Crítica
Ouvimos: Backxwash, “Only dust remains”

Backxwash é o nome artístico de Ashanti Mutinta, rapper nascida na Zâmbia e radicada no Canadá. Sua história de vida não foi nada fácil, e basicamente seus discos falam de coisas que ela viu ou viveu, com uma prosódia que lembra os clássicos do zamrock (o heavy metal feito na Zâmbia) somada à vibe ágil que o rap pratica nos dias de hoje, com flows e ritmos incomuns.
Não são histórias fáceis ou tranquilas de ouvir: a guerra que ficou na mente de Backxwash ganha às vezes clima de filme de terror – com direito a influências até de punk e heavy metal na sonoridade. Only dust remains, o álbum novo, continua a tradição, com letras sobre depressão, morte, suicídio, busca de identidade e momentos em que ela olhou em volta e não viu deus ao lado.
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A faixa de abertura, Black Lazarus, lida com uma tristeza tão imensa que dá para imaginar Ashanti chorando no estúdio, em meio a uma argamassa de blues pesado (“não há ninguém aqui me salvando / e a única morte que temo é sem dor”). Wake up traz recordações de violências, gritos, abusos e pessoas sendo usadas, com um batidão quase industrial e um clima de gospel antigo do meio para o fim. E a revolta toma conta de Undesirable, um rap sombrio e sonhador ao mesmo tempo, com letra falando sobre solidão e sobre traidores do meio do caminho (“agora é irônico, mas vou te dar um pensamento preocupante / eu me pergunto se você já pensou nos manos que perdeu / porque cada compasso é só um sintoma de quão falso você é”, vocifera).
A vibe de Backxwash é a depressão que vem da pressão social, dos fantasmas carregados pelos antepassados, e de temas como racismo, homofobia – e a solidão que surge do atendimento de expectativas da sociedade (“estou tão afastada da minha alma / que provavelmente terei que reconectá-la por uma espécie de proxy”, diz ele em Black Lazarus). É uma onda que dá para sentir até nos beats e nas melodias, como na emocional e pesada 9th heaven e no metal hip hop de Dissociation. O mesmo rola no rap pesado de History of violence, uma música sobre guerras – a guerra do dia a dia, as disputas entre países e as batalhas em nossa própria mente (“do rio ao mar, a Palestina será livre / pensando em todas as pessoas mortas na rua / quão jovem era esse garoto, tipo onze ou três? / enquanto os presidentes sentam e sorriem nos assentos da embaixada”).
Em faixas como Stairway to heaven, a vinheta Love after death e Only dust remains, o tema é o fim de tudo, o que resta depois disso, quais questões pessoais e sociais lembraram isso – sempre com peso e tom dramático. Sendo que em Stairway, o clima é de bluesão de FM, com guitarra lembrando Eric Clapton, e letra parecendo evocar uma reportagem sobre os últimos minutos de alguém (“não tema a perda e as emoções que vêm com ela / porque você não tem controle / sobre como eles vão se lembrar de você. “). Ouça num momento em que nada poderá te entristecer.
Nota: 8,5
Gravadora: Ugly Hag Records
Lançamento: 28 de março de 2025.
Crítica
Ouvimos: Girlsweetvoiced – “Lovesweet”

RESENHA: Girlsweetvoiced estreia com Lovesweet, álbum que mistura alt folk, dream pop, synthpop e city pop em canções sobre amor, ghosting e frustrações afetivas. O disco ainda traz um sample autorizado por Joni Mitchell.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: A24 / RCA
Lançamento: 24 de julho de 2026
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Você já leu isso na resenha dos Snarls, mas vamos repetir porque a situação é a mesma: basta ouvir Lovesweet, primeiro álbum de Adriana Mallya (a Girlsweetvoiced) para nunca mais querer nem chegar perto de um relacionamento monogâmico na vida. Algumas letras do álbum soam como aquela conversa com uma pessoa em que você só ouve, porque sabe que tentar aconselhar é inútil.
Mirror pics, na abertura, pula a alegria para a presunção de infelicidade em minutos, com fotos tiradas no espelho do banheiro, risadas à toa e… “você me fez escrever canções de amor / e eu nunca escrevo canções de amor / me sinto uma idiota / esperando a ficha cair”. Downfall of little me, na qual ela dá um fora num coitado antes que ele dê um nela (!), é tão triste e cabisbaixa que ela própria avisou no Tik Tok que “eu estava tão triste quando escrevi isso… É meio que sobre apego evitativo, mesmo assim eu amo essa música!”. Em Energizer ela insinua que estaria milionária se ganhasse um troco a cada ghosting que leva do amado (“é um hábito caro esperar que você me ame”). Dumb & in love é autoexplicativa.
Tá aí Lovesweet e sua jornada em busca de um público que se sinta confortado com essas histórias de amor, desamor, e de (principalmente) expectativas sendo criadas. Problema: o disco vicia. Adriana fez de seu álbum uma criação musicalmente mágica, com a voz soando como se viesse de uma gravação antiga, em meio a pianos, violões e teclados que aludem à imaginação ou a tempos idos. O alt folk de Kinda like, a folktronica leve de Ruby & stone e Spearmint, o dream pop de Mirror pics, o synthpop brincalhão e suingado de Energizer, o citypop de So long e You don’t want me… Tudo muito grudento e luminoso para deixar passar batido.
O codinome “garota da voz doce” tá longe de ser brincadeira – ela justapõe alma e doçura com segundos de diferença na mesma faixa. Também andou chamando a atenção de ninguém menos que Joni Mitchell: pôs um sample de seu hit California no ótimo soft rock Tonight e ganhou a liberação após contatar Mitchell pessoalmente. Lovesweet só fica desinteressante nos raros momentos em que Adriana parece seguir um padrão, como no country-pop de rádio de A minute, a mile. Se algum produtor mal-intencionado mexer nesse som, vai arrumar problema…
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Crítica
Ouvimos: Ariana Grande – “Petal”

