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Cultura Pop

Lookout! Records: descubra agora

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Lookout! Records: descubra agora

Em janeiro de 2012, uma notícia abalava o punk norte-americano. Famosa por ter lançado os primeiros discos do Green Day, a gravadora Lookout! Records anunciava o encerramento das suas atividades. O fechar de portas aconteceu após várias demissões, mudanças de rota, problemas financeiros e brigas com ex-contratados.

“Concluímos que o melhor uso de nossas energias seria fechar as portas de uma vez por todas. Para o legado da gravadora, para as bandas e para o benefício dos relacionamentos e amizades com artistas, parceiros e partes interessadas”, afirmava o presidente do selo, Chris Appelgren, em um comunicado. O material seria retirado de catálogo e devolvido aos artistas. De lá para cá, muita coisa já ressurgiu nas plataformas, como os álbuns do Green Day, do Operation Ivy e das Donnas lançados originalmente pela gravadora. Mas, além disso, com o fim da Lookout!, ia embora muito do romantismo da cena underground da Califórnia dos anos 1980 e 1990.

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Appelgren, último presidente do selo, era funcionário da gravadora desde a adolescência, e assumira o cargo quando o fundador da empresa já não estava mais lá. O nome do selo vinha de um fanzine dirigido a partir de 1984 por um sujeito chamado Larry Livermore, 37 anos, interessado em contracultura e punk (havia escrito para revistas underground nos anos 1960). Larry, que aliás passava por um inferno pessoal naquele ano (falta de grana, um pé-na-bunda amoroso, etc), decidiu pôr na rua o jornalzinho Lookout – sem a exclamação. Mas o objetivo era basicamente falar de política e dos problemas da pequena cidade em que morava, Laytonville, Califórnia.

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O zineiro só não contava que tanto os hippies locais quanto os rednecks da região ficassem putos com o conteúdo do jornal – aliás, por causa disso, Larry escapou de ter sua casa incendiada. Em seguida, o editor passou a se concentrar apenas na cena punk californiana, que já vinha esmiuçando graças a contatos com bandas e com outros zines e rádios. Em 1985, montou uma banda chamada The Lookouts, na qual compunha, cantava e tocava guitarra – tendo como baterista um garoto de 12 anos conhecido como Tré Cool, que depois tocaria no Green Day. Para lançar o álbum de estreia, One planet, one people (1987), cheio de canções explosivas como My mom smokes pot (“minha mãe fuma maconha”), Fuck religion e Fourth reich (Nazi Amerika), lançou o selo Lookout! e o resto é história.

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Livermore acabou se juntando a um sócio, David Hayes, em 1987. Mas a sociedade durou poucos anos, com a dupla tendo desentendimentos em relação a assuntos básicos como a comercialização das bandas. Sobretudo porque Hayes defendia, segundo Livermore, que a gravadora não fosse um negócio capitalista de fato.

O selo prosperou bastante entre o fim dos anos 1980 e a metade dos anos 1990, e deixou Livermore realmente famoso e bem de vida. Só que o sucesso e a grana acabaram deixando o chefão da gravadora sem motivações. Larry começava a ficar de saco cheio de tocar um negócio pequeno, mas que rendia grana o suficiente para atrair a receita federal. Os vários telefonemas de amigos, a qualquer hora do dia ou da noite, para falar sobre discos e demos, também começaram a irritá-lo. Finalmente, ele deixou o selo em 1997, com Applegren assumindo o cargo.

Passados mais de trinta anos de sua estreia no selo, o Green Day não precisa fazer muito para voltar à mídia. Aliás, recentemente lançaram uma versão remasterizada do quarto disco (e segundo pela Warner), Insomniac, e o líder do trio, Billie Joe Armstrong, andou falando que quer se candidatar à presidência dos EUA. Enquanto isso, a história da Lookout tem sido pouco relembrada, mas não é nada que o POP FANTASMA não possa dar uma ajudinha. Então, pega aí 12 discos para você não apenas maratonar e recordar a história de um dos maiores selos da história recente do punk americano (colaborou Luciano Cirne).

