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Crítica

Os 50 melhores álbuns internacionais de 2024!

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Os 50 melhores álbuns nacionais e internacionais de 2024 ouvidos pelo Pop Fantasma!

Se bobear, o Pop Fantasma é o último meio de comunicação de música a dar os melhores do ano passado. Ano que vem vai sair tudo bem mais cedo, mas de qualquer jeito tem “os melhores” todo mês, e vai continuar tendo. E seguem aí os 50 melhores álbuns internacionais de 2024! Ouça tudo aos poucos e não esqueça dos discos de 2025, esse ano que já tá aí, correndo como pode.

Os discos estão em tópicos, do último ao primeiro colocado, sempre lembrando que para classificar os melhores vamos da nota 8 a 10. Dentro de cada nota, vínhamos fazendo um pequeno ranking particular para classificar os discos, e foi isso que levou à classificação. Penamos MUITO para cortar certos discos que estiveram nas linhas de melhores (nota 8) de alguns meses. Eles continuam estando entre os melhores dos meses em que os ouvimos, de qualquer jeito.

“Ué, mas e os EPs de 2024?”. Calma, tem uma seção especial para os EPs de 2024. Lá embaixo tem todos os links! (arte: Aline Haluch).

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50 JUANITA STEIN, “THE WEIGHLESS HOUR”. “O som de Juanita volta quase sempre reduzido a violões, guitarras sem pedal e vocais sobrepostos, com efeitos sombrios em alguns momentos. As poucas percussões do disco são discretas”.

49 NICK CAVE AND BAD SEEDS, “WILD GOD”. “Qualquer disco de Cave foi feito para que o cantor soe como um contador de histórias extremamente profundas, de teor quase religioso, mas sem direito a fé cega, ou a um “deus intervencionista” (como ele próprio cita na letra de Into my arms)”.

48 WHITE DENIM, “12“.12 é mais do que apenas uma evolução, é uma aula de como fazer música de embevecer. O White Denim, sempre liderado pelo criativo James Petralli, volta numa mescla de psicodelia, jazz rock, yacht rock, bossa psicodélica, power pop, soul e folk mágico”.

47 POND, “STUNG!”. “Houve momentos em que o Pond soou mais pop, menos pop, mais eletrônicos. Stung!, décimo álbum, soa como uma mistura de todas essas fases”.

46 CASSANDRA JENKINS, “MY LIGHT, MY DESTROYER”. “É um álbum musicalmente menos denso e mais palatável que o anterior. Mesmo assim, Cassandra investe em temas cósmicos e na busca de soluções no céu, de maneira científica, ficcional ou existencial”.

45 LAZY DAY, “OPEN THE DOOR“. “Batendo em temas como relacionamentos complicados e cascas de banana da vida adulta, Open the door é música pop de quem escutou muito Nirvana, Smashing Pumpkins, Smiths e… música eletrônica, tudo combinado”.

44 REDD KROSS, “REDD KROSS”. “O Redd Kross fez o power pop casar definitivamente com uma mescla de dor existencial e diversão – e com uma mistura de Beatles e Black Flag”.

43 PETER PERRETT, “THE CLEANSING”. “Peter se consagrou como vocalista do The Only Ones, banda punk britânica que tinha relacionamentos com eras bem anteriores ao punk. Não por acaso, fez de seu novo disco, o duplo (no vinil) The cleansing, uma homenagem ao rock novaiorquino dos anos 1970″.

42 MAXIMO PARK, “STREAM OF LIFE”. “O Maximo Park tem a ver com uma época em que tinha-se certeza de que ia surgir de algum canto obscuro (geralmente da Inglaterra) aquela banda cuja melodia batia com o que você sentia, e cujas letras falavam apenas sobre o que realmente fazia sentido. Aquela coisa da ‘sua’ banda – que não deixava de ser sua nem mesmo que os discos vendessem milhões de cópias”.

41 MICHELLE, “SONGS ABOUT YOU SPECIFICALLY”. “O som do Michelle é basicamente neo-soul, r&b e yacht rock anos 1970/1980. A ideia que fica na cabeça após ouvir Songs about you specifically é a de que ele responde às seguintes perguntas: como ficaria o som de artistas desses estilos se pudessem ter abusado da linguagem extremamente sincera do Michelle? Como seria se a perspectiva de nomes como Michael Jackson fosse a de fazer música no quarto e lançar no universo indie-pop?”.

