Cultura Pop
Lookout! Records: descubra agora

Em janeiro de 2012, uma notícia abalava o punk norte-americano. Famosa por ter lançado os primeiros discos do Green Day, a gravadora Lookout! Records anunciava o encerramento das suas atividades. O fechar de portas aconteceu após várias demissões, mudanças de rota, problemas financeiros e brigas com ex-contratados.
“Concluímos que o melhor uso de nossas energias seria fechar as portas de uma vez por todas. Para o legado da gravadora, para as bandas e para o benefício dos relacionamentos e amizades com artistas, parceiros e partes interessadas”, afirmava o presidente do selo, Chris Appelgren, em um comunicado. O material seria retirado de catálogo e devolvido aos artistas. De lá para cá, muita coisa já ressurgiu nas plataformas, como os álbuns do Green Day, do Operation Ivy e das Donnas lançados originalmente pela gravadora. Mas, além disso, com o fim da Lookout!, ia embora muito do romantismo da cena underground da Califórnia dos anos 1980 e 1990.
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Appelgren, último presidente do selo, era funcionário da gravadora desde a adolescência, e assumira o cargo quando o fundador da empresa já não estava mais lá. O nome do selo vinha de um fanzine dirigido a partir de 1984 por um sujeito chamado Larry Livermore, 37 anos, interessado em contracultura e punk (havia escrito para revistas underground nos anos 1960). Larry, que aliás passava por um inferno pessoal naquele ano (falta de grana, um pé-na-bunda amoroso, etc), decidiu pôr na rua o jornalzinho Lookout – sem a exclamação. Mas o objetivo era basicamente falar de política e dos problemas da pequena cidade em que morava, Laytonville, Califórnia.
O zineiro só não contava que tanto os hippies locais quanto os rednecks da região ficassem putos com o conteúdo do jornal – aliás, por causa disso, Larry escapou de ter sua casa incendiada. Em seguida, o editor passou a se concentrar apenas na cena punk californiana, que já vinha esmiuçando graças a contatos com bandas e com outros zines e rádios. Em 1985, montou uma banda chamada The Lookouts, na qual compunha, cantava e tocava guitarra – tendo como baterista um garoto de 12 anos conhecido como Tré Cool, que depois tocaria no Green Day. Para lançar o álbum de estreia, One planet, one people (1987), cheio de canções explosivas como My mom smokes pot (“minha mãe fuma maconha”), Fuck religion e Fourth reich (Nazi Amerika), lançou o selo Lookout! e o resto é história.
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Livermore acabou se juntando a um sócio, David Hayes, em 1987. Mas a sociedade durou poucos anos, com a dupla tendo desentendimentos em relação a assuntos básicos como a comercialização das bandas. Sobretudo porque Hayes defendia, segundo Livermore, que a gravadora não fosse um negócio capitalista de fato.
O selo prosperou bastante entre o fim dos anos 1980 e a metade dos anos 1990, e deixou Livermore realmente famoso e bem de vida. Só que o sucesso e a grana acabaram deixando o chefão da gravadora sem motivações. Larry começava a ficar de saco cheio de tocar um negócio pequeno, mas que rendia grana o suficiente para atrair a receita federal. Os vários telefonemas de amigos, a qualquer hora do dia ou da noite, para falar sobre discos e demos, também começaram a irritá-lo. Finalmente, ele deixou o selo em 1997, com Applegren assumindo o cargo.
Passados mais de trinta anos de sua estreia no selo, o Green Day não precisa fazer muito para voltar à mídia. Aliás, recentemente lançaram uma versão remasterizada do quarto disco (e segundo pela Warner), Insomniac, e o líder do trio, Billie Joe Armstrong, andou falando que quer se candidatar à presidência dos EUA. Enquanto isso, a história da Lookout tem sido pouco relembrada, mas não é nada que o POP FANTASMA não possa dar uma ajudinha. Então, pega aí 12 discos para você não apenas maratonar e recordar a história de um dos maiores selos da história recente do punk americano (colaborou Luciano Cirne).
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THE LOOKOUTS – “ONE PLANET, ONE PEOPLE” (1987). O marco inicial da gravadora. A banda do patrão Larry (voz, músicas, guitarra), Kain Kong (baixo) e do adolescente Tré Cool (bateria e, principalmente, voz de moleque em The mushroom is exploding) estreava com 22 faixas espremidas em 22 minutos. Mas além do corrosivo material autoral, tinha covers de The last time (Rolling Stones, em 58 segundos!) e It’s all over now, baby blue (Bob Dylan).
OPERATION IVY – “ENERGY” (1989). Banda que deu origem ao Rancid (Tim Armstrong e Matt Freeman vieram de lá) e que se tornou símbolo do chamado “East Bay Sound”. Em virtude disso, viraram um dos grupos mais importantes da história da Lookout!. Mas duraram pouco: apenas um EP e um álbum (o próprio Energy). Além disso, saiu uma coletânea dupla no estilo “obras completas” lançada pela gravadora em 1991.
