Crítica
Ouvimos: Greentea Peng, “Tell dem it’s sunny”

Psicodelia, soul, reggae, maconheirismo cool, maturidade, espiritualidade e necessidade de relaxar. Tá aí o resumo de Tell dem it’s sunny, o segundo álbum da londrina Aria Wells, mais conhecida como Greentea Peng. O disco pode realmente ser explicado por intermédio disso aí, mas são só chaves de compreensão: Greentea Peng é daquelas artistas que não ficam contentes se não levam o/a ouvinte para outro planeta, consegue inserir detalhes de informação até mesmo em passagens instrumentais, e faz de seu álbum um tratado sobre urgência e mudanças, em música e em letra.
Musicalmente, Tell dem it’s sunny é trilhado no corredor dos discos modernos que focam em sons antigos atualizados – uma coisa bem anos 1990, bastante associada ao neo-soul da época e a cantoras um pouco mais recentes, como Amy Winehouse. Por acaso, faz isso quase como declaração de princípios, já que o hit TARDIS (Harvest), cujo título faz referência à máquina do tempo do seriado Doctor Who, mexe no limbo do r&b antigo, com bateria orgânica, e traz frases lapidares na letra: “não nos movemos para trás, apenas para a frente”, “estamos jogando bombas, é uma calamidade / essa merda é vital para minha sanidade” “estou tremendo através da minha caneta e na página / acho que encontrei uma maneira de moldar minha raiva / que você nunca poderá tirar de mim”.
Seguindo no disco, One foot vai no r&b vintage, com combinação bonita de guitarra e baixo e bateria com eco, num tom quase lisérgico. Nowhere man tem suíngue psicodélico e fluido, e uma onda que lembra as produções de Brian Eno – mas é um reggae voador, com clima espiritualista na letra (“nós não sabemos de onde viemos, então não sabemos para onde estamos indo”). Glory é um reggae preguiçoso e relaxado, com micropontos de psicodelia. My neck une reggae, soul, hip hop e vibe sombria, com ruídos que lembram fantasmas assombrando casas.
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Na onda de Greentea Peng cabe uma espécie de hip hop grunge, com batida quase industrial e teclado lembrando um post-rock (Create or destroy 432), evocações do trip hop (Raw e Stones throw) e música eletrônica com ferocidade levemente domada (The end e Whatcha mean). Além da mescla sonora de I am (Reborn), soul-rock com guitarra circular fazendo um riff pesado, e com desenho sinuoso de baixo, bateria e vocal. No fim, a impressão que dá é a de ter embarcado numa viagem espiritualista-espacial tipo o Tim Maia Racional, mas com direito a expansores de mente e referências mais moderninhas.
Nota: 9
Gravadora: AWAL
Lançamento: 21 de março de 2025
Crítica
Ouvimos: Mary In The Junkyard – “Role model hermit”

RESENHA: Mary In The Junkyard mistura pós-punk, folk sombrio e dream pop espectral em estreia intensa, melancólica e cheia de beleza inquietante.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: AMF Records
Lançamento: 3 de julho de 2026
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No Brasil, o espaço para uma banda como o trio londrino Mary In The Junkyard seria numa espécie de underground noturno – se houvesse uma banda como eles, provavelmente iria se aproximando devagar da cena emo, a partir da galera que fuça as referências Midwest e coisas do tipo. Isso porque o grupo, mesmo fazendo uma espécie de pós-punk agourento, tem guitarras arpejadas, beats caóticos que têm alg de math rock, e coisas do tipo.
Na real, Role model hermit, o primeiro álbum, está mais para um filhote da fase “perdida” do The Cure – a época de músicas como Charlotte Sometimes e Splintered in her head, de namoro-casamento com climas mais do que góticos. Algo de Closer (1980), segundo disco do Joy Division, surge ali também, com a vocalista e guitarrista Clari Freeman-Taylor abusando de vocais fantasmagóricos em músicas como Mantra III, New muscles, Seek and destroy e Myrtle.
- Ouvimos: American Football – American Football (LP4)
Essa cara musical surge ao lado de arranjos de cordas, bateria que soa quase como um mapa sonoro (Blood) e climas mais próximos do folk – só que um folk de cidade-fantasma, de crimes sobre os quais é melhor calar, de gente que sumiu sem deixar rastros e parece nunca ter existido. Peter the dog, Crash landing, Welcome break… Tudo do disco, praticamente, vem nessa base, como um dream pop que não foi feito pra ninguém sonhar. Muitas vezes, a música vem “de longe”, como se um vizinho ouvisse música.
As letras de Clari falam de amores cagados, autossabotagem, vulnerabilidade, mas que há bastante força ali, ninguém duvida – ela diz “abraçar o trovão e o relâmpago” em New muscles, aludindo à força discreta e a vibes mentais. Candelabra faz lembrar Judee Sill com versos como “quero que você me conheça através das minhas canções / elas são muito mais puras do que qualquer coisa que eu pudesse dizer” – uma música de tristezas e profundezas. O mais bonito fica pro fim, com o clima quase cigano de Thoul shalt sprout e os ruídos de Mouse. Muita beleza envolvida.
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Crítica
Ouvimos: Joaoeascoisasnaoessenciais – “Joaoeascoisasnaoessenciais” (EP)