40 LAKE STREET DIVE, “GOOD TOGETHER”. “Se o Lake Street Dive fosse uma banda dos anos 1980 ou 1990, estaria disputando o mesmo mercado de grupos como Style Council e Swing Out Sister, ou até do Tears For Fears fase The seeds of love. A turma dos revivalistas com atitude, dos artistas pop com os pés no jazz e no soul (e no rock clássico), e com ouvidos abertos para outros estilos musicais”.

39 THE DARE, “WHAT’S WRONG WITH NEW YORK?”. “Harrison Patrick Smith, o sujeito por trás do nome The Dare, soa em alguns momentos como a contrapartida masculina de Charli XCX – o cara que sacou que existe uma “coisa” transante, divertida e inclusiva na noite de Nova York, assim como a cantora do disco Brat faz o mesmo em terras britânicas”.

38 HIFI SEAN & DAVID MCALMONT, “DAYLIGHT”. “O álbum tem lá seus lados de introspecção, mas é realmente um álbum que fala, musicalmente, sobre as primeiras horas do dia, sobre o nascer do sol. E faz isso por intermédio de um mergulho profundo em tendências que vigoram na música eletrônica faz tempo”.

37 THE SMILE, “CUTOUTS”. “O The Smile é (pode acreditar) o Radiohead maravilhado com alguma coisa. Pelo menos musicalmente, porque dá para perceber nas letras de Cutouts que Thom Yorke anda meio obcecado por panes no sistema, desconfigurações, quebras de padrões e até com a onda dos coaches”.

36 SAINT ETIENNE, “THE NIGHT”. “As pessoas mudam, as coisas mudam, e lá se foi o Saint Etienne dedicar-se cada vez mais a uma música ambient, experimental e abstrata – em que tudo parece ser a trilha sonora de algo, seja das letras inconclusivas do grupo, seja de uma história que está sendo contada no decorrer das faixas”.

35 OSEES, “SORCS 80”. “Um disco bastante acessível para quem curte rock experimental, cruzamentos entre garage rock e jazz, grungeira estilo Mudhoney, fase dançante do Can, blues-rock alternativo e pré-punk na onda do MC5 e dos Stooges fase Funhouse”.

34 CUMGIRL8, “THE 8th CUMMING”. “É impressionante como o cumgirl8 nem sequer precisa se esforçar para guiar o timão de seu som para a Inglaterra da virada dos anos 1970 para os 1980 – aquele período em que pós-punks, new waves, new romantics, eletrônicos e revivalistas infiltrados se confundiam o tempo todo”.

33 MAGDALENA BAY, “IMAGINAL DISK”. “Uma mescla certeira de rock anos 1980, house music, pós-disco, disco camp na onda do ABBA, synth pop e dream pop”.

32 THE HARD QUARTET, “THE HARD QUARTET”. “O disco oscila entre duas denominações gringas: o stoner rock, vagaroso e chapado, e o slacker rock (zoado e por vezes desencontrado, mas tranquilo), este feito pelo Pavement há anos”.

31 BILL RYDER-JONES, “IECHYD DA”.Iechyd da talvez apresente a primeira homenagem de um artista estrangeiro a Gal Costa. E que homenagem: I know that it’s like this (Baby) é um folk-rock orquestral, doído de tão melancólico, feito em torno do refrão de Baby, na gravação de Gal”.

30 PIXIES. “THE NIGHT THE ZOMBIES CAME”. “Quem diria que, em nova fase, os Pixies se tornariam um espelho, em 2024, dos antigos revisionistas novidadeiros dos anos 1970? Aquela turma que, ao mesmo tempo que trazia coisas novas para o rock, não deixava de olhar para conceitos de dez, até vinte anos antes”.

29 KATY J PEARSON, “SOMEDAY, NOW”. “Katy volta armada de excelentes canções, um produtor eficiente (Nathan Jenkins, o popular Bullion) e uma tendência musical mais próxima do indie-folk”.

