Crítica
Ouvimos: Fidlar, “Surviving the dream”

- Surviving the dream é o quinto álbum do Fidlar, uma banda de punk rock e garage rock de Los Angeles, formada por Zac Carper (voz, guitarra, teclado), Brandon Schwartzel (baixo, backing vocals) e Max Kuehn (bateria, percussão). É o segundo álbum da banda lançado de forma totalmente independente (os três primeiros álbuns saíram pelo selo Mom + Pop).
- O grupo já se chamou Fuck The Clock. O nome Fidlar vem de um mantra de skate que Carper roubou de antigos colegas de quarto (“Fuck It Dawg, Life’s a Risk”, ou “foda-se, cara, a vida é um risco”).
- Num papo com a DIY, Carper disse que sua técnica de composição é o chamado “microfesting” (“ter um pensamento e então fazê-lo”, diz a publicação). “Todo mundo manifesta coisas, mas eles fazem isso de uma forma tão grande como, ‘Eu quero um milhão de dólares! Eu quero comprar uma casa!”, diz. “Mas eu simplesmente peguei esse conceito e fui no micro com ele. Tipo, ‘Eu vou microfestar um burrito’, e então de alguma forma, durante o dia, eu vou pegar um burrito e eu fico tipo, ‘Uau, espera? Isso aconteceu?! Isso funcionou?!’ Então eu comecei a fazer isso com minhas músicas. Talvez eu só precise escrever o verso, então eu farei isso. Eu vou fazer isso em pedaços”.
Se você nunca ouviu nada do Fidlar e resolver dar uma escutada em Surviving the dream, novo álbum deles, a impressão que pode ficar das primeiras faixas é “ah, não, mais uma banda que mexe e remexe em clichês do pop-punk dos anos 1990 e 2000, e que faz lembrar o Blink-182”. Bom, é isso, mas não só isso: o Fidlar une sonoridades próximas do indie rock a um som que, ouvido hoje, ficou (injustamente) rotulado como música de roquista que não viu o tempo passar.
A mudança sonora e lírica que o Blink não conseguiu fazer em seu disco mais recente é praticamente o mote de Surviving, um disco que recria o punk noventista como se tivesse sido feito pelo Weezer ou pelos Strokes, e não por outros grupos. O repertório do disco, sempre estilizado com letras caixa-alta, traz o emocore feroz de Fix me, o paredão de guitarras de Low e o indie pop punk de Sad kids, Hurt e Down n out (que lembra bandas como o fun., além do começo dos Bleachers). Além de algo mais próximo do indie rock e do power pop em faixas como a dançante e introvertida Break your heart e a surfística Making shit up.
Já Get off my wave, um punk-surf distorcido e berrado, soa pouco mais pop que bandas como Guitar Wolf. O lado mais formulaico do punk-pop, por sua vez, surge em faixas como Dog house e a curta I don’t want to do this. O Fidlar consegue variações interessantes numa receita que, para muita gente, já deu o que tinha que dar – o que é ótimo.
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
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Crítica
Ouvimos: Charles Tixier – “Fantasmas vol. 1”

RESENHA: Em Fantasmas vol. 1, Charles Tixier faz beats, samples, vozes e ruídos do passado virarem uma eletrônica fantasmagórica entre drum’n bass, jazz, ambient e memórias digitais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Selo RISCO
Lançamento: 23 de setembro de 2026
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Fantasmas vol. 1 é um disco de produtor e trilheiro – Charles Tixier foi convencido pela parceria Luiza Lian de que os beats que guardava não eram só experimentos ou peças soltas, mas poderiam render canções experimentais. No caso de um álbum com um nome desses, o principal é que são beats, samples, trechos e criações que rendem temas fantasmagóricos, no sentido que aqui ainda habita algo que um dia houve. E que ressurge nas sombras sonoras dos drum’n basses Hoonter pt.1, La li lu le lo e Zoio (que fala sobre “o fim da música”, a partir de debates recortados), e na meditação via sample de Smut biswit.
No texto de apresentação, Charles fala de artistas como Wendy Carlos, que “ouviam” universos além da imaginação e tentavam traduzir tudo em peças para sintetizador. Esse espírito (sem trocadilho) surge, por exemplo no jazz experimental de 106 Bd. Kellerman, na estranha mágica de Hoonter pt. 2 (que parece o tema do filme Titanic sendo retraduzido, numa estranha homenagem aos fantasmas dos tripulantes) e a nostalgia tecnológica de 4shared reality, um curioso tema new age. Ou nas vozes-que-se-transformam-em-notas de SEGA.
Tem um lado mais pé-no-chão em Fantasmas vol. 1, que é uma faceta próxima do (vá lá) pop, ou da vida na Terra. Os quarenta segundos de Midas transforma em notas musicais as falas de algum desencantado com o funk (“sou contra a existência do funk de maneira geral, eu não gosto desse funk paulista que fala baixaria”) e climas mais urbanos são achados no beat acelerado de Bonanza e Silas’ lament, na vibe marítima de Crab people e no soul-trap vingativo de Apagar tua estrelinha. Uma curiosidade é MGHU therapy, tema que ganha ares de samba-bossa latino – como um remix de algo que poderia ter sido bolado por Adriana Calcanhotto, mas que aqui vai ganhando outra cara, mais texturizada.
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Crítica
Ouvimos: Lento, Distante – “Tecendo ficções”

