Crítica
Ouvimos: Alvilda, “C’est déjà l’heure”

- C’est déjà l’heure é o primeiro álbum da banda punk parisiense Alvilda. O grupo é formado por Nina Galdino (voz e guitarra), Melanie Martinez (guitarra), Eva Donat Montes (baixo) e Sandra Mangione (bateria).
- “Não ser capaz de falar uma palavra em francês não é um obstáculo, pois todas as músicas são instantâneas e cativantes”, vende o release.
- A loja Monorail Music, da Escócia, vende o LP do Alvilda com uma mixtape exclusiva feita pela banda (se não estiver esgotado, ta aí).
Se você der uma ouvida distraída nesse C’est déjà l’heure, dá para achar o Alvilda bastante parecido com Blondie, Ramones ou B-52s – pelos vocais, pela duração do disco (menos de meia hora, canções curtas) e pela aparente simplicidade das composições. Não faça isso, claro: pra começar o quarteto feminino de Paris está mais para power pop do que para punk, e em vários momentos lembra mais o Clash (por causa das excelentes guitarras de Nina Galdino e Melanie Martinez), ou uma versão de bem com a vida dos Replacements.
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Sendo uma banda de Paris, elas absorveram muito do clima melódico das canções francesas e até do yé-yé (a chamada jovem guarda francesa, dos anos 1960), o que transparece em músicas como Teléphone e na abertura com Chômage (“desemprego”, em português), mas passando tudo isso por um filtro quase punk. Angoisse mereceria o rótulo “rock de garagem”, mas é ensolarada demais para isso – e ainda tem um lado indie pop forte nas linhas vocais e no subtexto de algumas composições e arranjos. Por acaso, volta e meia dá para deparar com textos recomendando o Alvilda para fãs de bandas como Sheer Mag – faz todo sentido.
Em Melanie, a abertura engana, mostrando algo parecido com o The Cure da estreia Three imaginary boys (1979), mas depois a música embarca num clima entre o surf e o power pop, com solos econômicos e ágeis. Vortex e Moustique são duas das faixas mais classificáveis como punk rock no disco, com uma abertura soando no tom “Chuck Berry encontra o punk” de bandas como The Kids e os próprios Ramones. Uma surpresa é Maladress, bedroom punk eletrônico, em clima de videogame, que lembra Devo e Young Marble Giants. Le froid encerra o disco lembrando (aí sim), o Blondie, em meio a referências ligadas a girl groups e ao próprio pop francês.
Nota: 8,5
Gravadora: Static Shock Records
Crítica
Ouvimos: Vita – “Vita’s house”

RESENHA: Vita mistura funk, house e dance em Vita’s house, estreia solo que transforma sexo, pista e política em manifesto de liberdade, afeto e resistência.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Altafonte
Lançamento: 13 de abril de 2026
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Putaria também é política – por mais que o conservadorismo volta e meia invada até os setores progressistas, temas como sexo, tesão e amor também têm posicionamento (e não, isso não é nenhuma referência ao Kama Sutra, ô engraçadinho / engraçadinha). Vita Pereira, ex-integrante das Irmãs de Pau, faz parte da turma que entendeu isso rapidinho. Aliás, rápido a ponto de fazer de sua estreia solo, Vita’s house, uma mistura de boate com som nas alturas e casa em que tudo pode acontecer.
Vita’s house, na prática, é um álbum de funk, mas com tudo dentro (opa), já que tem a house ácida de Santo forte, a dance music das antigas unida aos batidões novos em Sex on the floor e Corpo vazio, o funk pós-disco de 20k e as experimentações rítmicas de Salada, Touch my body, Vem pro ragga (ragga arábico com vocal quase rappeado) e a aceleração de Casa dos macho, Vita’s house e de faixas inacreditáveis como Dipiroca e Machucação.
- Ouvimos: MINTTT – Mixtape da prensa hidráulica
A lista de participações do disco é enorme: tem Larinhx, Badsista, Urias, Linn da Quebrada, Candy Mel. Entendedores de funk, balanço e putaria, os Cyberkills surgem em faixas como Sex on the floor, Peito pulseira e o EDM-tributo Ainda há Vera Verão (“ame mais, peça mais / afeto às escondidas não me satisfaz”). Nas letras, putaria e porrada: Out of my house proíbe a entrada de racistas e fascistas no recinto. O batidão de umbanda Treme a língua avisa que “na casa de Exu, travesti faz moradia / na casa de Exu encontrei minha Pomba Gira”. Se liga!
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Crítica
Ouvimos: Johnny Hooker – “Viver e morrer na América Latina”

