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Crítica

Ouvimos: Kedr Livanskiy, “Myrtus myth”

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Ouvimos: Kedr Livanskiy, “Myrtus myth”

Projeto musical da compositora e produtora moscovita Yana Kedrina, o Kedr Livanskiy é uma viagem eletrônica, em que vários estilos musicais se misturam – e no caso dos primeiros discos, o design sonoro era um pouco mais sombrio. Myrtus myth entrega uma “coisa” sombria e fantasmagórica na capa. Mas o conteúdo é bem mais sonhador e bem menos assustador do que pode parecer. Basicamente Yana e seu produtor-parceiro Flaty decidiram criar paisagens sonoras e músicas de sonho, em temas que unem pop dos anos 1980, healing music e até soft rock.

Se essa mistura parece inusitada para você, no Bandcamp do projeto o release esclarece que Fleetwood Mac, Phil Collins e Kate Bush são influências do novo álbum – e essa turma toda surge misturadíssima em faixas como Orpheus, Anna, Farewell e Spades on hearts. Esta última, logo na abertura (com vocais, teclados e bateria eletrônica), soa como algo que tocaria numa FM adulta. Só que o que vem em seguida é uma composição etérea, que receberia o rótulo “new age” se tivesse sido lançada lá por 1987. Já Night trains, cuja percussão lembra (como diz o nome da faixa) um barulho de trem, tem algo que lembra Everything But The Girl, mas sem o lado radiofônico.

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Ouvido com atenção, Myrtus myth é um disco belo, intrigante e tranquilo, mas em alguns momentos é também daqueles álbuns que soam como rascunhos esperando por um acabamento mais refinado. Isso não chega a comprometer a experiência, mas momentos como Night trains e Spades on hearts se aproximam mais de colagens sonoras do que de canções estruturadas, ainda que experimentais.

O lado “você se sente relaxado, relaxado, relaxaaaado…” do disco bate forte nas duas últimas faixas, o reggae mântrico Easy rider e a experimental Kali-Yuga, além do clima pastoril de Purple sadness. A tal influência de Everything But The Girl volta discretamente em Agata dreams e até na new-bossa gelada de Zver. Smoke and ashes, por sua vez, é um som mais lento e musicalmente sorumbático – e cuja letra, enorme, e cantada rapidamente, soa como um rap expandido.

Nota: 7,5
Gravadora: 2MR
Lançamento: 7 de março de 2025.

Crítica

Ouvimos: Twen – “Fate euphoric”

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Twen lança Fate euphoric de forma DIY: indie dançante entre pós-punk e sophisti-pop, letras sobre destino e vida nômade no underground.

RESENHA: Twen lança Fate euphoric de forma DIY: indie dançante entre pós-punk e sophisti-pop, letras sobre destino e vida nômade no underground.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Twenterprises
Lançamento: 4 de novembro de 2025

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Jane Fitzsimmons e Ian Jones, núcleo duro da banda Twen, curtem fazer as coisas do seu jeito. Fate euphoric, novo disco do grupo de Nashville – lançado no ano passado e uma boa opção para quem ainda não fechou a lista de melhores álbuns de 2025, tipo a gente – foi lançado numa terça, dia 4 de novembro, e não na concorridíssima sexta-feira. Mas só para tornar a coisa um pouco dramática, 4 de novembro é dia de eleição nos Estados Unidos, o que significa que o álbum do Twen teve um concorrente pesado (e alaranjado) na imprensa.

No Bandcamp, eles se apresentam como “sua dupla favorita de faça-você-mesmo, que curte a vida em uma van” (eles passaram vários anos levando uma vida nômade, viajando por conta própria para divulgar o grupo). Um papo com eles no site The Big Takeover revela que Jane e Ian sequer têm assessoria de imprensa – os fãs ficaram sabendo do lançamento de Twen por um e-mail enviado pelo Bandcamp, embora sites como o Stereogum e o Pop Fantasma (alá!) tenham dado o lançamento do alegríssimo clipe de Tumbleweed, uma das melhores faixas de Fate euphoric.

