Crítica
Ouvimos: Eels, “Eels time!”

- Eels time! é o décimo-quinto disco da banda indie norte-americana Eels, projeto capitaneado pelo músico e compositor Mark Oliver Everett. O disco traz as primeiras sessões presenciais da banda após a pandemia de Covid-19.
- Em um dos singles do disco, Goldy, Mark (ou E, como é conhecido) faz um estranho exercício de imaginação em que pensa em seu cachorro de estimação como se fosse um peixinho dourado (!), nos versos “às vezes, as respostas para todos os seus problemas estão bem ali, no aquário sobre sua mesa”.
- Boa parte do material do disco foi composto em colaboração com o ator americano e vocalista do All American Rejects, Tyson Ritter. Ele também ajudou na produção do álbum, ao lado de Mark e Sean Coleman.
- A parceria surgiu depois que Mark foi convidado a trabalhar com ele em uma música para o filme Filha do prisioneiro, de Catherine Hardwicke. Quando os dois conversaram, descobriram que eram vizinhos e que já haviam estado no elenco da mesma gravadora, a DreamWorks, mas ainda não haviam se encontrado.
A carreira dos Eels já é bem sólida: são 15 álbuns (contando com esse Eels time!) e fãs sempre esperando por discos contemplativos e um tanto tristes. E não custa dizer que os últimos anos foram complexos para a banda. Os primeiros shows dos Eels após a pandemia quase fizeram o líder Mark Oliver Everett “perder a cabeça”. Há alguns meses, Everett fez uma cirurgia de coração aberto – e recordou nas redes sociais que foi salvo pela atenção que passou a dar à própria saúde, depois de perder o pai por causa de problemas cardíacos.
No disco novo, como não poderia deixar de ser, muita coisa vem movida pelo que andava passando pela cabeça de Mark antes, durante e (talvez) depois dos problemas de saúde. Time, a faixa título, traz comentários otimistas e até religiosos: “não há muito tempo agora (…)/talvez haja alguma maneira, querido deus, de eu poder ficar”. We won’t see her like again é auto-explicativa, e fala sobre “um amor sobrenatural, sem abaixo ou acima”. If I’m gonna go anywhere mexe igualmente na questão da falta de tempo e na atenção sendo sempre dada ao que importa. Let’s be lucky investe em luta e otimismo (“saia da cama/e olhe para frente/às vezes você tem que fazer sua própria sorte”).
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O álbum abre com folk tristinho e com atmosfera de nostalgia, em músicas como Time e We won’t see her like again (nessa, Mark parece cantar direto de uma máquina do tempo), sonoridade depois retomada em faixas como Song for you know who, Let’s be lucky e On the bridge. Posteriormente, Eels time! vai pra um lado mais indie-rock em Goldy, e ganha uma estileira mais Beatles-Byrds na quarta faixa, Sweet smile.
Já Haunted hero, uma balada quase country, e o gospel sombrio de If I’m gonna go anywhere, investem num lado comum do disco: aquela coisa do encarar a vida, encarar a estrda, apesar de tudo, e apesar dos medos diários e do caos nosso de cada dia. Um som e uma poesia que unem fé no futuro e tons agridoces, mas que podem cansar um pouco, devido à pouca variação.
Nota: 7,5
Gravadora: Play It Again Sam
Crítica
Ouvimos: Grateful Dead – “Merriweather 6/30/85” / Hot Tuna – “2008-07-13 Villa Ada…” (ao vivo)