28 CHILDISH GAMBINO, “BANDO STONE AND THE NEW WORLD”. “O disco aponta para vários lados sem recorrer ao ecletismo barato, e justamente por ser um disco repleto de imagens (afinal, trata-se de uma trilha sonora), dá para dizer que rola uma quase psicodelia ali”.

27 JAMIE XX, “IN WAVES”. “Tudo que surge no álbum é montado como se contasse uma história para ser vivida em grupo, como numa pista de dança – o que já é mostrado pelos títulos das músicas e pela progressão das faixas”.

26 NILÜFER YANYA, “MY METHOD ACTOR”. “Cada música é trabalhada como se fosse um personagem diferente. Ou uma área diferente da vida de alguém que diariamente precisa lidar com questões pessoais e emocionais, e com um universo onde ‘chances iguais’ não passa de história da carochinha”.

25 ALUMINUM, “FULLY BEAT”. “Esse disco faria um baita sucesso se fosse lançado na Inglaterra no começo dos anos 1990, e poderia ter sido lançado por uma banda de Manchester. Ou , enfim, por uma banda aparentada de grupos como Ride, Happy Mondays, My Bloody Valentine e Boo Radleys”.

24 BODY COUNT, “MERCILESS”. “Olha, se bobear, nem no primeiro disco (1992), quando o Body Count decidiu meter o pé na porta com Cop killer (depois arrancada fora do álbum), o grupo de heavy metal liderado pelo rapper Ice-T soou tão violento e feroz quanto nesse Merciless“.

23 BRIGITTE CALLS ME BABY, “THE FUTURE IS OUR WAY OUT”. “O futuro imaginado pelo grupo de Chicago é nada mais do que uma bela linha do tempo, esticada na frente dos ouvintes. Uma linha que remonta a Roy Orbison, a Everly Brothers, a Bruce Springsteen, a Chrissie Hynde, ao imaginário da Hollywood dos anos 1950 e 1960, e a tentativas de emular Elvis Presley”.

22 KIM DEAL, “NOBODY LOVES YOU MORE”. “Mesmo nos momentos mais ruidosos e experimentais, o som de Kim não soa cru. Soa é muito bem produzido, com direito a cordas e metais tornando o álbum uma experiência bem mais rica musicalmente”.

23 THE CURE, “SONGS OF A LOST WORD”. “É justamente o lado pop do The Cure que alivia qualquer tipo de estranhamento, num disco povoado por canções enormes, climas tempestuosos e letras que soam como cartas de despedida, ou confissões de desespero total”.

20 GRUFF RHYS, “SADNESS SETS ME FREE”. “Até por ter sido gravado num estúdio em Paris, Sadness sets me free ganha em vários momentos o charme e a grandiloquência do pop francês, numa onda outrora seguida por Jarvis Cocker e pelo Pulp”.

19 THE LAST DINNER PARTY, “PRELUDE TO ECSTASY”. “O grupo pertence a uma árvore genealógica da qual fazem parte Laura Nyro, Judee Sill, Love, Echo & The Bunnymen, David Bowie, Siouxsie Sioux, Shirelles, Kate Bush, Sparks, ABBA. Tudo o que pode soar mágico e musical simultaneamente”.

18 FONTAINES DC, “ROMANCE”. “O grupo volta com o bom e velho objetivo de tentar fazer cabeças, mover mundos e quem sabe, lançar um futuro clássico”.

17 BEYONCÉ, “COWBOY CARTER”.“Uma verdadeira festa de referências. Você tem que ouvir o álbum lendo todas as informações possíveis sobre ele – algo que nem Madonna, Prince, David Bowie, Michael Jackson ou George Michael haviam conseguido antes. Se você ouvir Cowboy carter distraidamente, vai perder boa parte da festa”.

16 AMYL AND THE SNIFFERS, “CARTOON DARKNESS”.Cartoon é um disco feito para jogar Amyl e seus Sniffers nas alturas – está claro nos arranjos, na produção, na composição, e no fato de ser o melhor som do grupo gravado até hoje”.