E aí que Fate euphoric, lançamento da própria gravadora indie montada pelo grupo, é – por acaso – um disco cujo tema é o destino, e cuja inspiração é o símbolo medieval da Roda da Fortuna (que aparece na capa). O som é energético e dançante, localizado entre os anos 1980 e 1990, e entre lembranças sonoras que incluem Beatles, Primal Scream e Talking Heads. Além de uma noção sophisti-pop que parece herdada de Roxy Music, The Cure e até de Swing Out Sister. Sobre essa última banda, confira só a beleza e o suíngue jazz-pop-rock de Godlike, canção em que a banda abre o diário de bordo e comenta sobre viagens de van, shows e lutas diárias: ”acho que me daria bem como um assalariado / com tudo o que verei e tudo o que farei / eu poderia ir o mais rápido que pudesse, mas tudo está em um ciclo”).

Todo o repertório de Fate euphoric está coberto de uma beleza pós-punk, que volta e meia alude aos grupos mais ruidosos da época (como na funkeada Chase you, repleta de lembranças de Talking Heads e Gang of Four) ou a climas voltados para o punk (o single Tumbleweed, Prelude to Waterloo). Há outras “conversas musicais” no disco, como no soft rock indie de Keep your company, na vibe “fantasmagórica” de Allnighter e no dream pop chuvoso (e absolutamente cantarolável) de The center.

O final de Fate euphoric bate fundo na onda britpop, vibrando entre Rolling Stones, Beatles e Stone Roses na faixa-título e na bela Starmaker. Do começo ao fim, por sinal, Fate euphoric é um tratado sobre começos e recomeços no mundo independente, encerrando com um verso que encara a jornada da maneira mais realista possível: “a vida, quando ela não é o suficiente / você volta ao ponto de partida”. Beleza e vida, em letra e música.

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Crítica

Ouvimos: Sault – “Chapter 1”

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Sault reage a crises internas em Chapter 1: soul setentista relaxado, letras espirituais e indiretas a rivais; som elegante, clima de desabafo.

RESENHA: Sault reage a crises internas em Chapter 1: soul setentista relaxado, letras espirituais e indiretas a rivais; som elegante, clima de desabafo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Forever Living Originals
Lançamento: 9 de janeiro de 2026

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Sai de baixo, que um dos grupos mais pretensamente misteriosos da música pop atual está irado. O Sault, grupo britânico “sem rosto”, sabe que suas identidades e fofocas de bastidores não são mais segredo para ninguém – InFlo é o chefão, Cleo Sol é a voz mais ouvida das gravações, Little Simz saiu do grupo puta da vida e processando InFlo, e vai por aí. Formado basicamente por jams relaxadas que ganharam caráter de canção, Chapter 1, novo álbum do grupo, parece uma resposta a tudo que a “firma” vem passando nos últimos anos.

Não, o Sault não decidiu fazer soul pesado ou algo do tipo: Chapter 1 chama a atenção justamente pela sonoridade relaxada, que parece ter sido registrada num estúdio caseiro – na real, parece um disco de soul lançado por um selo indie nos anos 1970, e que foi redescoberto só agora nos sebos. Entre beats funkeados e synths clássicos, o grupo está cantando agora sobre vacilões perigosos (God, protect me from my enemies, cuja letra chega a parecer a oração de São Jorge), mandando bala nos recalcados (o soul caminhante Chapter 1, no qual dizem: “você é só um perdedor / e odeia que eu seja um vencedor / não consegue sair do meu caminho”) e cantando o livramento (“você é meu protetor / e eu sobrevivi a você”, canta Cleo no soul-rock Protector).

