânico, overthinking, bullying, proteção duvidosa de adultos, gente abusiva, o que acontece quando você se vê sozinho (a). A faixa-título, uma espécie de r&b sombrio que depois ganha um design nu metal, questiona: “como eu faço para correr de mim mesma?/como eu faço para me esconder de mim mesma?”.
A abertura, com Afterlight, ameaça voltar para a eletrônica dos anos 1990 (Prodigy, por exemplo) e é uma das mais associadas à onda darkwave, em Drama. Panic room põe peso nas guitarras e na bateria, e sim, tem tanto a ver com Front Line quanto com Linkin Park – o mesmo rolando no nu-metalzão cromado de I am the fire, em que a voz de Toyah vai do angelical ao gutural, e parece ter na letra uma carta que ela mandaria para si própria no meio de uma crise.
Drama investe numa house music cinzenta em faixas como Denial (letras com palavras soltas sobre tensões, julgamentos e pânicos do dia a dia, e refrão explosivo e gritado) e Hello, hello, uma espécie de hino sobre a escuridão batendo na porta. Nem tudo é sombra: Dream not to dream é synth pop com uma sonoridade mais para cima do que o normal do álbum, e Fraud, é uma house music com lembranças de Robyn, e letra sobre aquele mau e velho sentimento ligado à síndrome de impostor/impostora. Uma curiosidade é Caves, som mântrico, com programações, teclados e voz sobrevoando a música – além de um vocal ASMR que volta e meia surge no disco.
No fim, uma boa estreia, com uma cantora/compositora que, mesmo precisando ganhar mais identidade, aproxima mundos novos e mais antigos do som eletrônico (I Ya Toyah chegou a fazer coisas com a turma do The Joy Thieves, um coletivo de integrantes e ex-integrantes de todas as bandas de eletrônico e industrial que você puder imaginar).
Nota: 8
Gravadora: Femme Fatale Records
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Crítica
Ouvimos: Black Pantera – “Continental”

RESENHA: Em Continental, o Black Pantera amplia seu som entre metal, punk, funk e grunge, combinando letras sobre racismo e resistência com arranjos cada vez mais elaborados.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Deck
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Se o Black Pantera já era uma das melhores bandas brasileiras no palco, o mesmo posto já foi alcançado nos estúdios. Continental é o melhor disco deles, e um dos álbuns mais detalhadamente burilados dos últimos tempos. Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (vocal e guitarra) e Rodrigo “Pancho” (bateria) voltam recriados em técnica, arranjo, referência, teoria e poesia – o disco traz letras cada vez mais bem escritas, combinando pé-na-porta e o dedo-na-cara com versos poéticos, saudades imensas, lembranças amargas e realidades duras.
Como aquele velho conto do peixe que só conhecia a água, porque vivia imerso nela e não sabia o que havia do lado de fora do aquário, é preciso aparecer uma banda como o Black Pantera para esfregar um fato na cara de todo mundo: as histórias do rock já foram demasiadamente contadas a partir da perspectiva de gente branca. Vendo dessa forma, dá pra cair na real no mais puro estilo Nazaré Confusa: há décadas que não apenas o protagonismo, mas também os sonhos de poder, os planos de carreira, os paradigmas de loucura, de riqueza, de faz o que tu queres, de que-se-fodam-todos… Tudo isso partiu dos instintos de gente branca.
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Fácil de entender: se metade do anti-profissionalismo profissional de um Keith Richards fizesse parte do repertório comportamental de um roqueiro preto, talvez a história tivesse parado em Satisfaction – afinal, um hipotético Rolling Stones afro-britânico seria bombardeado pelo racismo do showbusiness, perseguido implacavelmente (mais do que os Stones foram) por delegados antidrogas, abortado em pleno voo. O sucesso de Jimi Hendrix não foi um almoço grátis, muito menos um sonho psicodélico: o guitarrista foi sacaneado até o fim por empresários escrotos, e enfrentou perdas financeiras graves na mesma medida em que ganhava grana.
