Crítica
Ouvimos: Ypu, “Paranoar”

- Ypu é uma banda-dupla brasiliense formada pelo casal Ayla Gresta e Gustavo Halfeld, que já tem alguns singles e dois EPs. Paranoar é o primeiro álbum. “O nome do disco é um neologismo que faz referência ao Paranoá, lago artificial que delimita as dualidades e inconsistências sociais do Distrito Federal”, diz reportagem de Leonardo Vinhas no site Scream & Yell sobre a dupla.
- Por falar no S&Y, o álbum sai numa parceria da Monstro Discos com o site, e ganha também edição em vinil.
- Paranoar é um filhote não apenas da pandemia, como das descobertas do casal quando o isolamento foi embora e antigos planos puderam ser retomados. “Uma das coisas legais foi ter esse piano velho lá na sala, que está sempre no caminho, e muita percussão (risos). Se a gente olhar música por música, a gente começa a ver que a música foi sendo o caminho para ventilar todas as coisas que a gente precisava olhar dentro de si e também pra fora”, diz Ayla no papo com o Scream & Yell.
Paranoar já é uma raridade por sua configuração: dez músicas em 42 minutos, nada de canções curtíssimas ou de montoeiras de faixas e vinhetas, um disco pensado (de certa forma) como na era do vinil. O som da dupla formada por Ayla Gresta e Gustavo Halfeld tem uma matéria-prima parecida com a de bandas como Mutantes, varia entre referências do pós-punk e (muitos) tons sessentistas, e revela uma combinação de voz-e-guitarra entre o jazz e o blues na maioria das faixas.
O som começa “celestial” (a faixa-título, que abre o álbum, dá a impressão de um Cocteau Twins atualizado), mas vai revelando um baixo pesado e riffs de guitarra com influências sessentistas e brasileiras. Como na dançante I wanna go back again, um dos maiores candidatos a hit do álbum, e na brejeira Transformação (que fala sobre relacionamentos não-possessivos). Feito por um casal a partir de experiências partilhadas na pandemia, o disco fala sobre existencialismo, vivências, opressões e desrepressões quase na mesma medida.
A psicodélica e sessentista Carícia, homenagem a Gal Costa, tem um riff de guitarra intermitente que lembra tanto Mutantes (banda que parece fazer parte da matéria-prima do disco) quanto Byrds. Músicas como Fruta, repleta de beatboxes e trompetes, mas com base indie rock, e o blues Livin’ together, impressionam. E indicam que o álbum fica mais melancólico e nostálgico à medida que vai se aproximando do fim, com o folk estradeiro Cão de estrada, o gospel Hunger e a meditativa e psicodélica A cara do colonizador.
Gravadora: Monstro/Scream & Yell
Nota: 7
Foto: Nicolle Brandão/Divulgação
Crítica
Ouvimos: PERNAF – “Casa” (EP)

RESENHA: Projeto solo de Gabriel Perninha, baterista do The Baggios, PERNAF usa cômodos e objetos domésticos como percussão em Casa, EP que cruza eletrônica, jazz, música afro e experimental.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de setembro de 2026
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Dizem por aí que todo baterista um dia foi uma criança batucando nas panelas da mãe, ou que usava as agulhas de tricô da avó como baquetas. PERNAF, o projeto solo de Gabriel Perninha – baterista da banda sergipana The Baggios – volta a essa época. No EP Casa, Gabriel toca bateria e faz uso também de vários objetos de sua (adivinha só) casa como percussão.
No EP, Gabriel assume que bateristas são também compositores e arranjadores, mesmo quando cuidam das batidas das canções. Ele produziu o disco, e deixou todos os outros instrumentos nas mãos de amigos, com quem dividiu as composições: André Lima (trompete e flugelhorn), João Mario (das bandas Renegades Of Punk e Cidade Dormitório, tocou baixo, guitarra e synth) e Rafael Ramos (também do The Baggios, tocou teclados).
Usando os cômodos de sua casa como estúdios, Gabriel faz de Nascimento uma música sombria, eletrônica e meio jazzy – mas com toques de Brian Eno. Cozinha usa objetos da cozinha, além da própria ambiência cheia de eco do local, embicando num rimo afro que vai aumentando. Passagem tem até algo que lembra Kraftwerk e Boards Of Canada, mas os sopros tocados por André Lima fazem a faixa ganhar um ar meio Tijuana Brass.
Chegada, no final, tem beat quase matemático e lembranças tanto da era Sonho 70, de Egberto Gismonti (1970), quanto do álbum do mesmo ano da Orquestra Briamonte – e das faixas do EP, é a que mais se parece com um tema de série ou de novela antiga.
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Crítica
Ouvimos: Swami John Reis – “Navajo white”

