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Crítica

Ouvimos: The National, “Rome” (ao vivo)

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Ouvimos: The National, “Rome” (ao vivo)

The National começou atividades no incerto ano de 1999 e, se o grupo de Matt Berninger, Aaron Dessner, Bryce Dessner, Bryan Devendorf e Scott Devendorf trouxe algo de novo para o rock de seu tempo, foi a criação de uma solução mais elegante para o estilo no pós-grunge. Em vez em empilhar guitarras, barulhos, gritaria e palhaçadas no palco (tipo os Foo Fighters nos últimos 20 anos) ou cair naquele rock “alternativo” pesado e cafona (alô, Creed!), foram por outro caminho. Escolheram um romantismo mais sofisticado que parece rever nomes como Roxy Music/Bryan Ferry e David Bowie.

Essas influências estão por todos os lados nos vocais de Matt Berninger, e também na poesia do The National, sempre capturando detalhes, imagens e sensações que vão do deslumbramento à mortificação, trazendo memórias de coisas que não voltam mais. E se tem uma coisa que dá pra afirmar sobre Rome, o disco ao vivo dos nova-iorquinos, é que eles transformaram a plateia animadíssima em parte da música. A mixagem do álbum é quase cúmplice disso, deixando escapar a energia e a alegria do público nos momentos mais certeiros.

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Em Rome, gravado na Itália (e que repassa as quase duas décadas e meia de história discográfica do grupo), a plateia vira uma onda sonora em músicas como Tropic morning news, transforma-se numa massa bruta no meio das guitarras em Bloodbuzz Ohio e ganha ares de coral gospel em Vanderlyle crybaby geeks, que encerra o disco com violão, bumbo e aplausos. Uma volta por cima do The National, já que Berninger saiu recentemente de uma depressão extremamente aguda e incapacitante – e houve preocupação geral dupla, com ele e com o futuro do grupo.

Como o som do grupo localiza-se entre o indie rock anos 2000 e o pós-punk de anos anteriores, dá para ver que o The National é bom construtor de paredes sonoras. É o que rola no pós-punk romântico e celestial de Eucalyptus, no shoegaze pop de Tropic morning news, no punk ambient de Humiliation e Murder me Rachel (uma das melhores canções de pé-na-bunda e corneira do rock pós anos 2000) e em especial no clima embevecedor e sinfônico de Fake empire.

Vale citar também as lembranças e detalhes de New Order T shirt, o rock dramático, filho do brit pop e do pós-punk, de Don’t swallow the cap, o som punk e tribal de The system only dreams in total darkness (com vocais berrados e quase guturais no final) e as lembranças, encontros e desencontros românticos de I need my girl, com Matt quase engasgando no verso “eu continuo me sentindo cada vez menor”. Uma festa para os fãs.

Nota: 8,5
Gravadora: 4AD

Crítica

Ouvimos: Tomber Des Nues – “Tomber Des Nues” (EP)

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Resenha: Tomber Des Nues – “Tomber Des Nues” (EP)

RESENHA: Tomber Des Nues, shoegaze pesado de Brighton misturam Deftones, Swans e pós-punk em EP barulhento, sombrio e cheio de tensão industrial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Shore Dive Records
Lançamento: 1º de maio de 2026

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Raríssima banda que não tem medo de misturar sonoridades pesadas antagônicas, o Tomber Des Nues vem de Brighton, Inglaterra, e faz shoegaze pesado para fãs de bandas como Deftones, Just Mustard e… Swans. É mais uma banda a provar que sons pesados dos anos 1990 realmente pegaram fogo em terras britânicas (Deftones, em particular, foi forte por lá), e um grupo com um subtexto até bastante típico da juvenilidade do nu-metal (tomber des nues significa “cair das nuvens”, algo que eles traduzem como “ficar boquiaberto”, mas que indica mesmo é que alguém se iludiu miseravelmente).

O EP do Tomber Des Nues é barulho puro logo na abertura, com Transcontinental – uma torrente de sons que lembra algo entre o shoegaze inicial e a intro de Radio friendly unit shifter, do Nirvana, e cujos vocais têm mesmo muito de Deftones (aquela obsessão por vibes arábicas que eles sempre compartilharam com o Korn e que vazou até pro Roots, de 1996, do Sepultura, que trazia Jonathan Davis, do Korn, cantando na faixa Lookaway). Só que a música tem beat eletrônico e baixo sombrio lembrando de fato os Swans. E esse baixo, mais próximo do pós-punk do que dos anos 1990, ganha contornos industriais com os ruídos e beats gélidos de Cold, na sequência.

