O fim de uma era. O fundador da revista (aliás do império de entretenimento) Playboy, Hugh Hefner, morreu aos 91 anos, na noite desta quarta (27), em sua casa, de causas naturais. A notícia foi dada pela conta oficial da revista no Twitter.

“A vida é muito curta para viver o sonho de outra pessoa”.

“Meu pai viveu uma vida excepcional e impactante. Defendeu de alguns dos movimentos sociais e culturais mais importantes do nosso tempo, na defesa da liberdade de expressão, dos direitos civis e da liberdade sexual. Ele definiu um estilo de vida e um ethos que vivem na marca da Playboy, uma das mais reconhecidas no mundo”, informou seu filho, Cooper Hefner, chefe de criação da Playboy Enterprises, num comunicado.

Hefner não parecia ter o perfil de quem iria redefinir a história sexual de homens e de mulheres no pós-guerra. Ele era filho de Metodistas, serviu na Segunda Guerra Mundial, era bacharel em Psicologia pela Universidade de Illinois e perdeu a virgindade aos 22 anos. Duas experiências acabaram marcando Hefner por toda a vida: o fato de ter publicado uma revista chamada em quadrinhos School daze na época da escola (é a da foto ao lado) e os estudos que fez da obra do cientista Alfred Kinskey, autor do livro Comportamento sexual do homem. Hefner costumava dizer que a Playboy era uma resposta à repressão que tinha vivido. “Eu tentei fazer diferença e penso que me esforcei para isso”, chegou a afirmar.

A Playboy nasceu em 1953, após um período em que Hefner trabalhou na revista Esquire. Para publicá-la, o editor gastou US$ 8 mil. A edição inicial, com Marilyn Monroe na capa (e que foi apresentada por um editorial de Hefner explicando que o mundo de Playboy era “mexer coquetéis, colocar uma música de fundo no fonógrafo e convidar uma garota para uma discussão calma sobre Picasso, Nietzsche ou jazz”) vendeu mais de 50 mil cópias – um sucesso que Hefner creditava a uma resposta à repressão da época. “Mas eu estava tão incerto do sucesso da revista que a primeira edição nem trazia a data de lançamento. Eu pensei: bom, se não der certo, deixamos para lá antes do segundo mês. Eu mesmo era o staff editorial inteiro”, contou à própria Playboy em 1974.

Com o passar dos anos, a revista foi liderando batalhas a favor da liberdade de expressão, publicando entrevistas históricas e lançando várias playmates. Uma das mais ilustres, você já viu aqui: Bebe Buell, modelo e cantora (e mãe de Liv Tyler) foi uma delas. Debbie Harry, do Blondie, foi coelhinha da Playboy. Madonna teve um ensaio histórico publicado em 1985, com fotos que estavam guardadas desde o começo da década de 1980, nas quais ela aparecia morena. No Brasil, a cantora Neusinha Brizola quase foi uma playmate – seu pai, Leonel Brizola (dispensa apresentações) mandou proibir o ensaio antes que saísse.

Hefner, que foi casado três vezes (a viúva é a modelo Crystal Harris, 60 anos mais nova) deixa os filhos Cooper, David e Marston, e a filha Christie. E, mais que isso, deixa um legado incomensurável para a cultura pop. “Se eu não tivesse causado controvérsia, não estaria aqui hoje”, costumava dizer.

E quem sintetizou muito bem a importância de Hefner e a enorme perda que representa sua morte foi o jornalista e crítico de cinema Jaime Biaggio. Fala aí, Jaime.