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Ouvimos: Heartworms, “Glutton for punishment”

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Ouvimos: Heartworms, “Glutton for punishment”

O site The Quietus deu a definição perfeita para Jojo Orme, a mulher por trás do Heartworms: “a filha perdida de Michael Jackson e Siouxsie Sioux”. Londrina, 26 anos, ela abriu shows para St Vincent e investe numa sonoridade a meio caminho do pós-punk e do industrial – e aí a comparação com Siouxsie faz mais sentido ainda, porque Glutton for punishment, primeiro álbum do projeto, acaba remetendo aos Banshees em vários momentos, justamente por causa dessa escolha musical.

O Heartworms ganhou fãs por causa do dance-punk sombrio do EP A comforting notion (2023). Uma sonoridade que, em Glutton, ganha expansão no tom tribal de Just to ask a dance – uma canção que, na real, é um conto de amor, misantropia e morte (“não tenho chance de pedir uma dança a você / sou tão tímida / me dói pedir a você para me salvar também”). E também no eletrorock de Jacked, uma explosão de riffs e solos. Ou em Warplane, uma dance music ligeira e violenta, cuja letra, que se refere à história real de um piloto de avião morto na Segunda Guerra, tenta ver alguma esperança no meio do caos: “você consegue ver um Spitfire? / e você diz / olhe lá em cima / seremos livres / olhe lá em cima / nós ficaremos bem”.

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Essa mistura de guerra, medo, amor, morte e (um tiquinho de) esperança dá o tom de Glutton, um disco que chega perto de algo místico, sexy e misterioso em Extraordinary wings, faz o pós-punk dar vários cruzados de direita em Celebrate (uma música em que Jojo vai do semi-operístico ao gutural) e ganha tons épicos em Smugglers adventure. Uma música de seis minutos e pouco, em que Jojo relembra fases difíceis da adolescência, enquanto constrói uma canção com várias partes, herdeira tanto do LCD Soundsystem quanto dos Smashing Pumpkins de Mellon Collie and the infinite sadness.

O disco encerra com a faixa-título, uma balada de violão que inicia com tom ligeiramente jazz, e que se torna uma música dançante logo depois. E que mostra que a grande guerra de Glutton for punishment começa na mente, contando uma história de timidez, pé na bunda e, no subtexto, ansiedade – e muita.

Nota: 8,5
Gravadora: Speedy Wunderground/PIAS
Lançamento: 7 de fevereiro de 2025

Crítica

Ouvimos: Vita – “Vita’s house”

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Resenha: Vita – “Vita’s house”

RESENHA: Vita mistura funk, house e dance em Vita’s house, estreia solo que transforma sexo, pista e política em manifesto de liberdade, afeto e resistência.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Altafonte
Lançamento: 13 de abril de 2026

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Putaria também é política – por mais que o conservadorismo volta e meia invada até os setores progressistas, temas como sexo, tesão e amor também têm posicionamento (e não, isso não é nenhuma referência ao Kama Sutra, ô engraçadinho / engraçadinha). Vita Pereira, ex-integrante das Irmãs de Pau, faz parte da turma que entendeu isso rapidinho. Aliás, rápido a ponto de fazer de sua estreia solo, Vita’s house, uma mistura de boate com som nas alturas e casa em que tudo pode acontecer.

Vita’s house, na prática, é um álbum de funk, mas com tudo dentro (opa), já que tem a house ácida de Santo forte, a dance music das antigas unida aos batidões novos em Sex on the floor e Corpo vazio, o funk pós-disco de 20k e as experimentações rítmicas de Salada, Touch my body, Vem pro ragga (ragga arábico com vocal quase rappeado) e a aceleração de Casa dos macho, Vita’s house e de faixas inacreditáveis como Dipiroca e Machucação.

  • Ouvimos: MINTTT – Mixtape da prensa hidráulica

A lista de participações do disco é enorme: tem Larinhx, Badsista, Urias, Linn da Quebrada, Candy Mel. Entendedores de funk, balanço e putaria, os Cyberkills surgem em faixas como Sex on the floor, Peito pulseira e o EDM-tributo Ainda há Vera Verão (“ame mais, peça mais / afeto às escondidas não me satisfaz”). Nas letras, putaria e porrada: Out of my house proíbe a entrada de racistas e fascistas no recinto. O batidão de umbanda Treme a língua avisa que “na casa de Exu, travesti faz moradia / na casa de Exu encontrei minha Pomba Gira”. Se liga!

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Ouvimos: Johnny Hooker – “Viver e morrer na América Latina”

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Resenha: Johnny Hooker – “Viver e morrer na América Latina”

RESENHA: Johnny Hooker mistura cabaré, rock, bolero e brega em Viver e morrer na América Latina, disco ousado, poético e vibrante, um dos lançamentos mais fortes de 2025.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente.
Lançamento: 5 de dezembro de 2025

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Demoramos para ouvir Viver e morrer na América Latina, novo álbum de Johnny Hooker – e já estávamos perdendo um dos discos mais fortes lançados em 2025, uma mescla de som de cabaré, fraturas expostas de cotovelo à Tim Maia e ousadia atitudinal à Ney Matogrosso. Ney por sinal participa da faixa-título, um bolero selvagem com clima entre o brega e o sofisticado.