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THE LOOKOUTS – “ONE PLANET, ONE PEOPLE” (1987). O marco inicial da gravadora. A banda do patrão Larry (voz, músicas, guitarra), Kain Kong (baixo) e do adolescente Tré Cool (bateria e, principalmente, voz de moleque em The mushroom is exploding) estreava com 22 faixas espremidas em 22 minutos. Mas além do corrosivo material autoral, tinha covers de The last time (Rolling Stones, em 58 segundos!) e It’s all over now, baby blue (Bob Dylan).

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OPERATION IVY – “ENERGY” (1989). Banda que deu origem ao Rancid (Tim Armstrong e Matt Freeman vieram de lá) e que se tornou símbolo do chamado “East Bay Sound”. Em virtude disso, viraram um dos grupos mais importantes da história da Lookout!. Mas duraram pouco: apenas um EP e um álbum (o próprio Energy). Além disso, saiu uma coletânea dupla no estilo “obras completas” lançada pela gravadora em 1991.

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NEUROSIS – “THE WORLD AS LAW” (1991). Espécie de ovelha negra da Lookout!, essa banda da Califórnia abriu os trabalhos fazendo punk e hardcore. Até transitar para gêneros como industrial, sludge metal e coisas parecidas. The world…, o segundo disco, abria caminho para sons mais experimentais.

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GREEN DAY – “KERPLUNK!” (1991). Segundo disco do trio, estreia de Tré Cool (ex-baterista dos Lookouts) na cozinha. Foi o disco mais vendido da gravadora até aquele momento, e como resultado, fez diferença nos cofres da Lookout!. Christie road, 2000 light years away, Who wrote Holden Caulfield? e a primeira versão de Welcome to paradise (que depois regravariam no Dookie) se destacam.

TILT – “PLAY CELL” (1993). Único disco dessa banda, liderada pela cantora Cinder Block, a sair pela Lookout! Aliás, o primeiro álbum deles. Crying jag, uma das principais faixas, apareceu na trilha de Tempo de mudança, comédia americana com Ben Affleck e Alyssa Milano. Abriram shows para o Green Day na turnê de Dookie (1994).

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THE QUEERS – “DON’T BACK DOWN” (1996). Retorno “triunfal” da banda de punk politicamente incorreto (a do disco Love song for the retarded, de 1993), produzido pelo próprio Larry. A ideia do grupo era voltar no limiar entre Ramones e Beach Boys. Tom Trauma, do site Punknews.org, afirmou que o disco “é um documento de como o verão deve soar”.

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PANSY DIVISION – “WISH I’D TAKEN PICTURES” (1997). Expoente do queercore (punk feito pela comunidade LGBT), teve seu terceiro disco lançado por uma junção da Lookout! com um selo canadense, Mint. Considerado um clássico, o álbum trazia faixas como Dick of death, Horny in the morning e Pee shy. Entre mudanças de formação (o posto de baterista foi rotativo durante alguns anos), existem até hoje.

PINHEAD GUNPOWDER – “GOODBYE ELISTON AVENUE” (1997). Antes mesmo do Green Day ficar famoso, a banda já tinha spin off, inicialmente com Billie Joe na voz e na guitarra, mais Aaron Cometbus (bateria e letras), Bill Schneider (baixo) e Jason White (guitarra e voz). Mas na prática, era uma banda “de verdade”, com várias mudanças de formação, EPs gravados pela Lookout! e, além disso, crises internas quando Billie decidiu assinar com a Reprise como integrante do Green Day. Em 1997 saiu o único álbum cheio, Goodbye…, com a formação do começo reunida.

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PHANTOM SURFERS – “THE GREAT SURF CRASH OF 97” (1997). Essa banda de punk-surf existe até hoje, após várias mudanças de formação. Aliás, o disco atraiu atenções para a banda até mesmo no Brasil. “Se você acredita que rock é humor e despretensão, entregue-se já aos Phantom Surfers”, escreveu Álvaro Pereira Junior na Folha.

