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Cultura Pop

Hermanos Calatrava: zoando Space Oddity em espanhol

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Los Hermanos Calatrava: Space Oddity em espanhol

Em 1974, uma dupla da Espanha chamada Hermanos Calatrava decidiu dar umas risadas de nada menos que… Space oddity, de David Bowie. Lançada como lado B do single Gigi l’amoroso, a versão era uma zoação inesperada com o sucesso de Bowie, substituindo os versos originais por “control de tierra al comandante Tom” e narrações engraçadas que misturavam temas como política e economia (“posso dar uma olhada em algo que flutua, como o franco francês”, “o dólar também cai como um meteorito”, etc).

A versão virou uma das menos citadas curiosidades bowieísticas, mas volta e meia é desencavada por algum site de fãs do cantor. Ou aparece em alguma discotecagem por aí (como aconteceu no último fim de semana na festa online Radio Girls).

E a música mostra que David Bowie estava popular na Espanha nos anos 1970, já que Hermanos Calatrava eram uma dupla de… humoristas. Os dois tinha vindo de uma cidade chamada Villanueva de la Serena, em Badajoz, na Espanha, e são irmãos de verdade. Manuel García Lozano (Manolo) e Francisco García Lozano (Paco) começaram a dupla faz tempo: em 1952 iniciaram carreira no rádio e logo invadiram a TV espanhola.

Paco, responsável pela voz mais grossa e mais gozadora da dupla, passou a fazer mais improvisos, especialmente após ter ficado rouco durante uma transmissão de rádio – ficou com a voz afetada, começou a improvisar e a falar besteiras, e o público riu bastante. Começou aí um novo caminho para a dupla. Detalhe que fazer paródias sempre representou uma boa parte do trabalho dos irmãos Lozano (o Calatrava era o segundo sobrenome do pai deles e foi adotado como nome artístico da dupla).

“Em nosso cartão de 1957 está escrito que somos ‘parodistas cômicos musicais’. Paco improvisou nas letras das músicas e eu falava sério. Até então ninguém tinha feito isso. Aí começamos a evoluir, fazendo sketches. O que fazemos agora é mais um diálogo”, contou Manolo nessa entrevista aqui, de 2013, quando a dupla já era algo tão institucionalizado na Espanha quanto Moacyr Franco no Brasil.

Outro detalhe engraçado sobre a dupla é que Paco costumava ser comparado a ninguém menos que Mick Jagger, porque o achavam parecido com o cantor dos Rolling Stones na Espanha. A semelhança (a alegada semelhança, enfim) já rendeu até um programa de TV em que passeavam com ele por Madri, e diziam que ele era Jagger. Teve gente que caiu.

A tal versão de Space oddity tem uma história, e a dupla contou que a paródia não estava nem sequer programada para virar hit – foi apenas o preenchimento de um álbum. “É sobre um homem que vai ao espaço e vê coisas que acontecem na Terra. Traduzimos as letras como estão e isso se tornou um hit para os jovens que não podíamos imaginar”, conta Manolo (e não, a tradução não foi tão exata assim).

“É a história do caipira que é colocado em uma nave, ele não sabe para onde o estão levando, ele se vira para o comandante e conta o que está acontecendo, o que ele vê do espaço. Tem algumas críticas sociais. Fizemos isso no tempo de Franco e deu muito certo”, contou Paco, lembrando que a canção virou hit na internet anos depois, quando começaram a baixar a Space oddity deles.

Não foi só Bowie que ganhou paródia deles. Olha ai o que eles fizeram com 120…150…200 km por hora, de Roberto Carlos.

El telefono llora, clássico brega gravado por meio mundo (inclusive no Brasil, em português), foi parar na voz deles.

O que você estava fazendo em 1983? Bom, os irmãos Calatrava estavam filmando uma paródia de ET – O extraterrestre, de Steven Spielberg, chamada… El E.T.E y el Oto. Paco, o sósia de Mick Jagger, fez o papel do extraterrestre. Jogaram esse filme inteiro no YouTube.

E você ainda não viu nada. Em 1974, antes disso, era a vez de Los kalatrava contra el imperio del karate, que zoava a onda de filmes de artes marciais. O filme mostra os dois como falsos professores de caratê que vendem um curso de artes marciais de porta em porta, e acabam arrumando problemas com uma máfia chinesa.

A carreira dos Hermanos Calatrava vem durando até hoje, com os irmãos alternando aparições na TV e algumas gravações – e driblando perguntas sobre as idades dos dois (que eles não costumam revelar). Alternaram outras funções também: Manolo chegou a se envolver com política e virou vereador por alguns anos, mas foi uma fase que durou pouco tempo. Os dois acompanham o que vem sendo feito no humor na terra deles e chegaram a fazer criticas a humoristas novos. “É mais difícil fazer rir do que fazer chorar. Você pode fazer chorar com uma cebola. E eu sempre digo que ainda não conheço nenhuma leguminosa que te faça rir”, resmungou Manolo.

Mais sobre Hermanos Calatrava aqui.

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Cultura Pop

Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Cultura Pop

Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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Cultura Pop

No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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