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Cultura Pop

Cancelado! O clipe que David Bowie vetou

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Cancelado! O clipe que David Bowie vetou

A primeira coisa que dava para imaginar ao ler que David Bowie estava, em 1999, lançando um single chamado The pretty things are going to hell era o bom e velho “ué, já vi isso antes…”. Claro: “pretty things” era uma referência a Oh! You pretty things, música do disco Hunky dory, de 1971. E o “are going to hell” era um jazz em cima de Your pretty face is going to hell, dos Stooges – música, por sinal, do disco Raw power, que Bowie produzira.

A música era um dos singles do disco Hours, de 1999 – que trouxe como novidade o fato de, na época da internet a lenha, estar disponível digitalmente duas semanas antes de seu lançamento em formato físico. E imaginar que ela ganharia um clipe era só questão de tempo. Enfim, ela ganhou, mas se tornou um caso raro na videografia de Bowie, já que ele acabou não curtindo muito o resultado e engavetou o clipe.

O vídeo de The pretty things… foi dirigido por Dom & Nic (nome de trabalho dos diretores Nic Goffey e Dominic Hawley) e filmado em setembro de 1999. A dupla vinha fazendo o maior sucesso nas premiações de clipes e havia dirigido um vídeo para o próprio Bowie, I’m afraid of americans (feito ao lado de Trent Reznor), nomeado para o Prêmio de Melhor Vídeo Masculino da MTV em 1997. Os dois também dirigiram o clipe de D’you know what I mean?, do Oasis.

>>> Veja também no POP FANTASMA: David Bowie copiando e colando

A ideia era levar um pouco do passado de Bowie para os fãs, mas de uma forma, vamos dizer, sui generis. O cantor contratou a Creature Shop de Jim Henson, o criador dos Muppets, para montar quatro bonecos representando fases diferentes de sua carreira. A empresa já era uma velha conhecida de Bowie, já que seus serviços haviam sido usados no filme Labirinto. O velho Jim morrera em 1990 e seu filho Brian assumira a empresa.

Os tais quatro bonecos representaram o Bowie-de-vestido da capa de The man who sold the world, a época de sucesso de Ziggy Stardust, o Thin White Duke e o pierrô do disco Scary monsters. Corre por aí que essa brincadeira custou 28 mil libras.

Um site chamado Lostmediawiki corrreu atrás de fotos raras e declarações antigas dos participantes do clipe. O marionetista Rick Lyon lembra que foi chamado em setembro de 1999 para manipular “um fantoche de tamanho real da personalidade de Ziggy Stardust do Sr. Bowie”, conforme contou em seu site pessoal. “O marionetista principal foi meu bom amigo David Barclay, e os outros foram John Tartaglia, James Godwin e Eric Jacobson”.

>>> Veja também no POP FANTASMA: A versão pouco conhecida de Rebel Rebel, do David Bowie

O problema é que esse clipe aí, pelo menos da maneira como deveria ser apreciado, foi visto por muito pouca gente, porque Bowie desistiu do vídeo assim que o viu, e arquivou tudo. “Este vídeo nunca foi lançado. Falei com alguém na casa de produção em dezembro de 1999, e eles disseram que tinha sido arquivado. Que pena”, completou Rick.

Bowie retomou o assunto em 2000, quando resolveu bater um papo pelo Yahoo Music com os fãs. Na época, essa coisa de bater papo pela internet parecia mais coisa de filme de ficção científica. Seja como for, um fã perguntou porque é que o vídeo foi largado de lado. “Ele foi abandonado depois que descobrimos que os bonecos pareciam bonecos”, disse, confundindo ainda mais os pobres admiradores.

Bom, ele explica em seguida: “O que quero dizer é que o vídeo não tinha a escuridão do leste europeu que Dom e Nick queriam alcançar. Algumas das partes são absolutamente engraçadas e tenho certeza que um dia desses entrarão numa compilação de vídeo. Será uma fonte de diversão sem fim para todos vocês e uma forma de tortura chinesa para mim”, ironizou.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Várias coisas que você já sabia sobre The man who sold the world, de David Bowie

O relacionamento de Bowie com os bonecos não parou por aí. Em 2013, os bonecos Thin White Duke e Pierrot foram tirados do depósito e finalmente foram utilizados no clipe do remix de Love is lost (do disco The next day, lançado naquele ano). Foi a única vez em que eles apareceram.

