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Cultura Pop

Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

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Qual era a de Frank, estreia de Amy Winehouse?

Missão difícil essa: falar de um disco que se bobear você já ouviu algumas (ou inúmeras) vezes. E que dependendo do seu gosto musical, você já deve ter repetido por aí mil vezes que se trata do melhor disco da artista em questão. Mas como é aniversário de Amy Winehouse, a gente faz questão de dizer que Frank, o primeiro disco dela, merece muito ser ouvido.

Quando Frank saiu, havia expectativa (muita, por sinal) sobre Amy, mas ninguém nem de longe imaginaria aquele sucesso todo que ela teria em Back to black, o segundo disco (2006). Até porque três anos se passaram do primeiro para o segundo disco. Frank é de 2003, e um ano antes ela ainda era um dos segredos mais bem guardados da indústria musical, com contrato assinado com o poderoso Simon Fuller, ex-empresário das Spice Girls e criador da franquia Idol.

Antes de Frank sair (o título alude tanto à franqueza algo excessiva das letras quanto à sua paixão por Frank Sinatra), Amy já tinha sido alvo de uma pequena disputa entre gravadoras, com EMI e Island procurando a garota de 20 anos para assinar um contrato. A Island ganhou e Frank saiu, revelando uma sonoridade que aludia ao neo soul dos anos 1990 (enfim, o soul renovado com elementos de r&b e hip hop), mas mais ainda ao jazz. Era algo bem novo para a época em que saiu, mas não chamou a menor atenção. O disco saiu em 20 de outubro de 2003 e demorou quatro meses para chegar à 13ª posição na parada de álbuns do Reino Unido – e não ficou muito tempo por lá. Os demais países europeus só conheceram o disco no ano seguinte.

E antes que você pergunte como Frank se deu na parada americana, os EUA não conheceram o primeiro disco de Amy até 2007, quando Back to black já tinha sido lançado havia um ano. O site Concert Archives diz que os primeiros shows de Amy nos EUA aconteceram em março de 2007 no festival SXSW. Quando Frank finalmente saiu nos EUA, ganhou uma resenha pouco amistosa da Pitchfork, criticando a “rotina autodestrutiva do artista torturado”.

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Em termos de letras, a grande diferença entre Frank e Back to black é que Amy no começo já falava de dores de cotovelo sérias e de enormes problemas amorosos, mas a artista com certeza não era a mesma – e a narradora-personagem das letras talvez não fosse a mesma. A Amy do primeiro disco talvez não gravasse algo como Rehab e You know I’m no good. Mas lá tinha Stronger than me, cuja letra causaria problemas a Amy hoje em dia (já que ela pergunta ao namorado que depende emocionalmente dela: “você é gay?”). Tinha a releitura dela para um standard de jazz gravado por meio mundo, There is no greater love. A confusão amorosa de I heard love is blind. E Help yourself, mais uma canção sobre namorada de atitude vs namorado imaturo.

A capa de Frank também chama a atenção pelo astral bem diferente da de Back to black. Em comecinho de carreira e ainda sem pretensão de estourar, Amy aparece bem feliz na foto e capa, clicada por um fotógrafo iniciante, Charles Moriarty, que recordou depois ter sido o primeiro a clicá-la com penteado beehive. Anos depois, ele lançou o livro Before Frank, mostrando o período pré-fama de Amy.

“Eu a conheci no dia em que fiz a capa de seu álbum. Ela veio ao meu apartamento em Spitalfields. Ela colocou maquiagem e um pouco de música. Eu não era fotógrafo na época. Eu ia com minha câmera quando meus amigos iam a uma discoteca. Um amigo em comum pediu que eu fizesse um teste com ela para conseguir o visual que ela queria para seu álbum. Uma dessas imagens se tornou a capa de Frank“, contou Charles, recordando também que ela queria evitar cair na armadilha de posar usando uma guitarra, ou algo do tipo.

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Os cães que aparecem na foto (na verdade só um cão, além do laço da coleira de outro animal) foram emprestados naquele momento, por uma pessoa que estava passando. “Acho que os cães foram uma boa distração da câmera para Amy. Eles permitiram que ela se concentrasse neles, em vez de no fato de que eu estava tirando uma fotografia”, contou Charles aqui. Amy, como se sabe, não curtia ser fotografada e deixá-la à vontade era uma missão para Moriarty.

