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Crítica

Ouvimos: Avalon Emerson & The Charm – “Written into changes”

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Avalon Emerson mistura eletrônico, folk e confissão em Written into changes, unindo climas de The Rapture e Ladytron a vibes de soft rock, com dor e delicadeza.

RESENHA: Avalon Emerson mistura eletrônico, folk e confissão em Written into changes, unindo climas de The Rapture e Ladytron a vibes de soft rock, com dor e delicadeza.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Dead Oceans
Lançamento: 20 de março de 2026

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Vinda do Arizona, Avalon Emerson já teve o que se pode chamar de uma vida cosmopolita, tocando como DJ na noite. Vive hoje no interior de Nova York e, de DJ, acabou se tornando compositora – numa onda que passa pelo rock, pela música eletrônica e pelo folk, sempre apontando para o lado mais confessional do alambrado. Seu projeto musical The Charm já rendeu dois álbuns – o segundo, Written into changes, é recomendadíssimo para quem tem saudades de qualquer onda dance-punk, mas que curte canções feitas com sentimento na ponta da faca. Tanto que dá pra pensar numa mescla curiosa de The Rapture, Ladytron e Suzanne Vega em vários momentos.

Vinda do meio eletrônico, Avalon soa mais como uma cantora de voz-e-violão, que pensa na sustentação da canção como algo que precisa ser reduzido ao mínimo necessário – antes de ganhar programações, guitarras, teclados e aclimatação próxima do dream pop, como rola em faixas como Eden e Jupiter and Mars. Duas canções espaciais, que explodem em beats e teclados, mas que apontam para crises do coração: em Eden, Avalon encarna a pessoa que tenta salvar um relacionamento que está pela bola sete, e em Jupiter, uma dance music tranquila que chega a lembrar Cocteau Twins, o tema são saudades do que nunca foi vivido. Happy birthday começa nas sombras, se torna uma ótima canção pop, e fala sobre amores que são desperdiçados quando uma das partes encara tudo como um jogo.

Mandando bala em vários momentos de dor amorosa, Avalon investe pesado em vocais machucados (tipo Björk na era Sugarcubes, ou PJ Harvey) e em climas que vão do levantar-voo à sujeira psicodélica, às vezes enveredando pela fofice twee – que se aproxima do disco em faixas como a new wave Country mouse e How dare this beer, lembrando às vezes um (pode acreditar) Nine Inch Nails sentimental. Se você procura músicas no estilo lambendo-o-chão, Wooden star une o clima de fim de mundo a alguma esperança, numa eletrônica cheia de climas (a letra: “esmagamento ímpio desmoronando / pequena dívida com o cassino / ainda arriscando e mudando / esqueça uma vida mais fácil / mudas vadeando no trovão / enfiando um milhão de agulhas / já morri mil vezes antes / mais um ano e mais uma guerra”).

O fim de Written into changes segue num clima bem mais melancólico que o resto do álbum – e dá a entender que existe um futuro perto do folk a caminho na história de Avalon. Não é o estilo no qual ela se dá melhor, mas I don’t want to fight e Earth alive são o mais soft rock que ela consegue soar, unindo elementos como guitarra slide, violão, beat suingado lembrando o pop-rock alternativo noventista e um arranjo de cordas (no caso específico de Earth alive) que vai abrindo e se desdobrando. Um som eletrônico que vai devagarzinho migrando pro acústico, e que encara a vida como algo que nem sempre é uma pista de dança, ou um morango.

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Crítica

Ouvimos: Irked – “The grievance”

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Resenha: Irked – “The grievance”

RESENHA: Punk feroz de Newcastle, Inglaterra: o Irked estreia com microfonia, raiva operária e vocais ferozes em The grievance.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Wrong Speed Records
Lançamento: 1 de maio de 2026

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Essa banda de Newcastle-upon-Tyne é muito nervosa: uma banda com disposição para sair na porrada, e sentindo a escrotidão do mundo na alma. Especialmente no que diz respeito à vocalista Helen Walkinshaw, cuja voz soa quase como um outro instrumento ao lado das guitarras. Soa, mais que isso, como um protesto: um grito extenso, de poucas notas e muita intensidade.

O lance é que o Irked parece se sentir muito à vontade e muito feliz de não ser (pelo menos não ainda) convidado para frequentar o mainstream. Daí The grievance é punkão aberto, com muita microfonia e um clima que às vezes chega mais perto do som original de 1977. Há crossovers rápidos com o hard rock setentista (no riff de Who asked?, uma faixa que tem até mais a ver com Exploited e Sex Pistols), um vocal scat-urro que cresce no ouvido (The ACP), sons entre o punk e o garage rock (The hardest man in Billingham, The keynote speaker) e quase-hardcores (Vomit, Settle down).

O Irked é provocativo no som, e as letras seguem a mesma onda. Músicas como Death cult e Green space falam das responsabilidades pessoais de cada um em relação à ecologia. Você pode levar o papo a sério ou entender que na verdade, a bronca ali é com a discurseira que culpabiliza incautos, enquanto milionários e big techs não apenas não estão nem aí pra isso, como gastam uma carreta de grana para foder tudo mais ainda.

