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Crítica

Ouvimos: Cate Le Bon – “Michelangelo dying”

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Em Michelangelo dying, Cate Le Bon transforma o fim de um amor em arte surrealista: folk, dor, beleza e arranjos que sangram com elegância.

RESENHA: Em Michelangelo dying, Cate Le Bon transforma o fim de um amor em arte surrealista: folk, dor, beleza e arranjos que sangram com elegância.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Mexican Summer
Lançamento: 26 de setembro de 2026.

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Se você jogar qualquer texto no ChatGPT e pedir para a IA dar “aquele trato” na sua produção, mas sem dar orientação nenhuma para ela, arrisca-se a dar de cara com a palavra imersivo em seu texto – ou icônico/icônica, quem sabe. Bom, no caso da cantora, compositora e produtora galesa Cate Le Bon, as duas palavras nem fazem feio: ela é realmente um ícone do art rock de seu país, e seus álbuns geralmente jogam o/a ouvinte num ambiente uterino, mas onde nada é exatamente o que parece ser.

Discos de Cate como Pompeii (2022) podem ser tranquilamente comparados à fase Berlim de David Bowie, ou a boa parte dos álbuns de Kate Bush, ou aos discos de outro orgulho artístico galês, John Cale. São discos cuja música dói de tão surrealista, e que contam histórias não apenas com as letras, mas também com as melodias, arranjos e interpretações – às vezes o fluxo de consciência das letras dependem da moldura de arranjo e melodia para ser devidamente entendido. Se você levar tudo isso aí para o mundo dos clipes, ou das capas de álbuns, ou das mumunhas de produção dos álbuns, tudo parece estar ali com uma mensagem a ser desvendada – bem diferente dos easter eggs e mistérios baratos do universo pop.

O fato é que Michelangelo dying, novo disco da cantora, tem mensagens bem diretas, que Cate tratou de desvendar em entrevistas: o fim de um relacionamento de longa data; vários pequenos problemas de saúde que foram se avolumando após o relacionamento acabar; a mudança de volta para Cardiff, em seu país natal. O disco também fala, de certa forma, a respeito dele próprio: Cate já tinha outro disco encaminhado e preferia não tratar desse tipo de assunto publicamente, mas acabou decidindo fazer o que chamou de “fotografar uma ferida, mas cutucá-la ao mesmo tempo”.

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As letras de músicas como Jerome, Love unrehearsed e Mothers of riches, que abrem o disco, parecem flagrar Cate começando a abordar a perda – com direito a um verso tocante na segunda música: “ela dorme como uma pedra / por que você a toca mais?”. Pieces of my heart vai tocando mais fundo, em versos como “pedaços do meu coração apagados / e nada vai mudar isso”. Heaven is no feeling, por sua vez une tristeza e destruição (“o dia, a noite, tudo acaba / você fuma nosso amor como se nunca tivesse conhecido a violência”).

Musicalmente, Cate criou em Michelangelo dying um som só dela, que parece obedecer a seus critérios de produtora. Tudo baseado em guitarras, teclados, efeitos, vocais doces e doloridos, tons entre o folk e o cristalino, que surgem em Love unrehearsed, a meditativa About time, a robótica Body as a river, o folk psicodélico de Heaven is no feeling. Faixas como Is it worth it (Happy birthday) lembram os discos que Brian Eno lançou nos anos 1970, e há alguma filiação com a obra de Patti Smith, nos versos cortantes e no clima de algumas faixas. E o já citado John Cale surge em Michelangelo dying e participa de Ride, som mágico e hipnótico no qual as coisas parecem chegar perto do equilíbrio (“está tudo bem / são apenas sentimentos indo embora”).

No final, a gélida e meditativa I know what is nice parece requerer um esforço enorme de Cate – seja para olhar o que sobrou, ou quem sabe para falar de tudo (“estou deixando alguém que eu amo / não consigo respirar por alguém que eu amo”, diz a letra). Uma canção de desapaixonamento cujo ritmo vai ficando mais lento e cardíaco, até encerrar.

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Crítica

Ouvimos: Sparta – “Cut a silhouette”

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Resenha: Sparta – “Cut a silhouette”

RESENHA: O Sparta amplia o pós-hardcore em Cut a silhouette, misturando pós-punk, darkwave e refrãos explosivos sem soar nostálgico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Equal Vision Records
Lançamento: 29 de maio de 2026

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O Sparta é uma banda cheia de hiatos, surgida do hiato de uma banda – o At The Drive-In, cujo primeiro encerramento de atividades em 2001 gerou o pós-hardcore altamente melódico do Sparta e o progressivo do The Mars Volta. O trio Jim Ward (vocais e guitarra), Matt Miller (baixo) e Tony Hajjar (bateria) começou a compor imediatamente após esse primeiro fim e… muita gente recebeu Wiretap scars, a estreia, de 2002, com disposição mais para comparar com o At The Drive-In do que para analisar o que realmente rolava ali.

No Sparta de hoje, só Ward e Miller continuam na banda – Neil Hennessy ocupa a bateria desde a primeira metade da década. Cut a silhouette, por sua vez, é um disco bem mais diversificado do que se esperaria do grupo nos dias de hoje. O Sparta empilha guitarradas, batidas ágeis (e quebradas, às vezes) e sons melancólicos em faixas como Split lip, Crater e Without your hands, mas parece se aproximar cada vez mais de uma mescla de pós-hardcore e pós-punk.