O lançamento de Frank foi bem discreto, mas as portas estavam abertas para Amy nos programas da BBC. Ela esteve até no prestigioso Never mind the Buzzcocks, game show com artistas no qual era possível ver Slash (Guns N Roses) pegando o banquinho e saindo de mansinho após errar a letra de Paradise city, entre outras cenas. Foi nessa que uma bela e jovial Amy teve que fazer o solo de Mr Blue Sky, da Electric Light Orchestra, com a boca.

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No fim das contas, Frank é uma excelente descoberta para quem conhece a Amy apenas do pós-fama. Vale dizer que é um disco que ela própria já detonou várias vezes, muitas vezes culpando o excesso de produtores (ela cuidou disso ao lado de Commissioner Gordon, Jimmy Hogarth, Salaam Remi e Matt Rowe). “Nunca ouvi o álbum do início ao fim. Eu não tenho em minha casa. Bem, o marketing foi fodido, a promoção foi terrível. Tudo estava uma bagunça”, disse ela ao The Guardian. Exagero: a Amy pré-Back to black era encantadora.

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Cultura Pop

Meat Loaf: descubra agora!

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O Brasil ainda não descobriu Meat Loaf, um sujeito com mais de 50 anos de carreira artística, morto aos 74 anos no dia 20 de janeiro. Há exceções nesse desconhecimento: muita gente deve lembrar que ele fez um papel importante no filme Clube da luta, de David Fincher (o ex-fisiculturista Bob). A comédia Roadie, de 1980, dirigida por Alan Rudolph e protagonizada por ele, vale um texto inteiro no Pop Fantasma – e possivelmente foi vista por uma turma boa aqui no Brasil. E surpreendentemente, até mesmo o Jornal Nacional fez matéria (rápida) sobre a partida do cantor.

Os fãs brasucas do clássico disco Bat out of hell (1977), debute solo de Meat Loaf, talvez não sejam muitos. Mas são os fieis admiradores de um álbum de muito sucesso, que funciona como o retrato de uma época. E que seguia à risca a mesma cartilha estudada por artistas como Queen, The Who, Pink Floyd e Rick Wakeman a partir de determinado momento dos anos 1970.

Meat Loaf, o compositor Jim Steinman (autor de todas as músicas do álbum, morto ano passado) e o produtor Todd Rundgren compreenderam que a fórmula do rock operístico poderia ajudar a contar histórias fenomenais, propiciando “clássicos” de bolso, prontos para agradar até mesmo quem não ouvia rock – o que geraria espetáculos grandiosos, e de teor altamente democrático, musicalmente falando.

O resultado foi que Bat out of hell vendeu o que ninguém nunca mais vai vender na história do universo (43 milhões de cópias em todo o mundo, disco de platina 14 vezes). Também projetou a carreira de Meat Loaf como ator e cantor, e um profissional possuidor de atributos altamente dramáticos. E ainda gerou continuações – sim, existem Bat out of hell volumes 2 e 3, lançados respectivamente em 1993 e 2006, além de um musical exibido em 2017. Vale só lembrar que a discografia de Meat Loaf não se reduz só a esse disco, e que ele já vinha de antes.

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Bat out of hell, que completa 45 anos em 21 de outubro, é assunto para ser discutido em um texto maior aqui no Pop Fantasma – quem sabe num podcast do Pop Fantasma Documento. Por enquanto a gente traz aqui nove músicas para quem quiser começar a entender qual é a de Michael Lee Aday, nome verdadeiro de Meat Loaf (o “bolo de carne” é um apelido do tempo em que ele jogava futebol americano). Vale ouvir em alto volume e esquecer a safra final de declarações negacionistas do cantor – que elogiou Donald Trump e declarou que “continuava abraçando pessoas” em tempos de pandemia.

