Connect with us

Crítica

Ouvimos: Robbie Williams – “Britpop”

Published

on

Robbie Williams lança Britpop de surpresa: revisão madura dos anos 1990, miscelânea pop-rock bem resolvida e disco-chave de sobrevivência artística.

RESENHA: Robbie Williams lança Britpop como revisão madura dos anos 1990, miscelânea pop-rock bem resolvida e disco-chave de sobrevivência artística.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Farrell Music Ltd. / Sony Music
Lançamento: 16 de janeiro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Em outubro, Robbie Williams, prevendo o lançamento de seu novo disco Britpop com atraso (após vários adiamentos, tinha ficado pra fevereiro, mês que vem), resolveu fazer um show no clube Dingwalls, em Londres, para apenas 600 pessoas – uma lotação que o The Guardian classificou como “o menor local de sua carreira até hoje”.

O repertório foi sintomático: Williams abriu o show cantando na íntegra sua estreia Life tru a lens (1997, do hino pop-britpop Angels), e depois encartou Britpop quase na totalidade – faltou apenas a última faixa, Pocket rocket, que de todo modo é apenas a (bela) reprise acústica e orquestral do single Rocket. Na ocasião, Robbie lembrou histórias boas e amargas de sua carreira, e admitiu que os atrasos no lançamento de Britpop tinham acontecido por causa do disco The life of a showgirl, de Taylor Swift, na época vendendo igual água (“eu poderia fingir que não, mas é. É egoísmo. Eu quero um 16º álbum número 1”, disse).

A junção dos dois álbuns no setlist reforçou o que o próprio Williams já havia falado: Britpop surge em sua discografia como o disco que ele queria ter feito depois de sair do Take That. E mais do que isso, surge como uma revisão amadurecida dos anos 1990. Mais aproximadamente de uma época em que ele estava prestes a estourar como nome solo, e mal sabia que iria vender mais discos e lotar mais estádios que qualquer outro nome do britpop.

Acabou que Britpop foi lançado… bom, na verdade nem dá para dizer que foi um lançamento. Previsto para fevereiro, o novo de Williams simplesmente brotou nas plataformas em janeiro e pegou muita gente de surpresa. Passada a surpresa, a constatação: Williams tinha razão em temer que o álbum desaparecesse em meio a fartura de lançamentos de 2025. Britpop não é um álbum pop para ouvir, arquivar e passar para outro, ou para consumo imediato.

Isso porque o contexto do disco traz Robbie tentando resolver um problema tão estético quanto existencial: o cantor de Feel e Angels é um artista pop britânico dos anos 1990 mas aparentemente nunca foi “britpop”, nomenclatura geralmente dada a bandas de rock como Oasis e Blur. Seu repertório é pródigo em baladas e rocks sonhadores, como Let me entertain you e Better man, mas isso não parece comover a imprensa “roqueira”, que passa pano até para os discos da fase meio barro, meio tijolo do Oasis (tipo Heathen chemistry, de 2002).

Dá para pegar um pouco no pé de Britpop pelo fato de ele ser, no fundo, uma baita miscelânea pop-rocker – mas uma miscelânea bem feita, e que possivelmente vai determinar todos os próximos passos de Williams na música. No single Rocket, Robbie une punk, pop e metal na mesma onda de artistas como Scott Weiland e Billy Idol – e ainda tem Tony Iommi, do Black Sabbath, na guitarra. Em Spies, música bastante franca sobre a noia de cocaína nos anos 1990 (“costumávamos ficar acordados a noite toda, pensando que éramos todos espiões / rezando para que o amanhã não chegasse”) ele adere ao noise-rock popizado, e conversa simultaneamente com Roxy Music e Radiohead na mesma faixa.

Há uma tentativa (meio caidinha) de indie sleaze em Bite your tongue e britpop com ênfase no “pop” em All my life (que, vá lá, soa como Liam Gallagher cantando Bon Jovi, e pode deixar roquistas de nariz torcido). Além de uma espécie de combo britpop + eletrônica em Human – esta, com participação da dupla mexicana Jesse & Joy, além de Chris Martin, do Coldplay, tocando guitarra e teclados.

Williams também surfa ondas próximas de estilos como bubblegum sessentista, power pop e glam rock em faixas como Pretty face (que faz lembrar tanto Cheap Trick quanto Manic Street Preachers) e Cocky (esta, idem com Mott The Hoople. T Rex e Sweet). E encerra o álbum mandando um papo sem ranço ou moralismo sobre os tempos de doideira em It’s OK until the drugs stop working.