15 THE TENEMENTALS, “GLASGOW: A HISTORY (vol I of VI). “O Tenementals é um coletivo de músicos e acadêmicos que, em seu primeiro álbum, se dedicou a fazer nove canções contando as histórias do lado politizado e esquerhttps://floralwhite-barracuda-675550.hostingersite.com/ouvimos-the-tenementals-glasgow-a-history-vol-i-of-vi/dista de Glasgow, mais populosa cidade da Escócia”.

14 FATHER JOHN MISTY, “MAHASHMASHANA”. “O disco acaba transformando de vez Father John Misty numa espécie de Raulzito pós-moderno, de maluco beleza do mundo indie atual – um cara que consegue fazer canções pop e melodias de embevecer, mas que prefere zoar o que acha que deve ser zoado”.

13 NADA SURF, “MOON MIRROR”. “O quarteto investe em rock com guitarras à frente e design musical ‘pra cima’ – aquele tipo de som que eternamente será chamado de power pop, muitas vezes por falta de definição melhor”.

12 SAULT, “ACTS OF FAITH”.Acts of faith é um álbum de soul progressivo, inspirado por Marvin Gaye, Stevie Wonder, Isaac Hayes, trilhas sonoras, jazz meditativo, e possivelmente até por Cassiano e Banda Black Rio”.

11 RYUICHI SAKAMOTO, “OPUS”.Opus lida, mais do que com o fim da vida, com a observação do passado. E com a passagem para uma outra etapa, seja lá qual ela for, e seja lá o que estiver implicado nisso”.

10 TYLER THE CREATOR, “CHROMAKOPIA”. “O negócio é apenas observar o quanto Tyler evoluiu como criador, beatmaker e produtor, e apreciar o fato de que outros artistas pop convocariam um exército de produtores, beatmakers, músicos e estetas do sampler só para fazer tudo o que ele fez sozinho em Chromakopia”.

09 NEIL YOUNG & CRAZY HORSE, “FUCKIN’UP”. “Com qualidade de gravação de LP pirata, ou de show gravado só por diversão, Fuckin up traz uma regravação de quase todo o disco Ragged glory, o “álbum grunge” de Neil (1990), só que com microfonias e sujeira a rodo, nomes das faixas mudados (!) e mixagem absolutamente caótica”.

08 MICHAEL KIWANUKA, “SMALL CHANGES”.Small changes parece gravado numa sala enorme, com uma abóbada. Michael ressurge mais voltado para seu lado soul do que para seu lado folk, e segue um setentismo muito bem estudado e realizado”.

07 FANTASTIC NEGRITO, “SON OF A BROKEN MAN”. “Um disco inspirado no relacionamento pra lá de tóxico de Negrito  com seu pai, e mais focado ainda nas questões e problemas pessoais que enfrentou ao longo da vida, com versos como ‘a primeira pessoa a me trair foi meu pai’, ‘alguém já agiu como se fosse seu amigo e te apunhalou pelas costas?'”.

06 LIANA FLORES, “FLOWER OF THE SOUL”.Flower of the soul une tudo isso com influências de jazz e bossa nova, tudo equlibradinho, com clima ligeiramente psicodélico emfaixas como Hello againOrange-coloured day (com vocais e piano bastante criativos, numa mistura explosiva de Karen Carpenter e Tom Jobim) e o soft rock de Nightvisions e Slowly”.

05 OMNI, “SOUVENIR”. “Quase impossível não pensar numa versão mais robótica do Television ao ouvir o som do Omni. As referências são bem claras: além do grupo de Tom Verlaine, nomes como Talking Heads, The Cure, Gang Of Four, Devo, Buzzcocks e certa dose de The Clash batem ponto no som desse grupo da Georgia”.

04 JULIE, “MY ANTI-AIRCRAFT FRIEND”. “Muita coisa do álbum tem o mesmo senso de música-feita-com-microfonias de álbuns como Daydream nation e Goo, do Sonic Youth – a abertura com Catalogue, por exemplo. E certas coisas lembram bastante o lado mais sinistro do grunge”.

03 TAHITI 80 “HELLO HELLO”. “Se você for tentar achar uma música menos que excelente nesse décimo disco do Tahiti 80, Hello hello, vai ter uma trabalheira daquelas. Para começar, o grupo indie francês volta cada vez mais disposto a tirar sua música de qualquer noção de tempo e de espaço”.

