Crítica
Ouvimos: Liam Gallagher & John Squire

- Liam Gallagher & John Squire é o disco que reúne ex-cantor do Oasis (Liam) e o ex-guitarrista dos Stone Roses e do Seahorses (John). É o primeiro disco de Squire com seu nome a sair em vinte anos – o anterior foi o segundo álbum solo, Marshall’s house, de 2004. Já Liam vinha dando andamento à sua carreira solo após o fim de sua banda pós-Oasis, Beady Eye.
- Num papo com a Radio X há um mês, Squire afirmou que os fãs deveriam esperar “grandeza” do disco. Liam definiu o disco como uma mistura de “canções que fazem você querer chutar alguém na canela, canções que fazem você querer sair e festejar, e canções que fazem você querer sentar em casa, pensar em algo bom e chorar um pouco”. “One day at a time é uma música boa para atirar cadeiras pela janela num salloon do velho oeste”, atalhou Squire.
- Liam garantiu que na turnê do álbum não rola material do Oasis, nem dos projetos anteriores dos dois. “Só material do disco e talvez umas covers”, contou.
Como já dizia a velha piada de um humorista televisivo (talvez o Ary Toledo, o Ronald Golias ou o Tiririca): “Eu já tentei fugir de mim mesmo, mas onde eu ia eu tava”. É quase a mesma coisa que acontece com esse disco unindo dois dos maiores nomes da história do rock britânico mais recente. Liam Gallagher (Oasis) e John Squire (Stone Roses, Seahorses), se tentassem fugir de si próprios, só conseguiriam encontrar a mesma mescla de referências que marcou o trabalho de suas ex-bandas.
Antes de mais nada, é bom informar: o som que você vai escutar em Liam Gallagher & John Squire é bom. Muito bom, por sinal. Pelo menos dois amigos meus concluíram que os singles lançados previamente não davam conta da qualidade do álbum, e isso é uma verdade. Inovação, aqui, não tem nenhuma: a própria vontade de não inovar já é um atração do disco – e não custa citar que, se o disco fosse feito por outros artistas que não fossem os dois envolvidos, muita coisa desse álbum pareceria forçada demais.
A curiosidade no disco da dupla é que em vez da obsessão com Beatles da discografia do Oasis, Liam e John entraram em estúdio com vontade de imitar o que pudessem dos Rolling Stones pós-anos 1970. Embora tenham misturado tudo com a mania de querer parecer um pouco com os quatro de Liverpool – especialmente com a era do White album, de 1968.
Os dois copiaram principalmente os fraseados de guitarra de Keith Richards (que introduzem algumas faixas), além de algumas batidas lembrando Charlie Watts. Mas o álbum tem músicas como Mother’s nature song (referência a Mother’s nature son, do White album) e I’m so bored (chupando I’m so tired, do mesmo disco). Tem Mars to Liverpool (note o nome), em clima flower power que une os Stones de Sticky fingers aos Beatles pós-1967.
Já I’m a wheel põe sujeira sonora num blues que imita as tentativas de Mick Jagger, Keith Richards e cia de fazerem blues com guitarras, mas sem soarem “pesados”. E quem quer mais pirataria para cima dos Beatles, pode conferir Just another rainbow, um assalto à introdução e às linhas de baixo de Rain, single do quarteto de 1966.
Como o material todo do álbum foi composto por John Squire (não há nenhuma parceria dos dois), não custa citar que até mesmo as linhas vocais de Liam lembram as do vocalista Chris Helme nos Seahorses. Mas de modo geral, se você quiser imaginar John Lennon gravando um disco com os Rolling Stones, e tentando soar como o Oasis e o próprio Seahorses (!), Liam Gallagher & John Squire é esse furo no espaço e no tempo aí.
Nota: 8,5
Gravadora: Warner
Foto: Reprodução da capa do álbum.
Crítica
Ouvimos: Automatic – “Is it now?”

