Olha aí o que é que o DJ inglês John Peel andava fazendo em 1969. Ele estava lançando sua própria gravadora, a Dandelion. O objetivo da gravadora era que Peel pudesse ver lançada em disco a música que ele queria escutar. Ainda que ele próprio visse bem pouco a cor do dinheiro.

Aquela época em que John Peel teve uma gravadora, Dandelion
“Se eu tivesse dinheiro suficiente, eu iniciaria a Dandelion Records firmemente dedicada a nunca ter lucro”, disse Peel num papo com a publicação indie International Times em janeiro de 1968, aproveitando para dizer que adoraria lançar discos de Tyranossaurus Rex (primeira encarnação do grupo glam T. Rex, com Marc Bolan e Steve Peregrine Took), Sam Gopal (grupo de rock lisérgico que tinha como guitarrista Lemmy Kilmister, futuro baixista do Hawkwind e do Motörhead) e álbuns de poesia falada. “Eu ficaria desapontado se você não comprasse meus discos, mas eu estaria feliz pelo fato de ter tido coisas tão agradáveis ​​para lançar”.

Bolan, por sinal, dividia apartamento com Peel e foi ele mesmo que sugeriu não apenas o nome da gravadora como da editora musical, Biscuit Music, a partir dos nomes dos hamsters do DJ. Apesar de Peel não se preocupar tanto assim com o lucro – pelo menos não o suficiente para manter uma gravadora de pé – vá lá que a Dandelion durou um tempinho. Foi até 1972 e lançou diversos artistas, além de recolocar nas lojas outros tantos. Gene Vincent, você já leu sobre isso aqui, lançou por lá o seu disco de “retorno”, I’m back and I’m proud, em 1969.

Uma banda que estreou por lá foi o pitoresco Principal Edwards Magic Theatre. Era um grupo folk, mas ao mesmo tempo era um projeto com milhares de integrantes, que faziam performances artísticas, shows de iluminação e música, etc. Olha aí o primeiro single deles, de 1969.

O blues-rock quase pré-punk do Stack Waddy também estreou por lá, em 1971.

Um dos discos mais curiosos da gravadora: um The dark side of the moon, que não é o do Pink Floyd, mas é o disco da banda de hard rock Medicine Head, lançado em 1972. Por causa desse disco, o PF quase desistiu de batizar seu álbum de 1973 com esse nome – ambas as bandas pensaram no lado escuro da lua ao mesmo tempo. Voltaram atrás quando viram que o disco do Medicine não vendeu nada. Também já foi assunto nosso.

Em 1972, o selo de Peel fechou a tampa com um disco chamado There is some fun going forward, uma coletânea de anti-hits da gravadora. Esse disco chegoiu a ser reeditado em CD, trazendo como bônus uma versão do Stack Waddy para Garota de Ipanema.

O Dandelion teve contratos de distribuição com a CBS, a Warner e a Polydor. Apesar da gravadora ter tido algumas execuções em rádio, Peel era proibido terminantemente de tocar os discos da Dandelion na BBC. O selo ainda sofreu com ideias de jerico do próprio Peel. Certa vez, o DJ cismou que iria achar 101 garotas chamadas Sharon e montar um grupo cujo nome seria… 101 Sharons – desistiu da ideia ao parar na 40º cantora. Já o Stack Waddy, que parecia promissor, era liderado por um vocalista, John Knail, que era desertor do exército americano e era um sujeito extremamente impulsivo. Num dos shows, Knail viu um fã dando mais atenção à sua namorada do que à banda. Não teve dúvidas: pulou do palco e foi sair no tapa com o fã.

A ideia de Peel era a de lançar uma filial londrina da Elektra Records (que lançou MC5 e Stooges). Não foi para a frente, mas o selo deixou cerca de 50 lançamentos, entre LPs e singles. Um material que já foi quase todo lançado em CD, mas bem que poderia ser redescoberto em uma caixinha.