Crítica
Ouvimos: Ack, “Aurora”

- Aurora é o novo EP da banda punk carioca Ack, que retorna após 20 anos de hiato. O grupo retorna com Fabio Seidl (voz e baixo), Felipe Sad (guitarra e voz), Rapha Erichsen (guitarra) e PP (bateria).
- A gravação do disco foi remota. “Começamos a falar sobre vários temas num grupo de WhatsApp, e de vez em quando alguém falava: isso aí dava uma música. E aí a gente começava a trocar letra, melodia, ideias”, conta Fabio Seidl.
- O EP tem participação de Rodrigo Lima (Dead Fish) e Nobru Pederneiras (Planet Hemp), além de uma música em homenagem ao saudoso Fábio Kalunga, da banda Cabeça – e que se chama Cabeça. “Foi ele quem apresentou alguns integrantes do Ack, falava da gente em tudo que era entrevista, aparecia do nada em nossos shows”, lembra Seidl. “Essa música é sobre aquele amigo que todo mundo tem, que está sempre lá, incondicionalmente, até o dia que a vida leva”.
Uma surpresa de 2024 foi a volta, depois de vários anos, do grupo punk carioca Ack. Aurora, o novo EP, relembra velhas escolas do punk brasileiro e tem gravação de disco antigo de hardcore e punk, focando no peso. O disco abre logo com Som e fúria sob o sol, uma lembrança do punk nacional mais antigo e um hino de resistência, prestando homenagem a todo mundo que sofreu censura no decorrer dos anos. Rodrigo Lima, do Dead Fish, participa nos vocais dessa música.
Aurora às vezes soa como uma gravação nacional dos anos 1990 – o que tem lados bons (soa como uma continuação do que a banda fez há anos) e ruins (sim, em alguns momentos dá para sentir a falta de mais peso na mixagem). De qualquer jeito, o recomeço do Ack vem com ótimas canções como Vera Cruz, na escola do punk californiano de protesto, e a rápida Dois minutos de raiva (cuja duração, vale citar, é menor que dois minutos). O disco traz ainda o punk distorcido de Insubordinar, e duas canções para emocionar fãs antigos: Cabeça, homenagem ao saudoso vocalista do grupo carioca, Fabio Kalunga, e Garage, punk melódico lembrando antigos shows do Garage Art Cult, casa roqueira carioca que voltou há um ano.
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 8 de abril de 2024.
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Crítica
Ouvimos: Big|Brave – “In grief or in hope”

RESENHA: Big|Brave troca o drone puro por canções sombrias, ruidosas e experimentais em In grief or in hope, disco de guitarra, baixo e voz, sem bateria (!).
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Thrill Jockey Records
Lançamento: 12 de junho de 2026
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No ano passado, o Big|Brave fez um disco, OST, que era drone purinho. In grief or in hope, o novo álbum, não chega a ser apenas drone e até dá pra dizer que tem um “formato canção” aqui. Mas é um formato misterioso, sombrio e que passa longe do design comum do rock, ou do pop. Pra começar, Matthieu Ball (guitarra e Robin Wattie (voz e guitarra) dispensaram a bateria em In grief or in hope. Todas as longas oito faixas do disco são tocadas por eles ao lado de Liam Andrews, baixista de turnê.
Por mais que o disco novo possa ate ganhar a denominação noise-rock, o experimentalismo do Big|Brave no disco novo tá mais próximo de Glenn Branca, do Lou Reed de Metal machine music (1975), dos ruídos do Velvet Underground, Nico e John Cale. Mas se você usar bastante a imaginação, dá até para enxergar psicodelia nos quase oito minutos de What may be the kindest way to leave, que abre o disco. Só não dá pra fazer isso nas sombras sonoras da fúnebre A way to shame, que lembra um Sunn O))) folk, e na qual Robin faz vocais raivosos na onda de PJ Harvey – o clima é de masmorra, de gente isolada de qualquer contato com o mundo exterior.
Muito menos você vai conseguir viajar muito no som de The ineptitude for mutual discerniment, essa sim drone quase puro – mas constantemente interrompido por glitches. Holding tongue volta ao clima funéreo (com guitarras fazendo poucos acordes e alguns ruídos ambientes) e Verdure traz interferência e feedback usados como instrumentos e beats, enquanto Robin solta a voz – antes que a música se torne um inferno de ruídos, rodando como numa betoneira.
Tem mais: comparada ao que já surgiu em In grief or in hope, Skin ripper é quase sabbathiana, quase metálica. Mas tem uma beleza próxima do post rock, que toma conta também da ruidosa e surpreendentemente melódica An uttering of antipathy. Chegando ao fim, efeitos de phaser transformam a faixa-título na experiência mais uterina e mais lisérgica de In grief or in hope.
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Crítica
Ouvimos: Snail Mail – “Ricochet”