Beats circulares e um barulho que lembra uma obra do lado da sua casa – feito provavelmente com guitarras e efeitos – toma conta de 32M, música que soa bonita e melancólica em meio aos ruídos, lembrando algo entre Joy Division e Syd Barrett. A “faixa-título” do grupo, Tomber des nues, vem em seguida com ondas sombrias e clima de trauma sonoro, mas logo ganha synths mais voadores e sonhadores – os primeiros do EP! – e uma onda ambient turbinada pelas guitarras. O final, com os sete minutos de Lies, é sombra e mistério dignas do Suicide, com guitarras distorcidíssimas e vocais hipnóticos, além de bateria lembrando um samba-jazz do demônio.

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Ouvimos: Black Pantera – “Resistência! Ao vivo no Circo Voador” (ao vivo)

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Black Pantera transforma metal em revolta, pertencimento e roda punk histórica em ao vivo feroz gravado no Circo Voador.

RESENHA: Black Pantera transforma metal em revolta, pertencimento e roda punk histórica em ao vivo feroz gravado no Circo Voador.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deck
Lançamento: 8 de maio de 2025

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Difícil falar de Resistência! Ao vivo no Circo Voador, primeiro audiovisual do Black Pantera, sem recorrer ao velho clichê do “presente para os fãs” – até porque, mais do que isso, é a chance de muita gente descobrir um dos melhores grupos ao vivo do Brasil. Os mineiros Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (guitarra e vocal) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria) são inventores de uma maneira diferente de tocar som pesado, e de um viés social sobre o heavy metal.

Em faixas agitadas e pesadas como Provérbios, Padrão é o caralho, Boom, Fogo nos racistas, Taca o foda-se e Estandarte, os três atacam monstros bem mais feios que o diabo – e inserem indignação, revolta e africanidade num estilo musical que surgiu da apropriação do blues. Na real, nos álbuns do grupo (especialmente o mais recente, Perpétuo, de 2024), o Black Pantera vem levando metal, hardcore e punk (os três nomes surgem colados no conceito da banda) a conhecerem outros ambientes e realidades.

O peso da banda surge colado a vibes de disco music em Punk rock nigga roll e Fudeu. O Black Pantera fala de um dia a dia bem perigoso em Execução na av. 38, faz o metal se encontrar com a contação de histórias em Legado e Candeia, e entra na briga pelos direitos do trabalhador em O sexto dia (“tem que meter o louco mesmo / hoje é dia seis e eu tô sem dinheiro / ainda tem o mês inteiro / que que eu vou fazer? / me bate um desespero”).

No fim das contas, é som, é roda punk (as rodas do Black Pantera são históricas), mas é senso de pertencimento, de identificação – algo, por sinal, que o som pesado entende, mas que aqui ganha outros sentidos, outras escalas de valores. Resistência! já nasce no volume máximo. Faltou só a versão afrometal de Identidade, de Jorge Aragão, que a banda gravou no EP Capítulo negro (2020).

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Ouvimos: Iris da Selva – “Iris da Selva”

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Resenha: Iris da Selva – “Iris da Selva”

RESENHA: Iris da Selva mistura carimbó, folk e sons latinos num disco contemplativo, político e onírico sobre identidade e ancestralidade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Budokaos
Lançamento: 9 de abril de 2026

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Artista trans não-binário de Belém do Pará, Iris da Selva faz em sua estreia solo uma interpretação poética e toda particular dos sons locais. Os arranjos são baseados na instrumentação tradicional do carimbó (incluindo instrumentos como banjo, tambor curimbó, maracas, flauta transversal e violão de nylon), mas caminham entre sonoridades da música latino-americana, elementos do brega e até uma vibração típica dos discos da CBS brasileira dos anos 1970 (Manduka, Cátia de França, etc).

Músicas como Voo de urubu soam bastante visionárias, falando dos movimentos da natureza e das cidades – enquanto faixas como Percura cigana são festa sonora, lembrando canções tradicionais e poesias que passam de geração a geração. Esses dois lados do disco encontram-se a todo momento, até porque Iris da Selva é basicamente um disco de contemplação e observação, mirando os rios que viram pedra, as estradas mal cuidadas, as ancestralidades que sofrem apagamentos, a felicidade que vem chegando (na sonhadora Domingo de tarde, carimbó-reggae cuja melodia parece sempre ter existido).

  • Ouvimos: Geordie Gordon – River round

Os climas oníricos surgem também nas lembranças de infância do folk nortista Algo tão doce, na vibe cigana de Sexta-feira, no alt-folk de Bem, no escapismo de Um lugar pra ir e na calma de Tartarugueiro, em que o rio vira instrumento musical. Essa sensação de teletransporte acaba sendo uma das principais características do álbum, mas a realidade toma conta do manifesto anti-preconceito de Tratado de paz (“será difícil entender / que eu não quero parecer com mais ninguém além de mim? / será difícil aceitar? / não sou moça nem rapaz / sou meu tratado de paz”) e do embate existencial do bolero roqueiro Velho tempo. Mas Iris sempre encontra um espaço pessoal no meio do caos – e no geral Iris da Selva, o disco, é isso.

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