AUNTIE CHRIST – “LIFE COULD BE A DREAM” (1997). Um supergrupo punk daqueles: o AC reunia Exene Cervenka (X), Matt Freeman (Rancid) e D.J. Bonebreaker (X, The Germs, Eyes). O único disco dessa turma trouxe clássicos como The future is war, e mostrava um punk bem cru e simplificado. Mas, infelizmente, não fez muito sucesso.

GROOVIE GHOULIES – “FUN IN THE DARK” (1999). Contratada ainda na época de Larry, essa banda de Sacramento, inspiradíssima pelo universo dos Ramones (e por filmes de terror) ainda permaneceria na gravadora por mais alguns discos após a saída dele. Fun in the dark, o quarto disco, trazia clássicos como She’s my vampire girl, She gets all the girls. Mas havia a curiosa Carly Simon, um punk rock nervoso com o verso “é como Carly Simon já dizia/as coisas estão voltando a acontecer” (referência a um hit dela, Coming around again).

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THE DONNAS – “THE DONNAS TURN 21” (2001). Lançado já num período de baixa da Lookout!, esse quarto disco das Donnas trazia as meninas de Palo Alto – que haviam lançado os primeiros discos ainda na adolescência – completando 21 anos. No repertório, canções cheias de atitude, como Are you gonna move it for me? e 40 boys in 40 days. No auge do indie rock daquele ano, a grandalhona Atlantic levaria as meninas, mas a relação com o veterano selo só geraria dois discos.

 

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Cultura Pop

Tem aniversário de Controversy, do Prince, vindo aí!

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A capa do quarto disco de Prince, Controversy (lançado em 14 de outubro de 1981 e prestes a fazer 40 anos) já era (hum, ok) controversa. Transformado em escândalo público por causa do disco anterior, Dirty mind (1980, e do qual já falamos aqui), Prince estava nas manchetes. E elas estavam, de brincadeira, na capa do novo álbum.

Dirty mind tinha dado uma bela crescida musical – do pós disco dos álbuns anteriores, a uma mistura de soul, rock, um tantinho de psicodelia e até folk urbano herdado de Joni Mitchell. A crítica não deixou de prestar atenção nas letras beem safadas do álbum – que se chamava “mente poluída” e trazia Prince em frente às molas de uma cama, na capa. Robert Christgau comparou Prince a Jim Morrison e John Lennon, e ainda arrematou com uma frase lapidar: “Mick Jagger deveria recolher seu pau e ir para casa”. Na Rolling Stone, Ken Tucker dizia que Prince era um romântico ingênuo nos dois primeiros discos, mas finalmente estava à solta nas sacanagens e na música.

Controversy foi lançado doze meses após Dirty mind, e foi feito numa época de bastante trabalho para Prince – que pouco antes tinha produzido, assinando o trabalho como Jamie Starr, o disco de estreia do The Time, banda liderada pelo seu vocalista Morris Day. Como na época vários colunistas de jornal já faziam comentários sobre a sexualidade do cantor, não tinha como o assunto ficar de fora do álbum, a faixa-título (que abre o disco) já abre com vários questionamentos: “Sou preto ou branco? Eu sou hetero ou gay?/ Controvérsia / Eu acredito em Deus?/Eu acredito em mim?/Controvérsia”, perguntava Prince.

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>>> Mais Prince no POP FANTASMA aqui.

Não era só nos jornais que Prince passava por esse tipo de situação. Abrindo para os Rolling Stones em 9 de outubro de 1981, o cantor (usando a roupa da época da turnê Dirty mind, que incluía uma tanguinha preta) foi vaiado e ouviu xingamentos homofóbicos da plateia, no Memorial Coliseum, em Los Angeles.

Não só vaias: Prince e seus músicos foram atingidos por comida, latas, garrafas e tudo o que estivesse ao alcance do público. Prince ia desistindo de fazer o show do dia 11 de outubro, ate que Mick Jagger ligou para ele para encorajá-lo. “Eu disse a ele: se você chega a ser uma atração principal realmente grande, você tem que estar preparado para as pessoas jogarem garrafas em você à noite. Preparado para morrer!”, brincou Jagger.