  • Ouvimos: Mesh Kimono – Line cliché (EP)

Como todo disco de Johnny, Viver e morrer na América Latina se alimenta da variedade musical e da poesia sem controle e sem filtro. Ainda que, na prática, Johnny possa ser considerado um artista de rock brasileiro, com clima e atitude próximos do que se esperaria de uma versão verde-e-amarela e glam do estilo.

O trio inicial de faixas já prova essa variedade balizada pelo rock. Viver e morrer abre com um samba-rock que poderia ter sido cantado por Cássia Eller (Querem me ver humilhada), segue com um sophisti-pop oitentista (Nunca vai passar, com coral lembrando o soul com referências afro-latinas da época, de Lionel Richie a Michael Jackson) e une vibe glam e sofrência sertaneja (em Saudades, Elder).

Daí pra frente, Johnny faz bolero pop (O mundo me espera), insere Prince no cabaré (A vida é assim, do cantor e compositor recifense Conde Só Brega), une Bob Dylan e Belchior (Quando eu me for) e faz synth pop com lembranças de The Cure e Orchestral Manoeuvres In The Dark (2 punks néon, recentemente relançada por ele em single, como homenagem ao mês do orgulho LGBTQIAPN+).

A festa de Viver e morrer na América Latina encerra em clima de Carnaval, com a fanfarra de Eu quero ver pegar fogo e o brega de A vida é um Carnaval – e apresentam as duas outras convidadas do disco, Daniela Mercury (na primeira) e Lia de Itamaracá (em A vida…). Nas letras, autoafirmação, amor, vingança (“quem só me fez sofrer vai pagar dobrado”, canta em Querem me ver humilhada) e desejo de pôr fim ao medo e à opressão.

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Ouvimos: Vários – “Help(2)”

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Resenha: Vários – “Help(2)”

RESENHA: Help(2) reúne artistas de várias gerações em um disco beneficente coeso, introspectivo e repleto de boas canções para ouvir sem pressa.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: War Child Records
Lançamento: 6 de março de 2026

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Surgido entre a crise da Venezuela e os ataques ao Irã, o novo volume da coletânea Help, criada pela organização sem fins lucrativos War Child, vem numa época sensível como a que gerou o primeiro Help, em 1995 – na época, milhares de crianças eram afetadas pelos conflitos na Bósnia, e o álbum cheio de estrelas da música, arrecadou mais de £ 1,25 milhão.

Uma diferença básica em relação ao disco anterior e o atual era o clima meio Live Aid + USA For Africa de evento: Help, com participações de nomes como Oasis, Radiohead, Blur, Manic Street Preachers, Stone Roses, Portishead, Paul Weller e Paul McCartney, foi gravado em apenas um dia, em diversos estúdios (“numa época anterior ao WeTransfer, iPhones e e-mail”, como esclarece o próprio site da War Child), e lançado na semana seguinte. A inspiração era a rapidez da concepção do single Instant karma, de John Lennon.

Help(2) é um fruto dos descaminhos individuais dos anos 2020, com diversas carreiras em tempos diferentes e pressões diferentes. Desafio houve, sim: o disco foi gravado em uma semana de novembro de 2025, com o britânico James Ford na produção. Mais ainda: Ford, que foi diagnosticado com leucemia em 2024, ficou doente e precisou dirigir tudo pelo laptop, em meio a uma transfusão de sangue. Mas houve tempo para o disco ser divulgado, com singles e notícias.

A lista de artistas é bem mais variada que no primeiro Help. O volume anterior era cheio de nomes do britpop e adjacências. No Help(2), nomes recentes como Beabadoobee, Olivia Rodrigo, Last Dinner Party, Arlo Parks e Cameron Winter (Geese) e Black Country, New Road dividem espaço com Damon Albarn, Beth Gibbons, Arctic Monkeys, Depeche Mode, Beck e Foals.

No geral, mesmo com tantas cabeças envolvidas, Help(2) tem um astral e um clima: é um disco em tom até meio grave, em que Arctic Monkeys surgem lembrando Bee Gees e Supertramp (Opening night), Black Country, New Road fazem lembrar Wings (Strangers) e Beth Gibbons exibe toda a dor de Sunday morning, do Velvet Underground. Uma cover gravada em tom folk, com vocal machucado e tom sentido, triste, no verso “são apenas os anos perdidos tão próximos”.

Dores sonoras e dramas diferentes tomam conta de Say yes (Beabadoobee relendo Elliott Smith), Begging for change (Pulp, com gritos de crianças) e na psicodelia soul-camerística de Naboo (Sampha). Pra você ver, até o Wet Leg surge mais introspectivo em Obvious – rara música chatinha do disco, aliás. Olivia Rodrigo investe em seu lado balada country em The book of love.

Para ouvir várias vezes, tem o clima meditativo de Relive, redie (Big Thief), a beleza de Black boys on mopeds (Fontaines DC) e a vertigem sonora de Warning (Cameron Winter). Um disco bem extenso, mas que vale ouvir com calma e atenção.

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