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Cultura Pop

“Fase psicodélica” o cacete: prazer, Mrs. Mills

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"Fase psicodélica" o cacete: prazer, Mrs. Mills

Jornalista cultural do The Guardian, Alexis Petridis resolveu desenterrar, em um artigo para o jornal, uma época perdida dos anos 1970 que ele costuma chamar de “cabaré pop”. Era algo presente no ideário do pop britânico setentista, bem no meio da era glam (e antes do punk) que permitia a existência de artistas como a dupla de cantores e atores Peters & Lee (uma espécie de Jane & Herondy ingleses, que tinham a própria série de TV), um grupo folk-que-interpretava-de-tudo como os The New Seekers (que fez sucesso com “I’d like to teach thr world to sing”, transformada até em jingle da Coca-Cola) e… essa senhora aí do vídeo abaixo, Gladys Mills, ou Mrs. Mills (1918-1978).

Pianista e cantora amadíssima na Inglaterra, com vários álbuns gravados e milhões de discos vendidos, ela era uma das maiores estrelas da Parlophone na época em que os Beatles começaram a gravar por lá. No vídeo aí de cima, ela aparece numa visita engraçadinha (em 1971) a um dos programas mais amados de todos os tempos da TV britânica, “The Morecambe and Wise show”, apresentado pelos atores e humoristas Eric Morecambe e Ernie Wise.

Como diz o próprio Petridis, vídeos como esse são a prova viva, no YouTube, de que a cultura pop ainda não conseguiu trazer de volta nem reavivar TUDO o que fez sucesso nos anos 1960 e 1970. “Algumas pessoas dizem que a ascensão da internet mostra que vivemos num presente constante. Ou que não pode existir nostalgia, uma vez que quase tudo está arquivado no YouTube, blogs, ou sites p2p. Mas estou certo de que as pessoas que falam isso não foram submetidas à visão da Mrs. Mills”.

Tanto Mrs. Mills quanto boa parte desses artistas que Petridis mencionam eram mais encontráveis em programas de entretenimento popular como o show de Morecambe e Wise, mais até do que em shows pop como o “Top of the pops”. Seria, traçando um paralelo bem imbecil, como se os millenials crescessem achando que nos anos 1980 no Brasil todo mundo ouvia Paralamas do Sucesso e Titãs, e esquecesse que em atrações como o “Programa Silvio Santos” quem dava as cartas eram nomes como Nahim, Gretchen e Zé Luís, e que boa parte dessa turma vendia o triplo dos nossos nomões pop. Ou seria como se esquecessem que “Judia de mim”, de Zeca Pagodinho, é tão clássico dos anos 1980 quanto “Sonífera ilha”, dos Titãs (e vendeu cerca de uns 900 mil discos a mais).

Mais: nos anos 1960, não foi à toa que, por exemplo, “Release me” (Engelbert Humperdinck), tirou “Strawberry Fields forever” (Beatles), do topo das paradas – o pop-rock psicodélico da época parecia MUITO ameaçador para um tipo de consumidor musical, de gosto mais conservador, que preferia baladas açucaradas e embalagem “família” e cômica.

Se você ficou curioso para saber o que Mrs. Mills andava fazendo quando os Beatles estavam lançando (sem shows) o clássico aniversariante “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, aí vão as respostas. Ela estava ocupadíssima divulgando o single “I was Queen Victoria’s chambermaid”, que saiu em abril daquele ano.

Em abril de 1967, ela lançava um vinil de nome engraçadinho, em se tratando de uma pianista: “Look mum, no hands!”. Em dezembro, saía outro, “Let’s have another party”. Havia muito trabalho (e muita demanda) para ela em 1967, mas se você resolver procurar pela “fase psicodélica” de Mrs. Mills, pode desistir.

"Fase psicodélica" o cacete: prazer, Mrs. Mills

Nem é preciso dizer que George Martin, produtor dos Beatles, esteve por trás de boa parte das gravações de Mrs. Mills. O piano que ela costumava usar nessas sessões, um Steinway Vertegrand fabricado em 1905, foi comprado pela EMI em 1953, e tinha um som “antigo” que deixava vários músicos fascinados. Conhecido até hoje como “Mrs. Mills piano”, ele foi usado pelos Beatles em músicas como “Lady Madonna”, “She’s a woman”, “I want to tell you”, “Rocky Raccoon” e “Penny Lane”. E na introdução de “With a little help from my friends”.