Por sinal, trata-se de uma música bastante peculiar no repertório de Britpop: uma curiosa união de cafonice sixties e chamber pop, próxima do que certa vez o crítico musical britânico Alexis Petridis chamou de “cabaré pop”. Tem ainda Selfish disco, um soft rock + britpop com letra viajante que cita Buzzcocks e Siouxsie, e a vibe Lou Reed + Rolling Stones de G.E.M.B – mas essas vazaram para a versão deluxe do álbum (sim, já saiu uma versão deluxe).

Entre coisas ótimas e alguns (poucos) exageros, Britpop sai equilibrado, e ainda revela mais duas curiosidades. You, uma delas, é um ótimo rock na estileira Iggy Pop + David Bowie, só que com uma baita sensação de perigo, um refrão power pop e uma letra que parece falar de inteligência artificial, mas com versos bem estranhos, como “milhões de criaturas todas peludas pra caralho e cheias de fentanil, escorregando em óleo de bebê” e “desvanecer para o cinza / alimente os flocos / faça Jared Leto de Lego”.

O bom synthpop Morrissey, por sua vez, corre o risco de ser escutado pelo “homenageado” com o mesmo horror que o esteta pop Andy Warhol sentiu ao ouvir Andy Warhol, a música de David Bowie – embora Williams apenas diga na letra que entende Morrissey e ofereça a ele um abraço, porque ele compreende que. por trás da excentricidade do ex-Smiths, existe apenas alguém que quer carinho e companhia, e não sabe pedir. Não custa dizer que Robbie tem muitas lições a dar sobre como combinar sucesso, dinheiro e excentricidade sem maiores abalos – e Britpop, diante disso, tem cara até de atestado de sobrevivência. Além de dar vários passos musicais à frente.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Crítica

Ouvimos: Interpol – “This mirror weighs a ton”

Published

on

Capa de This mirror weighs a ton, disco

RESENHA: No oitavo álbum, This mirror weighs a ton, o Interpol supera a comparação com Joy Division ao misturar pós-punk, dub, trip hop, reggae e eletrônica, enquanto Paul Banks escreve sobre mudanças, maturidade e sobrevivência.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 28 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A comparação entre Joy Division e Interpol sempre foi meio preguiçosa. Paul Banks, vocalista do grupo, soa mais como um cantor firme e como um letrista analítico, do tipo que divide uma situação em vários pedaços e não necessariamente entrega a explicação na música. O som do Interpol parece uma revisão diurna, urbana e menos isolada da música de álbuns como Unknown pleasures (do Joy, 1979), Seventeen seconds (The Cure, 1980) e Heaven up here (Echo and The Bunnymen, 1981) – discos que sacramentaram a união entre pós-punk e gótico no que ela tem de mais noturna e mórbida.

Por acaso, o Interpol sempre deu mostras de ser uma banda que sobreviveria, nem que fosse a seus próprios integrantes. No caso do oitavo disco, This mirror weighs a ton, a banda mostra ter passado por cima de comparações, descasos, mudanças de formação (o ex-baixista Carlos D, que deixou o grupo em 2010) – e mostra ter fixado uma imagem sonora bem própria, a ponto de ter já influenciado muita gente. Mais que isso, existe um tipo de público que ouve o Interpol, e que não necessariamente é gente saudosa de outros tempos do pós-punk, ou indies resistentes dos anos 2000 (recentemente o grupo uniu sombras com o Deftones e rolou até turnê conjunta).

Vai daí que This mirror… soa como um atestado dessa tal sobrevivência, mas ao mesmo tempo parece um retorno “diferente” ao grupo nos primeiros anos. A banda substituiu coisas que poderiam ser mais comparadas a Joy Division por climas mais hipnóticos – tipo na faixa-título, que soa como um pós-punk dub, ou como algo próximo ao trip hop, ou na nostalgia eletrônica da ultramelancólica Iron city. Rola uma curiosa vibe reggae em Wounded soldier, uma onda celestial na orquestral Even the actor, e algo entre Joy Division e Wire no som quase matemágico de Wings on fire.

Há um som mais ligado às fases anteriores da banda em See out loud, música herdeira do lado dramático do Joy Division, mas com outros ingredientes na receita. Nem sequer dá pra dizer que é uma reinvenção da banda, porque parece mais com aqueles momentos em que um grupo consegue soar consigo próprio sem parecer que está se repetindo. Entre as (agora sim) grandes novidades do álbum está a onda quase afro-pós-punk de Wake up, com ritmo lembrando bandas como Aztec Camera e Talking Heads, e uma guitarra que evoca o high life. Tem ainda a atmosfera de Enemy, quase um Coldplay percussivo e sujo, além do Joy Division “de faroeste” da desértica Bird and the serpent.