“WHAT YOU SEE IS WHAT YOU GET” (1971). Após se juntar ao elenco de Los Angeles do musical Hair, Meat Loaf começou a fazer sucesso. A Motown, a partir de sua subsidiária rocker, a Rare Earth (batizada assim porque o maior sucesso do selo era aquele grupo do hit I just want to celebrate), não perdeu tempo: reservou algumas horas de estúdio e juntou o cantor com sua colega no musical, Shaun Murphy, a popular Stoney. Stoney & Meatloaf, o disco da dupla (com Meat Loaf grafado como uma só palavra), foi feito inteiramente por uma equipe de produtores e compositores. A dupla só apareceu na hora de colocar os vocais. Mas gerou boas canções e um bom single.

“MORE THAN YOU DESERVE” (1973). Em 1973, Meat Loaf fez um teste para o elenco do musical More than you deserve, escrito por Jim Steinman e Michael Weller, que ficou em cartaz naquele ano em Nova York. O cantor não apenas passou no teste e participou da peça, como iniciou sua parceria com Steinman aí. O single com a canção-título da peça trazia uma versão de Presence of the lord, do Blind Faith, no lado B. Foi lançado apenas em versão promocional e não deu muito certo.

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“ROCKY HORROR SHOW” (1975). Os produtores do musical pensavam alto: chegaram a sonhar com Elvis Presley fazendo o papel de Eddie, na peça. O rei do rock possivelmente deve ter sido uma opção muito cara e lá se foi Meat Loaf interpretar não apenas o motociclista, mas também o mordomo maluco Riff-Raff. No filme dirigido por Jim Sharman, Meat Loaf fez apenas o papel de Eddie – no teste, conseguiu o personagem sendo capaz de interpretar o número Hot Patootie/Bless my soul sem se perder na quantidade de palavras por verso. Na época, ele e Steinman já tinham até começado a trabalhar num rascunho de Bat out of hell.

“STREET RATS” – TED NUGENT (1976). Enquanto Bat out of hell era recusado por praticamente todas as gravadoras existentes nos Estados Unidos, Meat Loaf dava um passo adiante no mercado discográfico fazendo alguns dos vocais principais de Free for all, segundo disco solo do guitarrista reaça Ted Nugent. Derek St Holmes, guitarra base e titular das vozes ao lado de Ted, havia deixado a banda por uns tempos, e Meat acabou soltando a voz em cinco das nove faixas.

“BAT OUT OF HELL” (1977). Pronto: após dois anos de testes, refações e rejeições humilhantes por parte de várias gravadoras (segundo Meat Loaf, Clive Davis, da Arista, chegou a dizer a Jim: “Você não sabe escrever música!”), Bat out of hell estava pronto para conquistar o mundo. Considerado o melhor disco de metal pela Kerrang! em 1989, tem mais que isso: une terror psicológico, histórias românticas, certo humor sombrio e muito, mas muito rock operístico.

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“DEAD RINGER FOR LOVE” (1981). Rolou uma separação rápida entre Meat Loaf e Jim Steinman após o sucesso de Bat out of hell, que gerou uma turnê exaustiva e repleta de excessos. Por causa do abuso de drogas, Meat perdeu a voz e o disco que Steinman estava compondo para ele, Bad for good, acabou sendo o primeiro álbum solo do compositor. Só quatro anos após a estreia, Meat Loaf voltaria com Dead ringer, o segundo disco, com Jim compondo todas as faixas – uma delas era este primeiro single.

“BLIND BEFORE I STOP” (1986). A parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman acabou após brigas e processos e, durante os anos 1980, o cantor procurou outros compositores – além de ter passado a compor seu próprio material. O quinto disco do cantor – por sinal gravado para a mesma Arista que pisara em Bat out of hell anos antes – trazia Meat Loaf fazendo hard rock, mas aderindo a teclados e programações eletrônicas, como na faixa-título. Curiosidade: Frank Farian, o produtor, era o criador da armação disco Boney M e estava perto de montar o Milli Vanilli.

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“I’LL DO ANYTHING FOR LOVE (BUT I WON’T DO THAT)” (1993). Opa: a parceria entre Meat Loaf e Jim Steinman voltou e lá se foram os dois para o estúdio mais próximo. E saiu Bat out of hell II: Bat into hell, continuação do multiplatinado disco de estreia do cantor. O primeiro single (essa música aí) tinha doze minutos. A crítica, em pleno auge do grunge, torceu o nariz – a Spin disse que a faixa era “um movimento ousado para ignorar os quinze últimos anos da história do pop-rock”. Mas o disco vendeu mais de 14 milhões de cópias, e ainda tinha uma atração extra: faixas com nomes estranhos e quilométricos como Life is a lemon and I want my money back e Objects in the rear view mirror may appear closer than they are.