Dito isso, a faixa-título de Continental põe as coisas em seus lugares ao avisar que “seus heróis morreram de overdose / os meus morreram pelo corre” – seguindo com uma letra que fala em diáspora, nas veias abertas da América Latina, no jogo sujo do governo Trump, e ainda completa com um áudio do professor e pensador Milton Santos (1926-2001). No decorrer de Continental, o Black Pantera mete marcha num som pesado com linguagem afrobrasileira, unindo stoner rock, funk e grunge (Hórus), punk guerrilheiro e oi! music (Velho jeans rasgado, com lembranças de The Clash e New Model Army e versos como “serei tudo que eu sempre quis / por dentro eu grito”), metal + raggamuffin + cultos afro (Negusa nagast) e até metal bélico à moda do Iron Maiden e do Sabaton, mas dentro do universo negro (Yasuke, que recorda o primeiro samurai negro do Japão).
O racismo é tematizado pelo Black Pantera ao lado de, digamos, questões adjacentes: o corre nosso de cada dia (no metal de videogame Start the game), as lágrimas de crocodilo dos filhos da riqueza (o hardcore WPP) e a cagação geral da meritocracia – na beleza de Banzo, com Chico Cesar nos vocais, base metal-reggae e clima, às vezes, quase screamo. Continental tem outras participações de peso: a rapper Duquesa declama no metalcore industrial Serotonina, Derrick Green solta o berro em Obsoleto e… tem ainda Sandra Sá emocionando em Quando canto, afrometal percussivo, repleto de referências de blues e soul, com clima festeiro e guerreiro.
Em Continental, o Black Pantera surge grande, heroico, e preocupado tanto com peso quanto com beleza – em músicas como a faixa-título, dá pra perceber o quanto os vocais da banda mudaram e se tornaram mais elaborados. O final, com Punhos cerrados, é a comemoração: uma marcha punk-metal em que eles disparam que “demorei pra aceitar que o mundo é meu”. E o rock é preto.
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Crítica
Ouvimos: Weezer – “Weezer (Gold album)”

RESENHA: Em Gold album, o Weezer revisita sua mistura de power pop e rock dos anos 1990 com peso, humor e autocrítica, mostrando que sua fórmula continua surpreendentemente jovem.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Reprise
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Nos últimos tempos, o pop descobriu que o Weezer é legal – tem sido comum esbarrar, em novas músicas, com aquela base de guitarra ligeiramente chupada de Say it ain’t so (e igualmente aparentada de Where is my mind?, dos Pixies). Talvez porque o Weezer tenha reduzido o rock dos anos 1990 a uma fórmula tão tranquila e amigável que fica realmente difícil escapar dela: se o teu negócio é fugir do som deles, nem adianta tentar acrescentar nuances de power pop à sua música.
Numa continuação do que bandas como Cheap Trick e Replacements já haviam feito, ainda por cima o Weezer decretou que o lugar do power pop era nos grandes espaços, e que nas letras, qualquer assunto era assunto – desde que tudo fosse contado de uma forma que qualquer pessoa fizesse cara de desconfiança e respondesse “oi?”. O novo disco da banda, apelidado de Gold album por causa da sua capa dourada, põe peso, agilidade, experiência e existência na tal fórmula que o grupo vem aperfeiçoando desde o primeiro álbum.
Gold album já começa com uma piada sonora, que é Say yes – faixa que ameaça uma balada, e vai tendo seu ritmo aumentado na base do atropelo, e cuja letra parece com tudo que Rivers Cuomo gostaria de ter ouvido quando era mais jovem (“eles vão te assustar, te manipular, até você não saber como agir / estou te dizendo, Jack, caia na estrada / nunca volte atrás”). Shine again ganha uma cara quase stoner, com guitarras em brasa, bateria cozida na crueza e referências de desert rock, além de uma letra de autoconfiança recuperada, de altos após uma sequência de baixos.
Em alguns momentos, parece que Rivers decidiu fazer de Gold album um confessionário de luxo. Don’t make me weird, que mais parece uma música do Queens Of The Stone Age (!), traz Rivers Cuomo respondendo a críticos, bullys de plantão e babacas à espreita. A mesma coisa rola em C.E.O., single ótimo, de clipe ótimo, no qual ele zoa sua própria condição de líder de banda bem sucedida, com hits que ninguém esquece. “Produzindo mais um sucesso dos anos 90 / queria poder fazer algo novo / mas ninguém quer ouvir isso / eles só querem os clássicos / não os culpo, na verdade / há algo de especial nas suas primeiras músicas”.