RESENHA: Joaoeascoisasnaoessenciais une lo-fi, folk, rock e experimentação em álbum gravado de forma artesanal, com crítica aos algoritmos e ao streaming.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 26 de junho de 2026
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Vindo de Cachoeiro do Itapemirim (ES), João Pedro Monteiro de Freitas, o popular Joaoeascoisasnaoessenciais, faz som experimental – mas os métodos de produção e de lançamento são mais experimentais ainda. Recentemente ele lançou o EP Lost media – Vitruviano????, em que as faixas foram divididas em pedaços de 30 segundos. No cerne disso, uma discussão sobre as plataformas digitais, que precisam apenas desses 30 segundos para entender se um conteúdo é revelante ou não.
- Ouvimos: Francis Of Delirium – Run, run pure beauty
No EP Joaoeascoisasnaoessenciais, João decidiu fazer as coisas do seu jeito e não alimentar nem algoritmos nem milionários. Gravou tudo com uma mesa de som analógica, instalada no quarto de uma pousada na região do Caparaó, no Espírito Santo. O local é tão perto da natureza que dá pra ouvir pássaros na gravações de João (dá também para ouvir carros passando, enfim). João gravou voz e violão com microfone aberto e zero de isolamento acústico, num esquema lo-fizaço o que dá a impressão de músicas sendo gravadas quase ao mesmo tempo em que são compostas.
Dessa vez, João pôs apenas duas faixas no Spotify e deixou todo o disco para download gratuito em seu site (“eu já não recebo nada mesmo, só estaria ajudando a enriquecer mais um bilionário”). O repertório traz músicas que com baixo, guitarra e bateria, poderiam ir do punk ao noise rock, como Capitão dos ventos (do verso “estou num barco a vela mas fiz de conta que era barco a motor”) e a balada soul Cânhamo. Tem um lado rock rural em Maria e um clima quase grunge na contemplativa Baleias.
Afrodite e Celebração vão ganhando ar emo, bem devagar, mesmo no esqueleto voz e violão – e o final é com Delírio, slacker rock gravado ao vivo com banda. Nas letras, mitos digitais, pastores e coisas que a gente muitas vezes naturaliza.
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Crítica
Ouvimos: Haroldo Bontempo – “Haroldo Bontempo ao vivo em quarteto”

RESENHA: Haroldo Bontempo mistura samba-jazz, bossa e indie-folk em disco ao vivo de clima espontâneo, leve e criativo, cheio de improvisos e bom humor.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Cantores del Mundo
Lançamento: 3 de julho de 2026
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Rapaz, e você sabia que existe uma espécie de samba slacker? Pois é: o mineiro Haroldo Bontempo faz samba-jazz, música instrumental, e tem em sua música evocações que vão de Antonio Adolfo a João Donato – este, chegou a participar de Risada, uma música dele. Só que a música de Haroldo tem mais camadas: volta e meia você vai achar climas despojados que têm mais a ver com o Pavement, e vibes em que o samba vira indie-folk, ou o contrário.
Divulgado lá fora por nomes como Gilles Peterson (BBC), o multinstrumentista Haroldo decidiu destacar o lado instimista de seu som em um disco “ao vivo no estudio”. Ao vivo em quarteto traz o cantor e músico acompanhado por Bê Moura (bateria), Carol Ramalho (baixo elétrico) e Vinícius Mendes (flauta transversal e saxofone), e fazendo um som baseado em técnica, surpresas sonoras e fluxos de consciência. Há uma onda quase Odeon anos 1970 em sambas como Até que eu gosto de você. Ou em Brasil, 17h (em clima bossa-blues) e Manhãs no cais (que tem cara de, pode acreditar, Arnaldo Baptista).
- Ouvimos: Xico Chagas – xico-chagas_show_14_11_2025 (ao vivo)
Ao mesmo tempo, a impressão que dá é que Ao vivo em quarteto foi gravado em clima de surpresa até para os músicos, como se fosse um improviso “de luxo”. Sons como Na casa do jornalista, a espontânea Esperança e a bossa lo-fi em várias partes De volta a BH têm elementos que parecem brotar de repente na gravação. Risada, com letra otimista, lembra a fase RGE de Chico Buarque, e Pirraça, seguindo a linha de fluxo de consciência e observações do dia a dia nas letras, tem versos legais como “a esperança é sempre a última a se levantar do bar”.
No final, a zoeira de Seu Moacir, samba-jazz com cara pop e cima de Novos Baianos – em que cada integrante ganha um solo, e Haroldo manda recado para um “velho paulistano emburrado”. Um disco de ótimo astral.
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