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Crítica

Os 50 melhores álbuns internacionais de 2024!

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Os 50 melhores álbuns nacionais e internacionais de 2024 ouvidos pelo Pop Fantasma!

Se bobear, o Pop Fantasma é o último meio de comunicação de música a dar os melhores do ano passado. Ano que vem vai sair tudo bem mais cedo, mas de qualquer jeito tem “os melhores” todo mês, e vai continuar tendo. E seguem aí os 50 melhores álbuns internacionais de 2024! Ouça tudo aos poucos e não esqueça dos discos de 2025, esse ano que já tá aí, correndo como pode.

Os discos estão em tópicos, do último ao primeiro colocado, sempre lembrando que para classificar os melhores vamos da nota 8 a 10. Dentro de cada nota, vínhamos fazendo um pequeno ranking particular para classificar os discos, e foi isso que levou à classificação. Penamos MUITO para cortar certos discos que estiveram nas linhas de melhores (nota 8) de alguns meses. Eles continuam estando entre os melhores dos meses em que os ouvimos, de qualquer jeito.

“Ué, mas e os EPs de 2024?”. Calma, tem uma seção especial para os EPs de 2024. Lá embaixo tem todos os links! (arte: Aline Haluch).

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50 JUANITA STEIN, “THE WEIGHLESS HOUR”. “O som de Juanita volta quase sempre reduzido a violões, guitarras sem pedal e vocais sobrepostos, com efeitos sombrios em alguns momentos. As poucas percussões do disco são discretas”.

49 NICK CAVE AND BAD SEEDS, “WILD GOD”. “Qualquer disco de Cave foi feito para que o cantor soe como um contador de histórias extremamente profundas, de teor quase religioso, mas sem direito a fé cega, ou a um “deus intervencionista” (como ele próprio cita na letra de Into my arms)”.

48 WHITE DENIM, “12“.12 é mais do que apenas uma evolução, é uma aula de como fazer música de embevecer. O White Denim, sempre liderado pelo criativo James Petralli, volta numa mescla de psicodelia, jazz rock, yacht rock, bossa psicodélica, power pop, soul e folk mágico”.

47 POND, “STUNG!”. “Houve momentos em que o Pond soou mais pop, menos pop, mais eletrônicos. Stung!, décimo álbum, soa como uma mistura de todas essas fases”.

46 CASSANDRA JENKINS, “MY LIGHT, MY DESTROYER”. “É um álbum musicalmente menos denso e mais palatável que o anterior. Mesmo assim, Cassandra investe em temas cósmicos e na busca de soluções no céu, de maneira científica, ficcional ou existencial”.

45 LAZY DAY, “OPEN THE DOOR“. “Batendo em temas como relacionamentos complicados e cascas de banana da vida adulta, Open the door é música pop de quem escutou muito Nirvana, Smashing Pumpkins, Smiths e… música eletrônica, tudo combinado”.

44 REDD KROSS, “REDD KROSS”. “O Redd Kross fez o power pop casar definitivamente com uma mescla de dor existencial e diversão – e com uma mistura de Beatles e Black Flag”.

43 PETER PERRETT, “THE CLEANSING”. “Peter se consagrou como vocalista do The Only Ones, banda punk britânica que tinha relacionamentos com eras bem anteriores ao punk. Não por acaso, fez de seu novo disco, o duplo (no vinil) The cleansing, uma homenagem ao rock novaiorquino dos anos 1970″.

42 MAXIMO PARK, “STREAM OF LIFE”. “O Maximo Park tem a ver com uma época em que tinha-se certeza de que ia surgir de algum canto obscuro (geralmente da Inglaterra) aquela banda cuja melodia batia com o que você sentia, e cujas letras falavam apenas sobre o que realmente fazia sentido. Aquela coisa da ‘sua’ banda – que não deixava de ser sua nem mesmo que os discos vendessem milhões de cópias”.