RESENHA: Snail Mail encara mudanças, perdas e resistência em Ricochet, disco que mistura folk, dream pop e soft rock com força e vulnerabilidade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Matador
Lançamento: 27 de março de 2026
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“A gente faz planos e deus ri deles”, diz um velho ditado que, analisando bem, está por trás de quase tudo que a gente conhece em ficção, novela, biografia, quadrinhos – afinal, o que não falta são “planos infalíveis” que vão pro cacete quando a onda da realidade bate e algo acontece. O ditado surgiu disfarçado até em uma das faixas de No country for old men, o disco que reúne Chuck D (Public Enemy) e John Densmore (Doors).
Ninguém deve deixar de planejar nada por conta de algum movimento indesejado do universo (enfim, o que os religiosos chamam de “deus”), mas as “coisas” que vão rolando enquanto a gente faz planos são verdadeiros testes de paciência, de resistência, e em alguns casos são testes de aceitação. Vai daí que Ricochet, o terceiro disco de Lindsey Jordan (a popular Snail Mail), é basicamente uma seleção de crônicas musicais em que a personagem – a própria Lindsey – tem que lidar com sua capacidade de resistir, mudar, aceitar, desistir e persistir. Tudo ao mesmo tempo.
Alguns chamariam isso de amadurecimento. Faz sentido – e olha que Lindsey só tem 27 anos, mas nessa idade muita gente já tinha feito toda sua obra e já estava partindo para outro projetos, ou estava se sentindo decadente. Ricochet, um disco que une folk, soft rock, dream pop e estilos afins, usa as armaduras de estilos como punk, grunge e power pop para contar historinhas bem sensíveis e pontiagudas.
O sofrimento vivido bate ponto na esperançosa Tractor beam (“estrelinha, seu brilho está se apagando / acho que estávamos condenadas desde o início / lá fora, o mundo continuava girando / milhas além do que podíamos ver”), em Cruise (“quero desperdiçar minha vida inteira / doente de uma raiva que não consigo conter”), no soft rock sujinho Agony freak (“não consigo me lembrar de quem eu era antes / tenho tentado deixá-lo, mas não consigo / então, gire ao meu redor, Monstro da Agonia”).
Musicalmente, Ricochet parte de uma receita de composição tranquila e contemplativa, mas deixa entrar ruídos, sujeiras, distorções e algo meio lo-fi: é o som da bela Dead end, do ágil soft rock Butterfly, do dream pop Hell, da quase beatle Reverie, do folk velvetiano Light on our feet. O site When The Horn Blows viu no novo som de Snail Mail uma referência que parece ser uma chave-mestra do dream pop atual: a banda britânica The Sundays e seu maravilhoso álbum Reading, writing and arithmetic (1990), citado de levíssimo até na capa de Ricochet.
Não tem só dor em Ricochet – aliás talvez nem tenha dor de verdade. Lindsey parece mais alguém que fala da tempestade, sem estar dentro dela, mesmo quando o tema são os abusos de substâncias pelos quais ela passou. A faixa-título soa bastante otimista, ainda que com reservas e com bastante ironia, em versos como “se não houver nada depois / podemos fazer o que quisermos” e “você não pode parar agora / meu pequeno clichê / até você se vender / por toda Los Angeles”. O mesmo rola em Tractor beam, e várias outras, ainda que o clima oscile. Ricochet é um disco bem forte – aliás, cheio de força, mesmo nos momentos mais vulneráveis.
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Crítica
Ouvimos: Absorbance – “No profit”

RESENHA: Math rock, psicodelia, pós-punk e experimentação se cruzam em No profit, estreia do Absorbance, projeto romano de som inventivo e desafiador.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de maio de 2026
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Vindo de Roma, o Absorbance é criação de um músico que se diz influenciado por King Crimson, Frank Zappa, Tera Melos, Tuxedomoon, Black Midi – e provavelmente por todo tipo de som que serve para transformar música em algo mais desafiador. No profit, primeiro álbum do projeto, foi feito sob a égide de estilos como math rock e psicodelia, mas dá para achar coisas que Brian Eno produziria em faixas como o boogie endiabrado de Salida e Completion (que unem math rock e David Bowie), a vinheta “celestial” e vertiginosa Foregone pensive time, ou o rap eletrônico e sujinho Club de ensueño.
- Ouvimos: Clau Aniz – Mácula
Faixas como Fracturehead!, o reggae do demo Morphing line e o samba sombrio Tractate soam como o Ween, só que produzido e dirigido por Frank Zappa, enquanto Straight line, Powerhouse e Don’t mind vão para o lado mais maldito do pós-punk, com climas “cerebrais”, riffs repetidos e pilha herdada do krautrock. Essa é a faceta mais interessante do Absorbance, e parece vinda diretamente de discos antigos do Public Image Ltd, combinando grandiosidade, maximalismo e ritmos desafiadores.
Tem um lado meio math-progressivo em músicas como a sombria Increase e o instrumental Dividing polynomials – que conseguem lembrar até coisas mais recentes do Wire. O resulltado de tudo isso aí somado ficou bacana e bem diferente do que normalmente tem ganhado titulos como “microtonal” e “math rock”. O final de No profit, com os quase sete minutos de Friends for the greatest hit, são quase um resumo do álbum.
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