Crítica
Ouvimos: O., “WeirdOs”

- WeirdOs é o álbum de estreia do O., dupla de Londres formada pelo saxofonista Joe Henwood e a baterista Tash Keary, que se uniu inicialmente para fazer um som durante o lockdown da pandemia.
- O disco foi gravado ao vivo em duas semanas. Em várias faixas, o sax de Tash surge manipulado e distorcido.
- A música 176 é uma homenagem da dupla “ao ônibus 176 e às viagens imprevisíveis”. Já Green shirt tem inspiração “na camisa de flanela verde favorita de Tash, que foi perdida várias vezes e depois comida por um cachorro”.
- O produtor do disco é Dan Carey, criador do selo Speedy Wunderground, pelo qual sai o álbum.
O som do O. tem sido definido em alguns cantos por aí como “art punk”. Faz sentido, embora qualquer definição seja uma prisão para o som deles, que faz uma junção de jazz, punk, rock, trilhas de filme e coisas experimentais de modo geral. WeirdOs, o álbum de estreia da dupla, mexe no lado jazz-blues de bandas como Stooges, MC5 e Suicide, e evidentemente faz lembrar bandas mais recentes como black midi e Black Road Country Side.
O sax de Joe Henwood, bem longe de se associar apenas ao jazz, remete ao uso do instrumento em grupos como Roxy Music – um uso quase tão estético em vários outros sentidos quanto apenas musical. E forma quase uma seção rítmica com a bateria de Tash Keary, em todo o álbum. O nome adotado pela dupla, por sinal, é uma glória do eu-vim-para-confundir, já que é difícil de ser procurado em redes sociais (o Instagram deles, a propósito, é este).
O que mais chama a atenção em WeirdOs é que o material é instrumental, mas cada faixa conta uma história – é possível imaginar todas as faixas sonorizando situações em filmes e programas de TV, e cada um pode imaginar sua própria história com a música. Como acontece em temas instrumentais usados em situações de perseguição, boa parte das faixas vai comendo pelas beiradas até chegar a terrenos mais perigosos, ruidosos ou psicodélicos. É o que rola em 176, TV dinners, Micro e várias outras.
Já Wheezy tem batidas quebradas que lembram um pós-hardcore com cara jazzística. Cosmo responde mais apropriadamente pelo lado stoner-espacial do álbum. Green shirt põe um lado quase chiptune (de música de videogame) na história do O., soando como um hardcore feito para acompanhar aventuras a bordo de um joystick, ou de um skate. O álbum encerra entre o dub de Whammy e Sugarfish, e o grindcore jazz de Slap juice, fechando uma viagem musical que passa por vários estilos e (fato) une tudo com cola punk.
Nota: 8,5
Gravadora: Speedy Wunderground.
Crítica
Ouvimos: Mais um dia – “Sem ressentimentos” (EP)

RESENHA: Mais Um Dia mistura Midwest emo, pop nacional dos anos 1990 e rock dos 2000 em Sem ressentimentos, EP de melodias acolhedoras e letras sinceras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 10 de julho de 2026
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O Mais Um Dia vem de São Gonçalo (RJ), mas faz um som que nada a tem a ver com o crescimento desordenado e apressado da cidade, historicamente um antigo polo industrial. O EP Sem ressentimentos fica entre o Midwest emo e o pop nacional dos anos 1990, com guitarras arpejadas, melodias sonhadoras e um vocal que faz lembrar às vezes o de Samuel Rosa.
Introdução ao lazer tem também raízes no rock brasileiro dos anos 2000, entre o emo e a agilidade punk, e uma letra que fala na hora de acordar (“já passou das seis / é dia de reinventar”). Simples assim tem som esparso, guitarra vindo “de longe” e uma onda próxima das rodas de violão, ou de discos como Migalhas, o novo da banda Jovem Dionísio.
Essa tranquilidade surge também na balada Mais que palavras e no pop-rock Midwest, com guitarras dedilhadas e ritmo circular, de Ultraleve. No final, a vinheta-de-guitarra Amparo serve como um pequeno comentário do EP, cheio de canções que basicamente falam sobre sentimentos, sem cinismo e com acolhimento.
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Crítica
Ouvimos: Deardarkhead – “The pendulum swings”