02 MC5, “HEAVY LIFTING”. “Lamentavelmente, Heavy lifting, que era para ser um retorno e uma comemoração, acabou se transformando num disco 100% póstumo”.

01 JOHN CALE, “POPtical illusion”. “A ‘ilusão de ótica pop’ de John Cale inclui mostrar que a música de vanguarda, na visão dele, se parece bem pouco com a ideia comum de rock, ou até de punk. O som de POPtical tem a ver até com pop adulto-contemporâneo, desde que aquilo possa ser mexido e remexido de forma a se tornar um pouco esquisito”.

 

 

Crítica

Ouvimos: Angine de Poitrine – “Vol. II”

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Misterioso duo canadense Angine de Poitrine mistura math rock, microtons e pop em Vol. II, equilibrando experimentalismo e acessibilidade com energia quase festiva.

RESENHA: Misterioso duo canadense Angine de Poitrine mistura math rock, microtons e pop em Vol. II, equilibrando experimentalismo e acessibilidade com energia quase festiva.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Até a nem sempre confiável Wikipedia já crava os músicos Marc-Antoine Mackin-Guay (guitarras microtonais) e Charles Thibeault (bateria) como sendo as pessoas por trás da banda mascarada Angine de Poitrine – e os responsáveis pelos personagens Khn de Poitrine e Klek de Poitrine.

Para todos os efeitos, Mac e Charles são os integrantes do La Poexe, uma outra dupla-de-guitarra-e-bateria que faz math rock e que vem da mesma cidade do Angine, Saguenay, no Canadá. Com a diferença que o La Poexe não é totalmente “instrumental” e acrescenta urros à sonoridade meio prog, meio math rock que faz. Quem é fã do Angine deveria inclusive ouvir Poex, único álbum da dupla até o momento, lançado em 2022.

Vol. II, o segundo disco do Angine, é uma ótima porta de entrada para futuros fãs do projeto musical. Não responde por completo o fato do duo ter virado mania nos últimos dias, claro: um apresentação na rádio KEXP, um certo fala-fala entre críticos musicais, domínio das ferramentas virais (nunca é por acaso…) e nomões bacanas recomendando a dupla (Dave Grohl e Mike Portnoy entre eles) ajudaram bastante.

Falando de música, que é o que interessa: não tem só experimentalismo, microtons e beats pouco convencionais no som do Angine – tem inclusive muito domínio de linguagens clássicas do rock e até da música pop. O site Pitchfork chamou inclusive o duo de “a banda de festa mais estranha do mundo”, e dá pra ter uma ideia, pelos dois álbuns da dupla, de como um show do Angine deve ser divertido.

No primeiro disco, inclusive, dava pra sacar como Marc, digo Khn, sabia soar convencional quando precisava. Tanto que vários solos de guitarra lembravam os ataques de faroeste de Jimmy Page em músicas do Led Zeppelin como Celebration day e The song remains the same. Muita coisa ali poderia vazar para o rótulo “progressivo”, mesmo sendo math-punk na prática.

Vol. II, por sua vez, faz lembrar um Status Quo + Deep Purple punk e experimental na ágil Mata zyklek, e dá uma animada quase math-soul-disco em Fabienk, música em que cordas e beats se alternam para ver quem é o eixo e quem é a evolução que circula entre os sons. Isso rola, por exemplo, na combinação de nota reloginho e beat seco de Angor, a última faixa (são seis faixas em 37 minutos, falando nisso) – que evolui para um hard rock robótico, quase um Black Sabbath cyborg.

Na real com um pouco de imaginação dá até pra enxergar algo próximo do clássico jazz-fusion Head hunters, de Herbie Hancock (1973) no jazz-rock-punk de Sarniezz, com guitarras que, entre um microtom e outro, parecem até um mosquito aporrinhando você antes de dormir – uma imagem que, com certeza, é o que Khn e Klek andam procurando transformar em música. Dá também para enxergar uma marcha grega (ou portuguesa) no andamento de Utzp e algo latino-cigano no math-punk de Yor zarad.