Em Controversy, mais uma vez Prince tocou tudo “sozinho” – enfim, mais ou menos, porque em Jack U off, a última faixa, aparecem Bobby Z. (bateria), Lisa Coleman (teclados e vocais de fundo) e Dr. Fink (teclados). Andre Cymone, baixista de turnê de Prince, compôs a safadíssima Do me baby. Mas como estava sendo cada vez mais comum no universo de Prince naquela época, não recebeu crédito pela faixa, que apareceu assinada pelo patrão nas primeiras edições.

Não era o único momento de safadeza no disco, claro. Private joy era pura sacanagem, com versos como “todos os outros garotos amariam transar com você, mas você é meu brinquedo privativo” e “você pertence a Prince”. Mas Sexuality inovava por misturar sexo, política e futurismo (“precisamos de uma nova raça, líderes, levante-se, organize-se/não deixe seus filhos assistirem televisão até que saibam ler”).

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Anne Christian era a resposta de Prince ao levante pós-punk, com peso, intensidade e uma letra que fala sobre uma prostituta que “matou John Lennon, atirou nele a sangue frio” e “tentou matar Reagan”. Ronnie, talk to Russia mostrava que Prince vinha acompanhando as tensões entre Ronald Reagan, então presidente dos EUA, e o governo da União Soviética, mas que estava do lado do seu país, enfim (“você pode ir ao zoológico, mas não alimente guerrilheiros de esquerda”).

Para os fãs brasileiros, Controversy trazia uma novidade: Dirty mind não tinha saído aqui em tempo real (só foi lançado no Brasil em 1990!), mas o quarto disco de Prince saiu aqui imediatamente. Com um aviso na capa: “inclui Sexuality e Controversy“. Incluía mesmo.

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Cinema

Urban struggle: tem documentário raro sobre punk californiano na web

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Sabe aquele vizinho fascista que você detesta, e que também tem uma relação péssima com você? Pois bem, o conto dos vizinhos que se odeiam mutuamente ganhou proporções astronômicas e perigosas com o relacionamento bizarro entre dois bares californianos: o boteco punk Cuckoo’s Nest e o bar de cowboys urbanos Zubie’s. Os dois ficavam um ao lado do outro na cidade de Costa Mesa, localizada em Orange County, região com cena punk fortíssima.

O Cuckoo’s Nest era um local importante para o punk da Califórnia, a ponto de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Fear e TSOL teram tocado lá. E do primeiro show do Black Flag com Henry Rollins no vocal ter acontecido na casa, no dia 21 de agosto de 1981. Bandas como Ramones e Bad Brains, ao passarem pela cidade, sempre tocavam lá. Já o Zubie’s, lotado de playboys no estilo country, costumava ser um problema para os punks: os cowboys invadiam o local, arrumavam brigas com os punks e os insultavam usando termos homofóbicos.

Vale citar que mesmo dentro do Cuckoo’s Nest as coisas não eram fáceis, até porque “movimento punk” significava uma porrada de gente reunida, com motivações diferentes e estilos de vida conflitantes. Tipos violentos e machistas começaram a frequentar o local e a arrumar briga com os frequentadores. E quem viu o documentário The other f… word, da cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, recorda que o rolê punk na Califórnia era muito violento.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers – e que tocou no Fear por alguns tempos nos anos 1980 – lembra em The other f… word que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”.

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O Cuckoo’s Nest ficou aberto de 1976 até 1981 e nunca deixou de ter problemas. O proprietário Jerry Roach lutava para manter a casa aberta, dialogava da maneira que dava com policiais, com clientes e até com a turma enorme de hippies, cabeludos e malucos que pulava de galho em galho na Califórnia.

E essa longa introdução é só pra avisar que jogaram no YouTube o documentário  Urban struggle: The battle of the Cuckoo’s Nest, dirigido em 1981 por Paul Young.  Infelizmente sem legendas.

