Crítica
Ouvimos: Vegas Water Taxi – “Long time caller, first time listener”

RESENHA: Vegas Water Taxi cruza alt-country e slacker rock em Long time caller, first time listener, com letras sarcásticas sobre hipsters, gen Z e high society indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: PNKSLM Recordings
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026
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Formado pelo trio Ben Hambro (guitarra, vocais, baixo, sintetizador e piano), Fred Lawton (baixo, guitarra e vocais) e Charlie Meyrick (bateria, guitarra, baixo e vocais) – e complementado em alguns momentos com Rhodi Brooks (pedal steel guitar) e Molly Shields (vocais) – o Vegas Water Taxi surgiu para ser o pesadelo de novos hipsters, esquerdomachos e adultos não-funcionais de plantão.
Vale dizer que Long time caller, first time listener, segundo álbum dessa banda britânica, tem um som bastante agradável para novos ouvidos indies: é uma mescla de alt-country, slacker rock e, às vezes, clima hipnótico herdado do Velvet Underground. Quase sempre soa como um encontrão sonoro entre Wilco, Weezer e Pavement, todos debruçados sobre os repertórios de Tom Petty e dos Rolling Stones fase 1971/1972. Jerry, a melhor faixa, mistura country, beat herdado de Bo Diddley e ótimas guitarras. Jolene (não é uma releitura da música de Dolly Parton) é country agradável cavalgando no Pé-de-pano.
- Ouvimos: Gorillaz – The mountain
Já as letras são pura zoeira com o high society da música e adjacências. Na abertura, Brat summer conta a história de uma garota que tentou viver seu próprio “verão Brat” e acabou presa. Chateau photo fala de um coitado que levou um pé na bunda, trocado por um assessor de imprensa (ou um sujeito das big techs, a letra muda o personagem) e teve uma foto vexaminosa vazada. New irish boyfriend alude a mais pés na bunda e a uma garota que arrumou um namorado “primo do Kneecap”. Tem ainda a autoexplicativa Ozempic (Celebrity weight loss anxiety blues): “enquanto você contava corvos (“counting crows”, no original), eu contava calorias / se eu dissesse que odeio meu corpo, você me julgaria? / bem, eu vou aprender a ser DJ e vou emagrecer / e vou a um clube de sexo / tenho um ego para inflar”, gracejam.
Vai por aí a onda do Vegas Water Taxi, que ainda batizou um country rock feroz de Jamie xx (“então me diga que me ama, Jamie xx / me abrace forte e me leve para a cama / porque eu quero que você me ame e quero que você se importe / com a burocracia do escritório e o comprimento do meu cabelo”). Em NTS, sobra zoeira para os playboys gratiluz da gen Z: “estamos deitados na cama / Khruangbin tocando e você acariciando minha cabeça / coçando aquela coceira / ele vai me mostrar seu novo toca-discos de 30 centímetros (…) / você é meus olhos bem abertos / minha ficha do metrô / você é a razão pela qual parei de fumar”. Para chorar de rir.
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Crítica
Ouvimos: Martin Carr – “What future”

RESENHA: Martin Carr troca o britpop dos The Boo Radleys por eletrônica, dub e experimentalismo político em What future.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Sonny Boy Records
Lançamento: 1 de maio de 2026
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Principal letrista dos Boo Radleys até 1999 (ano em que deixou a banda), Martin Carr lembra bem pouco o som do grupo em seu trabalho solo – que é predominantemente eletrônico e experimental. What future, o novo álbum, segue a trilha do radicalismo sonoro e da porrada política, misturando notícias de TV, gravações aleatórias, beats eletrônicos e ondas que chegam perto do reggae e do dub. Ele diz inclusive que o disco surgiu da necessidade de mostrar em vez de contar, e que percebeu que suas letras sempre foram sobre a mesma coisa.
- Ouvimos: Aluminum – Fully beat
Martin passou um bom tempo trabalhando com trilhas pra TV e dá pra sentir um pouco disso no clima telejornal de Amerikkka is not your friend, tema eletrônico e experimental que ganha ares de dub e post rock, e no loop de percussões e sons melódicos de Canton rockers. Connie Converse is playing at my house, por sua vez, abre lembrando um teste sonoro, mas vai ganhando um beat de soul andarilho, e uma onda de beleza musical do meio para o fim. Diana F e Hex vão do pot rock eletrônico ao blues infernal e distorcido.
What future tem ainda as sombras e luzes de In the hall e New Brighton Baths 1983, mas une dub, ambient e festa soul em She came in through the Overton window e Strange now, encerrando com o synth-não-pop da faixa-título, uma música dançante e fria. Mal dá pra reconhecer o britpop dos Boo Radleys aqui, e Martin Carr busca um caminho bem novo pra sua música.
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Crítica
Ouvimos: Ghost Valley – “Ghost Valley” (EP)