- Temos um episódio do nosso podcast Pop Fantasma Documento sobre o Weezer.
Na real, às vezes fica a impressão de que o Weezer, uma banda que começou falando de séries (Happy Days e Mary Tyler-Moore) em seu primeiro hit, Buddy Holly, decidiu assumir que sua vida dá uma boa sitcom. E uniu essa onda com sua vocação para contar histórias, como rola em We might as well be strangers, um “um dia a casa cai” do amor, em que Rivers e Karly Hartzman (Wednesday) dialogam sobre um love pra lá de cagado. Essa e C.E.O., vale citar, são as duas faixas mais (vá lá) “apelativas” em relação ao Weezer de Blue album (a estreia, de 1994) – a segunda abre tão chupada de Undone (The sweater song) que chega a dar vontade de rir, ainda mais levando em conta a letra de pura autozoação.
A meia horinha de duração de Gold album ainda aponta para algo próximo do rock encruado e porradeiro – na pauleira Hoops, que fala sobre como a vida ficou complicada com os apps e QR codes do dia a dia, e no bubblegrunge The show must go on. Nowhere, quiet-loud-quiet de fôlego, trata a tranquilidade como um prazer a ser adquirido, e pergunta: “por que eles derrubaram as árvores / só para construir uns prédios de merda?”. Up in the clouds abre como só uma cançoneta folk até que o barulho aparece. The LA sound, com um riff que mais parece uma paródia de Sweet child o’mine (Guns N Roses), é o começo de qualquer banda: estradas, clubes fedendo a xixi, plateias apáticas, calotes trágicos e, na melhor das hipóteses, uma autoconfiança de Napoleão de hospício.
Gold album tá longe de ser um teste para uma banda tão bem sucedida quanto o Weezer – mas vale dizer que é o melhor disco que eles poderiam fazer para mostrar o quanto o som deles permanece jovem. Com a vantagem de que a banda escapou da shoegazerização do pop-rock.
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Crítica
Ouvimos (antes): Luis Perdiz – “Corações em condomínios”

RESENHA: Luis Perdiz transforma o bloqueio criativo da pandemia em canções em Corações em condomínios, álbum que cruza MPB, psicodelia, pós-punk, synthpop e textos contemplativos e apocalípticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de agosto de 2026
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“Estas canções foram escritas em um momento de crise artística e existencial”, diz o cantor, compositor e poeta Luis Perdiz sobre o repertório de seu primeiro álbum solo, Corações em condomínios – basicamente um disco “filhote” da pandemia, feito no isolamento, enquanto Luis tentava escrever poesia, mas se sentia bloqueado. O disco surgiu justamente porque ele decidiu estudar violão e acabou se reconectando com sua escrita.
Foi uma espécie de “transição de carreira” que deu um sentido diferente a seu trabalho, e transformou poesia em canções e efeitos musicais – como na faixa-título, uma espécie de retorno à MPB setentista, só que filtrada pela psicodelia. Um som com vibe rock-reggae, que faz lembrar a música nordestina da época, e cuja letra tem muito do clima apocalíptico urbano de Zé Ramalho, falando de cidades sendo devoradas e de sentimentos entre grades. Estadia, música sobre esquecer horários e tempos (e que aparentemente, fala sobre o que isso tem de bom e ruim), impõe um clima quase jangle-pop ao disco, mas com filtro moderno, numa gravação com cara de 2026.
Baixo fincado e clima atmosférico dão um clima bem pós-punk à maquínica Terra quente e ao começo de Sensorial – esta, depois, ganha algo a ver com Secos & Molhados, chegando a unir flautas e distorções. Animais sonâmbulos cita Mutantes na letra para falar de um dia caseiro na pandemia – o arranjo, por sua vez, é basicamente synthpop sonhador e contemplativo.
Corações em condomínios encerra com o pop 60’s de Muitos anos esse ano (faixa em que as lembranças mais tensas da pandemia aparecem) e a bad perdida no horizonte de Notícias suas, com lembranças de Mazzy Star. As lembranças mais pessoais de uma época trágica e complexa, condensadas.
LANÇAMENTO: Corações em condomínios sai nesta quinta (27) nas plataformas digitais
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