Tem uma edição melhor no Vimeo. Sem legendas também.

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Num dos depoimentos do documentário, Jerry define a atitude dos punks como “foda-se, vivo de acordo com minhas regras”. Mas diz que não vê hippies como sendo pessoas da paz e do amor o tempo todo, e muito menos enxerga punks como odiadores contumazes. “É só um conflito de gerações”, disse Jerry, que – você talvez já tenha imaginado – batizou o local em homenagem ao filme Um estranho no ninho, de Milos Forman (o nome no original era One flew over the cuckoo’s nest).

Tanto os músicos quanto Jerry falam bastante a respeito de brigas com a polícia – o dono do local relata as vezes em que conversou com os agentes – e reclamam da violência policial. Por acaso, um dos agentes é entrevistado, e os meganhas locais, seguindo o exemplo dos cowboys, não tinham o menor apreço pelos punks. A luta de Jerry para manter o local aberto também está no doc. Mas se você quer sair fora das discussões, o documentário ainda tem apresentações bem legais do Black Flag, Circle Jerks e TSOL.

Paul Young, o autor do filme, era um estudante de cinema que tinha sido contratado por Jerry para filmar as invasões da polícia ao local. Acabou sendo responsável pelo documentário, e anos depois acabou ficando bastante indignado quando viu o filme We were feared – The story of The Cuckoo’s Nest, de Jonathan WC Mills, e reconheceu várias de suas imagens lá.

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Cultura Pop

Tears For Fears: descubra agora (??)

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“E alguém precisa descobrir Tears For Fears?”, você deve estar se perguntando, certo? Relaxa: essa foi nossa desculpa para falar de TFF, uma das bandas preferidas aqui do POP FANTASMA, e um dos grupos (uma dupla, enfim) mais importantes da música pop de todos os tempos.

Roland Orzabal e Curt Smith ensinaram grandes plateias a curtir pós-punk com letras politizadas e introspectivas (o primeiro disco, The hurting, de 1983, é isso), fizeram a transição para uma espécie de tecnojazzrockpop de arena (Songs from the big chair, de 1985) e migraram para o som orgânico e jazzístico na época certa (The seeds of love, de 1989, era “o” disco que você precisava ouvir no início da era do CD).

Sem Curt Smith, Roland continuou com a bandeira do pop elaborado em mais dois bons discos, Elemental (1993) e Raoul and the kings of Spain (1995). A dupla voltou a se encontrar num disco injustamente fracassado, que tinha coisas que caberiam em discos de Beach Boys e Todd Rundgren, Everybody loves a happy ending (2004). Tem um disco novo vindo aí, The tipping point, marcado para fevereiro de 2022. E você vai ter bastante trabalho se resolver procurar uma música menos que boa nos álbuns deles.

Tá aí nossa lista de músicas que você deve ouvir hoje.  Ouça lendo e leia ouvindo. E tá uma lista bem grande…

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“MAD WORLD” (The hurting, 1983). Comparada a Unknown pleasures, do Joy Division, a estreia do TFF chega a assustar pela quantidade de temas corrosivos e depressivos nos quais a dupla mexeu: depressão, abuso infantil, pais que sufocam os filhos com problemas pessoais e expectativas, bullying. Orzabal não economizou nessa música, um retrato bem sombrio da infância e do dia a dia escolar.

“PALE SHELTER” (The hurting, 1983). O que parece ser apenas uma canção de desilusão amorosa, é na verdade uma música sobre abandono parental. Foi gravada inicialmente em 1982 com o nome de Pale shelter (You don’t give me love) e depois regravada para um outro single e para o primeiro álbum. O clipe, que você provavelmente já viu, é um primor de surrealismo (com várias imagens aleatórias) e destemor (a dupla passeia em meio a uma guerra de aviões de papel e Orzabal quase leva um aviãozinho no olho).