“I’D LIE FOR YOU (AND THAT’S THE TRUTH)” (1995). Com a ajuda de amigos como Sammy Hagar, Steven Van Zandt (E Street Band) e Jim Nevison, lá se for Meat Loaf fazer seu próprio disco conceitual, Welcome to the neighborhood (1995). O álbum tinha duas canções de Steinman, mas o material teve diversas fontes incluindo canções de Diane Warren, Tom Waits (Martha, uma antiga música do compositor) e até mesmo um retrabalho em cima de Good times, da banda australiana The Easybeats, que era Runnin for the red light (I gotta life).

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Cultura Pop

E os 35 anos de Warehouse: Songs and Stories, do Hüsker Dü?

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Bob Mould, líder da banda punk americana Hüsker Dü, passou por uma transformação pessoal pouco antes de fazer as canções do disco Warehouse: Songs and stories, o sexto e último álbum do grupo (lançado em 19 de janeiro de 1987).  Ainda que o cantor e guitarrista não fizesse o gênero junkie, sua relação autodestrutiva com a bebida já tinha chegado a níveis altíssimos – Mould teve uma fase duradoura em que bebeu todos os dias, deixava uma garrafa de uísque de prontidão na gaveta da escrivaninha e inventava desculpas do tipo “se não está atrapalhando meu trabalho, tudo bem, posso encher a cara”.

O cantor diz ter seguido um caminho bem sui generis: não seguiu nenhum programa de doze passos, nem nenhum tipo de aconselhamento. Apenas parou de beber de uma hora para outra. Se você tem problemas com bebida, recomendamos que faça uma visita ao AA. Mas enfim, foi desta forma que deu certo para Mould, no fim de 1986, quando ele se trancou no quarto para começar a imaginar o disco.

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“Eu estava começando a me evadir da cena e da própria banda”, recordou ele em seu livro See a little light: The trail of rage and melody, lembrando que a banda começava a se separar ali, com Greg Norton (baixo) casado e Grant Hart (bateria) mais ocupado com outros rolês. A boa e velha competição com Grant, segundo compositor e “arma secreta” do grupo, voltava firme e forte. Com o agravante de que a banda mal se falava, e o comportamento passivo-agressivo era a maneira como os três muitas vezes escolhiam se comunicar.

Por acaso, Warehouse, um disco duplo (assim como o fenomenal Zen arcade, de 1984), é o LP em que a divisão de canções entre Mould e Hart aparece mais acentuada. Praticamente uma canção de um, seguida de uma canção de outro, sem pular. Hart brigou para ter mais músicas, conseguiu, mas ouviu de Mould que “jamais voltaria a ter metade das composições num disco do Husker Dü” (sem problemas, já que o grupo encerrou atividades).

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Uma coisa que pode surpreender fãs do Hüsker Dü é que Mould não é um grande fã de Warehouse – pelo menos é o que ele revela no livro. O cantor diz que teria lançado um excelente disco simples se tivesse resolvido cortar algumas canções. Maldade com um disco que tem Could you be the one (“escrita especificamente para ser um single”, ele diz), These important years, Too much spice, Standing in the rain, She floated away e várias outras. Provavelmente o excesso de lembranças ruins turvou algumas coisas.

O álbum foi todo ensaiado num velho armazém (daí o título, “armazém: canções e histórias”) e foi quase um lançamento indie dentro da Warner, com Hart e Mould dividindo a produção e adotando técnicas malucas de gravação, como gravar os pratos da bateria em separado. Greg Norton, por sua vez, engoliu o fato de seus colegas terem resolvido regravar eles mesmos algumas linhas de baixo, sem avisá-lo. O grupo começou a sofrer pressões da Warner para entregar um disco mais comercial e surpreendentemente, não viu cara feia da gravadora quando avisou que havia feito um LP duplo. Só precisaram engolir uma redução de royalties, porque a multinacional só topava se eles não se incomodassem de receber o equivalente a um LP simples.

