“Que pergunta idiota, claro que Cassiano, que nunca mais havia conseguido um hit depois do disco Cuban soul, precisava fazer sucesso”, você pode estar dizendo. É o que, aliás, pode passar na cabeça de quase todo mundo. Afinal, teoricamente qualquer pessoa quer fazer muito sucesso, certo?

Nos últimos dias, com a morte de Cassiano e de Luis Vagner, surgiram em comunidades do Facebook discussões sobre o quanto o cantor de Coleção teria sido abandonado pelos jornalistas. Os posts foram motivados por textos como o de Pedro Alexandre Sanches para o site Farofafá, e o de Jairo Malta para a Folha.

Mas nem sempre as coisas são como parecem. Cassiano passou por várias redescobertas ao longo dos vários anos que passou sumido. A ponto de sempre ter havido colegas ou repórteres musicais querendo saber onde localizá-lo, ou conversar com ele. O maior obstáculo era justamente o próprio Cassiano, arredio, sempre evitando contatos e parcerias.

O difícil acesso ao cantor já inspirou até mesmo uma música, Preciso urgentemente falar com Cassiano, de Fábio e Paulo Imperial, gravada por Sandra de Sá.

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O que levou Cassiano a passar tanto tempo desejando sumir, só ele poderia responder. O cantor já disse em algumas poucas entrevistas que era realmente um cara difícil e “brigava por qualquer besteira”. Mas a tese de que o cantor “merecia fazer muito sucesso” depende de saber o que a palavra “sucesso” significava para ele. O próprio Cassiano já tinha um comportamento quase anti-mainstream. Mas por outro lado, mesmo assim, teve várias conquistas ao longo da vida.

Em uma entrevista para a Bizz nos anos 1990, Cassiano chegou a falar que valorizou tudo o que conseguiu em sua carreira. Disse também que não tinha incômodos com o fato de seu parceiro Tim Maia ter ganhado mais reconhecimento. Ele gravou quatro discos por gravadoras multinacionais. E teve músicas em duas trilhas de novelas. Aliás, muita gente lembra exatamente o que estava fazendo quando deparou com o clipe de A lua e eu no Fantástico em 1975.

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Dizer que Cassiano, ou Luis Vagner, ou qualquer outro cantor “merecia ter feito muito sucesso” é, muitas vezes, imaginar que eles deveriam ter uma trajetória parecida com a de nomes que desfrutam de certo poder político dentro da música brasileira. Só que nem todo mundo quer isso. E as aporrinhações que vêm na bagagem.

Essa lamentação pelo sucesso nacional não-alcançado também acaba sendo uma maneira meio disfarçada de dizer que o pouco que alguém conquistou na vida não significa muita coisa. Afinal, o cara não virou mainstream, não está tocando no rádio todo dia, nem ficou rico, nem conquistou esse tal de “poder” no mercado. Cassiano merecia, sim, ter tido mais espaço, discos lançados e um tratamento mais digno. Mas nem todo mundo tem saco de ter na música brasileira um papel parecido com o de Gilberto Gil, Caetano Veloso ou Roberto Carlos. Ou quer isso.

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