RESENHA: Após 25 anos, o Deardarkhead volta instrumental e transforma shoegaze clássico em guitarras cheias de melodias que parecem esconder letras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Fertile Crescent Records
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Grupo de shoegaze de Nova Jersey, o Deardarkhead voltou bem diferente em seu terceiro álbum, The pendulum swings. Para começar, a banda, originalmente um quarteto, ficou sem seu vocalista Michael Amper, em 2009 – e por causa disso, o novo trio faz apenas música instrumental (!).
Hoje, a banda é formada por Kevin Harrington (guitarra), Robert Weiss (bateria) e James Malizia (baixo, entrou para o trio após a conclusão do novo disco). Um outro detalhe é que eles não lançavam nada novo há 25 anos: Oceanside, o disco anterior, saiu em 2021.
Na real, o som de The pendulum swings acaba soando como aqueles projetos do tipo Secos & Molhados instrumental, em que o que tinha letra vira instrumental – e a música acaba dando uma “sombra” de letra. Não se trata de um instrumental feito na base das paisagens instrumentais e dos solos intermináveis: o Deardarkhead é a cara do começo do shoegaze e tem muito do Ride de Nowhere, o primeiro álbum (1990). Flamethrower, a primeira faixa, abre com o mesmo pratinho perdido de Seagull, a psicodélica abertura de Nowhere – mas ganha suingue, peso, e riff quase zeppeliano.
- Ouvimos: Twisted Teens – Florida water blues
Riffs que lembram Ride, o Blur de Leisure (1990) e as guitarras de Joey Santiago nos Pixies vão se alternando em faixas como os pós-punks Coming undone, Tomorrowland, In another life e Tears – esta, com baixo circular e guitarra dando tensão. Lembranças de Stone Roses dão as caras na ágil Sad songs (And better days) e em A thanksgiving.
Há até conexões com o Echo and The Bunnymen de 1987 em Letting go, e com o U2 do começo – este, na marcial Black pearls. Bem como um certo experimentalismo na onda pendular da faixa-título. Dá até para pensar “imagina isso tudo com letra e vocal!”, mas a graça está realmente na imaginação que a música do Deardarkhead acaba instigando.
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Crítica
Ouvimos: Link do Zap – “O lado bom das coisas irreversíveis”

RESENHA: Rapper capixaba Link do Zap mistura rap lo-fi, confissões e existencialismo em álbum intimista que aproxima Earl Sweatshirt de Phoebe Bridgers.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de julho de 2026
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Link do Zap é o codinome de Kalledy Yakel da Hora, um rapper do interior do Espírito Santo cujo trabalho, pode acreditar, tem muito de artistas como Phoebe Bridgers. Não, ele não faz música de voz e violão, nem dream pop, nem bedroom pop – embora o som de Kalledy seja “bedroom” até a medula, soando como uma daquelas demos que acabam virando “estilo” na música comercial.
O lance é que Kalledy, em vez de focar nos temas comuns do rap, busca falar mais de sentimentos, de existência, e de surpresas da vida, das melhores às piores. Essa onda confessional acaba aproximando Link do Zap de Phoebe, de Clairo, de Lucy Dacus, de Sufjan Stevens e de vários outros artistas confessionais.
Musicalmente, O lado bom das coisas irreversíveis, seu segundo álbum (por sinal um álbum visual, lançado pouco mais de um ano após Histórias da kebrada para pessoas malcriadas) vai numa onda análoga ao rap viajeiro e rascunhado de nomes como Earl Sweatshirt. O disco tem gravações que soam como se ele estivesse rimando automaticamente sobre algo que toca no rádio – e que têm som de fita K7.
- Ouvimos: Puterrier – Putaria é quase amor
Entre autotunes e vocais naturais, Link do Zap fala de um adeus que vira alô (Tchau), amor e luta (o blues soul Come até de faca e Maluco nato, esta, com o verso “vou atrás de você igual a um cartoon sentindo o cheiro de torta”), amor à família (a homenagem à avó em A distância nos aproxima) e sonhos que o dinheiro não compra (Eumevejoemvoce, do verso “procurando por algum sonho novo / vivendo um eterno episódio piloto”).
Duas curiosidades sampleadas são a voz de Clarice Lispector na anárquica LSD (música na qual voz e versos têm algo de Raul Seixas) e a mistura de existência e mitologia de Um sol lindo brilha (construída sobre um sample da versão de Vivendo com medo, de Guilherme Arantes, feita por Marya Bravo).
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