RESENHA: Grateful Dead e Hot Tuna voltam aos arquivos ao vivo: um recupera um show de quase três horas de 1985, enquanto o outro lança uma apresentação acústica gravada em Roma em 2008.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8 (para ambos)
Gravadora: Rhino (GD) e Hot Tuna Ltd (Hot Tuna)
Lançamento: 18 de setembro de 2026 (GD) e 20 de junho de 2026 (Hot Tuna)
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Surgidos nos anos 1960 na onda da psicodelia, Grateful Dead e Hot Tuna têm mais do que apenas esse detalhe em comum. Ao contrário do movimento comum do mercado, em que bandas gravam discos e (nessa ordem) fazem shows, eles sempre foram duas bandas “de palco” que gravam discos. Mais até do que isso: historicamente são bandas que encaram show como unidade de catálogo, com inúmeras apresentações gravadas e uma história antiga que pode ser acompanhada à distância.
O Grateful Dead, por exemplo, construiu um negócio em torno disso, com box sets caprichadas que documentam turnês. É o caso da recém-lançada Summer magic 1985, caixa com 20 CDs contendo sete shows completos gravados entre 14 de junho e 1º de julho de 1985, incluindo os três shows comemorativos do 20º aniversário da banda. Merriweather 6/30/85, que traz a apresentação de quase três horas dada pela banda no Merriweather Post Pavilion, em Columbia, Maryland, saiu na caixa mas se destacou e foi parar nas plataformas. E é um demonstrativo básico do que andava rolando nas mentes de Jerry Garcia, Bob Weir e seus amigos por aqueles tempos.
Em 1985 o Grateful Dead ainda não havia passado pela sobrevida do hit Touch of grey (1987), mas já havia vivido várias fases diferentes, sempre acompanhadas por fãs fieis. Mesmo com alguns improvisos (como o percussivo Drums, em que só os bateras Bill Kreutzmann e Mickey Hart tocavam, em meio a efeitos de som) e músicas bem esticadas (incluindo uma releitura de Gimme some lovin’, do Spencer Davis Group), soava como um grupo mais tranquilo, voltado para seu catálogo pós-American beauty (o disco de 1970) e mais chegado ao blues e ao soul (este, por intermédio do namoro com a disco music de Shakedown street, de 1978, presente no repertório).
De ruim aqui, só o fato de que o GD parece obcecado com a ideia de que dava pra reproduzir tudo nos teclados – em vários momentos, saxes e até guitarras aparecem sintetizados, com timbres meio chatos. Já quanto ao Hot Tuna, desse susto ninguém morre. Concebido por Jorma Kaukonen e Jack Casady como um spin-off do Jefferson Airplane, onde os dois tocavam, o duo sempre privilegiou instrumentos acústicos (no começo era um mini-Jefferson desplugado, levado adiante pelos dois) e tem vários álbuns ao vivo na discografia – inclusive os dois primeiros, de 1970 e 1971. Lá pela metade da década foi se transformando numa banda “elétrica” e pesada, numa fase que durou pouco.
O Hot Tuna não grava nada novo desde 2011, mas vem soltando nas plataformas o seu arquivo de gravações ao vivo, indo de shows mais antigos a apresentações do século 21. Já são dezenas de lançamentos. 2008-07-13 Villa Ada, Via di Ponte Salario, Roma, Italy é o mais recente e vem em clima de “uma noite” (ou uma tarde, quem sabe) com o duo e seus violões. É basicamente um show intimista, em que Jorma e Jack puxam seu songbook particular de country e blues, cabendo de clássicos autorais como Serpent of dreams, Sea child e Genesis (esta, com lembranças de Cat Stevens e James Taylor) até blues históricos como Nobody knows you when you’re down and out (James Cox).
Tocando para uma plateia provavelmente bem misturada (a Villa Ada é um parque em Roma), Jorma e Jack tentam falar italiano com a plateia, vendem camisetas e souvenirs de turnê (tem uma faixa do disco só pra isso) e põem até um trecho da Tarantella na tradicional Hesitation blues – que depois ganha clima country. Ouça na paz.
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Crítica
Ouvimos: Gueersh – “Macarrão de guerrilha”

RESENHA: Em Macarrão de guerrilha, o Gueersh dá novos rumos aos improvisos e cruza no wave, psicodelia, math rock e Clube da Esquina sem perder o gosto pela experimentação.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 16 de setembro de 2026
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Gravado num estúdio normal no Rio, o disco novo do Gueersh veio de passagens bem imersivas do grupo por vários estúdios improvisados. Por outro lado, o som do grupo experimental em Macarrão de guerrilha ganhou uma cara meio diferente: de certa forma parece haver um mapa nos improvisos, algo que dá uma unida na musicalidade. Não que o Gueersh tenha encaretado, só ficou mais experiente.
Nos primeiros tempos havia algo próximo do shoegaze no som deles que hoje surge de maneira bem mais discreta – como na no wave psicodélica de Tempo das coisas, com um ritmo que vai se formando em torno da melodia, e vai ganhando ares de valsa. Fica bem mais claro que a ideia do grupo é criar uma psicodelia que nem sequer cabe em caixinhas, em meio aos climas arnaldianos-mutanteanos de Nova esperança, ao som circular e quase math rock de Guerreires do Jóquei, e ao Clube da Esquina slacker de Sempre pode ser – uma música quase espacial, com guitarras que se tornam verdadeiras pastilhas de LSD tocadas.
As percussões “de mato” e o violão distorcido da curtinha Pré-queda introduzem os quase doze minutos de Mangueira prata, uma viagem sonora que exercita a imaginação: e se Lou Reed e Syd Barrett, no começo do Velvet Underground e do Pink Floyd, unissem forças e musicalidades? O resultado é um som para fazer o cérebro dançar.
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Crítica
Ouvimos: Matt Berninger – “Type it up” (EP)

RESENHA: Matt Berninger transforma o EP Type it up numa espécie de souvenir de turnê, misturando rock oitentista, blues e ecos de Roxy Music a versões de New Order e Velvet Underground.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Concord Records
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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O cantor do The National, Matt Berninger, tá gostando da carreira solo – decidiu até brincar um pouco com ela, já que o EP Type it up ganha ares de souvenir da turnê de seu segundo disco, Get sunk (2025, resenhamos aqui). A faixa-título já vinha sendo cantada por ele nos shows, se chamava Black letter font e foi passando por refações na medida em que ele percebia que os fãs não entendiam alguns versos. Uma faixa bem característica do universo de Matt, que aponta para um Roxy Music mais indie, ou para um rock “oitentista” orgânico, que seria resolvido à base de synths lá por 1984.
Martini me fatso, a faixa de abertura, tem ares de blues rock, e Ask for water, já que falamos do Roxy Music, lembra um desvio pé-no-chão de discos de Bryan Ferry como Boys and girls (1985) e Bête noire (1987). O material autoral é completado com duas covers atraentes: Blue monday (New Order) ganhou mais peso, e Who loves the sun (Velvet Underground), gravada com Rosanne Cash para a trilha da série Sunny nights, descobre o lado country que sempre existiu nessa música.
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