Em julho de 1994, a revista Bizz – que andava mudando bastante sua linha editorial e tentando incluir outros temas nos bolos da música pop e do rock – resolveu publicar um artigo sobre a chegada do homem à lua, acontecida 25 anos antes. Em meio ao textinho, cheio de informações legais e algumas teorias musicais meio furadas (como a de que o tropicalismo havia sido a morte da MPB), aparecia uma foto meio avulsa de Pelé “posando de astronauta em plena ‘lua mania'”.

Aquela época em que Pelé foi ator de novela

O autor do artigo não se ligou que, ao lado do rei do futebol, havia uma garota de cabelos curtos e visual misterioso, que era ninguém menos que Regina Duarte – dois anos antes de estourar na Rede Globo e virar a namoradinha do Brasil. E aquela foto não era apenas o rei do futebol dando uma de Neil Armstrong. Era na verdade uma foto de divulgação de uma das novelas (aparentemente) mais malucas já feitas em solo pátrio, Os estranhos, escrita por Ivani Ribeiro para a TV Excelsior.

DISPAROU

É verdade: a segunda metade dos anos 1960 iniciou uma verdadeira mania ligada à corrida espacial e às disputas entre Estados Unidos e União Soviética para ver quem explorava mais o céu que estava sobre nós.

Yuri Gagarin, soviético que morreu em 1968 antes da chegada do homem à lua (na queda nunca explicada de um jato MIG-15), podia ter sido o primeiro cosmonauta do mundo, dando uma volta completa em torno do planeta em 1961. Mas foram os famigerados Estados Unidos que colocaram uma bandeira no satélite natura da Terra em 1969.

Até lá, muita água rolaria, a corrida espacial ocuparia páginas e mais páginas de jornais no Brasil (muitas vezes mais do que o noticiário político, eternamente censurado) e o tema do homem chegando “lá” viraria tema até de músicas por aqui – Módulo lunar (Os Brazões) e Lunik 9 (Gilberto Gil) entre elas.

Daí, na época, nada mais apropriado que a lua e a corrida espacial chegassem às novelas – que por aqueles tempos ainda eram uma diversão quase exclusivamente feminina e ainda seguiam uma agenda bem distante da realidade, com novelas falando de lugares distantes e sheiks árabes. Beto Rockfeller, de Braulio Pedroso, levada ao ar no fim de 1969 (e que falava do dia a dia de um garotão ambicioso), era uma justa exceção.

BEM…

Os Estranhos era… bom, parecia algo sui generis. Ivani queria fazer uma história de ficção científica, “uma fantasia, que projetava o interesse em torno do controvertido fenômeno dos discos voadores”. A novela, que ficou no ar de março a julho de 1969, falava do dia a dia do escritor Plinio Pompeu (Pelé), que encontra seres extraterrestres, do planeta Gama Y-12, que vêm à Terra tentar resolver problemas locais. Regina e Rosamaria Murtinho (que estava ao lado esquerdo de Pelé na foto lá de cima) faziam duas extraterrestres da comitiva, Melissa e Dioneia (respectivamente). Cláudio Correa e Castro, Stênio Garcia e Gianfrancesco Guarnieri estavam também no elenco.

Era um golpe de mestre para fazer com que a Excelsior chamasse a atenção do mercado publicitário. A emissora, que tivera um sucesso enorme com uma novela que durou dois anos (Redenção, de 1966 a 1968), andava no bico do corvo, cheia de dívidas, demorando para pagar salários (como o de Regina Duarte, atrasadíssimo). Naquela época, o AI-5 censurou um dos programas mais criativos da estação, o Jornal de Vanguarda. E como desgraça pouca é bobagem, em agosto de 1969 um vendaval destruiu a torre da emissora carioca. Após negócios desfeitos e mais salários atrasados, a Excelsior foi fechada em 1970 e acabou aí.

PROBLEMAS

Pelo desfecho já contado da história, você pode imaginar que Os estranhos não deu muito certo. Não deu, não: a trama foi recebida por jornalistas e até por atores como uma excentricidade. Gianfrancesco Guarnieri reclamou no livro Glória in excelsior, de Álvaro de Moya, que o efeito das fantasias dos personagens era mais engraçado do que impressionante (“o Claudio Correa e Castro, a Rosamaria Murtinho e a Regina eram amarelos, com brilho no rosto, porque eram de outro planeta”).

Já o escritor interpretado por Pelé teria que ser um Paulo Coelho para levar o estilo de vida que levava. “Ele vivia de seus direitos autorais e tinha uma ilha, comprada com a renda dos livro. Total absurdo. Para ter uma ilha ele deveria ter no mínimo 20 empregos e nem teria tempo para escrever”, queixou-se o ator, elogiando no entanto a resolução técnica da trama (via Teledramaturgia).

O jornal Lance fez uma matéria bem completinha sobre a novela certa vez e ouviu de atores da trama que Pelé era bem concentradinho no trabalho. Stênio foi quase um coach dele, e ia até a concentração do Santos (time do rei do futebol, você deve saber) passar o texto. Também iam a uma represa ali perto pescar e ensaiar. Rosamaria lembra que ele refazia tudo que precisasse e que Pelé “se mostrava muito interessado em acompanhar como a gente gravava a novela”.

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