Who asked?, por sua vez, mostra que a vida de trabalhador é escrota aqui, escrota lá, escrota em qualquer lugar, e vai transformando todo mundo em robôs, ou alcoólatras (“por que todo mundo quer brigar comigo? / é sexta à noite e eu não quero sair / sem dinheiro, sem amigos, ninguém por perto / tive uma semana difícil e quero ficar em casa”). No fim, Irked vs Area manager, punkadaria de terror e mistério, é otimismo fake diante do sucateamento profissional do mundo: “A mudança está acontecendo, abrace-a / você está acabado, você é substituível / você é descartável, seja profissional”.

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Crítica

Ouvimos: Nat Simons – “Preguntale a Sarah Connor”

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Resenha: Nat Simons – “Preguntale a Sarah Connor”

RESENHA: Nat Simons usa Sarah Connor, personagem de O exterminador do futuro, para viajar entre glam, power pop e futuro distópico em Preguntale a Sarah Connor.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Calaverita Records
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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Personagem feminina brabaça e heroica da franquia O exterminador do futuro, Sarah Connor é a inspiradora da visão-de-linha-do-tempo do novo disco da cantora espanhola Nat Simons. Geralmente tida como mais ligada ao folk-rock, Nat fez de Preguntale a Sarah Connor uma viagem pelos universos do power pop e do glam rock – note a capa em que ela aparece com visual a la Bowie.

Dá um sustinho pensar que Preguntale foi gravado em Nashville, com mixagem feita por um cara que é conhecido por trabalhar com o Kings Of Leon (Jaquire King). Bom, o novo álbum de Nat passou longe do fabricado e do banal: o conceito é mesmo uma viagem no tempo, movida pelo cinema, a ponto de abrir com um power pop aparentado dos Beatles, que se chama Delorean (o carro da franquia De volta para o futuro), seguido por Alain Delon, glam 70’s com algo de Rolling Stones na guitarra, mas letra moderninha (o tema aqui é mansplaining e homens-palestrinha com auto-estima altíssima e inexplicável).

O som de Preguntale passeia pelo punk + metal (Llamas de dragón, Los ojos del peligro), por new wave aparentada de Eurythmics e Pretenders (Especie em extinción), por mais ondas sixties (Haces que mi mundo sea mejor) e ate por sons entre o britpop e o pós-punk (Nieve em el desierto e Más que a todo lo demás). Tem até um parente de Born on the bayou, do Creedence Clearwater Revival, na suingada Quién lo impide.

No geral, as letras falam de um tema que David Bowie adorava: como fica a gente com essas mudanças, com a passagem do tempo, e com a possibilidade de um mundo cada vez menos “humano”? Bom, perguntando pra Sarah Connor, Nat chegou a versos como “não sei se estaremos preparados para algo pior” (em Llamas de dragón). Vai dai que…

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Crítica

Ouvimos: Grade 2 – “Talk about it”

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Resenha: Grade 2 – “Talk about it”

RESENHA: No álbum Talk about it, o Grade 2 leva o street punk ao limite entre melodia e urgência, com refrões de estádio, letras íntimas e energia de rua.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Hellcat
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Mais agressivo e naturalmente rueiro que qualquer outra variação do punk, o street punk não parece um estilo fácil de acrescentar novidades – geralmente são vocais altos, músicas rápidas, corais no estilo grito de torcida, um “oi oi oi” para honrar a origem classe operária, guitarras sujinhas, vai por aí. A diferença está quase sempre na escolha de temas e acordes, e não em alguma revolução sonora do tipo “vamos misturar street punk, synth pop e forró” (muito embora tudo isso tenha bastante a ver com a variedade sonora do The Clash).

O Grade 2 chega ao quinto disco, Talk about it, honrando as tradições do estilo e acrescentando a ele letras emocionadas e climas bastante melódicos. O repertório ganha pela rapidez e pela intensidade, em faixas como Better today, Cut throat, a romântica Hanging onto you e o punk stoniano de Talk about it. As letras, por sua vez, aludem a estados interiores e a uma escrita quase íntima, em que sentimentos têm que ser postos para fora (a faixa-título) e os velhos tempos, por melhores que tenham sido, precisam ficar no passado (Better today, Standing in the downpour).

  • Ouvimos: La Estrategia del Caracol, Cámara Chilena de la Destrucción – El hambre y las ganas de comer

O punk garageiro de Don’t worry about me, por sua vez, conta uma verdade inconveniente: nem todo mundo vai conseguir se enfiar em buraco de rato para ganhar grana, validação e tapinha nas costas (“você só tem uma chance de viver seu sonho / tentei aderir à corrida de ratos, mas não funcionou comigo”). Rotten fala sobre censores tentando reescrever a história e sobre uma nação em conflito – e traz encartados alguns estilhaços de 1984, de George Orwell, além de partículas de reggae no som.

Bastante esperançoso nas letras, o Grade 2 encerra Talk about it com Otherside, asseverando que, de fato, agora está tudo bem: “Minha identidade foi comprada e vendida / meus inimigos mais antigos assumiram o controle / gratidão e consolo a todos que me rodeiam / e agora sei que estou exatamente onde deveria estar”.

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