RESENHA: Ariana Grande reinventa seu pop em Petal, oitavo álbum da carreira. Com produção enxuta ao lado de Ilya Salmanzadeh e Max Martin, o disco mistura R&B, electropop, UK garage e experimentação sonora.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Babydoll Music / Republic
Lançamento: 31 de julho de 2026
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Pode ser uma questão de trocar de turma – aliás, no pop, quase sempre é isso mesmo. Ariana Grande ficou meio de observadora de um cenário em que sua persona antiga, a de discos como Thank U, next (2019), parece ter sido diluída e naturalizada. A hiperfeminilização de seus álbuns e músicas da década passada vem ressurgindo modificada e conceituada de modo diferente em várias carreiras atuais. De Tate McRae a Sabrina Carpenter, passando até por Olivia Rodrigo, muita gente vem tendo seu “momento Ariana Grande” nos dias de hoje.
Petal, seu oitavo disco, é mais um passo no sentido de, mais do que reapresentar Ariana Grande (o que, convenhamos, ela nem precisa), apresentá-la de um modo diferente. Nem toda a crítica está gostando, mas o que emerge do disco é uma Ariana Grande “com visão” sobre seu próprio trabalho, e mais interessada na produção de músicas que dão certo, do que na criação de discos “épicos” e que se parecem com filmes.
Vá lá: Ariana tem feito até mais teatro, TV e cinema do que discos, e não tentou diluir nada do trabalho de cantoras como Halsey ou Melanie Martinez. Nem mesmo a existência de Sabrina Carpenter parece ter influenciado muita coisa aqui, até porque Petal é um disco de pop moderno, dramático e com sarcasmo dosado.
O lance do “músicas que dão certo”, no caso, vem de uma visão pop que permite estranhezas e novidades. Tem o clima quase loudness war de Kiss me, a onda dançante e sombria (com synths esparsos e “barulhinhos”) de Hate that I made you love me, o r&b sexy e robótico da faixa-título (“todas as minhas histórias favoritas / terminam com algum tipo de catástrofe / mas não preciso de ninguém pra me salvar / porque essa música e eu nunca iremos morrer”, canta ela).
Petal é também o disco do experimentalismo dosado do r&b celestial Stay, do electropop texturizado de Oh well, do piano andarilho de Big feelings. do soft rock vaporoso de Freak… E de muita coisa que sugere que sons de UK garage e de nomes como PinkPantheress e Arca andaram frequentando as playlists pessoais dela – sons quebrados e justapostos, texturas alternadas e vibrações dosadamente lo-fi dão as caras em várias músicas. Uma dica: o time de Petal, ao contrário das equipes bíblicas de vários álbuns do pop, é bem econômico. Ariana e Ilya Salmanzadeh compuseram e produziram quase tudo sozinhos, com o homem-máquina-do-pop Max Martin entrando de parceiro e coprodutor em três faixas.
A dramática Like I do, próxima do nu-metal em termos de arranjo e produção, abre com vocais sampleados da própria Ariana à guisa de cordas ou teclados – algo que ela e Ilya talvez tenham aprendido ouvindo algum disco de Laurie Anderson (!), ou sei lá. E faixas como Never get over me e o eletrorockinho new wave Bad thing (Bunny hop) conseguem juntar grandilooquência e som minaturizado, como num minisytem no volume 10 que ocupa a sala. A “nova” Ariana vem com ótimos argumentos musicais.
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Crítica
Ouvimos: Lamento – “Aos que lutam para existir” (EP)

RESENHA: A banda paulista Lamento lança o EP Aos que lutam para existir, unindo crust punk, hardcore e melodias marcantes em músicas sobre resistência, desigualdade, esperança e luta coletiva.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: One Voice Records
Lançamento: 4 de junho de 2026
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“É um grito contra a apatia, mesmo diante da dor e da dificuldade. Contra as mentiras que tentam justificar a miséria que consome nosso tempo, nossa vida. Ficar de pé é carregar quem veio antes e abrir caminho para quem ainda vai chegar. E, já que a morte é lei, escolhemos a vida. Escolhemos viver. Não desistir do que nos pertence”.
- Ouvimos: X-Trago – Incapaz do além disso
Se o punk sempre foi no future, a banda paulista Lamento escolhe olhar para o futuro e ter alguma visão a respeito dele – ou então, é melhor mandar tudo pro cacete mesmo. No EP Aos que lutam para existir, a banda fala de pessoas vivendo em condições insalubres (Miserável cultura), esperança e resistência (Não é o bastante, Até aquilo que seremos, e a faixa-título), luta até à morte (O peso do adeus).
No meio da porradaria crusty, vale citar os vocais femininos (a vocalista é Helô Knup) e a preocupação da banda em fazer melodias bonitas e pesadas, e criar um ambiente sonoro que permita que as letras sejam quase 100% entendidas sem encarte. Ouça hoje mesmo.
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