Entre brigas, animosidades e problemas com gravadora e empresários, o Hüsker fez de Warehouse um disco excelente, do tipo que passa voando, mas você vai querer voltar para ouvir um detalhe ou outro. O trio, formado por punks influenciados por Who e Byrds, retornava falando basicamente sobre desencontros, como em It’s not peculiar, Standing in the rain (sobre um pé na bunda mortal), Ice cold ice e várias outras. Charity, chastity, prudence and hope era um comentário particular de Hart sobre ganância.

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No reservations, de Mould, é tristeza pura (“como uma telha solta numa tempestade de vento/devo me soltar e voar?”), mas termina com notas de otimismo. A bela Turn it around, também de Mould, parecia um recado para Hart, assim como as músicas do baterista pareciam ter Mould como destinatário. Era nesse pé (de guerra!) que Warehouse poderia ser entendido.

O fim do Hüsker Dü viria em breve, e geralmente é creditado ao vício de Hart em heroína. O baterista sempre questionou isso, e em 1989 diria à Spin que apenas deixou a banda, e só conseguiu largar a droga quando finalmente ficou solo. Houve outros problemas graves que apressaram o fim, como a morte do empresário da banda, David Savoy – além de muita falta de comunicação, animosidade e arrogância, em doses quase iguais. Seja como for, a música de Bob Mould, Grant Hart e Greg Norton continua vencendo as barreiras de tempo e espaço.

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Cultura Pop

Coisas que Elza Soares me disse

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Coisas que Elza Soares me disse

Eu não tenho guardados, infelizmente, os áudios das entrevistas que fiz com Elza Soares na época em que eu trabalhava no jornal O Dia. No dia a dia de uma redação, muita coisa é feita por telefone e se perde – até porque qualquer pessoa que já trabalhou em redação sabe o quanto o trabalho é pesado, com várias entrevistas ao longo do dia, muito material que vai sendo jogado para HDs externos, etc.

Quem entrevistou Elza se recorda de uma coisa: ela gostava de falar. O apresentador e jornalista Zeca Camargo me contou – quando o entrevistei para conversar sobre a biografia que ele escreveu sobre dela, Elza – que tinha em seu smartphone cerca de “53 horas” de conversa com a cantora. Eram fatos nunca revelados, como seu breve namoro com as drogas durante os anos 1980, além de muitas histórias sobre seu relacionamento com o jogador Mané Garrincha. E o sempre atento Zeca notou uma coisa a respeito de Elza: a vida da cantora era como um videogame. “Sempre tem uma fase nova, com novos desafios”, contou.

Nas vezes em que entrevistei Elza, fui surpreendido com uma peculiaridade da fala dela: era rápida, e ficava mais rápida ainda quando ela se animava com algum assunto, ou quando se indignava com alguma coisa. Eu sempre fui um entrevistador que vai direto ao assunto. Essa minha característica rendeu bem com ela: a simples menção de alguns nomes, ou de palavras como “machismo” e “racismo”, já fazia com que ela dissesse as frases mais veementes, desse as declarações mais interessantes e falasse bastante. Sendo que cada lembrança, cada fala, cada entrevista, era um aprendizado.

E nada melhor do que ouvir Elza para homenageá-la. E não apenas sua música, mas também tudo o que ela, com vários anos de música, de vivência, de sofrimento, tinha a dizer. Também era adorável observar o carinho e a dedicação com que ela encarava sua música, e a produção de arte num país tão estranho como o Brasil. Nos últimos anos, os discos de Elza eram norteados pela escolha de canções com letras fortes e críticas. Era proposital: ela queria dar voz a uma série de pessoas em situação de vulnerabilidade, e queria produzir eco.

Seguem aí algumas coisas que Elza Soares me contou em algumas entrevistas. Em tempo: o bate papo mais inusitado que tive com ela foi num Prêmio da Música Brasileira, no momento em que repórteres e fotógrafos esperavam pela saída triunfal de Ivete Sangalo. Elza, com quem eu nunca havia me encontrado na vida, passava por ali, simplesmente me cutucou e perguntou “oi, vocês estão esperando quem?”. Parei tudo imediatamente para conversar com ela – uns dez minutos de papo sobre o prêmio – e mandei a conversa para os editores do online. Deve ter sido a entrevista mais surpreendente da minha vida.