RESENHA: Automatic mistura synthpop gelado e pós-punk dançante em Is it now?: muitas referências, mas identidade própria e letras de recusa ao padrão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Stones Throw Records
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Formado pelo trio Izzy Glaudini, Halle Saxon e Lola Dompé, o Automatic faz música como se criasse seu próprio som – ou como se usasse referências apenas na base do “eu achei legal, mas mudaria tudo”. Ouvindo Is it now?, é meio claro que bandas como Slits, Japan e Suicide foram ouvidas pelas três em algum momento (nesse papo na comunidade do reddit Indie Heads, Gary Numan foi igualmente citado), mas a colagem foi realizada de um jeito tão particular que dá para imaginar que se usassem IA, iam enlouquecer o sistema.
Vai daí que o synthpop estilingado e pontiagudo delas envolve pós-punk dançante e sustentado pelo baixo (Black box, Lazy, o beat eletrônico rudimental de Don’t wanna dance, o voo controlado de The prize), sons que lembram Ultravox, Talking Heads e o começo sombrio do Human League (PlayBoi, Smog summer, o eletropop alemão de Country song), coisas entre o pós-punk e a psicodelia (a flautinha de mq9, a vibe quase dub de Mercury). O teclado entra para dar uma onda “gelada” em meio ao clima bem pé-no-chão do baixo e da bateria, como se cumprisse a cota de climas mais viajantes no som. De bandas mais novas, dá para perceber algo linkado a Bravery e Arctic Monkeys na faixa-título, marcada também por vocais maquinados e onda meio krautrock.
Na letra de Is it now?, a faixa-título, dá para sentir que o Automatic propõe antes de tudo um manifesto estético – da mesma forma que Re-make / Re-model, do Roxy Music, propunha mudar tudo e enxergar beleza onde o movimento hippie poderia ver caretice ou sujeira. “Corte o cabelo com tesoura de cozinha / novo visual, uma imagem diferente / de segunda mão, não de televisão / shoppings, eles te tornam cruel”, avisam elas. Don’t wanna dance mostra que elas, de fato, não querem se parecer com todo mundo: “as luzes estão me cegando / eu não quero dançar, estou me escondendo / cada momento aqui me lembra que / eu não quero dançar”. Um “não é não” musical, de fino trato e em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Carlos Dafé, Adrian Younge – “Carlos Dafé JID025”

RESENHA: Carlos Dafé e Adrian Younge unem soul e samba em JID025, disco setentista, orquestral e psicodélico que reencontra passado e presente.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Jazz Is Dead
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Enxergando o soul e o balanço brasileiros como um precioso álbum de figurinhas, o norte-americano Adrian Younge vem fazendo uma série de lances especiais: vem por aí um álbum gravado ao lado de Antonio Carlos & Jocafi, e já saíram discos feitos com Hyldon e Dom Salvador, além de um solo cheio de convidados. E tem também JID025, gravado ao lado de Carlos Dafé, uma das melhores vozes da história da MPB, e um dos compositores mais hábeis no oscilar entre soul e samba.
JID025 parece um disco que Dafé adoraria ter lançado nos anos 1970: Amor enfeitiçado, logo na abertura, tem psicodelia nos acordes de guitarra, mudanças de tom e clima de abertura antiga de novela. E um pouco de paz, com recordações do som de Cassiano, lembra tema de filme policial. Bloco da harmonia tem metais e cordas vibrando junto com a percussão, além de lembranças do lado sambista de Dafé, compositor já gravado por Alcione e Nana Caymmi – embora a canção ganhe clima sombrio no fim. Jazz está morto une jazz, soul e grandiloquência herdada de Isaac Hayes e do Marvin Gave do disco What’s going on (1971). Cítara e harpa marcam o início de Verdadeiro sentimento, balada como as dos discos setentistas de Dafé.
Do começo ao fim, JID025 soa como um flashback turbinado e ácido, que também aponta para o Funkadelic em O baile funk vai rolar, e ganha ar voador em É real… é verdade, no samba orquestral Esse som é verdadeiro e na declamada Como entender o amor. Um reencontro entre passado e presente.
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Crítica
Ouvimos: Period Bomb – “Cuntageous”

RESENHA: Period Bomb, de Camila Alvarez, retoma o riot grrrl com inclusão e barulho experimental. O EP Cuntageous mistura egg punk e críticas diretas ao machismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Crass Lips Records
Lançamento: 2 de dezembro de 2025
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No Brasil ainda não tem muita gente comentando a respeito do Period Bomb – uma pena. Esse projeto estadunidense criado pela musicista Camila Alvarez reavivou o cenário riot grrrl em Los Angeles nos últimos 15 anos, e já lançou discos como Permanently wet (2020) e o EP 24-carat clit (literalmente, “clitóris de 24 quilates”, que saiu em janeiro do ano passado). Um dos trabalhos dela foi ajudar a incluir mulheres trans e mulheres negras que se sentiram excluídas das ondas riot grrl anteriores – como a própria Camila conta nessa entrevista.
- Ouvimos: Ratboys – Singin’ to an empty chair
Cuntageous, o EP mais recente do Period Bomb, não economiza em duas coisas: sons experimentais e dedo na cara de homens babacas. Em alguns momentos lembra Yoko Ono, em outros parece um som ligado também à onda egg punk, de teclados distorcidos e sujos. Cunty boy (“garoto cuzão”) tem vocais afinados, mas prontos para zoar e meter o malho – lado a lado com programação eletrônica e teclados. Parking ticket junta teclados maníacos e voz com vibe fantasmagórica de brincadeira. Birth of labubu zoa uma das manias de 2025 em clima sonoro que mistura Devo, Yoko Ono e Young Marble Giants.
O Period Bomb faz também samba latino experimental em espanhol, Porriquitico, lembrando Mutantes – e lembrando também o quanto o “não é não” é difícil no dia a dia. No final, os 40 segundos da vinheta-título, fazendo questão de explicar que a babaquice masculina é bastante contagiosa. E é.
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