41 MICHELLE, “SONGS ABOUT YOU SPECIFICALLY”. “O som do Michelle é basicamente neo-soul, r&b e yacht rock anos 1970/1980. A ideia que fica na cabeça após ouvir Songs about you specifically é a de que ele responde às seguintes perguntas: como ficaria o som de artistas desses estilos se pudessem ter abusado da linguagem extremamente sincera do Michelle? Como seria se a perspectiva de nomes como Michael Jackson fosse a de fazer música no quarto e lançar no universo indie-pop?”.

40 LAKE STREET DIVE, “GOOD TOGETHER”. “Se o Lake Street Dive fosse uma banda dos anos 1980 ou 1990, estaria disputando o mesmo mercado de grupos como Style Council e Swing Out Sister, ou até do Tears For Fears fase The seeds of love. A turma dos revivalistas com atitude, dos artistas pop com os pés no jazz e no soul (e no rock clássico), e com ouvidos abertos para outros estilos musicais”.

39 THE DARE, “WHAT’S WRONG WITH NEW YORK?”. “Harrison Patrick Smith, o sujeito por trás do nome The Dare, soa em alguns momentos como a contrapartida masculina de Charli XCX – o cara que sacou que existe uma “coisa” transante, divertida e inclusiva na noite de Nova York, assim como a cantora do disco Brat faz o mesmo em terras britânicas”.

38 HIFI SEAN & DAVID MCALMONT, “DAYLIGHT”. “O álbum tem lá seus lados de introspecção, mas é realmente um álbum que fala, musicalmente, sobre as primeiras horas do dia, sobre o nascer do sol. E faz isso por intermédio de um mergulho profundo em tendências que vigoram na música eletrônica faz tempo”.

37 THE SMILE, “CUTOUTS”. “O The Smile é (pode acreditar) o Radiohead maravilhado com alguma coisa. Pelo menos musicalmente, porque dá para perceber nas letras de Cutouts que Thom Yorke anda meio obcecado por panes no sistema, desconfigurações, quebras de padrões e até com a onda dos coaches”.

36 SAINT ETIENNE, “THE NIGHT”. “As pessoas mudam, as coisas mudam, e lá se foi o Saint Etienne dedicar-se cada vez mais a uma música ambient, experimental e abstrata – em que tudo parece ser a trilha sonora de algo, seja das letras inconclusivas do grupo, seja de uma história que está sendo contada no decorrer das faixas”.

35 OSEES, “SORCS 80”. “Um disco bastante acessível para quem curte rock experimental, cruzamentos entre garage rock e jazz, grungeira estilo Mudhoney, fase dançante do Can, blues-rock alternativo e pré-punk na onda do MC5 e dos Stooges fase Funhouse”.

34 CUMGIRL8, “THE 8th CUMMING”. “É impressionante como o cumgirl8 nem sequer precisa se esforçar para guiar o timão de seu som para a Inglaterra da virada dos anos 1970 para os 1980 – aquele período em que pós-punks, new waves, new romantics, eletrônicos e revivalistas infiltrados se confundiam o tempo todo”.

33 MAGDALENA BAY, “IMAGINAL DISK”. “Uma mescla certeira de rock anos 1980, house music, pós-disco, disco camp na onda do ABBA, synth pop e dream pop”.

32 THE HARD QUARTET, “THE HARD QUARTET”. “O disco oscila entre duas denominações gringas: o stoner rock, vagaroso e chapado, e o slacker rock (zoado e por vezes desencontrado, mas tranquilo), este feito pelo Pavement há anos”.

31 BILL RYDER-JONES, “IECHYD DA”.Iechyd da talvez apresente a primeira homenagem de um artista estrangeiro a Gal Costa. E que homenagem: I know that it’s like this (Baby) é um folk-rock orquestral, doído de tão melancólico, feito em torno do refrão de Baby, na gravação de Gal”.

30 PIXIES. “THE NIGHT THE ZOMBIES CAME”. “Quem diria que, em nova fase, os Pixies se tornariam um espelho, em 2024, dos antigos revisionistas novidadeiros dos anos 1970? Aquela turma que, ao mesmo tempo que trazia coisas novas para o rock, não deixava de olhar para conceitos de dez, até vinte anos antes”.