“WATCH ME BLEED” (The hurting, 1983). “O que sobra de mim ou de qualquer pessoa/quando negamos a dor?”. “Estou cheio, mas me sentindo vazio/Por todo o calor, é tão frio”. Uma das melhores músicas do primeiro disco do TFF tem uma letra que, numa análise retrospectiva, pode ser comparada aos melhores momentos de Renato Russo – e a introdução de violão caberia perfeitamente em Legião Urbana Dois. Enquanto você pensa sobre as influências do Tears For Fears na Legião, ouça a música, que sequer foi lançada como single.

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“THE PRISONER” (The hurting, 1983). Experimente tocar essa música para um bando de amigos e diga que é um lado B do Nine Inch Nails. Dá para enganar. Apesar dos vocais sussurrados, do peso e da letra sufocante (sobre uma criança oprimida e amedrontada), o final é feliz (“o amor me liberta/o prisioneiro agora está fugindo”). Foi o lado B do single de Pale shelter.

“THE WAY YOU ARE” (single, 1983). Uma rara canção escrita pela “formação completa” do grupo (Roland, Curt, o baterista Manny Elias e o tecladista Ian Stanley), feita para um single que serviu de produto intermediário entre o primeiro e o segundo disco. Um bom reggae tecno que é a cara dos anos 1980, mas que Roland e Curt execram. “Foi a pior coisa que fizemos”, destroçou Smith sem dó nas notas de uma coletânea da banda que trazia essa música (!), Saturnine martial & lunatic. Mas na época, saiu até clipe.

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“SHOUT” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal e Smith dizem que essa música não tem tanto assim a ver com a terapia do grito primal (que inspirou o nome da banda), e sim com protesto político. “É protesto na medida em que incentiva as pessoas a não fazerem as coisas sem questioná-las. As pessoas agem sem pensar porque é assim que as coisas acontecem na sociedade”, disse Smith. Roland começou a compor a canção com sintetizador e bateria eletrônica, e de início tinha só um refrão, concluído pelo tecladista Ian Stanley, um cara importantíssimo na formatação do estilo “Tears For Fears” de fazer música.

“EVERYBODY WANTS TO RULE THE WORLD” (Songs from the big chair, 1985). Música composta por Orzabal, Ian Stanley e pelo produtor Chris Hughes, cuja letra já teve mil interpretações diferentes, mas fala mesmo era sobre a briga EUA X URSS pelo poder mundial (enfim, a Guerra Fria). Smith, cantor da faixa, ficou particularmente puto com uma interpretação do National Review que via pontos de vista conservadores na letra. “Ironia e sarcasmo claramente não são seu forte”, twittou para o periódico.

“HEAD OVER HEELS” (Songs from the big chair, 1985). Orzabal descreve essa música como “uma canção de amor que acaba ficando meio perversa”. Um clássico do amor, da dependência e da pouca habilidade para lidar com a complexidades das relações humanas. O clipe, gravado na biblioteca do Emmanuel College, no Canadá, virou um clássico.

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“THE WORKING HOUR” (Songs from the big chair, 1985). O tom meio jazz-meio prog da segunda faixa de Songs… era moda em 1985 – Sting não largou o Police para misturar música pop, jazz e new wave à toa. A letra era um primor de desencanto com a “vida real”. Não saiu em single.

“WOMAN IN CHAINS” (The seeds of love, 1989). Foi assistindo a um show bem simples da cantora Oleta Adams num hotel no Kansas em 1985, que Orzabal e Smith tiveram a ideia de partir para um mergulho “orgânico” no terceiro disco, já cansados dos sintetizadores e samplers da turnê de Songs… E para ajudar no trabalho, convidaram a cantora. Woman in chains é tida como uma “canção feminista” e é inspirada por um livro que Roland estava lendo sobre sociedades matriarcais. Orzabal resolveu escrever sobre como o feminino costuma ser minimizado. Mas Oleta suou no estúdio para agradar à dupla: soltou a voz num tom agudo incomum para ela.

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“SOWING THE SEEDS OF LOVE” (The seeds of love, 1989). A neopsicodelia que deu certo, tocou em rádio e vendeu discos: Smith e Orzabal (compondo em parceria) lançaram uma pérola pop-rock com referências a Beatles (I am the walrus foi citada por quase todo mundo) e pequenas porradas políticas na letra (Margaret Thatcher é a “vovó política” da letra).