Aliás, dá pra enxergar que o barulho sonoro vem sendo devidamente assimilado na cultura pop aos poucos em 2026 – por intermédio da recente onda de shoegaze, ou pela chegada de bandas como Mandy, Indiana, Rhododendron e outras. O Angine de Poitrine faz parte disso. Num mundo ideal, veríamos vários sósias de Khn e Klen nos bloquinhos da vida se o boca-a-boca sobre o duo tivesse começado antes do Carnaval. Fica pra 2027.

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Crítica

Ouvimos: Robyn – “Sexistential”

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Ouvimos: Robyn – “Sexistential”

RESENHA: Sexistential mostra Robyn madura: pop eletrônico entre sexo, maternidade e existencialismo, com som hipnótico e olhar atual sobre o amor.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Konichiwa / Young
Lançamento: 27 de março de 2026

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Tem um artigo ótimo no jornal britânico The Guardian chamado Como Robyn transformou o pop, escrito em 2018 por Laura Snapes. É um texto longo, que explica uma série de coisas que provavelmente passaram despercebidas até mesmo aos críticos musicais mais atentos: a cantora sueca e sua paixão pelo eletropop agridoce influenciaram um número enorme de artistas, a ponto de haver um “momento Robyn” em discos de Rihanna, Ariana Grande e até Taylor Swift, com batidas e synths de impacto.

Mais: se hoje o termo “hyperpop” é discutido em tudo quanto é lugar, isso se deve à noção de Robyn de que o pop tem uma arquitetura própria, que passa pela composição, pelos temas, pelo gancho que “pega” – e pela vontade de subverter todas as fórmulas. Isso tudo foi fervilhando aos poucos, à medida que alguns eventos importantes aconteciam: 1) Robyn decidiu tomar as rédeas de sua carreira e montou um selo independente, em 2005; 2) rolou uma troca de guarda na crítica musical e surgiram jornalistas que não consideravam a palavra “pop” um palavrão, além de críticos – e críticas – musicais menos rockcentrados.

Enfim, vale bastante a leitura desse texto, feito quando Robyn estava prestes a lançar seu oitavo disco, Honey (2018). Um disco que alternava sons pop e coisas mais experimentais: a cantora disse a Laura que não estava interessada em melodias, e queria fazer coisas “mais hipnóticas” (de fato, os sons de faixas como Missing U, Honey e a robótica Human being quase podem ser pegos com a mão, pelo espaço que ocupam no ambiente).

  • Ouvimos: Iggy Pop – Iggy & Ziggy Cleveland ‘77 / Jesus loves the Stooges

(Aliás, diga-se de passagem: no papo com o The Guardian, Robyn também se mostava preocupada com a narração do mundo por intermédio do algoritmo: “Quando as coisas são tão simplificadas na sua janela do Instagram, sinto que precisa haver alguma complexidade. As coisas não podem ser apenas uma coisa. É mais importante do que nunca deixar que as coisas sejam muitas coisas ao mesmo tempo. Não tornar tudo fácil demais”, disse).

Enfim, indo pros finalmentes, Sexistential, nono álbum de Robyn, tem várias funções: 1) mostrar uma Robyn madura e pop, robótica e humana, existencial e dançante; 2) ser o primeiro disco dela depois da popularização da inteligência artificial; 3) mostrar a mulher por trás da música, algo bem diferente em se tratando de uma artista reservada como Robyn.

Não é um disco “sexual” no sentido mais popularesco da coisa: Sexistential fala de sexo como um estar-no-mundo, da mesma forma que fala de maternidade na regravação de Blow my mind, uma música gravada por ela originalmente em 2002 no disco Don’t stop the music, numa versão mais eletro-rock. A nova versão tem versos dedicados a seu filho, nascido de fertilização in vitro – musicalmente, ganhou uma cara mais alt-pop, com direito a um teclado aberto em leque, lembrando até a abertura de Palco, de Gilberto Gil.

Sexistential tem sexo também como um pano de fundo que às vezes, ocupa a frente do palco: surge na dance music rasgada de Really real, que fala de relacionmentos que terminam, e das perdas e ganhos da maturidade. Volta no pop sem margem de dúvidas de Dopamine, música sobre amor e química – cuja letra ganha o prêmio “fale bastante de sexo sem falar em sexo”, e cuja música é cercada de teclados ágeis e hipnóticos, vozes robóticas e aquele clima que rola quando o pop fala de si próprio.