Nas letras, o tal “espelho que pesa uma tonelada” do título reflete Paul casado, pai de família, com 48 anos e meio assustado com as mudanças na realidade, mas bastante preocupado não apenas com ela, como também com o “e aí, fazer o que diante disso?”. Como costuma acontecer com o Interpol, você vai entender certas frases como grandes sacadas ainda que nem sempre tudo fique claro de primeira – tem o “todas as palavras se foram / mas as rádios na sua cabeça ainda transmitem o arcano para o mundo exterior” da faixa-título, o “em algum lugar, esses olhos, gravados em pedra / esperando pertencer a este lugar” de Even the actor, vai por aí. No geral, uma banda que cresceu e que já entende que virou referência.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Matheus Gomes da Costa – “Estranho indivíduo familiar” (EP)

Published

on

Resenha: Matheus Gomes da Costa - "Estranho indivíduo familiar" (EP)

RESENHA: No EP Estranho indivíduo familiar, Matheus Gomes da Costa transforma questões de infância, religião, desejo e identidade em um rock teatral que cruza art rock, glam, synth-pop e MPB.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Cantor, compositor, performer, professor e pesquisador em Artes Cênicas, Matheus Gomes da Costa é da geração que começou na música soltando material no MySpace – em 2007, aos 17 anos, lançou por lá o EP Degustando problemas. Seu som vem de questões vividas desde a infância, por causa de comportamentos “escondidos, silenciados, violentados ou punidos” – ele foi criado na religião evangélica e hoje se define como uma “diva bicha roqueira e proletária”, expressão que surge no release do EP Estranho indivíduo familiar.

Produzido por Marcio Pombo, e criado a partir de um material que vem sendo acumulado em HDs desde a década passada, o EP abre com o clima “de musical” de Garoto do coro – art rock que atualiza os questionamentos de Ando jururu, de Rita Lee, entre o coral e o protagonismo, mas traz outras afirmações sobre desejo e vida na letra. Outro eu tem algo da extroversão do Queen e das sombras de bandas como Placebo e Suede (verso ótimo: “a solução pra confusão tá no centro do problema / ninguém sabe bem ao certo / e quem explica engana”).

Estranho indivíduo familiar ganha clima synth-pop + glam em Botão – um anti-hino sacana aos apelos da internet, lembrando algo entre Frenéticas e Ronaldo Resedá. A acústica O som consegue unir a dramaticidade do Suede a algo do pop nacional. Além amor, balada de piano, voz e guitarra distorcida, soa como uma revisão rocker da MPB de 1981 / 1982. Um disco curto (15 minutos), mas que movimenta questões e referências como se fosse um álbum de 60 minutos.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Mesh – “No fun at all”

Published

on

Resenha: Mesh – “No fun at all”

RESENHA: Na estreia No fun at all, Mesh, quarteto da Filadélfia, cruza punk, rock dos anos 1960 e indie oitentista com guitarras de 12 cordas e letras sobre a vida urbana.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Feel It Records
Lançamento: 24 de julho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Mesh vem da Filadélfia e faz uma curiosa mistura de rock sessentista, indie rock oitentista e punk – algo que tem a ver com The Jam, Kinks, Smiths, Buzzcocks, Clash, Eddie and The Hotrods, Blondie, tem a ver até com Ira!. O som tem clima 100% analógico e caseiro, a produção foca mais na melodia que no peso, e (detalhe) há uma integrante, Allison Durham, que canta e toca guitarra de doze cordas. E a guitarra de Allison é uma arma secreta fantástica na estreia No fun at all.

Ela, Sims Hardin (guitarra e voz), Tom Riese (baixo) e Steve Darling (bateria) falam de um dia a dia facilmente reconhecível em No fun at all: grandes corporações alugando um triplex cada uma em nossas cabeças, falta de perspectivas, empregos chatos, lembranças bem loucas de infância (Potatohead sacaneia o brinquedo do cabeça-de-batata popularizado pela franquia Toy story), vida urbana. Na onda do grupo, Violent peasant ganha até indianismos a la George Harrison, misturados com o clima garageiro do início do Joy Division (tem algo de No love lost, do JD), rolando o mesmo com Boots on the pavement, logo depois.

Essa receita punk + anos 1960 passa pelas guitarras socadas de faixas como Sign, Quit my job, Potatohead e Quicksand, e por lembranças de bandas como The Who e Magazine em faixas como Weapon of peace e 5G. Recomendado para quem quer ver uma banda criando algo novo com elementos já bem antigos.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS