Quando resolveu transformar seu livro Nada mais maldito que um amor bonito em disco, o escritor gaúcho Everton Behenck quis fazer algo mais do que um audiolivro comum: convidou o músico (também gaúcho) Lou Schmidt para transformar seus textos em algo “que as pessoas pudessem acompanhar esta história como em um filme”, como afirma.

“Sempre que escrevo poesia penso nela dita em voz alta. Pra mim a poesia sempre esteve muito próxima da música. Quando escrevi este livro de poemas – que juntos contam uma história como em um romance – fiquei pensando em formas de deixar ainda mais forte esse aspecto de narrativa”, conta. “Começou a fazer cada vez mais sentido dizer os poemas e compor para eles trilhas sonoras com climas cinematográficos. Que valorizassem a história que estava sendo contada”.

SOUND DESIGN

Ele e Lou Schmidt, o músico que criou a trilha, se conhecem do trabalho com publicidade. Lou confessa que achou uma “loucura” no começo, pela magnitude do trabalho. “Mas li o livro e amei o material. Decidi naquela hora que precisava participar daquilo. Aí eu trouxe o conceito de criar um  ambiente sonoro com ruídos, texturas, sound design e não somente música, e começamos a pensar no projeto”, conta o músico, que tem visto comentários positivos.

“Principalmente por fugir da estética previsível de poesia com clima feliz e das músicas alegres-bobinhas. É um approach diferente, todo sujo, imperfeito e lo-fi. Acredito que isso conecta as pessoas e se não fosse assim não teria a nossa cara”, completa o músico. “Algumas pessoas dizem que nunca foram leitoras de poesias e que escutando estão começando a gostar dos poemas. Outras pessoas dizem que escutam determinadas faixas no repeat porque traduzem o que estão vivendo naquele momento. E ainda tem aqueles que falam exatamente da questão cinematográfica e de como ficou legal acompanhar a história do livro com a trilha dando o clima”, diz Everton.

“Minha ideia foi trazer diversas manifestações sonoras que criassem um clima sem ficar preso a melodia, acordes ou ritmo. Tem nota, tem textura, tem ruído, tem sons de cidade gravados por mim dentro e fora do Brasil. Tem instrumentos acústicos, instrumentos elétricos, tem música desconstruída e manipulada, tem melodia, tem acorde, tem beat, tem improviso, tem música atonal livre, dodecafônica, modal, tonal, tem sintetizador, tem guitarra, tem piano… Eu peguei todo material que tinha gravado com o Everton e comecei a jogar sons em cima, até colar e ajudar a vestir a poesia”, completa Lou, dando uma ideia do que vai ser ouvido no disco.

SEM REGRAVAÇÕES

A voz foi toda gravada em uma só sessão. “Everton até quis regravar e eu fui contra”, recorda Lou.

“Um final de semana eu estava em casa bebendo e Lou me escreveu perguntando se podia fazer uma guia. Eu fui pro estúdio do jeito que estava e nós gravamos tudo de uma vez. Eu até queria refazer alguns pontos mas veio a pandemia, Lou gostou muito do que já tínhamos e foi assim”, completa Everton. “No final, a pandemia ajudou a atrasar tudo ainda mais e deixamos do jeito mais espontâneo, que eu acho o mais honesto e bonito. Não foi usado nenhum efeito muito diferente, somente o microfone no preamp, equalização e compressão na mixagem”, diz Lou.

Foto: KVPA/Divulgação (Lou Schmidt no estúdio)