“ADVICE FOR THE YOUNG AT HEART” (The seeds of love, 1989). Neobossa pop que ajudou a conquistar novos públicos para o grupo: no Brasil o TFF tocava até em rádios AM e esteve numa trilha de novela (a pouco lembrada Gente fina). O clipe da faixa, dirigido por Andy Morahan, valia por um curta-metragem: mostrava cenas de um “feliz” casamento latino em que, aqui e ali, dava para perceber que as coisas não iam tão bem assim (além de mostrar cenas excelentes de ranço e caras-viradas entre Curt e Orzabal).

“ALWAYS IN THE PAST” (single, 1989). O lado B de Woman in chains lembrava muita coisa que geralmente não era associada ao TFF: até mesmo a fase pop do Genesis, só que sob um ponto de vista mais sombrio. Saiu depois num relançamento de Seeds of love.

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“BREAK IT DOWN AGAIN” (do disco Elemental, 1993). Após várias brigas e climões, Curt Smith saiu do grupo, deixando Orzabal livre para carregar o nome (e lançar uma ou outra canção malcriada em relação ao ex-amigo). O primeiro single do novo disco é a única música que sobrou nos shows da dupla quando Smith voltou. O parceiro de canções de Orzabal na época era Alan Griffiths, cuja banda The Escape tinha aberto shows do TFF em 1983.

“BRIAN WILSON SAID” (do disco Elemental, 1993). Uma canção desencantada que poderia estar no clássico dos Beach Boys, Pet sounds, mas que tinha o mesmo tom jazz-pop-introspectivo de alguns momentos de The seeds of love e Songs from the big chair. A letra, curiosamente, tinha o mesmo tom amargo dos hits de bandas como Nirvana, que liderava as rádios na época (abria com a frase “minha vida, nada foi fácil até agora”).

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“RAOUL AND THE KINGS OF SPAIN” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Usando um nome que quase havia sido dado ao disco The seeds of love, Orzabal entrou numa egotrip daquelas: fez um pop meio progressivoide (e bom) para falar de histórias de sua família – Roland, por sinal, quase se chamou Raoul, mas sua mãe resolveu que era melhor ele ter um nome mais anglicizado.

“ME AND MY BIG IDEAS” (do disco Raoul and the kings of Spain, 1995). Baladão que, com um pouco mais de produção, poderia estar em The seeds of love – e que, opa, marca o reencontro do TFF com Oleta Adams. Na época, Oleta estava na Fontana, antiga gravadora do grupo, e tinha lançado o quinto disco, Moving on.

“EVERYBODY LOVES A HAPPY ENDING” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Smith e Orzabal voltaram a se falar por causa de razões extra-música (a dupla ainda era dona de empreendimentos imobiliários) e… por que não fazer um disco novo? A faixa-título do álbum da “volta” (que vendeu bem pouco) lembrava Beach Boys, Todd Rundgren, 10cc e tudo de bom que você pudesse imaginar.

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“CLOSEST THING TO HEAVEN” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Baladão que, caso tivesse um belo glacê de eletrônicos, poderia estar em Songs from the big chair. O clipe tem participação da atriz Brittany Murphy, que morreria em 2009. Essa música chegou a tocar em rádio no Brasil.

“SECRET WORLD” (do disco Everybody loves a happy ending, de 2004). Uma balada tão bonita que encerra com aplausos. Deu nome ao primeiro disco ao vivo da banda, de 2006.

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“AND I WAS A BOY FROM SCHOOL” (do EP Ready boys & girls?, de 2014). Para comemorar o Record Store Day de 2014, o TFF soltou um EP indie com três covers, de Animal Collective, Arcade Fire e Hot Chip (a faixa em questão). Na época, chegou a ser divulgado que a banda estava trabalhando em material novo e que My girls, do Animal Collective, lançada em 2013, servia de batedor para um próximo disco.

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