RESENHA: Em Navajo white, Swami John Reis mistura garage punk, pós-punk, folk e rock dos anos 1960 em músicas sobre dúvidas, recomeços e as marcas que a vida deixa pelo caminho.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Swami Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Figura de proa do rock caiforniano, John Reis (ou Swami John Reis, codinome de suas aventuras solo) defende o punk de sua cidade, San Diego, desde 1990. Naquele ano, fundou as bandas Rocket From The Crypt e Drive Like Jehu – a primeira voltada para o punk garageiro (dir-se-ia pré-punk caso fosse uma banda de 1973), a segunda para o pós-hardcore. De lá para cá, John se envolveu em uma série de projetos e montou uma gravadora, a Swami Records, para essencialmente documentar material de artistas de sua região.
É por lá que sai seu novo álbum, Navajo white – um disco de garage punk nervoso e sentimental, cheio de dúvidas, questões e renascimentos. A começar pelo título, que faz referência a uma tinta de coloração bege, usada para pintar interiores, e que geralmente apaga manchas feitas nas paredes feitas pelos antigos moradores. Por acaso, Reis não ficou só tocando rock esse tempo todo: durante boa parte da adolescência e da vida adulta, ele pagou os boletos como pintor de paredes.
As manchas reais cobertas pela tal tinta navajo white acabaram inspirando a criação de um disco que fala sobre as manchas existenciais da vida, e sobre o que fazer com elas. Esse assunto domina Navajo white, aberto pelo punk ríspido e melódico de It’s not fair, pela união pós-punk + 60’s de On our way, e pelo hino pós-punk de Future moods (cuja melodia traz algo entre Joy Division, Smiths e Echo and The Bunnymen). Já From here on out é uma balada que tem clima quase folk, mas é surgida das entranhas do punk – e ainda tem certa pegada hispânica.
Como vocalista, John Reis soa como a mistura exata de Joey Ramone, Dee Dee Ramone e Lemmy Kilmister. Mas com uma elegância rocker bem mais próxima do primeiro, e uma certa alma rock hero, que na segunda metade de Navajo white surge bem forte, em Directions e no punk com alma folk It’s all for sale, além do quase britpop Lies don’t lie. No final, You made it gross vem novamente dando contornos punk ao rock dos anos 1960 – um música linda, misteriosa e meio gótica.
Dedicado por Swami aos pintores de parede de todo o mundo, Navajo white não acaba quando termina: antes do disco sair, ele lançou o single duplo Don’t believe in yourself, com a sarcástica Even the lobsters can sing e Bad lighting, música em clima quase punk-metálico, tanto nas batidas quanto nas palhetadas.
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Crítica
Ouvimos: Guiding Light – “Fear on my own time”

RESENHA: No álbum Fear on my own time, o texano Guiding Light cruza punk, country, pós-hardcore e ecos dos anos 1960 em músicas rápidas e provocadoras, cantadas em inglês e alemão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Post Present Medium
Lançamento: 21 de agosto de 2026
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Loucura, mas só pra quem olha bem de fora: o Guiding Light é uma banda do Texas que mistura letras em inglês e alemão (!), e que basicamente faz punk guerreiro, provocador e referenciado em bandas como Minutemen. Na real, é aquele som fast forward dos Minutemen unido com country, Devo (sem teclados!) e anos 1960 – além de alguns dedilhados e vibes do pós-hardcore.
Fear on my own time destaca a rapidez das batidas, os riffs criativos, os vocais bacanas de Elise Cook e as guitarras sem pedal – esse detalhe responde pelo “sessentismo” do grupo, e pela sensação de que a música do Guiding Light, às vezes, lembra uma festa punk no celeiro, em que músicas como Haare, Fear on my own time, o hardcore Blau geflekt e o pós-punk-core Die zunge ganham clima de touro brabo, pronto para derrubar geral.
Fear on my own time, o álbum, destaca também o som guerrilheiro de Shackled by lust, a vibe quase ska-punk (prestes a virar um atropelamento punk) de Egoismus e a onda apocalíptica de Liebe im kapitalistischen reich – a maior faixa do disco, com 4:19, cuja letra fala de “um mundo sem amor”, onde tudo tem que representar lucro. “O fascismo é o capitalismo supremo / queima e nossos corações congelam / por que temos medo da conexão / quando somos tudo o que temos?”, diz a letra, mandando umas boas verdades, e encerrando Fear on my own time com alguns compassos de psicodelia.
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