Crítica
Ouvimos: The Strokes – “Reality awaits”

RESENHA: E sai Reality awaits. Os Strokes arriscam, incorporam influências do Voidz e entregam um disco irregular, mas criativo, que recompensa a ousadia apesar dos excessos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: RCA
Lançamento: 24 de julho de 2026
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Da mesma forma que a geração Z não viu o Brasil ser campeão, provavelmente uma turma enorme que está aí chegando aos 30 anos não entende porque tanto auê em torno dos Strokes. Há controvérsias, já que pelo menos no Spotify as duas músicas mais ouvidas do grupo são The adults are talking e Selfless, ambas do disco mais recente, The new abnormal, de 2020. O melhor disco do grupo nos últimos anos, embora esteja bem distante dos primeiros discos em vários sentidos – especialmente no sentido da produção de hinos.
E aí vem Reality awaits, o novo disco, com um baita risco de soar bem chatinho – os dois singles, Going shopping e Falling out of love, não ajudaram tanto assim a melhorar as expectativas. Um disco por sinal, com uma capa ótima: o clima sonhador e machão de “venha para o mundo de Marlboro” da foto é quebrado por um “a realidade aguarda”, num cinismo pop-art de deixar qualquer um com um sorriso no canto da boca.
Resta saber se, nesse jogo de animação e desanimação, os Strokes fizeram mesmo um disco legal. Uma dica: a entidade “Strokes” parece ter desaparecido após The new abnormal e o grupo decidiu brincar de não parecer consigo próprio. Reality awaits abre com The psycho shit, balada “épica” que causa um certo desespero no começo – sim, o temido autotune está lá – mas vai crescendo e ganhando algumas das guitarras mais imaginativas gravadas pela banda nos últimos tempos.
- Ouvimos: Tricky – Different when it’s silent
Depois dela, duas faixas que são acertos sem sombra de dúvida. O pós-punk gélido Dine n’dash tem melodia bonita, clima de canção francesa, synths bacanas e letra com Julian Casablancas zoando algum ex-amigo com quem se desgastou. Lonely in the future tem o mesmo clima pop, cantarolável e maquínico que a banda vem desenvolvendo desde o primeiro disco, em meio a batidas funkeadas e a guitarras meio latinas, meio bluesísticas – sem falar no teclado “distorcido”, com cara de error404, que serve de ponte na faixa.
Nada é perfeito: os Strokes decidiram testar a paciência dos fãs com um primeiro single chatinho e cheio de exageros (a canção anti-consumista Going shopping) e depois lançaram uma balada que bem poderia ter uns dois minutos a menos, e que não é dos melhores anúncios para um disco (Falling out of love). Entre uma e outra, tem Going to babble on, power pop adornado por uma batidinha The Police e uma noção melódica que lembra The Cars (há algo até aparentado de Elton John, mesmo que nem haja um piano na faixa).
Sim: Julian parece decidido a não transformar mais o The Voidz em válvula de escape, e levou muitas experimentações de seu grupo “paralelo” para os Strokes – inclua aí o maldito Autotune, além das letras que soam meio fragmentadas. Se Charli XCX não viu problemas em terminar Music, fashion, film avisando que todo mundo vai morrer, o Strokes que emerge de Reality awaits é uma banda que fala de desencanto com o amor, tropeços, solidão, depressão, gente falando pelos cotovelos.
O que vem no terço final de faixas de Reality awaits é fruto dessas mudanças: os Strokes transformam uma balada-reggae que poderia ser memorável numa canção meio “vazia” (Liar’s remorse), tentam soar como os Rolling Stones (o ótimo balanço The fruits of conquest, que vai ganhando alguns compassos de distorção e glitch). E no fim, Tyrants of the mellow moon impressiona pela melancolia bonita e pelas guitarras, que transmitem diferentes emoções ao longo da faixa (as guitarras imaginativas e texturizadas sempre foram marca registrada dos Strokes).
No fim das contas, mesmo com alguns defeitos e exageros, os Strokes soam ousados em Reality awaits – e a ousadia transparece e conta. Se o verdadeiro tesouro de uma banda são os fãs conquistados ao longo do caminho, nada como desafiá-los de vez em quando.
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Crítica
Ouvimos: Olivia Yells – “To the core” (EP)