Mas o clipe de The pretty things, infelizmente, continua inéd… Bom, nem tanto. Tem um vídeo, disponível no YoUTube e em sites de vídeos como o Dailymotion, com a música, avisando que se trata do clipe “oficial”. Na verdade é uma edição diferente do vídeo, com Bowie cantando em um teatro. Há um close bem rápido do boneco do Thin White Duke lá pra 2:11, e não aparece mais fantoche nenhum.

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Crítica

Ouvimos: John Cale, “POPtical illusion”

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Ouvimos: John Cale, "POPtical illusion"
  • POPtical illusion é o décimo-oitavo disco solo de John Cale, fundador do Velvet Underground (banda da qual acabou sendo saído após o líder Lou Reed mandar um “ou ele ou eu” para os colegas). É o quinto disco do cantor para o selo Double Six, ligado à gravadora londrina Domino.
  • Num papo com The Guardian, Cale disse que o novo disco foi pautado pela pandemia, como já havia acontecido com o anterior, Mercy (2023), e que ele estava com muita raiva (“de coisas políticas, principalmente”) quando fez o disco. “Escrevi o disco com muito mais agressividade do que tive no passado recente, mas era um tipo diferente de agressão – um tipo de agressão romântica”, contou.
  • O álbum foi produzido por ele com sua empresária Nita Scott. Ao contrário de Mercy, bastante colaborativo, dessa vez Cale tocou quase tudo sozinho, com colaborações pontuais de Nita (teclados e programações) e Dustin Boyer (guitarra).

O tal “passeio pelo lado selvagem” do qual Lou Reed falava, tem mais a ver com seu ex-colega de banda e “inimigo íntimo” John Cale. Lançando disco clássico atrás de disco clássico, Lou foi do rock mais básico e destrutivo ao puro ruído. John ficou com o lado aparentemente mais desafiador, indo das tentativas de abraçar o rock mais radiofônico, até canções mais sinfônicas e elaboradas. Em vários momentos, trabalhou com selos menores e teve menos atenção da mídia do que Reed.

Em alguns momentos, John e Lou pareciam se “encontrar”, ainda que separados. Foi o que aconteceu em discos sombrios e protopunks de Cale, como Fear (1974) e Slow dazzle (1975, em cuja capa o cantor usava roupas pretas, óculos escuros e se parecia não muito levemente com o rival). No disco novo, POPtical illusion, a “ilusão de ótica pop” de John Cale inclui mostrar que a música de vanguarda, na visão dele, se parece bem pouco com a ideia comum de rock, ou até de punk. O som de POPtical tem a ver até com pop adulto-contemporâneo, desde que aquilo possa ser mexido e remexido de forma a se tornar um pouco esquisito, como acontece em faixas como Davies and Wales, a quase progressiva Edge of reason e o sophisti-pop I’m angry, que às vezes soa como uma bossa nova fragmentada e produzida por Brian Eno.

O novo disco tem, principalmente, a visão de um dream pop às avessas, como se as camadas de teclados e programações (além dos vocais gravados como se viessem do fundo de uma caverna) servissem para dar uma ideia de paraíso perdido, de sonho que acabou. Tudo isso em meio a letras bem pessoais, como God made me do it (Don’t ask me again) e Calling you out, ou comentários políticos como os de Company commander (“os direitistas queimando suas bibliotecas/nos dando os benefícios e a dúvida”). Vem logo à mente a lembrança de que no entendimento de Cale, o disco que ele e Reed estavam fazendo em homenagem a Andy Warhol, Songs for Drella, deveria ter uma cara de réquiem, de elegia – porque é mais ou menos isso que dá para enxergar em POPtical, um disco “raivoso” feito em meio à pandemia.

No repertório de POPtical, acha-se também o punk eletrônico de Shark shark, o jazz pop sombrio de Funkball the brewster, o synthpop de How we see the light (que lembra a fase anos 1990/2000 de David Bowie) e, no encerramento, as meditativas Laughing in my sleep e There will be no river. O novo disco de Cale é extenso (mais de uma hora de duração) e termina deixando a sensação de que o baú do retiro pandêmico do músico ainda vai gerar mais surpresas.

Nota: 10
Gravadora: Domino/Double Six

 

 

 

 

 

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Cultura Pop

Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Cultura Pop

Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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