RESENHA: Johnny Hooker mistura cabaré, rock, bolero e brega em Viver e morrer na América Latina, disco ousado, poético e vibrante, um dos lançamentos mais fortes de 2025.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente.
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Demoramos para ouvir Viver e morrer na América Latina, novo álbum de Johnny Hooker – e já estávamos perdendo um dos discos mais fortes lançados em 2025, uma mescla de som de cabaré, fraturas expostas de cotovelo à Tim Maia e ousadia atitudinal à Ney Matogrosso. Ney por sinal participa da faixa-título, um bolero selvagem com clima entre o brega e o sofisticado.
- Ouvimos: Mesh Kimono – Line cliché (EP)
Como todo disco de Johnny, Viver e morrer na América Latina se alimenta da variedade musical e da poesia sem controle e sem filtro. Ainda que, na prática, Johnny possa ser considerado um artista de rock brasileiro, com clima e atitude próximos do que se esperaria de uma versão verde-e-amarela e glam do estilo.
O trio inicial de faixas já prova essa variedade balizada pelo rock. Viver e morrer abre com um samba-rock que poderia ter sido cantado por Cássia Eller (Querem me ver humilhada), segue com um sophisti-pop oitentista (Nunca vai passar, com coral lembrando o soul com referências afro-latinas da época, de Lionel Richie a Michael Jackson) e une vibe glam e sofrência sertaneja (em Saudades, Elder).
Daí pra frente, Johnny faz bolero pop (O mundo me espera), insere Prince no cabaré (A vida é assim, do cantor e compositor recifense Conde Só Brega), une Bob Dylan e Belchior (Quando eu me for) e faz synth pop com lembranças de The Cure e Orchestral Manoeuvres In The Dark (2 punks néon, recentemente relançada por ele em single, como homenagem ao mês do orgulho LGBTQIAPN+).
A festa de Viver e morrer na América Latina encerra em clima de Carnaval, com a fanfarra de Eu quero ver pegar fogo e o brega de A vida é um Carnaval – e apresentam as duas outras convidadas do disco, Daniela Mercury (na primeira) e Lia de Itamaracá (em A vida…). Nas letras, autoafirmação, amor, vingança (“quem só me fez sofrer vai pagar dobrado”, canta em Querem me ver humilhada) e desejo de pôr fim ao medo e à opressão.
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Crítica
Ouvimos: Vários – “Help(2)”

RESENHA: Help(2) reúne artistas de várias gerações em um disco beneficente coeso, introspectivo e repleto de boas canções para ouvir sem pressa.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: War Child Records
Lançamento: 6 de março de 2026
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Surgido entre a crise da Venezuela e os ataques ao Irã, o novo volume da coletânea Help, criada pela organização sem fins lucrativos War Child, vem numa época sensível como a que gerou o primeiro Help, em 1995 – na época, milhares de crianças eram afetadas pelos conflitos na Bósnia, e o álbum cheio de estrelas da música, arrecadou mais de £ 1,25 milhão.
Uma diferença básica em relação ao disco anterior e o atual era o clima meio Live Aid + USA For Africa de evento: Help, com participações de nomes como Oasis, Radiohead, Blur, Manic Street Preachers, Stone Roses, Portishead, Paul Weller e Paul McCartney, foi gravado em apenas um dia, em diversos estúdios (“numa época anterior ao WeTransfer, iPhones e e-mail”, como esclarece o próprio site da War Child), e lançado na semana seguinte. A inspiração era a rapidez da concepção do single Instant karma, de John Lennon.
Help(2) é um fruto dos descaminhos individuais dos anos 2020, com diversas carreiras em tempos diferentes e pressões diferentes. Desafio houve, sim: o disco foi gravado em uma semana de novembro de 2025, com o britânico James Ford na produção. Mais ainda: Ford, que foi diagnosticado com leucemia em 2024, ficou doente e precisou dirigir tudo pelo laptop, em meio a uma transfusão de sangue. Mas houve tempo para o disco ser divulgado, com singles e notícias.
A lista de artistas é bem mais variada que no primeiro Help. O volume anterior era cheio de nomes do britpop e adjacências. No Help(2), nomes recentes como Beabadoobee, Olivia Rodrigo, Last Dinner Party, Arlo Parks e Cameron Winter (Geese) e Black Country, New Road dividem espaço com Damon Albarn, Beth Gibbons, Arctic Monkeys, Depeche Mode, Beck e Foals.
No geral, mesmo com tantas cabeças envolvidas, Help(2) tem um astral e um clima: é um disco em tom até meio grave, em que Arctic Monkeys surgem lembrando Bee Gees e Supertramp (Opening night), Black Country, New Road fazem lembrar Wings (Strangers) e Beth Gibbons exibe toda a dor de Sunday morning, do Velvet Underground. Uma cover gravada em tom folk, com vocal machucado e tom sentido, triste, no verso “são apenas os anos perdidos tão próximos”.
Dores sonoras e dramas diferentes tomam conta de Say yes (Beabadoobee relendo Elliott Smith), Begging for change (Pulp, com gritos de crianças) e na psicodelia soul-camerística de Naboo (Sampha). Pra você ver, até o Wet Leg surge mais introspectivo em Obvious – rara música chatinha do disco, aliás. Olivia Rodrigo investe em seu lado balada country em The book of love.
Para ouvir várias vezes, tem o clima meditativo de Relive, redie (Big Thief), a beleza de Black boys on mopeds (Fontaines DC) e a vertigem sonora de Warning (Cameron Winter). Um disco bem extenso, mas que vale ouvir com calma e atenção.
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