RESENHA: Post-rock minimalista e doce: Ghost Valley mistura ambient, pós-punk e synth pop em climas belos e hipnóticos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Bud Tapes
Lançamento: 4 de abril de 2026
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“Vale Fantasma” é um ótimo nome. O Ghost Valley vem de Portland, Oregon, e faz algo próximo do post-rock. É um som (vá lá) experimental, sem dúvida, mas é bonito, doce e minimalista. Como na abertura com El matador e na onda ambient de Glass nebula / Furnace creek, com teclado ambient na introdução, e toques musicais que lembram o Kraftwerk da era Autobahn (1974), em que a banda ainda usava guitarras. Aos poucos, essa música vai ganhando dedilhados e até uma guitarra slide tipicamente pinkfloydiana.
Vão rolando modificações aos poucos no contexto do Ghost Valley: Vampyre é pós-punk introvertido e chuvoso, com beat mais do que minimalista e guitarra circular – uma música que parece ter sido gravada num quarto. Fear & loathing é quase progressiva, com guitarras em clima relax e um baixo que ajuda a dar sensação de completude no arranjo – até que ganha mais peso, intensidade e ar de interferência sonora. Tem ainda o synth pop doce de Topanga e o drone celestial de Airline sunset, com oito minutos. Uma beleza.
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Crítica
Ouvimos: Tears Of A Martian – “Light II dark”

RESENHA: Tears Of A Martian mistura neo soul, indie e pop punk em estreia nostálgica, densa e elegante, com ecos de Amy Winehouse, Smiths e Khruangbin.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de maio de 2026
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O Tears Of A Martian é um projeto musical criado por uma cantora e compositora de Detroit chamada Arianna Bardoni. O nome é usado por ela desde 2018, já rendeu alguns singles e EPs, e Light II dark é o primeiro álbum. Apesar do clima meio punk da capa, o som tem uma onda bem mais variada. Arianna, na voz e na guitarra, e a turma que toca com ela faz uma espécie de neo soul + jazz + pop punk, quase como se o disco fosse pensado para ser lançado em 1997 ou 1998, mas esperando para ser complementado por algum produtor mainstream. Faixas como o soul esparso Knock me down e o r&b indie e minimalista Dik têm clima de época, mas simultaneamente têm arranjos cheios de eco e ambiência, que apontam até para bandas como Khruangbin.
Músicas como Tower e Spotless mind fazem com guitarras quase limpas, baixo e bateria uma recriação da estileira soul-folk que tornou Corinne Bailey Rae famosa, enquanto Men é um rock + r&b oitentista com guitarras lembrando Smiths e interpretação análoga à de Amy Winehouse, mas bem mais contida. Um lado mais roqueiro, denso e tenso se avizinha do Tears Of A Martian em duas músicas que não abandonam o lado neo soul do projeto, Litltle blue flowers e Reel / Real. Nas letras, Arianna vai do amor ao humor em poucos minutos.
Light II dark é um disco bem underground e o Tears Of A Martian são o tipo de banda que ainda não foi abraçada pela coolzice indie. É a melhor hora pra se descobrir uma banda – mas por enquanto o som esparso e as guitarras tranquilas (na maior parte do tempo) são a cara do grupo, e algo a não ser perdido na mão de algum produtor.
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