Você deve estar pensando agora: “Poxa, nunca ouvi falar disso. Tem algum documentário sobre a Mrs. Mills?”. Tem sim: a BBC fez “Let’s have a party! The piano genius of Mrs Mills” em 2012, com várias imagens dela tocando piano e uma gama de entrevistados que inclui até Rick Wakeman. E o filme já começa no ponto certo, mostrando que 1967 foi o ano de “Sgt. Pepper’s”, da paz e do amor, de Jimi Hendrix, da prisão dos Rolling Stones, da Guerra do Vietnã… e de Mrs. Mills lançando disco atrás de disco sem sair das paradas. Olha aí (não tem legendas, infelizmente).

Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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Cultura Pop

4 discos: Joy Division e seus “the best of”

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

O material não-lançado pelo Joy Division em LP dá (como aliás deu) um número considerável de coletâneas. Ainda que o grupo tenha só dois LPs para contar história (Unknown pleasures, de 1979, e Closer, de 1980). Mesmo que não seja um número maluco de coletâneas como acontece com o Who – que tem um monte de “the best ofs” com poucas diferenças entre um álbum e outro – quem quiser se abastecer de discos com faixas de singles, ou melhores sucessos do grupo, não fica sem opções. Pode achar por aí discos unindo músicas do JD e de sua continuação post-mortem, o New Order. Ou sets variados com gravações da BBC, faixas ao vivo, compactos e músicas mais conhecidas dos dois álbuns.

Comemorando os 46 não-redondos anos de Unknown pleasures (lançado em 15 de junho de 1979), tá aí uma lista condensadíssima – só quatro discos – de coletâneas que em algum momento valeram a pena para futuros fãs do grupo.

“WARSAW” (1981, RZM). Apesar do título, esse disco não traz só as sessões do grupo com seu primeiro nome. Dependendo da edição, tem as demos do Warsaw que depois foram lançadas já como Joy Division no EP An ideal for living (1978), as gravações feitas no período breve em que o Joy Division quase foi contratado pela RCA (igualmente em 1978) e o lado B As you said. As primeiras edições traziam as ondas de rádio da capa de Unknown pleasures ocupando quase toda a arte. Em Portugal, o disco chegou a ser lançado semioficialmente pelo selo Movieplay.

“SUBSTANCE (1978-1980) (1988, Factory). O correspondente do Substance do New Order levava para vinil e CD oficiais faixas obscuras de singles do grupo, incluindo material do pirata Warsaw. Além de faixas mais conhecidas lançadas em compacto, como Dead souls, Atmosphere e Love will tear us apart. O principal era que o disco mostrava, de maneira cronológica, o Joy partindo do punk para a quase neo-psicodelia, indicando que a banda talvez se tornasse uma ótima concorrente de grupos como Echo and The Bunnymen, Teardrop Explodes e Cocteau Twins caso o vocalista Ian Curtis não tivesse morrido (falamos desse disco aqui).

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“PERMANENT” (1995, London). Lançada quando o antigo selo Factory já havia declarado falência e seu material estava nas mãos da London Records, essa coletânea teve grande valor quando lançada. Pelo menos por aproveitar o então recente retorno do New Order com o disco Republic (1993) e o hit Regret, e o começo da revalorização do rock inglês via Oasis, Blur, Elastica, Suede e vários outros nomes. Love will tear us apart aparecia em duas versões: a versão gravada no Pennine Studios, mais rara, lançada até então apenas no lado B do single original (e depois resgatada para uma versão expandida de Substance), e um novo mix.

“HEART AND SOUL” (1997, London). Para fãs extremamente roxos do JD, essa caixa quádrupla tem praticamente todo o material de estúdio que havia surgido do grupo até então. Nos dois primeiros CDs, Unknown pleasures e Closer surgem expandidos com material de compactos e coletâneas. O terceiro CD traz faixas de compactos, demos e sessões de rádio – incluindo as demos de Ceremony e In a lonely place, gravadas um mês antes da morte de Ian Curtis (essas músicas seriam depois gravadas pelo New Order). O quarto CD tem só material gravado ao vivo.

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