29 KATY J PEARSON, “SOMEDAY, NOW”. “Katy volta armada de excelentes canções, um produtor eficiente (Nathan Jenkins, o popular Bullion) e uma tendência musical mais próxima do indie-folk”.

28 CHILDISH GAMBINO, “BANDO STONE AND THE NEW WORLD”. “O disco aponta para vários lados sem recorrer ao ecletismo barato, e justamente por ser um disco repleto de imagens (afinal, trata-se de uma trilha sonora), dá para dizer que rola uma quase psicodelia ali”.

27 JAMIE XX, “IN WAVES”. “Tudo que surge no álbum é montado como se contasse uma história para ser vivida em grupo, como numa pista de dança – o que já é mostrado pelos títulos das músicas e pela progressão das faixas”.

26 NILÜFER YANYA, “MY METHOD ACTOR”. “Cada música é trabalhada como se fosse um personagem diferente. Ou uma área diferente da vida de alguém que diariamente precisa lidar com questões pessoais e emocionais, e com um universo onde ‘chances iguais’ não passa de história da carochinha”.

25 ALUMINUM, “FULLY BEAT”. “Esse disco faria um baita sucesso se fosse lançado na Inglaterra no começo dos anos 1990, e poderia ter sido lançado por uma banda de Manchester. Ou , enfim, por uma banda aparentada de grupos como Ride, Happy Mondays, My Bloody Valentine e Boo Radleys”.

24 BODY COUNT, “MERCILESS”. “Olha, se bobear, nem no primeiro disco (1992), quando o Body Count decidiu meter o pé na porta com Cop killer (depois arrancada fora do álbum), o grupo de heavy metal liderado pelo rapper Ice-T soou tão violento e feroz quanto nesse Merciless“.

23 BRIGITTE CALLS ME BABY, “THE FUTURE IS OUR WAY OUT”. “O futuro imaginado pelo grupo de Chicago é nada mais do que uma bela linha do tempo, esticada na frente dos ouvintes. Uma linha que remonta a Roy Orbison, a Everly Brothers, a Bruce Springsteen, a Chrissie Hynde, ao imaginário da Hollywood dos anos 1950 e 1960, e a tentativas de emular Elvis Presley”.

22 KIM DEAL, “NOBODY LOVES YOU MORE”. “Mesmo nos momentos mais ruidosos e experimentais, o som de Kim não soa cru. Soa é muito bem produzido, com direito a cordas e metais tornando o álbum uma experiência bem mais rica musicalmente”.

23 THE CURE, “SONGS OF A LOST WORD”. “É justamente o lado pop do The Cure que alivia qualquer tipo de estranhamento, num disco povoado por canções enormes, climas tempestuosos e letras que soam como cartas de despedida, ou confissões de desespero total”.

20 GRUFF RHYS, “SADNESS SETS ME FREE”. “Até por ter sido gravado num estúdio em Paris, Sadness sets me free ganha em vários momentos o charme e a grandiloquência do pop francês, numa onda outrora seguida por Jarvis Cocker e pelo Pulp”.

19 THE LAST DINNER PARTY, “PRELUDE TO ECSTASY”. “O grupo pertence a uma árvore genealógica da qual fazem parte Laura Nyro, Judee Sill, Love, Echo & The Bunnymen, David Bowie, Siouxsie Sioux, Shirelles, Kate Bush, Sparks, ABBA. Tudo o que pode soar mágico e musical simultaneamente”.

18 FONTAINES DC, “ROMANCE”. “O grupo volta com o bom e velho objetivo de tentar fazer cabeças, mover mundos e quem sabe, lançar um futuro clássico”.

17 BEYONCÉ, “COWBOY CARTER”.“Uma verdadeira festa de referências. Você tem que ouvir o álbum lendo todas as informações possíveis sobre ele – algo que nem Madonna, Prince, David Bowie, Michael Jackson ou George Michael haviam conseguido antes. Se você ouvir Cowboy carter distraidamente, vai perder boa parte da festa”.

16 AMYL AND THE SNIFFERS, “CARTOON DARKNESS”.Cartoon é um disco feito para jogar Amyl e seus Sniffers nas alturas – está claro nos arranjos, na produção, na composição, e no fato de ser o melhor som do grupo gravado até hoje”.

15 THE TENEMENTALS, “GLASGOW: A HISTORY (vol I of VI). “O Tenementals é um coletivo de músicos e acadêmicos que, em seu primeiro álbum, se dedicou a fazer nove canções contando as histórias do lado politizado e esquerhttps://floralwhite-barracuda-675550.hostingersite.com/ouvimos-the-tenementals-glasgow-a-history-vol-i-of-vi/dista de Glasgow, mais populosa cidade da Escócia”.

14 FATHER JOHN MISTY, “MAHASHMASHANA”. “O disco acaba transformando de vez Father John Misty numa espécie de Raulzito pós-moderno, de maluco beleza do mundo indie atual – um cara que consegue fazer canções pop e melodias de embevecer, mas que prefere zoar o que acha que deve ser zoado”.

13 NADA SURF, “MOON MIRROR”. “O quarteto investe em rock com guitarras à frente e design musical ‘pra cima’ – aquele tipo de som que eternamente será chamado de power pop, muitas vezes por falta de definição melhor”.

12 SAULT, “ACTS OF FAITH”.Acts of faith é um álbum de soul progressivo, inspirado por Marvin Gaye, Stevie Wonder, Isaac Hayes, trilhas sonoras, jazz meditativo, e possivelmente até por Cassiano e Banda Black Rio”.

11 RYUICHI SAKAMOTO, “OPUS”.Opus lida, mais do que com o fim da vida, com a observação do passado. E com a passagem para uma outra etapa, seja lá qual ela for, e seja lá o que estiver implicado nisso”.

10 TYLER THE CREATOR, “CHROMAKOPIA”. “O negócio é apenas observar o quanto Tyler evoluiu como criador, beatmaker e produtor, e apreciar o fato de que outros artistas pop convocariam um exército de produtores, beatmakers, músicos e estetas do sampler só para fazer tudo o que ele fez sozinho em Chromakopia”.

09 NEIL YOUNG & CRAZY HORSE, “FUCKIN’UP”. “Com qualidade de gravação de LP pirata, ou de show gravado só por diversão, Fuckin up traz uma regravação de quase todo o disco Ragged glory, o “álbum grunge” de Neil (1990), só que com microfonias e sujeira a rodo, nomes das faixas mudados (!) e mixagem absolutamente caótica”.

08 MICHAEL KIWANUKA, “SMALL CHANGES”.Small changes parece gravado numa sala enorme, com uma abóbada. Michael ressurge mais voltado para seu lado soul do que para seu lado folk, e segue um setentismo muito bem estudado e realizado”.

07 FANTASTIC NEGRITO, “SON OF A BROKEN MAN”. “Um disco inspirado no relacionamento pra lá de tóxico de Negrito  com seu pai, e mais focado ainda nas questões e problemas pessoais que enfrentou ao longo da vida, com versos como ‘a primeira pessoa a me trair foi meu pai’, ‘alguém já agiu como se fosse seu amigo e te apunhalou pelas costas?'”.

06 LIANA FLORES, “FLOWER OF THE SOUL”.Flower of the soul une tudo isso com influências de jazz e bossa nova, tudo equlibradinho, com clima ligeiramente psicodélico emfaixas como Hello againOrange-coloured day (com vocais e piano bastante criativos, numa mistura explosiva de Karen Carpenter e Tom Jobim) e o soft rock de Nightvisions e Slowly”.

05 OMNI, “SOUVENIR”. “Quase impossível não pensar numa versão mais robótica do Television ao ouvir o som do Omni. As referências são bem claras: além do grupo de Tom Verlaine, nomes como Talking Heads, The Cure, Gang Of Four, Devo, Buzzcocks e certa dose de The Clash batem ponto no som desse grupo da Georgia”.

04 JULIE, “MY ANTI-AIRCRAFT FRIEND”. “Muita coisa do álbum tem o mesmo senso de música-feita-com-microfonias de álbuns como Daydream nation e Goo, do Sonic Youth – a abertura com Catalogue, por exemplo. E certas coisas lembram bastante o lado mais sinistro do grunge”.

03 TAHITI 80 “HELLO HELLO”. “Se você for tentar achar uma música menos que excelente nesse décimo disco do Tahiti 80, Hello hello, vai ter uma trabalheira daquelas. Para começar, o grupo indie francês volta cada vez mais disposto a tirar sua música de qualquer noção de tempo e de espaço”.

02 MC5, “HEAVY LIFTING”. “Lamentavelmente, Heavy lifting, que era para ser um retorno e uma comemoração, acabou se transformando num disco 100% póstumo”.

01 JOHN CALE, “POPtical illusion”. “A ‘ilusão de ótica pop’ de John Cale inclui mostrar que a música de vanguarda, na visão dele, se parece bem pouco com a ideia comum de rock, ou até de punk. O som de POPtical tem a ver até com pop adulto-contemporâneo, desde que aquilo possa ser mexido e remexido de forma a se tornar um pouco esquisito”.

 

 

Crítica

Ouvimos: Melody’s Echo Chamber – “Unclouded”

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Em Unclouded, Melody’s Echo Chamber transforma o trauma pós-acidente em pop psicodélico hipnótico, entre T. Rex, Caetano e ecos imaginários.

RESENHA: Em Unclouded, Melody’s Echo Chamber transforma o trauma pós-acidente em pop psicodélico hipnótico, entre T. Rex, Caetano e ecos imaginários.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Domino
Lançamento: 5 de dezembro de 2025

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Qualquer obra que Melody Prochet – criadora do projeto Melody’s Echo Chamber – fizer, vai sempre vir acompanhada de descrições como “etéreo”, “psicodélico” e coisas do tipo. A experiência de quase-morte que ela teve após um acidente gravíssimo em 2017 (que lhe causou aneurisma cerebral e fraturas nas vértebras) fez com que muita gente também passasse a classificar seus trabalhos como “espirituais”, “tridimensionais” e nomes afins.

  • Ouvimos: Ninush – The flowers I see in you

Unclouded, quinto álbum do projeto, vai só um pouco além disso, praticamente hipnotizando quem ouve o disco, com letras e melodias que aludem a lugares que existem só na imaginação, e clima multidimensional. Como na faixa de abertura, The house that doesn’t exist, balada com cara 60’s e elegante, próxima de uma canção francesa antiga. Ou na vibe mágica do quase trip hop In the stars, cuja letra traz Melody saindo de uma encosta fria e buscando “um lugar para chamar de meu / nas estrelas”. Ou no pop sofisticado de Into shadows.

É um clima que fica entre o glam rock espacial do T Rex e a poética escapista de Caetano Veloso em seu primeiro disco londrino, de 1970. Que se espalha também na viagem psicodélica feliz de Flowers turn into gold, no baixo hipnótico de Eyes closed (que busca a liberdade nas caminhadas noturnas e na observação dos golfinhos no mar) e no som clássico e pop de Childhood dream, que alude aos discos orquestrais brasileiros dos anos 1960/1970 (Erlon Chaves, Briamonte Orquestra).

Memory’s underground fala sobre memórias velhas que estavam lá à espera da redescoberta, com um som que remete tanto a Scott Walker quanto a Velvet Underground. E essa mistura de delicadeza e hipnose musical ganha outros contornos no som andarilho e quase marcial de Burning man, com distorções, celesta e flauta levando o / a ouvinte pra outros cantos. No terço final, destaque para o progressivismo de Daisy, lembrando o Pink Floyd de Atom heart mother (1970) e os italianos do Le Orme, e o pop esperançoso de How to leave misery behind, lembrando Burt Bacharach.

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Ouvimos: Nick & June – “New year’s face”

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Ex-casal, Nick & June gravam New year’s face: dream pop misterioso, orquestral e eletrônico, produzido por Peter Katis, cheio de clima romântico e melancólico.