RESENHA: No EP To the core, a curitibana Olivia Yells reúne demos e singles sobre amadurecimento, culpa católica e conflitos pessoais, cruzando grunge, punk, stoner e ecos de PJ Harvey.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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A curitibana Olivia Yells faz de seu EP novo, To the core, uma espécie de “coletânea amarga”, com demos e canções já lançadas em singles – todas tratando de seu crescimento, da criação católica que recebeu de sua família, e de tudo que foi observando em si própria ao longo de seu amadurecimento. O material começou a chegar ao público de 2023 para cá e, reunido no EP, vem acompanhado de encucações bem interessantes que ela posta no Instagram: “diante de tudo que me aconteceu, de tudo que eu vivi, de tudo que me fizeram… será que é suficiente o que sobrou de mim?”, escreveu ela.
Olivia abre o EP evocando PJ Harvey na versão demo de Rotten, registrada em clima grave, com voz e violão, mas ganhando riff distorcido depois. Guilty, sobre culpa católica, e Sedate me, vêm entre grunge, punk e toques de stoner – com a diferença de que a segunda ganha vocais mais doces, e clima esparso. Curtinha, Clean tem algo de Hole, enquanto o final, com Dumb, evoca punk e metal cobrindo ambos com frieza, para falar sobre “essa ferida de ter internalizado que eu era burra” em meio a um mundo onde quem geralmente se sente com autoridade para ensinar são os homens.
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Crítica
Ouvimos: Paura – “Primitive chaos”

RESENHA: No nono disco, Primitive chaos, o Paura mistura hardcore, punk e metal em músicas sobre ego, ressentimento, xenofobia e machismo, recuperando o espírito das fusões entre punk e metal dos anos 1980 e 1990.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 31 de agosto de 2026
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O Paura faz hardcore e punk com uma nada ligeira queda para o metal em seu nono disco, Primitive chaos – e fazem de suas músicas uma plataforma de observação do ser humano e das podridões do mundo, sem deixar de lado o senso de coletividade mais ligado às noções iniciais do hardcore.
A banda diz que se trata de um disco “primitivo” e feito com “amor e raiva”. Faz sentido diante de pancadarias curtas como Primitive chaos, The deepest evil (sobre as amarguras internalizadas ao longo da vida) e Sarcastic sadistic. Master your hate e King of yourself falam de temas como ego, coletivo e ressentimento virando ação em prol de algo.
O som do Paura em Primitive chaos tem muito do Sepultura – mas aponta sempre para o clima da banda nos discos Arise (1991) e Chaos AD (1993), quando os flertes com o punk eram maiores, em meio às criações groove metal do grupo. É uma referência audível nos vocais, no namoro hardcore + metal, e na construção de atmosferas pesadas e frias para acompanhar letras de protesto como Who’s the brave, a anti-xenófoba Immigrants are beautiful e a anti-machista (com início quase marcial) Their story still bleeds.
De certa forma, Primitive chaos remete a um som bem anos 1980/1990, com lembranças de um hardcore que ainda era uma novidade, e de um metal que, ao se misturar com elementos do punk, também era novidade. As várias partes de Serpent’s nest têm ate algo do grindcore do Napalm Death, banda cujo som também é filho dessas fusões.
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Crítica
Ouvimos: Foglights – “Nous deux” (EP)

RESENHA: No EP Nous deux, Eva Cord e Archie Ingram (os dois do Foglights) criam psicodelia etérea sem bateria, cruzando Velvet Underground, Spacemen 3 e folk com guitarras, teclados e vocais fantasmagóricos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Slumberland Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Eva Cord e Archie Ingram, os dois do Foglights, pertencem a projetos originais ligados a estilos como indie-pop e psicodelia (Eva é da banda The Cords, e Archie usa o codinome Stone Anthem). No EP Nous deux, o clima é voador e psicodélico, assumidamente inspirado em bandas como Velvet Underground, Spacemen 3, Opal e Spiritualized – eles recomendam o disquinho inclusive para fãs desses nomes -, com vocais, arranjos e letras que parecem vir do espaço. O som é preenchido por guitarra, teclados, alguns sons de cordas, e nada de bateria.
Tipo na abertura, com The rain felt kind, preenchida por versos como “deixe a janela bem aberta / deixe a manhã entrar / deixe-a ficar comigo por um tempo / até a chuva ficou gentil” – nessa faixa, uma guitarra tremida e um som de órgão de igreja acabam servindo como “cara própria” do duo ao longo do EP. Rola também no jogo de luzes e sombras da balada nostálgica I don’t know, com melodia lembrando nada discretamente a de Rollercoaster, do The Jesus and Mary Chain. Mas com clima tranquilo e cerimonial, bem diferente da faixa do Jesus.
The day the light stayed (Longer than us), aberta com um “ba ba ba ba”, tipicamente sixties, daria um bom jangle pop se tivesse bateria – aqui surge como um folk ultratexturizado, em que vozes e guitarras fantasmagorizam o arranjo. A brighter kind of almost, no fim, é tão romântica e esperançosa (com direito ao chilrear de pássaros no fundo) que mal dá pra ser classificada como dream pop, shoegaze, nada disso – parece um som dos Everly Brothers levado para o idioma do rock etéreo e da neopsicodelia.
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