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E é isso. Obrigado pela música e pela história, Elza Soares (foto: Stephane Murnier/Divulgação)

“Todo mundo está aqui para fazer uma coisa. Meti na cabeça que vim não para deixar uma marca no mundo, mas uma mancha! Abri uma porta para entrar. Tem sempre que dizer ‘sou boa, sou maravilhosa’, bota isso na cabeça. Olha no espelho e ri para você mesmo, faz alguma coisa. Tem que ter fé, acreditar!”

“Você viu essa história de um funcionário de um bar na Tijuca, negro, que ganhou uma banana do gerente? Tinham que inventar uma vacina contra o racismo! Luto desde sempre contra o preconceito, acreditando em mim, brigando. Levei muita porrada”.

“Gravei Pra fuder (do Kiko Dinucci), mas acho que hoje em dia isso nem choca ninguém, sabe? ‘Fuder’ não pode ser mais feio que desemprego, fome”.

“Maria da Vila Matilde é uma denúncia. Os homens têm que aprender que respeito é bom e a gente gosta. A mulher precisa ser mais amiga da mulher. Elas não têm solidariedade, vivem competindo. É estranho isso. Conto nos dedos quantas amigas mulheres eu tenho. E com quase todas as mulheres isso acontece”.

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Perguntei a Elza sobre a vez em que ela apareceu no programa Calouros em desfile, do Ary Barroso, e foi sacaneada pelo apresentador. Apareceu no palco da atração com um vestido vários números maior, remendado com alfinetes, além de várias marias-chiquinha. Foi recepcionada por ele com um “de que planeta você veio, minha filha?”, e ele respondeu: “Do Planeta Fome, seu Ary”.

Como eu havia conversado antes com ela sobre os programas musicais de TV da década passada (SuperStar, The Voice Brasil, os quais ela dizia não acompanhar), lembrei a ela que a Susan Boyle, candidata do programa Britain’s got talent, havia também sido ridicularizada no palco, por apresentadores e jurados. “Lembro da Susan Boyle. Ela canta pra caramba, calou a boca de todo mundo no programa, né? É a tal discriminação, a pessoa nem conhece e já sai discriminando. E depois eu encontrei o Ary. Ele foi me ver ao vivo e queria mudar o meu nome. Dizia: ‘Esse negócio de Elza não vai dar certo!’”

“Em alguns momentos da minha carreira (nos períodos de baixa), eu hibernava. Às vezes, é bom estar invisível, porque você leva muita pedrada. Quando você está invisível, a pedra passa distante”.

Em junho de 2018, falei com ela sobre o disco Deus é mulher, que ela acabara de lançar. E ela dizia que as letras eram fator determinante para ela escolher repertório. “Eu passo noite e dia pensando no que quero dizer para quem quer me ouvir, para esse povo que me elegeu como cantora. Quero o melhor para o meu país, me orgulho muito de ser brasileira e sofro de ver o país da maneira que está. Acabou o amor, acabou a dignidade. Meu momento é de parar pra pensar se tenho algo a fazer também, para ajudar”.

“Não quero só ter voz, quero eco. uma andorinha só não faz verão. Gostaria que todo o povo brasileiro tivesse esse momento de ter voz, de falar. O povo está dormindo! Que sono é esse, meu Deus? Vamos acordar. Vê só essa greve dos caminhoneiros, em que ninguém falou nada”.

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“As mulheres estão falando mais, sabem da violência que acontece com elas. Vê só essa morte da Marielle Franco, que coisa estúpida. E não pode parar de falar nisso não, mesmo na Copa do Mundo. Tem que falar, não pode esquecer, não pode deixar de falar sempre”.

“Não sei se minha música atual é samba-punk ou até samba-funk. Sei que é música de qualidade e que tem conteúdo”.

“Deus é mãe, Deus é mãe. Esse país tá precisando de um pouco de colo de mãe. A gente está precisando dar colo para esse país, porque ele tá muito abandonado. Fico muito furiosa não porque penso no futuro, mas porque penso no presente do país. Até hoje se fala que o Brasil é o país do futuro, mas o Brasil tinha que ser o país do presente”.

“Quem faz arte quer sempre fazer uma coisa de valor, que valha a pena”.

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