RESENHA: Em Tecendo ficções, o paraense Lento, Distante vai além do shoegaze e mergulha em psicodelia, solidão e memórias nebulosas num disco de estreia que se revela aos poucos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 4 de setembro de 2025
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Banda paraense, o Lento, Distante faz jus ao nome, com canções lentas e que não se revelam totalmente à primeira vista (ou à primeira audição) ocupando a primeira parte desse seu álbum de estreia, Tecendo ficções – para nós, uma descoberta tardia, já que se trata de um disco do ano passado.
As nove canções do disco soam mais como uma introdução ao universo de Sandy Iketani (voz), Henri Monteiro (guitarra), Vinícius Lobato (guitarra), André Menino (bateria) e Lucas Parijós (baixo). Eles são uma banda mais psicodélica do que apenas shoegaze, como dá para perceber em músicas como Sou só solidão (“sempre quis estar em outro lugar / sempre quis ser um outro alguém”) e Eu nunca deixei de sonhar – esta última, uma canção em que a bateria parece apenas uma sombra que conduz o ritmo.
O que não é psicodélico no arranjo, soa desta forma nas letras e na gravação de vocais, como numa carta de intenções que passa por faixas cheias de nuvens como Saudades (com vocais em duo, de Sandy e Henri), Quase-lembranças e a onda sonora da faixa-título e de Renascer. Quando tudo me lembra você, música que realmente soa como uma lembrança sonora – e vem em clima meio emo, meio shoegaze – é a melhor do álbum.
Num próximo disco, resta à banda caprichar mais nas introduções de canções – três delas são abertas com dedilhados, o que dá uma impressão injusta de repetição num álbum tão variado. Vale o destaque também para a bela imagem sonora de Celine, com musicalidade repleta de chuviscos, como nas TVs de antigamente.
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Crítica
Ouvimos: Ibibio Sound Machine – “Chopping mountain”

RESENHA: Em Chopping mountain, a Ibibio Sound Machine reconecta pós-punk, eletrônica e psicodelia às matrizes africanas que alimentaram o pop ocidental — e transforma o acerto de contas em festa.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Merge Records
Lançamento: 11 de setembro de 2026
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Não faço mais ideia de onde eu li isso, mas a tese é ótima: quando Michael Jackson comprou os direitos sobre a canções dos Beatles, houve todo um ato revolucionário nessa aquisição, que passou despercebido pra muita gente – passou bem mais despercebido, aliás, que a indignação de Paul com a suposta bolada nas costas dada pelo ex-amigo.
Como assim? Explico: com uma “fórmula” de rock desenvolvida a partir do doo wop, do soul, do gospel, do rhythm’n blues e dos roqueiros negros originais, os Beatles pegaram tantas coisas “emprestadas” do povo afro-americano, que foi preciso Michael ir lá, dar um lance, coçar o bolso e tomar tudo de volta – como quem diz: “A-ha, isto pertencia ao meu povo! Agora é a minha vez de ganhar grana com vocês!”.
Bom, nada é tão simples e tão formulaico – e não custa lembrar que a pessoa da qual estamos falando é o sujeito-problema Michael Jackson. Mas um pouco desse clima de “peraí, isso é meu!” baixou em Chopping mountain, sexto disco da genial Ibibio Sound Machine, liderada pela igualmente genial cantora Eno Williams, britânica, filha de nigerianos. Climas entre o afropop e o pós-punk vêm dominando a discografia deles desde o começo, mas o novo disco vem com cara real de acerto de contas.
Essa onda já começa pelo clima psicodélico de Burning in Lagos, módulo afrodélico de quase sete minutos, soando como um desvio drone de Sympathy for the devil, dos Rolling Stones. Um desdobre afropop que segue na faixa-título, que repatria climas que os Talking Heads puseram no disco Fear of music e em músicas como I zimbra. O mesmo rola no final, com a dançante e meditativa River don’t rush, repleta daqueles elementos geralmente usados para dar um ar “afro” a canções pop – só que usados com beleza, equilíbrio e lugar de fala.
Se essa era a intenção da Ibibio Sound Machine… Bom, vale citar a vibe quase kraftwerkiana de When you want to dance e Concept of love (essa, serpenteada por uma guitarra excelente), bem como o tom quase balearic da abertura de Return to sender – que remete direto a era Technique, do New Order (1989), até que entra o forte vocal de Eno, e os ares de disco music tomam conta. Os metais do disco são referentes e reverentes a nomes como Manu Dibango e Fela Kuti, e dão uma onda diferente a canções voadoras, entre o soul e o jazz, como Give me peace.
Mais climas lembrando New Order brotam em Menso, bem como ondas pós-punk e eletrônicas balizam Kukuru e uma herança forte de Aretha Franklin, Otis Redding e do hit Respect surgem em Love. Já as letras de Chopping mountain falam sobre amor, união, resistência, resiliência e alegria como resposta a um mundo instável – numa onda em que reciprocidade é importante, tanto pro bem quanto pro mal (Concept of love e Return to sender falam disso). Burning in Lagos abre o álbum falando da vida em estado de emergência, e da busca por reconstrução – e acaba se tornando a bandeira musical de Chopping mountain. Um disco fascinante.
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