  • Ouvimos: Olivia Dean – The art of loving

Parece que o ego de alguém do grupo está ferido, ou sei lá. Chapter 1, de qualquer jeito, está bem longe de ser só isso – o grupo segue mandando mensagens religiosas de autoajuda em músicas como Fulfill your spirit e Don’t worry about you can’t control, músicas próximas do soul viajante setentista, algumas lembrando antigos temas de novela. Create your prophecy, com um coral lindo no final, une as duas pontas (religião e ego), com a repetição do verso “eu me amo e aceito meu amor por mim mesmo” como se fosse a oração do Espírito Santo. Puppet, no final, parece um loop sampleado, lembrando o estilo de Dom Salvador ao piano.

Good things will come after the pressure, soul gospel silencioso, com synths setentistas e cheio de ambiência, parece aquela história do jogador de futebol crente que dava socos nos jogadores dos times adversários e ia pro canto rezar: “Coisas boas virão / depois da pressão / eu caminho com amor (…) / amor e guerra / devem ir mais alto / eu me recuso a lutar com fogo / isto é um aviso”, diz a letra, sem especificar o que é esse tal de “mais alto” (pra quem será que é esse aviso?). Love does not equal pain, por sua vez, passa próxima do soul progressivo, e alterna as frases “eles odeiam o que está na sua cabeça” e “eles têm inveja do que está na sua cabeça”. O som do Sault continua o fino, mas que deu alguma zebra aí, deu.

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Crítica

Ouvimos: Àttooxxá – “Tá pra onda” / BaianaSystem – “Mixtape pirata vol. 1”

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Dois discos de Carnaval: Àttooxxá mistura pagodão, rap e tecnobrega em clima de baile; BaianaSystem lança mixtape de transição, com metais, fanfarra e dub.

RESENHA: Dois discos de Carnaval: Àttooxxá mistura pagodão, rap e tecnobrega em clima de baile; BaianaSystem lança mixtape de transição, com metais, fanfarra e dub.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5 (Àttooxxá) e 8 (BaianaSystem)
Gravadora: Independente (Àttooxxá) e Máquina de Louco (BaianaSystem)
Lançamento: 9 de janeiro de 2026 (Àttooxxá) e 4 de fevereiro de 2026 (BaianaSystem)

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Dois discos especiais de Carnaval, e que acabam dando uma ideia de como serão os shows dessas bandas durante a folia. Os baianos dos Àttooxxá são os mais sacanas dos dois grupos, mas ao mesmo tempo conseguem ser musicalmente conceituais, juntando pagodão baiano, rap, raggamuffin, funk e até elementos de tecnobrega e guitarrada na sonoridade de Tá pra onda.

  • Ouvimos: Marcia Castro – Roda de samba-reggae vol. 1 – ao vivo

O disco é uma trilha sonora para bailes e noitadas que acabam em putaria, como em Tá pra onda, Chora viola e Protetor solar (som baiano e afro-latino, com guitarra lembrando a de Alagados, dos Paralamas do Sucesso), mas que ousa mandar bala num tecnobrega-jazz que chega a soar indançável (Meus cachorro vai te pegar) e faz uma exploração excepcional de beats e samples (Tiradinha). No final, o samba baiano bem composto e bem tocado de Terra sagrada.

Já o BaianaSystem volta com Mixtape pirata vol. 1, que na verdade é um disco de poucas inéditas e algumas regravações especiais – dos dois é o que mais tem cara de “projeto”, até por vir com cara de transição, enquanto a banda antecipa mudanças no som. Ainda que não seja um disco montado para trazer grandes novidades, une belos metais, beat próprio e clima de trilha de filme na faixa-título e levam músicas como Forasteiro e Lucro (Descomprimindo) para o universo da fanfarra, do Carnaval de chão. Duas surpresas são o dub de Jahzz revolta e o clima meio Santana Band de Pra Armandinho, que encerra com uma mensagem de áudio do guitarrista da Cor do Som.

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