Essa onda de pop “arquitetado”, típico do pop sueco (opa, esse país aí é bom de música, hein?) faz com que o “pop” se torne uma opção, quase uma linguagem própria, cheia de códigos próprios. Como os teclados sonhadores de músicas como Light up e Sucker for love (cujo andamento lembra um eletrobrega), a produção ligeiramente próxima do trap em It don’t mean a thing e o pop sintetizado de Talk to me, e da faixa-título.

Como letrista, Robyn interpreta também o mundo descrito pelas canções pop (amores, paixões, leviandades da vida) com sua mente de agora. Sexistential, a faixa-título, soa como um diário de maternidade solo, em que ela descreve até uma consulta médica, e poetiza sobre os sentimentos da fase (“meu corpo é uma nave espacial com os ovários em hipervelocidade / existe um universo inteiro dentro de mim, entre as minhas coxas”).

Talk to me é sexo mediado pelo celular, mas visto de maneira (vá lá) saudável, como parte do dia a dia de alguém que tem montes de ocupações e nem sempre tem alguém do lado. E em Sucker for me, Robyn avisa que não vai fazer nenhum tipo de jogo, e que brincadeira tem hora. “Eu não vou mais jogar esse jogo / e nem me importo com quem ganhe / eu costumava ser mais resistente / mas escolhi deixar você vencer”.

Encerrando, pop como na era de Like a prayer, de Madonna, em Into the sun – uma música explicando como a realidade se torna uma espécie de pesadelo de Ícaro, com um “voar, voar, subir, subir” pervertido (“olha só o que eu fiz / tão corajosa e burra de voar direto pro sol”). Pop existencial sem deixar de ser ultrapop.

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Crítica

Ouvimos: Lava La Rue – “Do you know everything?” (EP)

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Resenha: Lava La Rue – “Do you know everything” (EP)

RESENHA: Lava La Rue troca o sci-fi por som coletivo em Do you know everything?, unindo punk, noise e pop em EP direto, acessível e com clima guerreiro e vibe bubblegrunge.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: BMG
Lançamento: 27 de março de 2026

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Os guitarristas Sadie Sadist e George Werbrouck-Edwards, o baterista Cian Hanley, o baixista Biz Wicks e o baterista e produtor Mattu são agora os companheiros de trabalho de Lava La Rue. Após a estreia em Starface (2024), álbum em que Ava Laurel (nome verdadeiro da artista não-binária que toca o projeto / codinome) se responsabilizava por todo o conceito espacial sci-fi, chega agora Do you know everything?, EP em que Lava se entrega a um projeto de adolescência: chegar um pouco mais perto do som de bandas como The Clash, e de um clima musical guerreiro, que margeia estilos como punk e noise rock, sem perder o dado pop.

Volta e meia tem sido possível ler em sites de músicas informações sobre um tal de bubblegrunge – “estilo” (muito entre aspas) que mistura peso e acessibilidade, com simplicidade próxima do punk. Se for por esse lado, o EP de Lava La Rue é o verdadeiro bubblegrunge. O disco começa unindo vibes maquínicas e riff de guitarra à frente na charmosa Scratches – uma música elegante que tem ares de Blondie e que lembra mais pop-rock francês do que punk britânico. E segue com a distorção pseudo-fofa de Girl is a knife, que é um noise-rock com cara pop, mais próximo de bandas como Elastica (lembra?).

No lado B de Do you know everything?, Lava manda bala num synthpop pesado, Jet lagged, que vai chamar a atenção de quem sente falta do indie dance do Republica, e que também ganha ares de The Cure em alguns momentos – aliás, essa música tem participação do Foster The People. A melhor faixa fica pro fim, que é Easy come, easy go – um eletro-rock brilhante, com riff de baixo comandando, e vibe de pop com distorções. A nova fase colaborativa de Lava La Rue promete tanto quanto no álbum anterior, embora para um próximo disco, dê uma certa vontade de ver as duas ondas (a de Starface e a de Do you know everything?) devidamente misturadas.

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