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Mouthbreaker, por exemplo, parece coisa da primeira fase do Simple Minds. Já Daydream investe numa noção bem atmosférica de college rock, com synths ao fundo, e Mystery of missing soa como o U2 de All that you can’t leave behind (2000), só que com mais peso. Tem uma onda darkwave cobrindo a ótima Everything you say, mas mas mesmo mergulhando nas sombras, o Sparta foca em refrãos explosivos e vocais para levantar arena, dando um diferencial bem bacana.

Um detalhe: o Sparta faz baladas bonitas, como rola em See you soon e Glimmer. Mas é o segmento em que a banda apresenta menos surpresas – na real, soa como se a presença de baladas em Cut a silhouette fosse só para bater meta. Fique com o lado mais explosivo, que soa sincero e experiente.

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Crítica

Ouvimos: Osees – “Off course”

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Resenha: Osees – “Off course”

RESENHA: Psicodelia garageira, afrobeat espacial e terror B: o Osees faz Off course, um disco sujo, hipnótico e cheio de improvisos grudentos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: DEATHGOD CORP.
Lançamento: 5 de junho de 2026

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Banda que já apareceu neste site com diversas denominações (Oh Sees, Thee Oh Sees), o Osees também grava e lança coisas compulsivamente. Dessa vez, sai Off course, disco em que o líder John Dwyer se dedica a uma espécie de psicodelia de garagem, que oscila entre Syd Barrett e Stooges – sons cerimoniais, mas com sujeira e clima de terror B. O disco foi feito a partir de longas improvisações gravadas, retrabalhadas antes de serem gravadas ao vivo em fita e, finalmente, feitas em estúdio ao lado dos outros músicos.

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Esse método “orgânico” gerou um disco pulsante, definido por eles como “um álbum que se pergunta onde diabos estamos e como chegamos aqui”. Off course é aberto por uma faixa título de nove minutos, que soa tão cerebral quanto Interestellar overdrive, da primeira fase do Pink Floyd, e tão fora da casinha quanto Funhouse, dos Stooges. Hecate’s reflection is a trick tem o mesmo apreço por progressividades e ritmos quebrados do Primus, mas sem virtuosismo. É basicamente som psicodélico e suingado com design sonoro garageiro, bateria circular e teclados com som piscante, além de um piano elétrico que dá um clima setentista e meio soul + jazz à faixa.

Dwyer prometeu no release de Off course que o / a ouvinte iria ficar “com um monte de músicas-chiclete na cabeça” – referindo-se mais ao fim do disco, mas a frase vale para o afrobeat progressivo e espacial de The trick, terceira faixa. Syringe soa como um Kraftwerk orgânico e em órbita, ou como uma atualização do som do Gong. E The brute on his knees é grudenta de fato – é quase a canção mais (vá lá) pop da história do Osees, mas soa como o progressivo-spaghetti do Le Orme, ou como A whiter shade of pale, do Procol Harum, transformada em rock garageiro.

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Ouvimos: Pink Floyd – “8-tracks”

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Resenha: Pink Floyd – “8-tracks”

RESENHA: Coletânea do Pink Floyd reúne oito clássicos em clima caça-níqueis retrô, com mix de Steven Wilson e rara versão de Pigs on the wing.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6 (as músicas são 10, mas essa ideia aí…)
Gravadora: 5 de junho de 2026
Lançamento: Sony Music

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Cara… tipo assim… uma coletânea do Pink Floyd com oito músicas dos álbuns lançados entre 1971 e 1979? Tá certo que 8-tracks é basicamente um caça-fãs de vinil (o disco sai no formato, e em CD também), e tá certo que A collection of great dance songs, compilação de 1981, tinha seis faixas extremamente manjadas. Mas será que hoje em dia, na era das playlists, isso é um lançamento realmente bom?

Como chamariz, 8-tracks traz todo o material selecionado e sequenciado por Steven Wilson (Porcupine Tree) e ainda promete somar outro revival à mania dos LPs. Sim, porque a única raridade que 8-tracks tem é uma versão de Pigs on the wing, do disco Animals (1977), que une as duas partes da música original – formando uma versão extensa e diferente – e que estava justamente no cartucho de oito pistas da música.

Vai ver que, com esse disco, muita gente vai se animar a lembrar ou a descobrir como era o som desses apetrechos (que tiveram certa demanda no Brasil durante os anos 1970, com direito a cartuchos nacionais, mas sumiram logo – a ponto de muita gente nem lembrar disso).

O trabalho de Steven ao sequenciar as músicas incluiu emendar os finais das faixas nos começos das músicas seguintes, quase como se fosse uma só peça musical. Justamente por isso, algumas faixas aparecem com duração menor do que nos álbuns originais. É o caso de One of these days (de Meddle, 1971, abrindo o disco) e da maravilhosa Wot’s… uh the deal (do segundo melhor disco do PF, Obscured by clouds, de 1972). Another brick in the wall pt 2 aparece na versão de single.

Ninguém precisa de mais um motivo para ouvir oito clássicos do Pink Floyd, mas isso aqui tá mais com cara de caça-níqueis vendido como último biscoito do pacote (até porque mesmo tendo só oito músicas e um único disco, dificilmente vai sair baratinho…).

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