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NEUROSIS – “THE WORLD AS LAW” (1991). Espécie de ovelha negra da Lookout!, essa banda da Califórnia abriu os trabalhos fazendo punk e hardcore. Até transitar para gêneros como industrial, sludge metal e coisas parecidas. The world…, o segundo disco, abria caminho para sons mais experimentais.
GREEN DAY – “KERPLUNK!” (1991). Segundo disco do trio, estreia de Tré Cool (ex-baterista dos Lookouts) na cozinha. Foi o disco mais vendido da gravadora até aquele momento, e como resultado, fez diferença nos cofres da Lookout!. Christie road, 2000 light years away, Who wrote Holden Caulfield? e a primeira versão de Welcome to paradise (que depois regravariam no Dookie) se destacam.
TILT – “PLAY CELL” (1993). Único disco dessa banda, liderada pela cantora Cinder Block, a sair pela Lookout! Aliás, o primeiro álbum deles. Crying jag, uma das principais faixas, apareceu na trilha de Tempo de mudança, comédia americana com Ben Affleck e Alyssa Milano. Abriram shows para o Green Day na turnê de Dookie (1994).
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THE QUEERS – “DON’T BACK DOWN” (1996). Retorno “triunfal” da banda de punk politicamente incorreto (a do disco Love song for the retarded, de 1993), produzido pelo próprio Larry. A ideia do grupo era voltar no limiar entre Ramones e Beach Boys. Tom Trauma, do site Punknews.org, afirmou que o disco “é um documento de como o verão deve soar”.
PANSY DIVISION – “WISH I’D TAKEN PICTURES” (1997). Expoente do queercore (punk feito pela comunidade LGBT), teve seu terceiro disco lançado por uma junção da Lookout! com um selo canadense, Mint. Considerado um clássico, o álbum trazia faixas como Dick of death, Horny in the morning e Pee shy. Entre mudanças de formação (o posto de baterista foi rotativo durante alguns anos), existem até hoje.
PINHEAD GUNPOWDER – “GOODBYE ELISTON AVENUE” (1997). Antes mesmo do Green Day ficar famoso, a banda já tinha spin off, inicialmente com Billie Joe na voz e na guitarra, mais Aaron Cometbus (bateria e letras), Bill Schneider (baixo) e Jason White (guitarra e voz). Mas na prática, era uma banda “de verdade”, com várias mudanças de formação, EPs gravados pela Lookout! e, além disso, crises internas quando Billie decidiu assinar com a Reprise como integrante do Green Day. Em 1997 saiu o único álbum cheio, Goodbye…, com a formação do começo reunida.
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PHANTOM SURFERS – “THE GREAT SURF CRASH OF 97” (1997). Essa banda de punk-surf existe até hoje, após várias mudanças de formação. Aliás, o disco atraiu atenções para a banda até mesmo no Brasil. “Se você acredita que rock é humor e despretensão, entregue-se já aos Phantom Surfers”, escreveu Álvaro Pereira Junior na Folha.
AUNTIE CHRIST – “LIFE COULD BE A DREAM” (1997). Um supergrupo punk daqueles: o AC reunia Exene Cervenka (X), Matt Freeman (Rancid) e D.J. Bonebreaker (X, The Germs, Eyes). O único disco dessa turma trouxe clássicos como The future is war, e mostrava um punk bem cru e simplificado. Mas, infelizmente, não fez muito sucesso.
GROOVIE GHOULIES – “FUN IN THE DARK” (1999). Contratada ainda na época de Larry, essa banda de Sacramento, inspiradíssima pelo universo dos Ramones (e por filmes de terror) ainda permaneceria na gravadora por mais alguns discos após a saída dele. Fun in the dark, o quarto disco, trazia clássicos como She’s my vampire girl, She gets all the girls. Mas havia a curiosa Carly Simon, um punk rock nervoso com o verso “é como Carly Simon já dizia/as coisas estão voltando a acontecer” (referência a um hit dela, Coming around again).
THE DONNAS – “THE DONNAS TURN 21” (2001). Lançado já num período de baixa da Lookout!, esse quarto disco das Donnas trazia as meninas de Palo Alto – que haviam lançado os primeiros discos ainda na adolescência – completando 21 anos. No repertório, canções cheias de atitude, como Are you gonna move it for me? e 40 boys in 40 days. No auge do indie rock daquele ano, a grandalhona Atlantic levaria as meninas, mas a relação com o veterano selo só geraria dois discos.
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Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet
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Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.
A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.
- Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial
A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.
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Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.
Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)
Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.
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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.








