RESENHA: Ex-casal, Nick & June gravam New year’s face: dream pop misterioso, orquestral e eletrônico, produzido por Peter Katis, cheio de clima romântico e melancólico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de dezembro de 2025

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Vindos de Berlim, Nick & June são um ex-casal que topou continuar junto… a trabalho. Depois de meses de composições e arranjos, saiu New year’s face, um disco “desvanescente” e misterioso, produzido por Peter Katis (The National, Interpol, Sharon Van Etten), e marcado por opções sonoras tão próximas do dream pop quanto de vibes mais orquestrais ou eletrônicas.

  • Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair

A faixa-título reúne isso tudo enquanto fala da divisão de coisas acumuladas numa vida inteira. Crying in a cool way, com vocais e pianos celestiais, abre unindo Ultravox e OMD, mas ganha clima sujinho e quase dub logo na sequência. Sombras que lembram de PJ Harvey a Velvet Underground tomam conta de 2017 e Dark dark bright – que abre como uma bossa-pop sombria, ganhando depois aspecto de rock eletrônico.

Nomes como Lana Del Rey e Beach House são citados como referências no release – e o clima hollywoodiano da primeira, além da sofisticação dream pop do BC, casam bem com a sonoridade e o drama de New year’s face. Tem bem mais aí: The boy with the jealous eyes tem algo tanto de Jesus and Mary Chain quanto de Everly Brothers, Trouble tem a ver com Beach Boys, e muito do álbum lembra um Joy Division mais amoroso e afetuoso. Já a grandiosa Husband & wife, que encerra o disco, é uma música de beleza triste, que poderia estar no repertório do ABBA ou do My Bloody Valentine – cada banda com seu arranjo.

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Ouvimos: Ratboys – “Singin’ to an empty chair”

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Ratboys mistura indie e alt-country em Singin’ to an empty chair: terapia Gestalt, memórias familiares e dor transformam-se em canções ruidosas e delicadas.

RESENHA: Ratboys mistura indie e alt-country em Singin’ to an empty chair: terapia Gestalt, memórias familiares e dor transformam-se em canções ruidosas e delicadas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: New West
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026

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“Navegando para longe, rindo apesar da dor / sim, estamos navegando para longe / é um novo dia”, diz a sensível letra de At pace in the hundred acre wood, música que encerra o sexto disco da banda indie norte-americana Ratboys, Singin’ to an empty chair. O novo álbum da banda surgiu de imersões totais não apenas no processo de composição, como também no dia a dia da cantora Julia Steiner, que fez terapia com foco em Gestalt e participou de técnicas como conversar com uma cadeira vazia.

O título do disco veio justamente disso aí, mas também faz surgir outras interpretações – afinal, cantores passam muito tempo soltando a voz diante de lugares desocupados (ou plateias vazias) no começo da carreira. Os nove minutos de Just want you to know the truth contêm a ideia do título: um relacionamento de família que desapareceu, cartas nunca lidas que chegaram, esqueletos no armário e lembranças doloridas e varridas para debaixo do tapete.

Na moldura sonora dessa faixa, a banda exercita seu clima meio ruidoso, meio country rock, soando muito parecida com uma versão 2026 do R.E.M. do álbum Monster (1994), e unindo porrada e delicadeza, autoconhecimento e destruição. Soando às vezes como um primo sensível e country do Mandy, Indiana, o Ratboys une distorções e vocais sentidos em Open up, Know you them, Light night mountains all that (faixa de 6 minutos com lembranças do começo do Soundgarden e dos sons mais sombrios de Suzanne veja) e Anywhere (punk melódico e com ar folk, com recordações do emo). What’s right?, por sua vez, parece unir sons do rock oitentista e do alternativo dos anos 1990 em prol do soft rock.

Músicas como Penny in the lake trazem um tema que parecem mover o Ratboys: o que muitas vezes parece uma oportunidade imperdível é só um pega-trouxa que foi dispensado por alguém, ou algo ao qual outras pessoas não dariam importância alguma. Esse peso existencial divide espaço com slide guitars, ar country, senso melódico herdado de power pop e emo, e referências de Beatles em faixas como Strange love, The world, so madly e a própria Penny. Realidades duras e tentativas de superação se tornam incêndios pessoais no folk rock sonhador Burn it down – com solos de guitarra que parecem encarnar o fogo da letra.

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